quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O JARDIM DE MATINHOS

O JARDIM DE MATINHOS
Tadeu Everton Zamoiski Riviera



Eu não acredito em planta que sente dor. Planta sofre com praga, com sol demais, com raiz entupindo cano. Dor é coisa de gente.

Foi o que eu falei pro velho do chapéu no primeiro dia. Meu nome é Cleuza. 54 anos, dois joelhos ruins e uma Kombi branca que só pega na segunda tentativa. Faço jardinagem na Riviera há vinte anos.

Me chamaram pra limpar a casa da Rua das Palmeiras, 47, antes de vender. A dona morreu. Casa antiga. Madeira comida de maresia. Terreno enorme nos fundos.

No meio do mato, um retângulo capinado. Diferente do resto. Como se alguém tivesse cuidado daquilo até semana passada.

— Isso aqui quem plantou?

— Dona Lúcia. A mãe da moça. Vinha todo mês só pra mexer ali.

No primeiro palmo, a enxada bateu em terra fofa. Um saco plástico preto.

Dentro, fotos de um homem magro, de bigode, com uma criança no colo. Reconheci a criança pela pintinha no queixo. Era a filha que me contratou, mais nova. No mesmo saco, enrolado num guardanapo, um anel de noivado. E atrás da foto: "Guaratuba, 78 -"

Só isso. O resto apagado de tanto dedo.

No dia seguinte, brotou uma flor ali. Tipo copo-de-leite, torta. Com uma mancha que parecia bigode. O homem da foto.

— Que praga é essa, Cleuza?

— É fungo.

Continuei cavando. Mais fundo, começou um som curto, abafado, vindo da terra. Como choro abafado por terra. Achei que era bicho. Mas bicho não chora assim.

No palmo seguinte, uma caixinha de remédio vazia. Receita amarelada. "Maria da Glória - parteira. Pra secar o leite. 1971. Tomar 2 por dia."

Quando tirei a caixinha, as flores mudaram. Não era mais só o homem de bigode. Tinha outras agora, espalhadas pelo canteiro. Umas tinham cara de menina, outras a boca torta. Todas viradas pra casa. É fungo, eu pensei já sem acreditar.

No meio da semana, a filha me ligou.

— Dona Cleuza, deu muito trabalho aí no terreno?

— Só mato.

No fundo, quase um metro abaixo da caixinha da parteira, a enxada bateu numa caixa de madeira, do tamanho de uma de sapato. Pesada.

Dentro, ossos pequenos. E uma pulseirinha de hospital. Nome: Lúcia. Data: 12/03/1971. E embaixo, com a mesma letra do verso da foto:

"Lúcia, como eu. Que"

Só isso.

Levei pra filha, na Caiobá.

Ela pegou a pulseirinha e ficou olhando a letra.

— É a letra dela. Reconheço de cor. Era assim que escrevia as listas de mercado. Ela dizia que tinha perdido um bebê antes de eu nascer.

Ela ficou olhando pra pulseirinha como se tivesse achado uma foto dela que nunca existiu.

Voltamos juntas pra Riviera. Ela queria arrancar tudo.

O jardim já tinha saído do canteiro.

Em duas semanas, tava na grama, na fresta da calçada, subindo pela parede de madeira.

O mais bonito da Riviera.

A corretora passava e elogiava. Algumas pessoas comentavam baixinho e iam embora.

No meio de tudo, no centro do canteiro original, tinha uma flor enorme, vermelha. Com o rosto da Dona Lúcia mais nova. A de 1971.

Quando cheguei com a enxada, a pétala se fechou um pouco. A seiva subiu escura pelo cabo. Quente. Cheirava a leite azedo e talco de bebê. Daquele Johnson rosa antigo. Minha mão tremeu no cabo. Larguei.

A filha ficou em pé, na frente da flor vermelha.

— Ela sorria assim nas fotos antigas — ela disse. — Antes de eu nascer.

No dia seguinte a placa de VENDE-SE sumiu.

— Deixa — ela me disse no telefone. — Se ela quis guardar, deixa guardado lá.

