Onde algumas promessas continuam sendo feitas
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A chave girou com resistência, e Ademir empurrou a porta com o ombro. Antes de entrar, sentiu cheiro de café recém-passado, embora fizesse quarenta e um dias que Dona Iracema morrera num quarto de hospital em Ponta Grossa e doze anos que ele não dormia naquela casa.
Voltara para esvaziá-la, separar documentos, vender os móveis e fechar a porta pela última vez. Não pretendia levar quase nada, talvez algumas fotografias e o caderno de receitas. O restante poderia desaparecer junto com a casa, uma construção pequena de madeira pintada de azul-claro, numa rua de paralelepípedos irregulares que Ademir ainda reconhecia pelo barulho. Os pneus dos carros produziam um estalo seco ao passar diante da janela, e sua mãe costumava reclamar daquele ruído todas as manhãs, como se o mundo inteiro estivesse passando dentro do quarto dela.
Doze anos desde a briga que nenhum dos dois soube terminar. Às vezes Ademir pensava que fora embora porque a mãe o culpava pela morte do pai; em outras, suspeitava de que precisava acreditar nisso para justificar o tempo que passara longe. Iracema tinha o dom de transformar silêncios em acusações. Ou talvez Ademir tivesse passado doze anos fazendo isso sozinho.
Largou a mala no sofá e ficou olhando para a colcha de crochê dobrada sobre o encosto. Iracema dobrava tudo daquele jeito, toalhas, lençóis, camisetas, como se a desordem do mundo pudesse ser vencida com dobras perfeitas.
Na cozinha, a pia estava seca, o pano de prato pendia do gancho, alinhado com a borda do armário, e a louça estava guardada. Abriu a geladeira por reflexo e encontrou apenas o cheiro de plástico frio das coisas que ficaram sem uso. Fechou a porta e viu que o ímã continuava no mesmo lugar.
Deus proverá.
As letras douradas estavam tortas porque uma das pontas havia perdido a força. Ademir pensou em endireitá-lo, mas deixou como estava.
Foi no quarto que percebeu a primeira coisa que não podia estar ali.
A cama estava esticada, mas não arrumada. Havia uma depressão leve no travesseiro e uma dobra no lençol junto ao lado direito, como se alguém tivesse acabado de se levantar.
Ademir permaneceu na porta. Sua mãe morrera no hospital e, depois da queda, nunca mais voltara para casa.
Ligou para Dona Zilda.
“A senhora entrou aqui depois que minha mãe morreu?”
“Não, filho. Só entrei para regar as plantas durante a internação.”
“A cama está mexida.”
Dona Zilda não respondeu imediatamente. Quando falou, sua voz havia mudado.
“Você lembra daquele aniversário?”
Ademir continuou olhando para a cama.
“Qual?”
“Quando você tinha sete anos.”
“Por quê?”
Ela respirou fundo.
“Você gostava de bolo de morango.”
Ademir sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
“Minha mãe não fazia bolo de morango.”
“Fazia quando você era pequeno.”
“Depois não fez mais.”
“Depois daquele aniversário, não.”
Ademir não perguntou o que ela queria dizer. Dona Zilda também não explicou.
Naquela noite, dormiu no sofá. Às três e dez da manhã, acordou com um clique metálico vindo da cozinha e reconheceu o som antes mesmo de abrir os olhos: o botão do fogão, a boca direita, justamente aquela que sua mãe sempre usava porque dizia que a esquerda demorava a pegar.
Levantou-se e foi até a cozinha. O fogão estava desligado, mas a boca direita ainda estava morna, não quente, apenas morna, como se tivesse sido usada havia pouco.
Na manhã seguinte, a cozinha estava limpa e a colcha dobrada sobre o sofá, embora Ademir tivesse deixado tudo como estava na noite anterior.
Passou o dia inteiro fora.
Quando voltou, havia uma xícara sobre a mesa, com café fumegante dentro.
Ficou olhando até a fumaça desaparecer. Depois pegou a xícara e a lançou contra o ladrilho. Ela se partiu, e Ademir varreu os cacos, colocou tudo num saco de lixo e saiu.
Dormiu num hotel perto da rodoviária.
Na manhã seguinte, voltou à casa e encontrou a xícara sobre a mesa, inteira e fria, sem uma gota de café.
Naquela tarde, desmontou o fogão. Fechou o registro, retirou os botões, soltou as peças e deixou tudo espalhado pelo chão. Antes de sair, pegou o botão da boca direita e o colocou no bolso.
Voltou pouco antes das dez.
O fogão estava montado.
O botão da boca direita estava no lugar.
Ademir levou a mão ao bolso.
O botão ainda estava ali.
Não conseguiu decidir qual dos dois o assustava mais.
A xícara estava sobre a mesa, com café dentro.
Dessa vez, bebeu.
O café estava forte e sem açúcar. Havia, porém, alguma coisa estranha no gosto, uma lembrança que parecia escondida dentro da outra.
