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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CAFÉ COM SAL

CAFÉ COM SAL
Onde algumas promessas continuam sendo feitas

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A chave girou com resistência, e Ademir empurrou a porta com o ombro. Antes de entrar, sentiu cheiro de café recém-passado, embora fizesse quarenta e um dias que Dona Iracema morrera num quarto de hospital em Ponta Grossa e doze anos que ele não dormia naquela casa.
Voltara para esvaziá-la, separar documentos, vender os móveis e fechar a porta pela última vez. Não pretendia levar quase nada, talvez algumas fotografias e o caderno de receitas. O restante poderia desaparecer junto com a casa, uma construção pequena de madeira pintada de azul-claro, numa rua de paralelepípedos irregulares que Ademir ainda reconhecia pelo barulho. Os pneus dos carros produziam um estalo seco ao passar diante da janela, e sua mãe costumava reclamar daquele ruído todas as manhãs, como se o mundo inteiro estivesse passando dentro do quarto dela.
Doze anos desde a briga que nenhum dos dois soube terminar. Às vezes Ademir pensava que fora embora porque a mãe o culpava pela morte do pai; em outras, suspeitava de que precisava acreditar nisso para justificar o tempo que passara longe. Iracema tinha o dom de transformar silêncios em acusações. Ou talvez Ademir tivesse passado doze anos fazendo isso sozinho.
Largou a mala no sofá e ficou olhando para a colcha de crochê dobrada sobre o encosto. Iracema dobrava tudo daquele jeito, toalhas, lençóis, camisetas, como se a desordem do mundo pudesse ser vencida com dobras perfeitas.
Na cozinha, a pia estava seca, o pano de prato pendia do gancho, alinhado com a borda do armário, e a louça estava guardada. Abriu a geladeira por reflexo e encontrou apenas o cheiro de plástico frio das coisas que ficaram sem uso. Fechou a porta e viu que o ímã continuava no mesmo lugar.
Deus proverá.
As letras douradas estavam tortas porque uma das pontas havia perdido a força. Ademir pensou em endireitá-lo, mas deixou como estava.
Foi no quarto que percebeu a primeira coisa que não podia estar ali.
A cama estava esticada, mas não arrumada. Havia uma depressão leve no travesseiro e uma dobra no lençol junto ao lado direito, como se alguém tivesse acabado de se levantar.
Ademir permaneceu na porta. Sua mãe morrera no hospital e, depois da queda, nunca mais voltara para casa.
Ligou para Dona Zilda.
“A senhora entrou aqui depois que minha mãe morreu?”
“Não, filho. Só entrei para regar as plantas durante a internação.”
“A cama está mexida.”
Dona Zilda não respondeu imediatamente. Quando falou, sua voz havia mudado.
“Você lembra daquele aniversário?”
Ademir continuou olhando para a cama.
“Qual?”
“Quando você tinha sete anos.”
“Por quê?”
Ela respirou fundo.
“Você gostava de bolo de morango.”
Ademir sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
“Minha mãe não fazia bolo de morango.”
“Fazia quando você era pequeno.”
“Depois não fez mais.”
“Depois daquele aniversário, não.”
Ademir não perguntou o que ela queria dizer. Dona Zilda também não explicou.
Naquela noite, dormiu no sofá. Às três e dez da manhã, acordou com um clique metálico vindo da cozinha e reconheceu o som antes mesmo de abrir os olhos: o botão do fogão, a boca direita, justamente aquela que sua mãe sempre usava porque dizia que a esquerda demorava a pegar.
Levantou-se e foi até a cozinha. O fogão estava desligado, mas a boca direita ainda estava morna, não quente, apenas morna, como se tivesse sido usada havia pouco.
Na manhã seguinte, a cozinha estava limpa e a colcha dobrada sobre o sofá, embora Ademir tivesse deixado tudo como estava na noite anterior.
Passou o dia inteiro fora.
Quando voltou, havia uma xícara sobre a mesa, com café fumegante dentro.
Ficou olhando até a fumaça desaparecer. Depois pegou a xícara e a lançou contra o ladrilho. Ela se partiu, e Ademir varreu os cacos, colocou tudo num saco de lixo e saiu.
Dormiu num hotel perto da rodoviária.
Na manhã seguinte, voltou à casa e encontrou a xícara sobre a mesa, inteira e fria, sem uma gota de café.
Naquela tarde, desmontou o fogão. Fechou o registro, retirou os botões, soltou as peças e deixou tudo espalhado pelo chão. Antes de sair, pegou o botão da boca direita e o colocou no bolso.
Voltou pouco antes das dez.
O fogão estava montado.
O botão da boca direita estava no lugar.
Ademir levou a mão ao bolso.
O botão ainda estava ali.
Não conseguiu decidir qual dos dois o assustava mais.
A xícara estava sobre a mesa, com café dentro.
Dessa vez, bebeu.
O café estava forte e sem açúcar. Havia, porém, alguma coisa estranha no gosto, uma lembrança que parecia escondida dentro da outra.
Foi até o armário e encontrou uma lata antiga de café. No fundo havia uma pequena mancha branca, endurecida junto ao metal. Tocou com a ponta do dedo e provou.
Sal.
A lembrança veio sem aviso.
A bancada era alta demais, a colher escorregava dos dedos pequenos e a xícara parecia pesada demais para as duas mãos. O pote de açúcar estava ao lado do sal, e Iracema permanecia sentada à mesa, chorando em silêncio.
Ademir tinha sete anos e queria ajudá-la.
Vira o pai preparar café tantas vezes que achou que sabia fazer. Colocou açúcar, depois acrescentou sal sem perceber e empurrou a xícara pela mesa com as duas mãos.
Iracema bebeu.
Ele esperou uma careta, mas ela apenas engoliu. A mão que segurava a xícara tremeu uma única vez, e seus olhos permaneceram baixos.
“Ficou bom.”
Foi só então que outra lembrança apareceu.
A porta da cozinha fechando, o pai dizendo que no domingo os dois iriam pescar, a caixa vermelha de apetrechos encostada perto da porta e a voz dele dizendo para não mexer no anzol.
Ademir lembrava da camiseta do pai, da caixa, da voz e do cheiro de café. Quando tentou lembrar do rosto, encontrou apenas um espaço vazio.
Foi até a mesa e abriu a pasta onde guardara os documentos.
Encontrou a fotografia.
Ele estava sentado à mesa, usando uma camiseta grande demais, enquanto Iracema aparecia atrás dele, com uma das mãos sobre seu ombro.
No verso, havia uma anotação na letra dela:
“Ademir, sete anos. O último aniversário antes de tudo mudar.”
Abaixo da fotografia estava o atestado de óbito do pai.
Acidente de trabalho.
Ademir leu a data.
A mão apertou a fotografia até dobrar uma das pontas.
Leu novamente.
O pai morrera no dia seguinte ao aniversário.
O joelho perdeu força, e ele se sentou no chão.
Vieram o telefone, os adultos falando baixo, a mãe sentada à mesa e a pergunta que ele fizera sobre quando o pai voltaria. Depois, a mão dela apertando o pano de prato.
Só isso.
Ademir olhou para a fotografia.
“Você nunca disse.”
A casa permaneceu quieta.
Passou o dedo pelo rosto jovem da mãe.
“Eu também nunca perguntei.”
O fogão fez um clique.
A boca direita acendeu.
A chama azul tremulou diante dele.
Ademir não recuou. Aproximou-se e disse:
“Desculpa.”
A chama continuou acesa.
Ele ficou esperando, mas a cozinha permaneceu imóvel.
“Eu devia ter perguntado.”
Desligou o fogão.
A chama desapareceu.
No quarto, o colchão rangeu duas vezes, como quando alguém se sentava na beirada da cama.
Ademir não foi até lá.
Permaneceu na cozinha, com a fotografia nas mãos.
Naquela noite, dormiu no quarto.
Não sonhou.
De manhã, a cama estava feita. Desfez os lençóis e arrumou tudo novamente.
Passou os dias seguintes esvaziando a casa. Doou roupas, móveis e livros, separou documentos e guardou fotografias, algumas cartas e o caderno de receitas.
No fundo do caderno encontrou uma página dobrada.
Havia uma anotação antiga:
Domingo: bolo de morango.
Abaixo, uma linha riscada com força.
Não havia outra palavra.
Na última manhã, parou diante da geladeira. O ímã continuava torto.
Dessa vez, endireitou-o.
Deus proverá.
Pegou a mala e voltou uma última vez à cozinha. A xícara estava no escorredor, lavada e vazia.
Ademir não a levou.
Fechou a porta e desceu a rua sem olhar para trás. Os pneus dos carros ainda produziam o mesmo estalo nos paralelepípedos.
Na praça, entrou numa padaria.
“Um bolo de morango.”
A atendente apontou para a vitrine.
“Inteiro?”
Ademir ficou alguns segundos olhando o bolo. O cheiro doce da cobertura trouxe, por um instante, o cheiro de café da casa.
“Metade.”
Sentou-se num banco e comeu uma parte devagar. Antes de guardar o restante, passou os dedos pela tampa da caixa.
Guardou a outra metade no banco do passageiro.
Só dentro do carro percebeu o que havia feito.
Ficou olhando para a caixa e depois para a fotografia no porta-luvas.
Ademir, sete anos.
O último aniversário antes de tudo mudar.
Encostou os dedos na tampa da caixa mais uma vez e ligou o carro.
Na estrada, depois do pedágio de Ponta Grossa, começou a chover. Ligou o rádio, mas o desligou quase imediatamente. Abriu um pouco a janela, e o vento frio entrou no carro.
Foi então que sentiu o cheiro.
Café forte, recém-passado.
Ademir olhou para o banco do passageiro.
Estava vazio.
Olhou para o retrovisor, onde a estrada desaparecia sob a chuva.
O cheiro continuava.
Segurou o volante com as duas mãos.
Os dedos cheiravam a café.
Ademir não parou.