Disse "guardado". Não "enterrado".

Hoje eu passo na frente às vezes. A casa fechada. O jardim lindo.

Cheio de flores com rostos. Todas viradas pro sol.

Menos a vermelha. A vermelha tá sempre virada pra rua. Mesmo quando o sol tá nas costas.

Ontem o velho do chapéu me parou no portão.

— Voltou a ouvir?

Eu não respondi.

Na saída, fui dar partida na Kombi. Pegou de primeira.

Isso nunca aconteceu.

Quando olhei no retrovisor pra sair, vi terra fofa, preta, de canteiro, no banco do passageiro.

Eu não acredito em planta que sente dor.

Mas comecei a achar que tem planta que não esquece.

O Cinema de Ipanema

O Cinema de Ipanema
Pontal do Paraná / Ipanema Tadeu Everton Zamoiski

Ipanema fora de temporada não existe. É só vento e placa de vende-se. E cachorro magro.

Me chamaram porque o Seu Olavo morreu no banheiro do cinema. Afogado. Três dias lá até o filho sentir o cheiro. O banheiro de homem fede a mijo seco e desinfetante barato. Porta riscada com letra caprichada: "Sentado na privada sinto uma emoção profunda: a bosta bate na água e a água bate na bunda."

O projetor ficou sem ninguém que soubesse fazer ele não mastigar o filme.

Aceitei porque estava devendo na farmácia. Fazia três meses que eu tinha largado o Rivotril. Não parei. Só diminuí. Misturava com Velho Barreiro. Dois goles para cada meio comprimido. Ficava no ponto. Nem bêbado, nem acordado. Só menos eu.

O Cine Mar é de madeira. Azul que já foi azul. Na sala, cheiro de pipoca velha requentada e aquele aromatizador de tomada, cheiro de talco de bebê, doce que enjoa e gruda na língua. Na cabine, tapete molhado, óleo de máquina, poeira, filme grudando no dedo. A lâmpada esquenta a mão.

Na porta, cartaz torto de pincel atômico: HOJE 20H - A LAGOA AZUL.

— Seu Olavo passava isso direto — falou o filho, e me entregou uma chave pequena, enferrujada. — Ele guardava dentro da lata. Dizia que era para ninguém roubar a projeção. A chave do cadeado da porta. Tranca quando sair.

— Ninguém vem ver isso.

— Vem. Sempre vem uns dois, três. Gente esquisita.

Na cabine, três latas. Uma estava rodando no projetor, outra já estava preparada para a troca e uma terceira encostada no canto, cheia de pó. Na lata de cima, etiqueta trêmula do Seu Olavo: NÃO PASSAR DE NOVO. JÁ COBROU. Na emenda da fita, esmalte vermelho seco. Tec-tec-tec-tec.

Veio a Dona Célia, de boina mesmo com o abafado, e um piá de uns dez anos com um boné do Banestado desbotado, aquele B bordado torto, de banco que nem existe mais.

Apaguei a luz. Quando a luz bateu na tela, subiu aquele cheiro de mar preso em lata. Sal e lodo. Mais forte que o talco.

Na cena da jangada, a imagem queimou um segundo. Quando voltou, por um frame, não era Brooke Shields. Era um velho de rosto na água suja do vaso. Depois, no frame seguinte, uma senhora de boina dentro da banheira. Água no nariz.

A Dona Célia levantou no meio do filme. Sem falar nada. Deixou a bolsa na cadeira. Saiu.

Continuei passando o filme. Tec-tec-tec-tec. Fingi que não tinha visto.

De manhã o João da farmácia me cutucou no balcão.

— Soube da Célia? Afogada na banheira ontem de noite. Sozinha.

Fui para a cabine. Rebobinei o rolo na mão. A fita estava úmida. Lá estava. O banheiro, a Dona Célia. Antes dela, o Seu Olavo, de rosto na água.

Abri a bolsa dela, que tinha ficado na sala. Dentro, um ingresso antigo do Cine Mar, de 1987. Todo molhado, pingando. No verso, a caneta: Célia + Olavo - 12/07/87.

