Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Há uma hora que sempre chega, não importa onde ele esteja. Duas e quatorze da madrugada. O mesmo frio, a mesma imagem: posto de gasolina na BR-277, capô levantado, uma mulher esperando. Davi não parou. E, desde então, não importa quantos quilômetros percorra — ele nunca consegue ir embora.
Todas as manhãs, ao sair para trabalhar, passava pelo cemitério do Alto da Glória. Uma figura de costas, cabelo castanho, colocando flores brancas perto do portão. Nunca via o rosto dela. Eram as mesmas flores que a mãe dele levava.
Apertava o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Não era culpa. Não era obrigação. Alguém mais teria parado. Desenvolveu rituais: verificava o retrovisor três vezes, evitava postos à noite, dormia com a luz acesa.
Na terceira noite no apartamento novo, ouviu o som.
Uma cadeira arrastando no piso frio. Três segundos. De cima. Às 2h14. Ficou imóvel. A garoa batia na janela. Um carro passou devagar lá embaixo. Depois, silêncio.
O prédio tinha oito andares. Sessenta e dois degraus entre cada um — o número do quilômetro. Oitavo andar, último. Seu Nelson, o síndico, tinha uma cicatriz no pulso que sempre cobria. Disse que o prédio tinha boa ossatura.
A estrada foi sempre o seu lugar — até deixar de ser. Doze anos fazendo a rota do litoral, conhecendo cada curva da serra. Tentou se reconstruir longe do que vira.
As coisas começaram a mudar. O relógio marcava sempre 2h14 quando olhava. A cadeira que empurrava para a parede aparecia no centro da sala. O cheiro de óleo e chuva não saía mais do ar.
Na sexta, o som voltou. Arrastou, parou, arrastou de novo. Vestiu o casaco de lã escura — comprado na semana da mudança — e subiu na cadeira do pai, que lhe dissera: “Não se envolva em problemas alheios.” Ouvido no teto: nada.
No sábado, não dormiu. Às 2h14, sentiu vibração. E uma voz — baixa, de mulher — falou algo que não distinguiu. Calma, paciente, com um tremor que segurava o choro há anos. O cheiro veio forte: chuva e óleo de motor.
Na segunda, bateu à porta de Seu Nelson. Na parede, uma foto antiga: ele jovem, ao lado de um carro com o capô aberto, estrada molhada.
— Alguém arrasta uma cadeira. Toda noite, às duas e quatorze.
— Não tem ninguém lá em cima. Só o telhado.
— Há quanto tempo moro aqui?
— Dois anos.
— Mudei em abril.
Seu Nelson baixou o olhar.
— Eu também não parei, em 1978. O som veio de cima por três anos. Depois, passou a vir de baixo. Ninguém sai sem resolver o que deixou para trás.
A porta fechou. Davi abriu o contrato. Assinado há dois anos. Uma nota à mão: “Evite janelas abertas após as 2h.” Leu e releu. A mão tremia.
À noite, a voz veio clara do teto:
— Você não parou.
A frase desceu gelada.
Na terça, o andar de cima estava vazio. O apartamento ao lado também. No armário, um recibo amarelado: posto na BR-277, km 62. Sem data. Jogou fora.
Na imobiliária:
— O inquilino antes de você se chamava Rodrigo. Ficou seis meses e foi embora. Também era representante, fazia a mesma rota.
Uma foto restante na rede: posto ao fundo, uma figura com colar de contas azuis. E ele usava um casaco de lã escura, igual ao de Davi.
Na quinta, outro recibo apareceu debaixo da porta. Nome: Davi Almeida. Data: dois anos atrás. À noite, a voz não veio do teto — estava dentro do quarto:
— Você voltou.
Não dormiu. De manhã, bateu à porta de Seu Nelson. O velho parecia ter envelhecido uma década.
— Não devia ter alugado para ninguém. O que carrega não sai com mudança.
Davi abriu uma gaveta esquecida. Um caderno que não lembrava ter. “2h14 — som de cadeira”, “ela chamou meu nome”, “fui ao cemitério, não achei nada”. Sua letra. Datas de dois anos atrás. Fechou devagar.
Dirigiu até o km 62. Ligou para um colega antigo.
— Posto no km 62? Fechou há dez anos. Pegou fogo. Nunca reconstruíram.
No local: terreno vazio, mato alto, restos de madeira apodrecida. Nada. Na volta, avistou um carro no acostamento, capô levantado, uma silhueta imóvel. O pé tocou o freio. Hesitou. Acelerou. Não parou. Mas olhou para trás.
Acordou no chão. A cadeira no centro da sala. Um recibo fresco sobre a mesa. Data: amanhã. Como se ainda não tivesse acontecido. Sua letra: “Ele não para. Toda noite. 2h14.” Abaixo, outra caligrafia, mais fina — a mesma frase. Rodrigo. O papel úmido.
Foi ao cemitério. A mulher não estava lá. Uma lápide simples, sem nome. Flores frescas. Ao lado, um colar de contas azuis. Faltava uma. O fio esticado, como se puxado com força. Tocou-o. Um calafrio percorreu a espinha.
No caminho de volta: carro parado, capô aberto. Ninguém. Ouviu choro, abafado pela garoa. Não parou. Olhou para trás.
Sentou-se na cadeira no centro da sala — a mesma onde o pai se sentava nas noites de chuva, dizendo que problema de estrada não era com eles. Esperou.
Às 2h14, bateram no teto. De baixo.
Uma voz, masculina, jovem, hesitante:
— Quem está aí? Por que arrasta a cadeira? Eu estou com medo.
Davi não respondeu. Fechou os olhos. Alguém precisa esperar, pensou. Agora é a minha vez.
Pela janela, a BR-277 cortava a noite. Um carro passou devagar. No acostamento, outro carro com o capô levantado. Alguém esperava. E alguém não ia parar.
— FIM —
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