domingo, 13 de setembro de 2026

A CASA NÃO FICA VAZIA

A CASA NÃO FICA VAZIA
O zelador que contava as cadeiras

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Nei abria o cadeado do portão lateral da escola municipal às cinco e quarenta da manhã. Acendia as lâmpadas frias do corredor na ordem que só ele sabia, uma por uma, e varria o pátio ainda coberto de folhas de amendoeira. Conhecia o peso da vassoura de piaçava, o rangido da porta da secretaria que precisava ser levantada para fechar e o cheiro de desinfetante barato com areia fina que nunca saía do piso. Morava sozinho num sobrado pequeno na segunda rua depois da Avenida Juscelino Kubitschek — não a rua da praia, a de trás, onde o vento Tordesilhas entrava de sudeste e deixava os cadeados novos ásperos de ferrugem em uma semana. Tinha cinquenta e três anos, separado havia oito. A filha, Lina, tinha morrido aos seis na Barra do Saí. Foi num dia de verão em que ele disse que ficaria de olho, mas ficou no celular respondendo sobre a falta de giz.
Quando a mãe morreu, em fevereiro, deixou para ele a casa do Tabuleiro, uma construção de madeira com dois cômodos de alvenaria nos fundos. Ele não entrava ali havia quinze anos. A irmã, morando em Curitiba, disse que não queria nada. Nei pediu duas semanas de licença-prêmio à diretora. Queria uma tarefa que começasse e terminasse, diferente da lista de chamada que nunca fechava. Levou uma lata de tinta branca que sobrara da reforma da escola, um molho de chaves num arame e a camiseta cinza da escola, a única que não estava rasgada na gola. Deixara-a pendurada no banheiro do sobrado para secar, pingando no azulejo.
Na primeira manhã, a rua do Tabuleiro estava vazia. Uma vizinha antiga varria a calçada em frente, de chinelos de borracha e vassoura de palha, fazendo aquele chiado arrastado no cimento. Olhou para ele e acenou com a cabeça, sem falar, como quem reconhece alguém que sumira. A casa cheirava a mofo e sabão de coco. A mãe deixara as cortinas dobradas, os copos virados sobre um pano de prato e, na gaveta da cozinha, um grampo de cabelo preto e um caderno de capa dura com contas de luz anotadas à mão, com letra pequena e firme. Na sala, a cadeira de balanço de imbuia, quase preta de verniz, estava com o assento de palha gasto no centro. O pai tinha feito a cadeira quando Nei era adolescente, para a mãe esperá-lo chegar tarde da rua. A palha tinha a depressão exata do peso dela, um corpo magro que marcou o mesmo lugar por anos — esperando novela, esperando filho, esperando. Nei passou a mão no braço da cadeira e sentiu a madeira morna, apesar do dia encoberto.
Trabalhou arrancando limo do banheiro e lixando portas. Perto das quatro horas, o céu fechou. Foi até o mercadinho da esquina comprar pão e um refrigerante Fabiane de abacaxi — de garrafa PET de dois litros, amarelo-forte, um doce que arde e que a mãe deixava na geladeira mesmo sem visita. Trancou a porta da frente, que emperrava, e a dos fundos, com trinco por dentro. Voltou vinte minutos depois, com a chuva fina começando. A cadeira não estava mais na sala. Estava na cozinha, de frente para a pia de cimento, como se alguém tivesse se sentado para esperar a louça ser lavada. A garrafa de Fabiane suava em sua mão. A porta dos fundos continuava trancada por dentro, na mesma posição. Riu curto. Coisa de cabeça cansada. Na escola, ele às vezes varria a mesma sala duas vezes. Arrastou a cadeira de volta para a sala. O arrasto fez um risco claro na poeira fina. Era a primeira vez que a casa tinha uma marca dele.
Dormiu lá num colchão fino do Corsa, com lençol e um rádio de pilha da secretaria. Acordou de madrugada com frio e com a telha de fibrocimento estalando com a chuva. A cadeira estava onde deixara. Mas o risco na poeira tinha sido apagado — não borrado por passos, mas apagado com a palma da mão, com cuidado. No lugar do risco, havia uma poça pequena de água escura, do tamanho de uma tampa de garrafa; o telhado não tinha goteira naquele ponto. Tocou com a ponta do dedo. Fria. Acendeu a lanterna do celular e ficou de joelhos olhando. Pensou que tinha sido ele, sonâmbulo. Apagou a luz. O cheiro de protetor solar barato veio fraco e sumiu.
No segundo dia, o vento Tordesilhas apertou. A tinta da sala não secou, ficou pegajosa, cheia de bolhas. Ligou o rádio para abafar o estalo da madeira. Sintonizou sem querer a Litoral Sul e deixou chiando entre duas estações — um chiado puro, sem música, como quem procura uma estação que não existe mais. Quando passou com a lata de tinta, viu que a palha da cadeira estava úmida no centro, mais escura, fria ao toque. Esfregou os dedos e eles secaram na hora, mas o cheiro ficou: protetor solar e água de rio barrenta, o mesmo cheiro da Barra do Saí quando a maré baixa mexe o fundo. Lavou as mãos no banheiro com sabão em barra. Quando voltou, a palha estava seca e empoeirada de novo. A poça do dia anterior não estava mais lá. No lugar, havia um círculo de areia preta e fina, de rio, ainda úmido ao redor, como resíduo.
Precisava pegar o ônibus da AMAT das dezesseis e trinta e dois para a prefeitura. Atrasou-se. A irmã ligou enquanto ele esperava no ponto, com a camiseta cinza suada nas costas.
— Você foi à casa? — A voz dela vinha abafada, com barulho de teclado e carimbo ao fundo, do cartório onde trabalhava.
— Tô pintando.
— Você mexeu na cadeira? — Falava baixo, como se não quisesse que ouvissem no trabalho.
— Por quê?
— Nos últimos meses, a mãe falava que a casa não gosta de ficar sozinha. Que já perdeu gente demais, que tem sempre alguém aqui, mesmo quando não tem. Eu achei que era remédio.
O ônibus freou com barulho de ar. Nei desligou. Deixou a garrafa de Fabiane pela metade na geladeira desligada da casa, por hábito.
Naquela noite, não dormiu lá. Voltou para o sobrado. Sonhou com a Barra do Saí. Não com o afogamento, mas com o minuto anterior. Ele sentado na cadeira de plástico branco, o celular na mão, Lina chamando "pai" a cada trinta segundos de um lugar um pouco mais fundo, um pouco mais longe, e ele não se levantava para ver, porque achava que ela estava brincando de se esconder entre as outras crianças.
Voltou na quinta-feira para terminar e ir embora de vez. Trouxe uma marreta. Ao abrir a porta, o cheiro tinha mudado. Não era mofo. Era café coado no coador de pano e roupa molhada no varal dos fundos. Na pia, duas xícaras. Uma era a dele, de plástico amarelo da escola, com borra da véspera. A outra era de porcelana florida da mãe, lascada na borda, que ele tinha guardado numa caixa de papelão fechada com fita no quarto dos fundos para doação. Essa segunda tinha um resto de líquido amarelo espesso, com cheiro de Fabiane de abacaxi e areia fina preta no fundo, grudada. Ao lado, a garrafa de Fabiane estava vazia, amassada, com a tampinha ao lado. O rádio que deixara desligado estava ligado, chiando puro, sem estação, em volume baixo. A cadeira estava na cozinha, de frente para as duas xícaras. A palha, úmida e funda. No chão, ao lado da cadeira, outra poça escura que não secava, agora do tamanho de um prato, com areia nas bordas.
Na parede que pintara de branco, ao lado da geladeira desligada, havia duas marcas de mãos pequenas, na altura da cintura dele — cinco dedinhos perfeitos, feitos com a mão molhada na tinta ainda pegajosa, voltados para dentro, como de quem fica na ponta dos pés para olhar por cima da pia.