Na segunda noite botei TUBARÃO porque era o que estava na lata já montada. Vieram o mesmo piá e um casal de Curitiba de Havaianas. A mulher com a toalha molhada no ombro, reclamando do preço da pipoca que nem tinha.

— Tem pipoca?

— Não.

— Achei que tinha.

Na cena do piá da boia amarela, o projetor engasgou e a imagem queimou, a tela ficou branca e doeu no olho, depois voltou manchada. Tec... tec...... tec.

O que boiava de costas não era o ator. Era o piá da plateia. De boné. Na mesma boia amarela. Olho aberto. Boca cheia d'água suja.

Gritei lá de cima que a lâmpada tinha queimado.

O piá ficou sentado. Virou a cara para a cabine. Apertou a borda da cadeira com as duas mãos. Unha branca.

De manhã a mãe dele gritava na Rua das Sereias. Acharam ele na valeta da frente da igreja. Trinta centímetros de água suja.

Fiquei sentado na escada da farmácia até o meio-dia. Boca seca. Fiquei repetindo: eu deixei ele sentado. Quando varreram a sala, peguei o boné dele que tinha ficado na cadeira e enfiei na mochila. Não sei por quê.

Só de tarde abri todas as latas na bancada. Mão suada escorregando no metal. Em cada filme, um frame colado com aquele mesmo esmalte vermelho. No Tubarão, o piá. Na Lagoa Azul, a Célia e o Seu Olavo. Na terceira lata, CONTA COMIGO, um frame do casal de Curitiba. Os dois deitados na areia. Boca cheia de areia.

Na terceira noite voltei para a cabine. No balcão da entrada, quebrei meio Rivotril no dente e empurrei com um gole de Velho Barreiro.

A mão tremia tanto que não achava o plugue. Liguei só para testar.

A luz vazou pela fresta. Foi vista da rua.

Bateram 19h50.

O casal de Curitiba.

— Vai ter?

— Não vai. Fechou.

— Mas está passando. A gente viu da rua, está passando.

Na tela estava eu no chão da cabine, de rosto no chão, com água preta saindo da boca.

Arranquei o plugue com as duas mãos. O cheiro de mar fechado voltou, mais forte que o talco, que o mijo.

O projetor continuou rodando no escuro.

Tec-tec-tec-tec.

Abri a lata de A LAGOA AZUL ainda na cabine, soltei a chave do cadeado lá dentro e larguei tudo girando. Ouvi o metal bater no fundo da lata. Saí e deixei a porta só encostada.

Fui embora a pé pela PR. Não olhei para trás.

Uma semana depois o filho do Seu Olavo me ligou.

— Ô, você fechou direito? O vizinho disse que está com luz acesa de madrugada.

— Vendi.

— Para quem?

Desliguei. Tirei o chip.

Ontem estava no terminal de Paranaguá, esperando o circular para Matinhos que só saía às 20h15. Na fila, duas cadeiras na frente, o casal de Curitiba. Com areia grudada na canela, olhando fixo para a banca de pastel. O piá não estava. Só o boné em cima da cadeira vazia. Pingando.

O mesmo boné que eu tinha enfiado na mochila.

Na banca, cartaz novo colado com durex.

CINE MAR - NOVA DIREÇÃO - IPANEMA - HOJE 20H - A HISTÓRIA SEM FIM - ENTRADA FRANCA.

Embaixo, com a mesma letra trêmula da etiqueta, mas com a minha pressa:

HOJE TEM PROJEÇÃO ESPECIAL PARA VOCÊ.

O Pescador de Guaratuba

O Pescador de Guaratuba

Guaratuba, Paraná Tadeu Everton Zamoiski

Guaratuba não tem mar. Tem boca. Foi meu avô Aníbal que me ensinou isso. Ele morreu em 88, três dias depois de me tirar vivo da boca da barra. Eu tinha dez anos. O dente da frente dele tinha uma falha igual à minha.