Foi até o armário e encontrou uma lata antiga de café. No fundo havia uma pequena mancha branca, endurecida junto ao metal. Tocou com a ponta do dedo e provou.
Sal.
A lembrança veio sem aviso.
A bancada era alta demais, a colher escorregava dos dedos pequenos e a xícara parecia pesada demais para as duas mãos. O pote de açúcar estava ao lado do sal, e Iracema permanecia sentada à mesa, chorando em silêncio.
Ademir tinha sete anos e queria ajudá-la.
Vira o pai preparar café tantas vezes que achou que sabia fazer. Colocou açúcar, depois acrescentou sal sem perceber e empurrou a xícara pela mesa com as duas mãos.
Iracema bebeu.
Ele esperou uma careta, mas ela apenas engoliu. A mão que segurava a xícara tremeu uma única vez, e seus olhos permaneceram baixos.
“Ficou bom.”
Foi só então que outra lembrança apareceu.
A porta da cozinha fechando, o pai dizendo que no domingo os dois iriam pescar, a caixa vermelha de apetrechos encostada perto da porta e a voz dele dizendo para não mexer no anzol.
Ademir lembrava da camiseta do pai, da caixa, da voz e do cheiro de café. Quando tentou lembrar do rosto, encontrou apenas um espaço vazio.
Foi até a mesa e abriu a pasta onde guardara os documentos.
Encontrou a fotografia.
Ele estava sentado à mesa, usando uma camiseta grande demais, enquanto Iracema aparecia atrás dele, com uma das mãos sobre seu ombro.
No verso, havia uma anotação na letra dela:
“Ademir, sete anos. O último aniversário antes de tudo mudar.”
Abaixo da fotografia estava o atestado de óbito do pai.
Acidente de trabalho.
Ademir leu a data.
A mão apertou a fotografia até dobrar uma das pontas.
Leu novamente.
O pai morrera no dia seguinte ao aniversário.
O joelho perdeu força, e ele se sentou no chão.
Vieram o telefone, os adultos falando baixo, a mãe sentada à mesa e a pergunta que ele fizera sobre quando o pai voltaria. Depois, a mão dela apertando o pano de prato.
Só isso.
Ademir olhou para a fotografia.
“Você nunca disse.”
A casa permaneceu quieta.
Passou o dedo pelo rosto jovem da mãe.
“Eu também nunca perguntei.”
O fogão fez um clique.
A boca direita acendeu.
A chama azul tremulou diante dele.
Ademir não recuou. Aproximou-se e disse:
“Desculpa.”
A chama continuou acesa.
Ele ficou esperando, mas a cozinha permaneceu imóvel.
“Eu devia ter perguntado.”
Desligou o fogão.
A chama desapareceu.
No quarto, o colchão rangeu duas vezes, como quando alguém se sentava na beirada da cama.
Ademir não foi até lá.
Permaneceu na cozinha, com a fotografia nas mãos.
Naquela noite, dormiu no quarto.
Não sonhou.
De manhã, a cama estava feita. Desfez os lençóis e arrumou tudo novamente.
Passou os dias seguintes esvaziando a casa. Doou roupas, móveis e livros, separou documentos e guardou fotografias, algumas cartas e o caderno de receitas.
No fundo do caderno encontrou uma página dobrada.
Havia uma anotação antiga:
Domingo: bolo de morango.
Abaixo, uma linha riscada com força.
Não havia outra palavra.
Na última manhã, parou diante da geladeira. O ímã continuava torto.
Dessa vez, endireitou-o.
Deus proverá.
Pegou a mala e voltou uma última vez à cozinha. A xícara estava no escorredor, lavada e vazia.
Ademir não a levou.
Fechou a porta e desceu a rua sem olhar para trás. Os pneus dos carros ainda produziam o mesmo estalo nos paralelepípedos.
Na praça, entrou numa padaria.
“Um bolo de morango.”
A atendente apontou para a vitrine.
“Inteiro?”
Ademir ficou alguns segundos olhando o bolo. O cheiro doce da cobertura trouxe, por um instante, o cheiro de café da casa.
“Metade.”
Sentou-se num banco e comeu uma parte devagar. Antes de guardar o restante, passou os dedos pela tampa da caixa.
Guardou a outra metade no banco do passageiro.
Só dentro do carro percebeu o que havia feito.
Ficou olhando para a caixa e depois para a fotografia no porta-luvas.
Ademir, sete anos.
O último aniversário antes de tudo mudar.
Encostou os dedos na tampa da caixa mais uma vez e ligou o carro.
Na estrada, depois do pedágio de Ponta Grossa, começou a chover. Ligou o rádio, mas o desligou quase imediatamente. Abriu um pouco a janela, e o vento frio entrou no carro.
Foi então que sentiu o cheiro.
Café forte, recém-passado.
Ademir olhou para o banco do passageiro.
Estava vazio.
Olhou para o retrovisor, onde a estrada desaparecia sob a chuva.
O cheiro continuava.
Segurou o volante com as duas mãos.
Os dedos cheiravam a café.
Ademir não parou.