Nei ficou em pé com a marreta na mão, sem saber onde colocá-la. O rádio chiava. O cheiro de protetor solar tinha tomado a cozinha toda. Largou a marreta no chão. Sentou-se no chão frio, com as costas na porta trancada. Chorou sem pôr a mão na frente, de boca aberta, sem som. Encostou a testa na parede, sem querer, como fazia para medir a febre de Lina, testa com testa. A tinta grudou na pele.
Levantou-se com as pernas dormentes. Tinha duas escolhas ali. Podia pegar a xícara de porcelana, lavar, sentar-se na cadeira de balanço e esperar junto, terminando de uma vez o que não terminou na praia. Ou sair. Ficou quase um minuto com a xícara florida na mão. O peso dela era familiar, quente. Quase se sentou. Sentiu o corpo ceder um centímetro na direção da palha, o joelho dobrando sozinho. A palha rangeu forte, como um corpo pequeno levantando depressa, assustado por ter sido visto.
Nesse instante, a porta da frente, encostada por causa do cheiro de tinta, bateu com o vento. No chão de madeira onde a cadeira estivera, a poça escura tinha aumentado. No meio dela, sozinha, estava a tampinha amarela de plástico da Fabiane, com areia grudada na rosca por dentro. Em seus tênis, ao sair da cozinha, ele viu areia preta também — fina, que não estava ali quando entrou.
Nei não correu. Pegou as ferramentas, a lata, o rádio chiando. Olhou uma última vez para a cozinha antes de sair: as duas xícaras na pia, a cadeira vazia com a palha funda e úmida, as duas mãozinhas na parede branca e a poça no chão que refletia a luz fraca da janela. Não lavou a parede. Não enxugou a poça. Deixou tudo como estava, como se alguém ainda fosse usar.
Trancou a porta com as duas chaves e o cadeado novo, já áspero de ferrugem. Atravessou a rua. Do outro lado, a mesma vizinha varria a calçada.
— Já vai, seu Nei? Vi a luz acesa a noite toda ontem. Achei que tinha gente morando já.
Ele não respondeu. Caminhou até o ponto com as mãos sujas de tinta branca. Pegou o ônibus das dezessete e dezoito, lotado. Sentou-se na última fileira e olhou pela janela traseira embaçada, suja de gordura de mão. A casa ficou para trás, pequena, com a tinta manchada.
A cadeira de balanço agora estava na varanda da frente — coisa que nunca estivera em quarenta anos —, balançando sozinha num ritmo paciente, sem vento. E, sobre o assento dela, secava a camiseta cinza da escola municipal que ele deixara pendurada no banheiro do seu sobrado na noite anterior.