Eu sou João Batista. Não por causa do santo. Porque meu pai achou bonito. Nasci em 78. Tenho 48. Pesco desde os nove. Minha baleeira é a LURDES II, azul e branco, com o nome já quase apagado na popa. Todo dia saía quatro da manhã. Passava na Igreja do Porto, molhava o dedo na garrafinha de água benta que a Lurdes deixava na proa, benzia a testa e ia.

Dia 17 de maio o rádio disse que ia ventar. Só ventar. Aqui quando falam só ventar, pode se preparar que o céu fecha em dez minutos e a água fica preta de óleo queimado. Era safra de tainha. Tainha gorda de maio.

Eu já tava fora. Na boca da barra. A mesma boca que levou meu avô. A rede veio estufada. Tainha se debatendo, batendo no fundo do barco. Gritei alto:

— Obrigado, meu Deus!

A água me respondeu.

Veio de sudoeste uma parede preta d'água com aquela renda branca em cima rasgando. O vento arrancou meu boné. O céu ficou verde de machucado. O motor da LURDES II tossiu duas vezes e morreu. Fiquei no remo.

Primeira onda me deitou. Segunda me encheu até a metade. Água na boca, no nariz, no olho. Sal que arde. Gritei Lurdes. Gritei Ana. Depois gritei qualquer coisa, só pra não ficar quieto.

E foi ali que eu fiz merda.

Eu não rezei. Eu negociei.

Dei um tapa na borda do barco, com água na cara, e falei pra baixo, pra água, como se fala pra cachorro bravo que vai morder:

— Me deixa voltar. Me deixa voltar que eu te dou o que você quiser.

O mar parou. Um segundo só. Juro por Deus que parou. No meio daquele inferno todo, o barco ficou parado. Liso. E boiou na minha frente uma boia velha, de isopor, toda comida de craca. A boia do meu avô. Eu conhecia de criança. O barco dele se chamava ANINHA. Nome da minha avó. Minha filha Ana herdou o nome dela. Ele escrevia o nome de caneta azul em tudo que era dele.

Na boia só dava pra ver ANI... o resto a craca comeu. Mas eu li certo. Tava escrito ANINHA.

Aí o vento voltou. O motor pegou. Sozinho. Tec-tec-tec e pegou.

Me empurrou pra dentro da baía feito mão de gigante empurrando pelas costas. Cheguei no cais vomitando água e peixe. A Lurdes me abraçou. Eu chorava no ombro dela que nem piá. A Ana perguntou por que eu tava chorando.

De noite a Ana pegou febre. Quarenta. A Lurdes botou pano frio, deu dipirona, levou no postinho. Nada. A menina delirava. Falava baixinho:

— Pai, tá frio na água. Tá frio.

No terceiro dia eu não aguentava mais.

Fui na Igreja do Porto. Confessei pro Padre Ivo.

— Fiz um pacto.

Ele me olhou por cima dos óculos. Ficou quieto um tempo.

— Igual seu avô, João. Em 88. No dia que ele te trouxe de volta vivo da boca da barra. Você ficou com febre de quarenta por três dias. Ele me contou na porta da igreja, antes de voltar pro barco, que tinha falado igualzinho: "me deixa voltar que eu te dou o que você quiser". No fim da febre, o mar levou ele.

Eu não sabia. Nunca me contaram.

Me deu dez Ave-Marias e mandou eu parar de beber. Eu não bebo. Eu só pesco.

Voltei pra casa. Ana tava pior. Lábio roxo. Unha roxa. E a casa inteira cheirando a mar, mesmo com janela fechada. A Lurdes me olhou e já sabia.

— O que você trouxe, João?

Contei. Ela não gritou. Sentou no chão da cozinha e botou a mão na boca.

— Devolve, João. Devolve pedindo.

Mar não devolve.

Meu avô contava que lá no Poço das Pedras, em 71, o filho do Seu Antônio caiu na rede e não voltava. Ele pegou o cachorro do vizinho, botou no barco e jogou no meio da baía. O cachorro se afogou e o menino melhorou no hospital em Paranaguá na mesma hora. Ele dizia: a boca tem que comer, mas aceita troca.