O VERÃO QUE FICOU

O VERÃO QUE FICOU
A casa do lote 14

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Marcos Lustosa tinha cinquenta e três anos e consertava ar-condicionado. Não era o dono da empresa; era o que ia de Fiorino branca com a lateral amassada na altura da porta do passageiro, um joelho esquerdo que estalava ao subir escadas e o hábito de guardar parafusos no bolso da bermuda. Separado há quatro anos. O filho, Rafael, morto há dois. Não foi doença longa. Foi uma curva na BR-277, entre São José dos Pinhais e Morretes, num sábado de janeiro, voltando da praia. Marcos deveria ter buscado o menino na rodoviária de Paranaguá. Fechou um serviço extra em Matinhos. Pagava melhor, em dinheiro vivo: instalação de dois splits num sobrado no Solymar. Disse ao Rafael para pegar o ônibus da Graciosa até Curitiba e que depois o buscava. O ônibus atrasou três horas. Rafael pegou carona num Gol cinza.
O irmão de Marcos, Jurandir, morreu em março, de infarto ao descarregar cimento. Deixou para ele uma casa no Balneário Solymar, lote 14 da Rua das Canoas. Dois andares de reboco aparente na lateral, laje batida. Marcos precisava vender. A corretora marcou visita para quinta-feira e pediu que limpasse tudo. Ele foi numa terça-feira no fim de maio. Levou rodo, saco de lixo grande, extensão e a caixa de ferramentas de sempre.
A casa estava fechada desde o Carnaval. Quando girou a chave no portão lateral, sentiu o bafo quente sair pelas frestas do basculante. Abriu a porta da frente e o zumbido veio. Todos os aparelhos de ar-condicionado estavam ligados. Dois embaixo, um em cima, todos em dezoito graus, ventilando no máximo. Calculou uns seiscentos reais de luz jogados fora só naquele mês. Foi até o quadro de luz no corredor e baixou a chave geral. O silêncio que ficou foi maior que o barulho dos aparelhos. Maior que a rua vazia de baixa temporada.
Começou pela cozinha. Copos com crosta de café seco na pia, uma caixa de fósforos inchada de umidade. No banheiro do térreo, a toalha estava estendida no box. Úmida. Cheirando forte a protetor solar — aquele de coco barato que gruda no nariz e na garganta. Isso o irritou mais que o ar ligado. A casa estava fechada havia três meses. Toalha fechada mofa, fica preta, não fica úmida. Jogou a toalha no tanque de cimento da área de serviço, por cima de um balde virado. Pensou em moleque pulando muro para dormir, coisa comum fora de temporada.
No cômodo que Jurandir chamava de quarto de hóspedes, mas que era depósito de colchão dobrado e caixa de papelão com rolo de fio, havia uma risca na parede. Feita a lápis, firme, com data e nome ao lado: 12/01/24. Rafa. 1,58 m. A letra era do filho. Rafael tinha mania de medir a altura nas paredes das casas onde ficava, desde pequeno. Marcava com lápis de pedreiro que pegava do pai e anotava a data. Marcos passou o dedo sobre a risca. O grafite esfarelou um pouco, sujou a ponta do dedo. Ficou olhando para aquele pó preto, como se fosse fuligem. Rafael nunca tinha entrado naquela casa. Jurandir e Marcos estavam brigados no último ano de vida do menino por causa de um dinheiro emprestado que Jurandir não devolveu. O filho nunca conhecera o lote 14. Marcos não disse nada. Pegou a trena da caixa de ferramentas para medir o quarto para o anúncio da corretora e, sem querer, encostou a trena na parede, na mesma altura da risca. Anotou a medida no caderninho e seguiu em frente.
Deixou para resolver depois. Precisava ver o dreno do ar da sala, que pingava no reboco. O parafuso do dreno estava espanado; a chave Philips amarela não pegava. Procurou a chave no bolso da bermuda. Não estava. Lembrou-se de tê-la deixado em cima da geladeira quando chegou, ao lado da conta de luz antiga. Voltou até a cozinha e lá estava ela, deitada exatamente sobre o canto da geladeira, onde a deixara. A fita isolante preta enrolada no cabo para não escorregar da mão suada. Guardou-a no bolso.
Precisava de uma chave de fenda maior. Foi até a pilha de caixas no canto do quarto de hóspedes, onde Jurandir guardava ferramentas velhas, e puxou uma caixa de frete que estava em cima. A caixa rasgou, caiu de lado e espalhou no chão um caderno de capa dura, daqueles de anotar entregas, com folhas amareladas. Não foi um achado, foi um acidente, como tudo que acontece em casa de pedreiro. Abriu numa página de janeiro de 2024. A letra de Jurandir, grande e torta: 12/01 – buscar Rafa rodoviária PGuá – Marcos não pôde – trazer pro lote 14 esperar. Embaixo, outra anotação, com caneta diferente: 14:30 – deixei Rafa na casa – fui pro porto buscar peça – ele disse que ia de carona encontrar o pai em CWB – Gol cinza.
Marcos ficou com o caderno na mão, parado. Jurandir tinha buscado o filho. Tinha trazido o filho para aquela casa. O filho fizera a risca na parede naquele dia, enquanto esperava. Depois pegara a carona.
Subiu para o andar de cima. O quarto principal tinha uma cama de casal com colchão nu, só um lençol amassado no meio, como se alguém tivesse dormido ali e levantado com pressa. Havia areia no chão. Não era sujeira acumulada; era uma trilha fina, de pés descalços, vindo da porta e parando no meio do quarto, em frente ao criado-mudo. Grãos grossos, de praia, ainda úmidos, marcando o taco de madeira barato. No criado-mudo, uma foto polaroid. Não era de Jurandir. Era de Rafael, de costas, na praia, com a camiseta do Atlético que usava para dormir. A foto estava desbotada, com bordas amareladas de sol, mas era o filho: a nuca queimada, o ombro magro, o cabelo com sal. Atrás dele, desfocada, dava para ver parte da rua de areia do Solymar e um pedaço da Fiorino branca.
O celular vibrou no bolso. Era uma ligação. Número com DDD 41, mas desconhecido. Atendeu. Uma mulher com voz cansada e chiado de rádio ao fundo — aquele chiado que se mistura com anúncio de ônibus para Morretes e Antonina — disse: — Rodoviária de Paranaguá. O ônibus do seu filho está com três horas de atraso. Ele está aqui no guichê perguntando se o senhor ainda vai buscar. Marcos ficou com a boca seca. Tentou responder o nome do filho, mas a ligação caiu. Olhou para o histórico. A chamada estava lá. Recebida às 11h42, duração de 00:14, identificada como Rodoviária Paranaguá. Tentou retornar. Caixa-postal cheia.
Desceu as escadas devagar, segurando no corrimão de ferro frio. Foi até o quadro de luz. A chave geral estava ligada de novo. Tinha certeza de tê-la desligado; sentira o peso da alavanca. Desligou outra vez, com força, até ouvir o clique. Quando voltou para a sala, o zumbido retornou. Os três aparelhos ligados, em dezoito graus. No tanque da área de serviço, a toalha que tinha jogado estava de novo estendida no box do banheiro do térreo. Úmida. Cheirando a protetor solar. E ao lado da toalha, em cima do tanque, havia outra chave Philips amarela. Igual à dele. Mesma fita isolante preta enrolada, mesma ponta gasta de tanto forçar parafuso espanado. Colocou a mão no bolso da bermuda. A dele estava lá, quente. Pegou a do tanque. Estava fria e úmida, com um grão de areia grossa grudado na fita.
Enfiou a segunda chave, a úmida, no outro bolso e subiu. No quarto principal, a trilha de areia agora ia e voltava. Duas trilhas sobrepostas: uma mais clara, já seca, e outra fresca, escura. A polaroid não estava mais no criado-mudo. Estava em cima do travesseiro, com o lençol amassado por baixo. E agora Rafael não estava de costas. Estava de frente, mas cortado pela borda da foto, como quem errou o enquadramento na pressa. Dava para ver a camiseta do Atlético e, atrás dele, a parede do quarto de hóspedes, com a risca de lápis. Atrás da foto, com a mesma letra do filho, estava escrito: Pai, me espera aqui? E embaixo, o número antigo de Marcos, o que usava em 2024, antes de trocar de operadora.
Marcos colocou a foto no bolso, junto com os parafusos que tilintaram. Só então olhou para o caderninho da corretora onde anotara as medidas. Tinha escrito 1,58 m para o quarto de hóspedes. O quarto tinha mais de três metros. A trena, que deixara em cima da caixa, ainda estava travada em 1,58 m. O ar-condicionado do quarto fez um estalo seco e começou a emitir um barulho metálico, ritmado, como se algo estivesse preso na turbina, batendo. Um rangido que acompanhava a respiração. Puxou a escada de alumínio que Jurandir deixava no corredor e abriu a tampa do split. Usou a chave Philips amarela, a dele, a seca. Quando tirou o filtro, o cheiro de maresia ficou mais forte, como se o aparelho tivesse puxado ar da praia para dentro. Enrolada no filtro, entalada na hélice, havia uma camiseta. A do Atlético, a mesma da foto: úmida, pesada, pingando água escura no chão de taco. Não cabia ali dentro. Não tinha como ter entrado sem desmontar o aparelho inteiro. Puxou. A água sujou o chão e o cheiro de protetor subiu. No bolso da frente da camiseta, havia algo duro e dobrado.
Era um comprovante de pedágio da BR-277, da praça de São José dos Pinhais: data 12/01/24, horário 15h08, categoria automóvel. O comprovante original ele guardava na carteira até hoje, porque fora a última vez que fizera aquela estrada antes do acidente, e o guardara por culpa. Este era outro, idêntico, mas com uma segunda via grampeada atrás, com um carimbo roxo onde se lia: ATRASO – JUSTIFICADO. E colada com fita amarela por cima do carimbo, havia uma foto polaroid. Nessa polaroid, a casa do lote 14 aparecia inteira, vista da rua, num dia de sol forte de janeiro, meio-dia, sombra curta. Na frente da casa, de mãos dadas, estavam Jurandir e Rafael, descalços, de bermuda. A foto tinha a luz estourada de verão. Na janela do segundo andar, no quarto principal, dava para ver Marcos. Estava dentro da casa, olhando para fora, com a mão na maçaneta da janela. Estava de costas para a luz, por isso o rosto não aparecia, mas era ele: a bermuda de trabalho, a Fiorino branca estacionada na rua com a lateral amassada exatamente igual. A foto tinha sido tirada de fora para dentro, mas ele não se lembrava de ninguém tê-la tirado. O fotógrafo estava na rua, e ele já estava dentro.
A chave geral caiu sozinha com um estalo seco e tudo ficou escuro, exceto pelo gotejar da camiseta no balde que colocara embaixo. Marcos ficou parado no escuro, respirando o frio que ainda saía do aparelho mesmo desligado. Guardou a camiseta na caixa de ferramentas. Não a dobrou. Apenas a enfiou, molhada, por cima das ferramentas, e a caixa ficou mais pesada. Pegou a escada e desceu. Na cozinha, algo tinha mudado. Os copos que estavam na pia com crosta de café estavam lavados e virados de boca para baixo no escorredor. A caixa de fósforos inchada tinha sumido. A toalha estava dobrada em cima da mesa, seca, por cima da conta de luz antiga. A casa terminara o serviço que ele viera fazer.
Saiu da casa. Trancou a porta da frente com a chave que Jurandir deixava num prego atrás da porta. Trancou o portão lateral com o cadeado novo. Entrou na Fiorino, jogou a caixa molhada no banco do passageiro. Ligou o motor. O ar-condicionado do carro, quebrado havia oito meses — que ele nunca consertava porque era o carro de serviço e não o de cliente —, gelou forte, em dezoito graus. O mesmo zumbido dos splits da casa. Girou o botão para desligar. Não desligou. Bateu no painel com a palma da mão, como fazia com aparelho de cliente teimoso. O zumbido permaneceu.
Dirigiu até a estrada que liga o Solymar à BR-277. No trevo, parou no acostamento de saibro. Pegou o celular e ligou para o número que estava atrás da primeira polaroid. O número antigo dele. Uma voz atendeu. Era a voz dele mesmo, de dois anos atrás, mais cansada, com barulho de compressor de ar ao fundo, de oficina, dizendo: — Alô, quem fala? Desligou na cara, na hora. Ficou olhando para a tela. O histórico marcou a ligação como efetuada às 15h08, duração de 00:14. Não se lembrava de ter falado quatorze segundos. Não se lembrava de ter falado nada. Igual à ligação da rodoviária. Recebida às 11h42, 00:14. Efetuada às 15h08, 00:14. O tempo da casa tinha sempre quatorze segundos a mais.
Voltou para a casa do lote 14. Quando abriu o portão lateral, viu que a luz do segundo andar estava acesa, amarela e forte, mesmo com a chave geral desligada e a casa trancada por fora. Na poeira grossa do vidro da janela do quarto principal, por dentro, alguém passara o dedo e desenhara uma nova risca, na altura dele. A risca fora feita com a ponta da chave, espetada de dentro para fora através do vidro fino, como um prego, ainda pingando água preta de limo no reboco.

A VOZ QUE NÃO VINHA

A VOZ QUE NÃO VINHA
Onde dois rostos se tornam silêncio

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A ligação caiu às 2h53 da manhã. Claudair Rodrigues ainda segurava o celular quando percebeu que não tinha ouvido o irmão dizer uma única palavra completa. O visor mostrava apenas “SEM IDENTIFICAÇÃO”. Do outro lado restava um silêncio com textura, com peso, o mesmo silêncio que Valdir fazia nas noites de pesadelo, quando os dois ainda dividiam o quarto e o irmão ficava horas olhando o teto.
Claudair ficou parado no escuro. O relógio de plástico branco da cozinha fazia o barulho mínimo de cada segundo. Ele contou onze. Depois quinze. Não tinha certeza. Do outro lado da linha, antes de cair, tinha ouvido o ar entrando pelo nariz de Valdir, saindo errado, com aquele chiado conhecido desde a queda. Depois o começo de uma sílaba. Uma consoante que não se completava. O lábio inferior batendo nos dentes. A língua procurando um lugar que não existia mais.
Ele esperou. Doze segundos. Treze. Quatorze. O ar subia, descia, subia de novo.
— Eu… — disse Valdir. E parou.
Claudair abriu a boca. A sílaba saiu atrasada.
— Eu o quê?
Nada.
— Valdir?
Nada.
Levantou-se. Os pés descalços no chão frio. Lá fora, a garoa de Curitiba batia na janela. Uma garoa que não molhava de verdade, apenas deixava tudo úmido, tudo cinza, tudo com cheiro de mofo e asfalto.
Reconstruiu a chamada. Depois de mais sete segundos, Valdir conseguira dizer:
— Eu… preciso… que você… venha.
— Agora?
— Agora.
— Não dá para esperar amanhecer?
Silêncio. Ao fundo, o zunido grave de caminhões na BR-277.
— Valdir?
— Eu… estou… com… medo.
A frase veio inteira. Limpa.
— Estou indo — Claudair disse. A voz saiu rouca. — Me espera.
A ligação caiu.
— ◆ —
Vestiu a calça jeans, a flanela, o casaco. Calçou as botas. Pegou as chaves. Parou na porta do quarto. Deixou o bilhete na mesa da cozinha: “Fui ver o Valdir. Volto logo.”
O celular vibrou.
“Você não mora mais aqui. Pare de deixar bilhetes.”
Claudair leu duas vezes. Olhou de novo para o bilhete que ele mesmo tinha escrito. Uma palavra parecia faltar. Olhou para o quarto. A cama estava feita. O travesseiro sem marca de cabeça. O cheiro do apartamento estava mais frio. A luz do corredor tinha outra temperatura. No elevador apertou o botão do andar e, por um segundo, não se lembrou de qual era o número.
Lá embaixo, seu Anísio levantou os olhos do jornal.
— Vai viajar de novo, seu Claudair?
— Morretes.
— Essa hora?
— É.
Anísio balançou a cabeça.
O motor pegou na terceira tentativa. A garoa virara chuva fina. Ligou o rádio. Só estática. Desligou.
— ◆ —
A estrada estava errada. As distâncias não batiam. O posto Ipiranga demorou quase meia hora. Estava fechado. Luzes apagadas. Bombas cobertas com sacos pretos.
Reduziu. Um frentista de bigode estava parado na porta.
— Está fechado?
O homem olhou para ele.
— O senhor já passou por aqui hoje.
Não era pergunta.
— Não. É a primeira vez.
O frentista balançou a cabeça e apagou a luz.
A neblina desceu na Serra do Mar. As curvas se repetiam. O GPS mostrava quarenta e três minutos. Dirigiu dez. Continuava quarenta e três. Mais quinze. Ainda quarenta e três. Desligou o aparelho.
Limpou o rosto com a mão. A textura da pele pareceu estranha. O cheiro também. A respiração começou a falhar no ritmo. O cinto parecia apertado demais. Depois frouxo demais. O volante tinha a temperatura errada.
O celular vibrou.
“Você está vindo?”
Respondeu: “Sim”.
Nova mensagem:
“Ele está aqui.”
“Quem?”
A resposta demorou.
“Eu.”
O horário da mensagem era três minutos anterior à ligação. Claudair apertou o acelerador. Em algum ponto entre uma curva e outra, as lágrimas escorriam e ele não as enxugou. O gosto metálico subiu na boca sem motivo.
— ◆ —
Chegou a Morretes quando o céu começava a clarear de um jeito doentio, cinza. A casa ficava na rua de paralelepípedos perto do rio. Luz da sala acesa. O Corsa velho na garagem.
Estacionou. Ficou com o motor ligado. Desligou. Desceu. Bateu na porta. Duas vezes. Três. A maçaneta cedeu.
A sala estava iluminada e vazia. Sofá antigo. Tapete gasto. Estante da mãe. Na parede, a foto de família. Claudair chegou mais perto. Ele não estava nela. Havia Valdir criança. Havia o pai. Havia a mãe. No lugar do menino que deveria ser ele, havia um espaço vazio de contornos nítidos. O contorno tinha a mesma temperatura do ar. Parecia respirar.
— Você voltou.
A voz veio da cozinha. Claudair se virou.
Valdir estava na porta. Muito mais magro. As roupas pendiam. O rosto fundo. A boca aberta. Os lábios se moviam. A garganta trabalhava. O ar subia, descia, subia de novo. Nenhum som.
Claudair deu um passo. Valdir levantou a mão. Pediu que parasse. Com esforço, conseguiu:
— Ele… está… aqui.
Apontou para o próprio peito. Depois para a boca. Depois de novo para o peito.
— Eu…
Parou. A boca continuou aberta. Claudair sentiu a própria garganta responder. O ar subia errado. O chiado nasceu nele. A respiração dos dois se aproximou.
A sensação de altura veio de repente. O estômago caiu. O gosto de sangue voltou. A voz da mãe chamando um nome que não era o dele. Claudair olhou para as próprias mãos. Os dedos pareciam sujos de terra.
Valdir deu um passo. Estendeu a mão.
A foto caiu. O vidro quebrou. Nos cacos, o reflexo demorou a se formar. Por uma fração de segundo, dois rostos se sobrepuseram antes de se estabilizar num só.
Tentou falar. Só o chiado saiu. O mesmo chiado. As duas respirações se sincronizaram.
Do lado de fora, um cachorro magro atravessou o quintal sem latir. Na cozinha, a torneira estava aberta, a água correndo sem o som certo. O relógio de pêndulo marcava 6h11. Continuava marcando 6h11.
Valdir chegou mais perto. A mão ainda estendida. Claudair olhou para ela e para a própria.
Os olhos fecharam.
O chiado ficou. O relógio ficou. A água sem som. O cachorro atravessando o quintal.