Pensei no Seu Olavo, do mercado. Velho ruim. Batia na mulher, roubava no peso do camarão. Pensei: levo ele.

De madrugada peguei a LURDES II. Sem lamparina. Bati na porta dele.

— Olavo, me ajuda na rede?

Ele saiu de cueca, fedendo a cachaça. Magro, seco.

— Que horas são, caralho?

Levei ele pro barco. Leve feito graveto. Parei no meio da baía, em frente ao Morro do Cristo, onde a água fica mais preta.

— O que cê tá fazendo, João?

Ele se agarrou na borda com as duas mãos e começou a rezar baixinho, um Pai-Nosso atropelado. No cais, a luz da casa dele acendeu. A mulher dele na janela.

Não consegui. Liguei o motor. Deixei ele no cais.

Me xingou até eu sumir na neblina.

Voltei pra casa. Ana tava sentada na cama. Sem febre nenhuma. Brincando de boneca. Me viu e riu. Atrás dela, no canto do quarto, tinha uma mancha na parede que nunca teve. Em formato de homem. Alta. Pingando água. A silhueta do meu avô.

A mancha olhou pra mim e começou a abrir no meio. Não era mais homem. Virou boca.

A Lurdes tossiu na cozinha. Uma tosse funda, de dentro.

Corri. Ela tava em pé, com a mão no peito, com água saindo pelo nariz. Primeiro clara. Depois escura, de lodo.

Botei a mão no rosto dela. Ficou salgada.

— Não — falei pra boca na parede. Pro mar que tava dentro da minha casa. — Não ela. Eu. Eu que fiz o pacto. Pega eu.

A boca cresceu. Tomou a parede inteira. O cheiro de lodo tomou a casa toda. Aí a Lurdes parou de tossir. A água parou.

Ana me chamou da cama:

— Pai, quem é o moço molhado atrás de você?

Dentro da boca na parede tinha um barco desenhado. A LURDES II.

Peguei a Ana no colo. Tava quente, normal. Cheirando a criança. Beijei a testa dela. Falei pra Lurdes:

— Leva ela pra casa da tua mãe hoje. Não volta antes de amanhã.

— João, o que você vai fazer?

— Pagar.

Saí de madrugada. Sozinho. Sem benção. Deixei a garrafinha de água benta no cais. Se o mar quer, que venha sem reza.

Fui até o mesmo ponto. A boca da barra. Desliguei o motor. Tirei a camisa. O mar tava liso, igual vidro sujo. Sem vento nenhum. E mesmo assim o barco balançava.

Eu entrei.

A água tava tão gelada que queimava. Não afundei. Ela me segurou em pé, até a cintura, como se fosse chão. E debaixo d'água eu vi eles. Pescador antigo de chapéu de palha, criança afogada, mulher de toalha molhada. Todo mundo olhando pra cima. Imóvel.

Na frente de todos, tava meu avô Aníbal. Com a falha no dente. Me esperando.

A LURDES II ficou boiando vazia em cima, com o nome descascado.

A última coisa que senti antes da água entrar de vez foi a mãozinha da Ana na minha, quando ela tinha dois aninhos e eu ensinava ela a dar tchau. Fechei a mão, com força, como se a dela ainda tivesse ali dentro.

Ouvi a voz da Ana atravessando a água, gritando: "Mãe! O barco do pai voltou sozinho!" Ouvi as tainhas batendo. E por baixo, ouvi o motor da LURDES II pegar sozinho de novo. Tec-tec-tec.



A LURDES II tava amarrada no cais. Perfeita. Seca. Cheia. Dezoito caixas de tainha gorda, pulando, batendo. Trezentos quilos. Na banca do Olavo, no Mercado Municipal, a tainha fresca tava saindo a R$ 18,90 o quilo naquela semana de maio. Dava mais de cinco mil reais de peixe.

Em cima da tainha tinha meu boné. Pingando.

A Ana pegou e botou na cabeça. Ficou grande.

A Lurdes pegou a garrafinha de água benta no cais, molhou o dedo e benzeu a testa da Ana.

O mar tava liso e azul, de boca fechada.