A CURVA QUE NÃO EXISTE


A CURVA QUE NÃO EXISTE
sobre o que aparece quando se revela demais

Tadeu Everton Zamoiski
meados de 2026

 O cheiro do fixador ainda estava na pele de Aurélio quando ele percebeu que a nona foto tinha um poste que não conseguia situar em lugar nenhum do mundo.
Era uma curva fechada, à direita, com um paredão de pedra coberto de samambaias e um poste de luz solitário, torto, como se tivesse sido atingido por um caminhão anos antes e nunca consertado. Aurélio a olhou por um longo tempo sob a luz vermelha do laboratório, tentando encaixá-la mentalmente entre os quilômetros da Graciosa que conhecia de cor. Não havia dúvida no corpo, só na cabeça: alguma coisa nele sabia que não existia curva assim naquela estrada, mesmo sem conseguir provar. Tinha dirigido aquele trecho centenas de vezes, primeiro com o pai, depois sozinho, depois com Ivo.
Colocou a foto de lado, junto com as outras onze do rolo, e foi dormir sem lavar as mãos, coisa que não fazia desde que era aprendiz de laboratório e um instrutor exigente batia na mesa toda vez que ele esquecia.
***
O rolo tinha aparecido treze dias antes de completar doze anos desde que Ivo desaparecera — dentro de uma mochila que Aurélio jurava ter esvaziado havia muito tempo, guardada num armário que ele não conseguia lembrar de ter reaberto. Nos últimos meses, vinha encontrando pequenas coisas fora do lugar que não lembrava de ter movido: um copo na pia que jurava ter guardado, o portão dos fundos destrancado numa manhã em que jurava tê-lo trancado. Nunca deu muita importância. Morar sozinho fazia isso com a gente, pensava — os dias se pareciam tanto uns com os outros que era fácil confundir um com o outro.
Morava em Morretes desde que se aposentara do laboratório fotográfico, numa casa de porão alto na beira do rio, com as paredes sempre um pouco úmidas. Café antes das sete. Caminhada até a ponte de ferro. O jornal impresso que ainda insistia em receber. À noite, revelava negativos antigos que encontrava em bazares, por hobby, ou porque tinha vergonha de admitir que era a única coisa que ainda o fazia sentar quieto por horas.
Ivo era o irmão que sempre chegava dez minutos atrasado e nunca pedia desculpa por isso, que assobiava sem perceber quando estava concentrado, um assobio desafinado e sem música nenhuma reconhecível, só o hábito de encher o silêncio. Da briga entre os dois, Aurélio lembrava só de fragmentos — o barulho do prato empurrado na mesa, uma frase sobre dinheiro que nunca mais repetiu nem para si mesmo, o irmão dizendo que precisava “respirar” antes de sair rumo à serra, ainda assobiando baixinho enquanto pegava as chaves, como se a briga já tivesse ficado pra trás antes mesmo de sair pela porta. Do resto, sabia apenas o que constava no papel que a polícia lhe entregara: carro encontrado dois dias depois, no acostamento da BR-277, portas destrancadas, motor frio. Nunca acharam o corpo. Nunca acharam mais nada.
Uma semana inteira se passou sem que ele tocasse de novo na foto da curva. Revelou as outras três do rolo — um posto desbotado pelo sol, uma placa enferrujada, um cachorro deitado na beira da pista — e chegou perto de se convencer de que tinha imaginado alguma semelhança que não existia, que memória de doze anos sobre uma estrada é coisa frágil, sujeita a engano. Riu sozinho, uma noite, pensando em como ia contar aquilo pra Dona Zuleide como bobagem sua.
Na gaveta da cômoda, entre moedas velhas e um relógio quebrado do pai, ficava a chave do Opala — chaveiro de couro gasto, argola de metal opaco. De vez em quando Aurélio a pegava só para sentir o peso na palma da mão e lembrar do som específico que fazia batendo contra as outras chaves no bolso de Ivo, um chocalhar miúdo que reconheceria de olhos fechados, em qualquer sala escura, mesmo depois de tantos anos. Era o único gesto que ainda lhe restava do irmão que não doía. Devolveu a chave ao lugar naquela noite de falso alívio e fechou a gaveta, achando, por umas horas, que talvez conseguisse voltar a dormir sem pensar em nada disso.
***
O posto de Seu Nivaldo, na entrada da cidade, cheirava a óleo queimado e café requentado. Foi ali, enquanto o velho enchia o tanque, que Aurélio se viu com a foto já na mão, sem lembrar de tê-la tirado do bolso do casaco.
— Isso é da Graciosa? — perguntou, tentando soar casual.
Nivaldo olhou por mais tempo do que Aurélio esperava.
— Não tem curva assim lá não, seu Aurélio. Conheço essa estrada desde guri. — Limpou as mãos no macacão sujo de graxa. — Parece mais coisa lá de cima. Perto do antigo desvio pra Serra Funda. Fecharam faz uns trinta anos, quando abriram a pista nova.
— Que desvio?
— Um trecho velho. Acho que nem tem mais estrada lá, é só mato agora.
Aurélio agradeceu e foi embora, mas dirigiu vinte minutos além de onde precisava sem perceber, o corpo guiando o carro sozinho enquanto a cabeça revirava a possibilidade de que Ivo tivesse fotografado uma estrada que não existia mais.
A segunda irregularidade não veio de um filme novo. Veio da mesma foto, revelada de novo, numa ampliação maior, na esperança de encontrar algum detalhe que situasse o lugar. Quando pendurou o papel para secar, notou que havia algo na base do poste que não estava ali na primeira revelação: uma figura pequena, escura, de pé, olhando para a câmera. Sem rosto definido, mas com uma inclinação de cabeça, um jeito específico de ficar de mãos nos bolsos, que Aurélio reconheceu antes mesmo de admitir para si o que estava reconhecendo.
Guardou as duas versões lado a lado na gaveta. Na manhã seguinte, quando foi conferir de novo, a chave do Opala não estava mais lá.
Revirou a cômoda inteira, o quarto inteiro, caixas que não abria havia anos. A chave simplesmente não estava em lugar nenhum, como se tivesse deixado de existir na mesma proporção em que a figura na foto passara a existir.
***
Uma escada emprestada foi o pretexto para ir até a casa de Dona Zuleide, e foi lá, no meio de uma conversa sobre outra coisa qualquer, que ele ouviu a frase que levaria dias tentando esquecer.
— Vi o carro do seu irmão parado ali na esquina outro dia. Bonito ainda, aquele Opala.
— Que dia foi isso, Dona Zuleide?
— Ah, não sei precisar. Semana passada, talvez. — Ela franziu a testa. — Achei estranho porque pensei que vocês tinham vendido depois que ele...
Não terminou a frase, como todo mundo na cidade fazia.
— O carro foi apreendido pela polícia na época. Nunca voltou.
Ela deu de ombros, do jeito que as pessoas velhas dão de ombros quando não querem discutir memória com quem parece perturbado.
— Bom, talvez eu tenha me confundido.
Aurélio abriu a boca para contar a ela sobre o copo fora do lugar, o portão destrancado, e fechou de novo sem soltar palavra — não soube dizer depois se tinha desistido por vergonha ou se simplesmente esquecera o que ia dizer no meio do caminho entre a ideia e a fala.
Naquela noite, revirando a mochila mais uma vez, encontrou, apagada a lápis na margem do mapa rodoviário de Ivo, uma anotação com a letra inconfundível do irmão: voltar lá, tirar mais fotos, tem algo estranho na curva. A data era de três dias antes do desaparecimento.
***
A bifurcação não devia estar ali. Aurélio conhecia aquele trecho da Graciosa a vida inteira e nunca tinha notado a entrada de terra que o mapa de Ivo indicava, mas seguiu as instruções mesmo assim numa quarta-feira de manhã, o carro pulando nos buracos de uma estrada que a prefeitura parecia ter esquecido havia décadas.
O mato ia ficando mais alto conforme avançava, arranhando as portas, e por duas vezes ele teve a impressão nítida de já ter passado por aquele mesmo trecho de samambaias minutos antes — a mesma pedra grande à esquerda, o mesmo galho seco caído atravessado no caminho — como se a estrada se dobrasse sobre si mesma sem ele perceber a curva que fazia isso. O rádio, que vinha ligado desde que saíra de casa, começou a chiar sem motivo visível, uma estática fina que ia e vinha, e Aurélio se pegou com a mão já no botão, desligando o aparelho, sem lembrar de ter decidido fazer aquilo — só percebeu o silêncio súbito do carro depois que ele já tinha se instalado.
Foi então, no silêncio, que ouviu pela primeira vez um som que não conseguia situar: não exatamente um motor, não exatamente vento, mais parecido com uma respiração longa e baixa vindo de algum lugar entre as árvores, que sumiu assim que ele parou de prestar atenção nela, como se só existisse enquanto alguém a notava. Chegou a pensar em dar meia-volta. Não deu.
Depois de dez minutos avistou o poste torto.
Era exatamente como na fotografia. Estacionou e caminhou até a curva, a câmera pendurada no pescoço por hábito antigo, e foi só ao erguer a máquina que notou a névoa — não tinha visto névoa nenhuma no caminho até ali, o dia estava claro, mas naquele ponto exato uma névoa branca cobria o chão como se tivesse sido derramada.
Fotografou mesmo assim, sem dizer nada, sem chamar ninguém — havia algo naquele silêncio específico que parecia mais perigoso do que qualquer palavra, e ele preferiu não testar.
No visor, antes de revelar qualquer coisa, viu a imagem que acabara de capturar: a curva, o poste, a névoa — e um homem de costas, parado exatamente onde a figura da fotografia antiga estivera, mãos nos bolsos, numa postura que Aurélio conhecia bem demais para ser coincidência, porque era a sua própria, a que ele adotava sempre que pensava em algo que preferia não pensar.
Olhou ao redor. Não havia ninguém. Olhou de novo para o visor. O homem continuava lá.
***
Dirigiu de volta sem lembrar do trajeto. Quando chegou, já era noite, embora tivesse a sensação de ter passado não mais de uma hora na estrada. O relógio da cozinha marcava 21h40. Ele saíra às nove da manhã.
Só percebeu o resto do corpo depois: a fome funda, de quem não come há muito mais que um dia; a barba por fazer, mais crescida do que doze horas deveriam permitir; a lama seca até os joelhos da calça, como se tivesse caminhado por muito mais mato do que os poucos metros até o poste. Tirou a calça e ficou olhando para ela estendida sobre a cadeira, sem decidir se lavava ou guardava como prova de alguma coisa que ainda não sabia nomear.
Revelou o filme naquela madrugada, as mãos tremendo sob a luz vermelha. A foto mostrava a curva, o poste, a névoa, a figura de costas — mas o rosto, desta vez, estava virado o suficiente para que Aurélio visse ali algo parecido com os próprios traços, envelhecidos de um jeito que ele ainda não tinha, um Aurélio de talvez dez anos no futuro. Podia ser o grão do papel, a luz vermelha distorcendo tudo à sua volta havia horas, os próprios olhos cansados demais para confiar. Podia ser, também, exatamente o que parecia ser.
Ficou muito tempo sentado no banquinho do laboratório, a foto ainda pingando na cuba, sem coragem de tocá-la de novo nem de guardá-la. Lá fora, o rio fazia o barulho de sempre. Em algum lugar da casa, um relógio marcava as horas que faltavam para o amanhecer, e Aurélio percebeu que tinha parado de contá-las havia algum tempo.
Na manhã seguinte, ao abrir a gaveta para guardar a foto junto com as outras, encontrou a chave do Opala de volta ao seu lugar — mas com terra seca grudada no couro do chaveiro, e um cheiro de mato molhado que impregnou o quarto inteiro pelo resto do dia.

O POSTO DEPOIS DA CURVA

O POSTO DEPOIS DA CURVA
Dez minutos podem durar mais do que uma vida

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 O recibo dizia que eu tinha abastecido o carro às 23h17.
Eu estava em Paranaguá às 23h17.
Foi essa diferença de cinquenta e poucos quilômetros que me fez voltar à BR-277 três dias depois, embora eu soubesse que não encontraria nada.
Ou melhor: eu precisava não encontrar nada.
Naquela quinta-feira, saí de Curitiba pouco depois das oito da noite para entregar os documentos de uma venda. Eu poderia ter esperado até a manhã seguinte, mas o comprador viajaria cedo e eu precisava do dinheiro. Desde a separação, algumas urgências tinham adquirido o hábito de parecer maiores do que realmente eram.
Chovia desde São José dos Pinhais. Uma garoa persistente, fina o suficiente para não justificar a redução da velocidade, mas insistente o bastante para deixar o para-brisa sempre coberto por uma película opaca.
Minha filha ligou quando eu ainda estava em casa.
— Você vai pela 277?
— Vou.
— Sozinho?
— Claro.
Houve uma pausa.
— Se passar por um posto, para.
Ri.
— Por quê?
— Só para.
— Que posto?
Ela demorou.
— Você sabe.
— Não sei.
— Então esquece.
Foi a última coisa que disse antes de desligar.
Minha filha tinha oito anos quando aconteceu a noite de que eu não gostava de falar.
Não houve morte.
Talvez por isso eu tivesse chamado de acidente durante tantos anos.
Houve uma discussão em casa. Eu saí de carro com ela porque precisava entregar alguns documentos no litoral e não queria deixá-la sozinha. Ela estava irritada, eu estava irritado, e os dois tínhamos aquele silêncio pesado das crianças quando percebem que os adultos perderam o controle.
Em algum momento, parei.
Disse que seria rápido.
Ela perguntou:
— Quanto?
Dez minutos.
Eu me lembro disso.
Depois, a memória fica menos obediente.
Na estrada, naquela noite, tentei não pensar nisso.
Passei pelo primeiro posto sem parar.
No segundo, também.
O terceiro apareceu depois de uma curva que eu não reconheci.
Era pequeno, antigo, com três bombas sob uma cobertura baixa. A loja de conveniência permanecia aberta, mas o restaurante ao lado estava fechado. Não havia placa grande anunciando o nome. Apenas uma faixa desbotada sobre a cobertura.
Reduzi.
Não sei por quê.
Entrei.
O frentista perguntou:
— Completa?
— Completa.
Enquanto o tanque enchia, olhei para o restaurante.
Havia uma mulher sentada junto à janela.
Usava um casaco escuro.
Estava de costas.
Pensei que talvez estivesse esperando alguém.
Quando olhei novamente, a cadeira estava vazia.
Paguei na loja.
O atendente colocou o recibo sobre o balcão.
Peguei.
Antes de sair, pedi café.
Ele colocou dois sachês de açúcar ao lado do copo.
— Só um.
Ele retirou um.
— Desculpe.
Tomei o café em pé.
Era ruim.
Tinha aquele gosto de café que passou tempo demais na garrafa térmica.
Quando saí, percebi uma pequena etiqueta presa ao chaveiro do carro.
31.
Toquei nela.
— Isso é de vocês?
O rapaz olhou.
— Não.
— Estava aí?
— Estava.
— Não estava.
Ele me encarou por alguns segundos.
— O senhor já passou aqui.
Eu sorri, sem saber por quê.
— Acho que não.
— Acho que sim.
Entrei no carro e fui embora.
Não pensei mais no assunto até chegar a Paranaguá.
Às 23h12, mandei uma mensagem ao comprador avisando que estava chegando.
Às 23h34, entreguei os documentos.
Às 23h40, estava entrando no hotel.
No dia seguinte, encontrei o recibo no porta-copos.
23h17.
BR-277. KM 31.
Fiquei olhando para ele.
A hora estava errada.
O quilômetro também.
Eu sabia que tinha abastecido, mas não naquele horário.
Guardei o papel no porta-luvas.
Na manhã seguinte, minha filha ligou.
— Você parou?
— Parei onde?
— No posto.
— Qual posto?
Ela respirou fundo.
— Você não lembra.
— Não.
— Tudo bem.
— O que deveria lembrar?
Silêncio.
— Nada.
Desligou.
Naquela tarde, procurei o recibo.
Não estava no carro.
Encontrei-o dentro de uma gaveta, entre documentos antigos.
No verso havia uma frase escrita à caneta.
VOLTO EM DEZ MINUTOS.
Reconheci minha letra.
Não lembrava de tê-la escrito.
Minha filha veio à minha casa naquela noite.
Trouxe uma caixa de fotografias.
Sentou-se à mesa e abriu a tampa.
— Achei isso na casa da mãe.
Havia aniversários, viagens, fotografias escolares, imagens da antiga casa.
Então apareceu uma fotografia da estrada.
Minha filha tinha oito anos.
Estava sentada no banco traseiro do meu carro.
Eu estava dirigindo.
Chovia.
Atrás de nós havia o posto.
O mesmo.
A mesma cobertura.
A mesma faixa desbotada.
No canto inferior, quase escondido, havia um número:
31.
— Foi naquela noite? — perguntei.
— Foi.
— Quem tirou?
— Minha mãe.
— Ela estava lá?
— Não.
Virei a fotografia.
Não havia data.
— Então como ela tirou?
Minha filha passou o dedo pelo canto da imagem.
— Ela tirou depois.
— Depois de quê?
Ela levantou os olhos.
— Depois que você voltou.
Senti uma irritação súbita.
— Eu fui buscar você.
— Eu sei.
— Então por que está falando desse jeito?
— Porque você sempre conta assim.
A frase me atingiu de uma maneira que não consegui explicar.
— E como foi?
Ela olhou para a fotografia.
— Eu não lembro.
— Você estava lá.
— Eu sei.
— Então lembra.
Ela balançou a cabeça.
— Lembro de esperar.
Fiquei quieto.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Dez minutos?
Ela olhou para mim.
— Você disse dez.
Não respondeu mais.
Naquela noite, procurei informações sobre o posto.
Não encontrei.
Procurei mapas antigos, imagens de satélite, registros comerciais, fotografias da rodovia.
Havia postos próximos, alguns antigos, outros desativados.
Nenhum naquele ponto.
Comecei a pensar que eu havia confundido a estrada.
Essa explicação me trouxe alívio.
Até perceber que, no verso da fotografia, havia uma segunda anotação.
Pequena.
Quase apagada.
23h17.
No dia seguinte, voltei à BR-277.
Passei pelo trecho durante a tarde.
Nada.
Uma curva.
Mata.
Caminhões.
Postos reais.
Placas reais.
Nenhum quilômetro 31 naquele ponto.
Voltei.
Passei novamente.
Nada.
Na terceira vez, a chuva começou.
Não era forte.
Apenas uma garoa.
A mesma.
Depois de uma curva, vi a entrada.
O posto estava lá.
Parei.
Não entrei.
Fiquei observando.
As bombas estavam vazias.
A loja, fechada.
O restaurante, escuro.
No estacionamento havia apenas um caminhão.
Olhei para o painel.
17h06.
No relógio do posto, através da janela, marcava 23h17.
Pensei em ir embora.
Foi quando percebi uma coisa.
A placa na frente do posto dizia:
KM 31.
Atrás dela, pela estrada, havia outra placa.
CURITIBA 31 KM.
Fiquei alguns segundos tentando entender.
Eu estava indo em direção a Paranaguá.
Curitiba estava atrás de mim.
Ainda assim, a placa dizia trinta e um quilômetros.
Poderia ser um erro.
Era um erro.
Eu precisava apenas aceitar isso.
Engatei a marcha.
Antes de sair, vi alguém dentro da loja.
Não era a mulher.
Era uma menina.
Estava de costas.
Pequena.
Molhada.
Segurava alguma coisa na mão.
Não consegui ver o rosto.
Buzinei.
Ela não se mexeu.
Saí.
Não olhei para trás.
Quinze minutos depois, encontrei uma área de escape.
Parei.
O recibo estava sobre o banco do passageiro.
Eu não o havia colocado ali.
Peguei.
23h17.
No verso:
VOCÊ DISSE QUE SERIA RÁPIDO.
A frase não estava escrita com minha letra.
Ou estava.
Não consegui decidir.
Liguei para minha filha.
Ela atendeu no segundo toque.
— Pai?
— Você está em casa?
— Estou.
— Você lembra daquela noite?
Silêncio.
— Por que está perguntando?
— Porque acho que deixei você esperando.
Ela respirou.
— Você sempre achou isso.
— E você?
— Eu acho que você voltou.
Fechei os olhos.
— Você tem certeza?
— Não.
A resposta foi tão simples que me deu mais medo do que qualquer outra coisa.
— O que você lembra?
— Você me deixou no carro.
— Onde?
— Num posto.
— E depois?
— Você disse que ia voltar.
— Eu voltei?
Ela ficou em silêncio.
— Filha?
— Pai, você está sozinho?
Olhei para o banco traseiro.
Estava vazio.
— Estou.
Ela demorou a responder.
— Então não olhe para o banco.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Por quê?
— Porque eu não sei quem está aí.
A ligação caiu.
Não olhei.
Fiquei alguns minutos com as mãos sobre o volante.
Depois liguei o carro.
Na estrada, não havia mais ninguém.
Dirigi até Curitiba sem parar.
Quando cheguei em casa, já era madrugada.
Deixei o carro na garagem.
Subi.
Coloquei a chave sobre a mesa.
O recibo estava no bolso da minha jaqueta.
Não lembrava de tê-lo pegado.
Virei.
A frase continuava lá.
VOCÊ DISSE QUE SERIA RÁPIDO.
Sentei.
Durante algum tempo, fiquei tentando reconstruir aquela noite.
Desta vez, a lembrança veio inteira.
Eu e minha filha no carro.
A chuva.
A discussão.
O posto.
Ela perguntando quanto demoraria.
Dez minutos.
Eu saindo.
A porta fechando.
Eu atravessando o estacionamento.
Entrando na loja.
Pedindo café.
Dois sachês de açúcar.
Depois...
Parei.
Havia alguma coisa errada.
Eu não estava lembrando do passado.
Estava lembrando da noite anterior.
Era exatamente a mesma sequência.
O mesmo carro.
A mesma chuva.
A mesma filha.
O mesmo posto.
Os mesmos dez minutos.
Só que, dessa vez, eu ainda não tinha voltado.
Levantei de repente.
Fui até a garagem.
O carro estava lá.
As portas fechadas.
A chave continuava sobre a mesa.
Olhei pelo vidro.
O banco traseiro estava vazio.
Ou parecia vazio.
Havia uma pequena mancha de água no tecido.
Passei a mão pelo vidro.
Não abri a porta.
Voltei para dentro.
Minha filha ligou.
Atendi.
Ela não falou.
Ouvi apenas a respiração.
— Filha?
Nada.
Então veio uma pergunta:
— Pai, você já voltou?
Olhei para o relógio.
23h17.
— Já.
Ela ficou em silêncio.
Depois disse:
— Então quem está aqui comigo?
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Não sabia o que fazer.
Meu telefone vibrou novamente.
Era uma mensagem.
Uma fotografia.
Abri.
Era uma imagem do meu carro estacionado diante do posto.
A chuva cobria o para-brisa.
No banco traseiro havia alguém.
Não dava para ver o rosto.
A fotografia parecia antiga.
Ampliei.
A pessoa segurava um recibo.
Aproximei a imagem até onde o celular permitia.
No papel havia apenas duas linhas.
23h17.
VOLTO EM DEZ MINUTOS.
Fiquei olhando para a fotografia.
Então percebi o detalhe que me fez largar o telefone sobre a mesa.
Quem quer que estivesse no banco traseiro não era minha filha.
Era eu.
Mais jovem.
Com as duas mãos no colo.
Olhando diretamente para a câmera.
Atrás do vidro, porém, havia uma criança sentada ao meu lado.
Não consegui ver o rosto dela.
Na manhã seguinte, minha filha me encontrou dormindo na sala.
Ouvi sua voz antes de abrir os olhos.
— Pai.
Sentei.
Ela estava parada perto da porta.
— O que foi?
Ela olhou para a garagem.
— Seu carro está ligado.
— Não.
— Está.
Fui até a janela.
O carro permanecia no mesmo lugar.
O motor funcionava.
No painel, o relógio marcava 23h17.
— Eu não liguei.
Minha filha não respondeu.
Ela segurava alguma coisa.
Um recibo.
Entregou-me.
Olhei.
BR-277. KM 31.
No verso havia uma frase.
Dessa vez não era minha letra.
Era a letra da minha filha.
PAI, NÃO DEMORE.
Abaixo, uma segunda frase, escrita com outra tinta:
ELE AINDA ESTÁ ESPERANDO.
Minha filha levantou os olhos.
— Quem?
Não consegui responder.
Ela olhou para o carro.
— Você não lembra?
— Do quê?
Ela apontou para a garagem.
— Que naquela noite você voltou.
Fiquei olhando para o banco do motorista.
Estava vazio.
Minha filha segurou meu braço.
— Pai.
— O quê?
— Você não voltou sozinho.
Foi então que ouvi o motor morrer.
E, por alguns segundos, a casa inteira ficou em silêncio.
No banco traseiro do carro havia apenas uma coisa.
Uma pequena etiqueta de papel.
31.
Eu não sabia dizer se já a tinha visto antes.