A Voz do Mangue

A Voz do Mangue
Tadeu Everton Zamoiski Guaratuba

Guaratuba não tem noite. Tem mangue.

Eu voltei porque minha mãe morreu. Semana passada. Ficou na casa da Rua da Praia dizendo que era friagem. Madeira que já foi azul.

Eu tinha oito anos quando o Léo sumiu. Meu irmão. Dez. A gente brincava de atravessar o mangue na maré baixa. Minha mãe gritava: não vai, que a lama come.

Naquele dia a maré subiu rápido demais. Ele ficou preso. Eu vi a lama subir no joelho, depois na cintura. Eu não fiz nada. Corri. Me escondi atrás da caixa-d'água. Quando contei, já era tarde. Só acharam o boné.

Seu Valdir apareceu no dia seguinte com preço. Menina, ninguém compra casa com quintal para o mangue. Isso aqui a gente aluga para os de fora. Para os curitibanos. Dona Nica veio atrás, com café sem açúcar.

Na primeira noite eu ouvi.

— Lia?

Veio da cozinha, mas vinha do quintal.

— Estou com frio.

Ele tinha um jeito de falar meu nome. Liiiia. Fui até a porta dos fundos. A maré estava cheia, preta. Sem lua. O mangue soltou um pum de gás. Cheiro de ovo podre.

Fechei a porta. Tranquei.

De manhã Dona Nica olhou para o quintal.

— Ouviu, né?

— O quê?

Ela não respondeu.

Na segunda noite ele chorou.

— Lia, por que você me deixou?

Fiquei sentada no chão da cozinha, de costas para a porta, com a luz acesa. Falei alto pela primeira vez desde os oito anos.

— Eu tive medo.

Ficou quieto. Aí a voz afundou.

— Traz ele.

Não dormi.

Na terceira noite acordei com a galocha da minha mãe no pé. Morna. O quintal puxava. Cada passo grudava. Fui até onde a água é preta e não reflete nada.

— Léo?

A lama abriu. Não como água.

Tinha gente ali embaixo, com o olho aberto. E ele no meio. Não com dez anos. Trinta e dois. Barba de lama. Estendeu a mão. Estava limpa.

Eu não dei.

Deitei. De costas. Deixei subir no tornozelo, no joelho, na barriga. Fria, depois morna. Entrou no meu nariz. Na boca. Cantei baixinho. A música que minha mãe cantava quando o mangue fazia barulho. A garganta queimou.

Ele chorou.

A lama parou. Não desceu.

De manhã me acharam suja até o peito, com a boca cheia de barro, abraçada com o boné dele. O boné estava limpo demais.

Seu Valdir veio com o trator. Vamos aterrar isso aqui, menina.

Eu falei: não. Deixa.

Ontem sumiu um turista no Cabaraquara. Disseram que foi cachaça. Dona Nica me olhou da janela e fez o sinal da cruz.

Hoje a pia estava cheia de lama preta. A torneira fechada. Fechada.

Agora tem água correndo dentro das paredes. Tic, tic, dentro do reboco.

Dona Nica bateu. Nem entrou.

— Chamou?

— Ainda não.