Km 54

Km 54
ou A Estrada Que Não Devolve

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Elton saiu de Curitiba às três e quarenta da manhã.
A garoa fina embaçava o para-brisa por dentro. Ele dirigia com uma mão só, limpando o vidro com a manga do casaco. A BR-277 descia escura, recortada pelos faróis dos caminhões e pela neblina que já se acumulava depois de São José dos Pinhais.
Conhecia aquela estrada havia quase dez anos. Sabia onde os caminhões reduziam, onde a pista estreitava, onde o sinal sumia.
No painel, ao lado do rádio, havia uma marca circular quase apagada. Passou o dedo.
Cheiro de perfume. E, por um segundo, a temperatura da mão dela no ombro.
Retirou a mão.
Às quatro e vinte, parou no primeiro posto depois de São José dos Pinhais. O frentista magro, de boné escuro, abasteceu sem falar. Quando Elton voltou do pagamento, o homem estava parado ao lado da bomba, olhando para o banco traseiro.
— Ela está aí?
Elton ficou imóvel.
— Quem?
O frentista baixou os olhos.
— Nada.
Virou-se e entrou na loja.
Elton abriu a porta traseira. Vazio. No porta-luvas, um recibo amassado. A data era de três dias antes. Ele não tinha parado ali três dias antes.
Virou o papel:
“Você deixou ela esperando.”
Na tampa interna, uma mancha circular úmida. Passou o dedo. Água. O cheiro veio mais forte: perfume e chuva molhada em cabelo de criança.
Fechou o porta-luvas e saiu.
A marca no painel puxou a memória antes que ele chegasse à serra.
Mariana na cozinha, encostada na pia. A menina no sofá, abraçada à almofada. Seis anos.
— Espera a chuva passar.
— Se eu esperar, chego atrasado.
— Então chega atrasado.
A menina levantou. Segurava o copo de vidro com as duas mãos. Havia uma rachadura fina no fundo.
— Pai, o rio nunca chega ao mar.
— Você volta amanhã?
— Volto.
— Promete?
— Prometo.
Na garagem, Mariana colocou o copo sobre o painel. A mesma rachadura que ele via agora na memória.
— Não vai agora, Elton.
Ele entrou no carro. Ligou o motor. Foi embora.
23h18. Não atendeu.
23h41. Também não.
Elton apertou o volante. A neblina engrossou depois de Morretes.
Às cinco e vinte, reduziu. À direita:
Km 54
CASA DE PEDRA
Só mato e barranco. Passou.
Minutos depois, olhou pelo retrovisor. A placa tinha sumido.
Às cinco e quarenta e sete, de novo:
Km 54
CASA DE PEDRA
Mesma ferrugem. Mesma inclinação. Mesmo pedaço de tinta descascado.
Pisou no freio. O hodômetro avançava; a estrada, não.
Uma risada curta, infantil, ecoou no banco traseiro.
Virou-se. Vazio.
A marca no painel estava mais escura. Molhada. O cheiro agora era só de água.
Abriu a porta. Neblina. Ninguém. Quando voltou, o cheiro tinha sumido.
Poucos minutos depois, avistou o segundo posto. Entrou. A mulher limpava o balcão. Elton colocou o recibo sobre a madeira.
Ela olhou. Empalideceu.
— Vá embora. Ainda está cedo.
Ele saiu.
Pouco depois das sete, chegou a Paranaguá. Fez a entrega. Voltou a Curitiba durante o dia. Não viu a placa. Não viu nada.
À noite, em casa, abriu a caixa no fundo do armário. Dois copos. Um quebrado. Um intacto. A fotografia: Mariana, a filha e, atrás delas, a placa do Km 54.
No verso: Você deixou ela esperando.
A rachadura do copo na foto era a mesma.
❖ ❖ ❖
Na semana seguinte, outra entrega para Morretes. Saiu às quatro da tarde. Viagem limpa. Sem neblina. Sem placas. Sem cheiro.
Retorno às oito e vinte.
A chuva começou perto de Morretes. Às onze e quinze, a neblina fechou a estrada.
Km 54
CASA DE PEDRA
Uma luz amarela, fraca, surgiu atrás das árvores.
Elton parou. O telefone tocou.
MARIANA.
Atendeu.
Silêncio. Depois, uma respiração infantil. Cheiro de shampoo de criança. O barulho leve de lã esfregando no banco.
A própria voz, baixa, cansada:
— Ela ainda está esperando.
A ligação caiu.
Atrás dele, uma batida seca.
A cadeirinha estava lá. Limpa. Nova. O cinto afivelado do jeito que só a mãe sabia fazer. Sobre o assento, o copo rachado. No mesmo ângulo em que Mariana o deixara naquela noite.
Não tocou.
A luz entre as árvores veio mais perto.
Elton ligou o carro. Engatou a marcha. Seguiu.
No retrovisor, a luz desapareceu.
A cadeirinha permaneceu.
O copo começou a se encher de água.
No painel, a marca circular escureceu. Como se alguém acabasse de apoiar o copo ali.
A voz no banco traseiro:
— Pai?
Silêncio.
— Você vai embora de novo?
Elton apertou o volante.
Continuou.
A marca ficou molhada.
A neblina engoliu os faróis.