O Cão da Praia de Leste

O Cão da Praia de Leste
Tadeu Everton Zamoiski
Praia de Leste

Praia de Leste em outubro não é praia. É vento e casa fechada.
Aluguei a mais barata da Rua do Coro, no OLX. A Marcia falou, Tadeu, você precisa sair de Curitiba. Eu passei a ficar sentado no chão, na frente da porta do quarto do Rafael.
O Rafael fez dezessete em fevereiro. Em março me ligaram. Acidente na 277, foi o que me disseram. Eu não fui ver. Não deixaram. Ou eu não quis. Só me entregaram uma urna lacrada depois. Nunca abri.
No terceiro dia o cão apareceu.
Não ouvi ele chegar. Ele tava sentado no fim do meu deck podre, olhando pro mar. Grande, amarelo sujo de praia, pelo duro de sal, uma orelha rasgada no meio. Magro mas não fraco. O olho era amarelo, quase marrom. Olho que te mede.
Falei, vaza.
Ele abanou o rabo uma vez só. Seco.
Eu tava comendo pão com mortadela. Dei metade. Foi assim que fechei contrato sem saber.
De manhã ele já tava na porta. Me seguiu pra areia. Fora de temporada a praia aqui é larga demais, você se sente pequeno. O vento apaga sua pegada enquanto você ainda tá fazendo ela. Ele ia uns dez metros na frente, parava, olhava pra trás pra ver se eu vinha. Se eu parava, latia. Um latido curto.
Perto do canal ele parou. Farejou, cavou, parou, escutou, cavou de novo. A areia voava entre as pernas traseiras. Eu fiquei com a mão no bolso do moletom, olhando.
Aí apareceu o branco.
Não era concha.
Era osso. Depois outro. O cheiro veio depois. Doce e velho, guardado pela areia fria.
Chamei a polícia de Pontal. Vieram duas viaturas. Trouxeram uma pá. Quando abriram mais, juntou gente. Um pescador velho ficou olhando e falou, essa aí é a mulher do lote do seu Valdomiro. A do verão.
No dia seguinte ele já tava na porta.
A gente andou muito até as pedras do Ipanema. A praia estica, o vento fica mais forte, a areia bate na canela e dói. Ele na frente, eu atrás.
Onde o mar deixa aquele lodo preto que fede, ele parou. Farejou e começou a cavar. Dessa vez mais rápido. Eu falei não. Falei chega. Ele cavou mais rápido ainda.
Era pequeno.
Deus do céu, era pequena.
Eu vomitei de joelho. O Jeferson chegou depois. Bigodinho dos anos oitenta. Me olhou e falou, outro, Tadeu?
Não é meu cachorro, eu disse.
Ele anotou num caderninho e falou, cachorro não acha defunto de dois anos enterrado desse jeito. Alguém enterrou e alguém desenterrou antes. Fica por aqui, não viaja.
Na terceira noite deixei a porta aberta. Ele entrou e deitou no pé da cama. Fiquei ali passando a mão naquele pelo duro. Falei do Rafael em voz alta pela primeira vez sem estar na frente de uma porta fechada. Falei que não fui ver. Que assinei os papéis que a Marcia me deu. Que eu precisava saber o que tinha dentro daquela urna e ao mesmo tempo rezei pra nunca saber.
Ele só ficou ali.
De manhã tinha aquela chuva de Pontal que não cai. Ela fica no ar e te encharca sem você ver. Ele me esperou na porta. Andamos até o fim de tudo, onde Praia de Leste acaba e vira mangue, areia fofa que puxa seu pé. Lugar onde ninguém vai nem em janeiro. O vento trazia sacola, pedaço de isopor, cheiro de esgoto.
Ele parou num pedaço liso. Sem pegada. Só areia batida de chuva.
E deitou. Deitou comprido, cobrindo aquele chão com o corpo dele.
Ele não saiu.
Cavei com a mão. A areia tava gelada, pesada, cheia d'água. Minha unha quebrou logo, entrou areia embaixo. Cavei como bicho mesmo. Como ele.
Achei o plástico. Saco preto duplo, de obra.
Rasguei.
O tênis vermelho. All Star, 41, desbotado. Eu dei no Natal. Ele falou que apertava o dedão e usou igual.
A calça jeans rasgada no joelho. De uso.
A camiseta do Coxa. Que ele usava pra dormir e a Marcia reclamava que tava larga demais.
E ele.
Era ele. Parecia que tinha dormido na praia e pegado friagem. Não tinha nada de moto. Nada de asfalto.
Meu celular vibrou no bolso. MARCIA.
Nunca abri aquela urna. Vai ver não tinha nada lá dentro. Ou teve areia. Ou me entregaram a história que era mais fácil de contar.
O cão levantou. Veio até mim, encostou o focinho na minha mão suja de areia. Depois sentou do meu lado, olhando pro mar cinza.
Eu fiquei ali sentado com o tênis vermelho do meu filho na mão.
Eu só tinha vento.