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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Cemitério de Guaraqueçaba

O Cemitério de Guaraqueçaba 
Tadeu Everton Zamoiski 
Guaraqueçaba

O cemitério de Guaraqueçaba não tem muro. Não precisa. O mato faz o muro.

Atrás da igreja, onde a rua de paralelepípedo acaba e começa a trilha pro mangue, tem um portão de ferro que não fecha mais. Ferrugem comeu a dobradiça. Ninguém rouba de cemitério. O que tem pra roubar?

Meu nome é Nilo. Tenho 58 anos. Sou coveiro aqui há 23. Não sou coveiro porque gosto de defunto. Sou porque meu pai foi. Meu avô foi. Em Guaraqueçaba, coveiro não é profissão. É sobrenome.

Eu não acredito em assombração. Acredito em conta. Conta de luz. Conta de ter que abrir cova às cinco da manhã porque choveu a semana toda e o barro não deixa. Acredito em dor na coluna. E acredito que defunto não reclama. Vivo reclama muito mais.

Tem uma lápide no canto mais velho. Lápide de pedra preta, daquelas que não são daqui. Alguém trouxe de Paranaguá há muito tempo. Não tem cruz. Não tem foto. Só um nome entalhado torto, como se quem fez não soubesse escrever direito.

Quando eu comecei aqui, em 2003, o nome era ALMERINDA R.

Eu nunca apaguei. Deixei. Almerinda deve ter morrido antes de eu nascer. Deixa lá.

Só que em março desse ano, na terça depois do carnaval, eu cheguei cedo pra capinar. Orvalho no capim, cheiro de terra molhada com mangue. Olhei pra lápide.

Não tava mais ALMERINDA R.

Tava ELIAS R.

Elias Ribeiro. Dono da venda da esquina da praça.

Eu limpei o olho com a manga da camisa. Passei a enxada em cima, de leve, pra tirar o limo. A pedra continuou ELIAS R.

No outro dia, Elias morreu. Infarto na frente da venda. Caiu em cima do saco de arroz.

Na quinta, fui de novo. Não queria ir. Mas fui.

MARLENE C.

Marlene Cordeiro. Professora da creche. 39 anos.

Marlene passou por mim na rua no mesmo dia, com as apostilas na mão. Me deu bom-dia.

Na sexta, Marlene não deu bom-dia. Não voltou de Tagaçaba. Dizem que a moto falhou na curva. Guaraqueçaba diz essas coisas.

Comecei a anotar num caderninho de armazém que eu uso pra contar quantas covas abri no mês. Letra minha, feia, de quem escreve pouco:

Segunda: ELIAS R - morreu. Quinta: MARLENE C - morreu. Sexta: JOÃO P.

João Paulo. Meu sobrinho. 19 anos. Filho da minha irmã.

Eu larguei a enxada no meio do cemitério e corri. Corri descalço quase, pela trilha, até a casa dele.

Ele tava na rede, no celular, descalço, com o pé sujo de mangue.

— Tio Nilo tá suado.

— Não vai pro mangue amanhã. Não vai buscar siri. Fica em casa.

Ele riu. "Tio tá doido. Maré tá boa amanhã".

No sábado, maré baixa. Ele foi.

O mangue puxou. Quem é de Guaraqueçaba sabe. O mangue não é lama. É mão. Quando você afunda o pé, ele segura. João atolou até o joelho. A maré subiu por cima.

Quando acharam, só a cabeça tava pra fora. Como se o mangue tivesse plantado ele.

Enterrei meu sobrinho na cova que eu mesmo abri. Com a mesma enxada que eu capino a lápide. Minha irmã não falou comigo no enterro. Achou que eu roguei praga.

No domingo, não fui no cemitério. Fiquei em casa, com a porta trancada, cheiro de café requentado. Minha mulher perguntou o que eu tinha. Eu não soube explicar.

Na segunda, fui. Tinha que ir. O mato não espera.

A pedra tava limpa. Lavada com água de chuva.

NILO R.

Meu nome. Meu sobrenome torto, escrito do mesmo jeito torto de Almerinda.

Sentei no chão. O chão tava úmido. Minha coluna doeu. Olhei pro portão de ferro que não fecha. Olhei pro mangue. Guaraqueçaba inteira tava quieta.

Tinha um dia.

Pensei em fugir. Pegar o barco pra Paranaguá. Mas a pedra sempre me achava. Ia me achar de novo.

Pensei em quebrar. Peguei a marreta. Levantei. Quando encostei a marreta na pedra preta, a pedra tava quente. Quente por dentro, mesmo com o dia nublado, mesmo com o sereno. Quente como brasa abafada.

Larguei a marreta.

Aí fiz coisa de teimoso. Coisa de coveiro supersticioso.

Se a pedra não quer ficar em pé, então vai pro chão.

Comecei a cavar do lado dela. Um buraco fundo, do tamanho da pedra. Pra enterrar a lápide. Pra enterrar o nome.

Cavei até a camisa grudar nas costas. Até a mão abrir bolha e a bolha estourar e virar sangue com terra preta.

Joguei a pedra preta dentro do buraco. De bruços. Nome pra baixo, pra terra comer.

Tampei. Pisei em cima. Socando com o pé.

Pronto. Acabou.

Fui tomar água no galpão. Quando voltei, cinco minutos depois, a terra tava mexida.

A pedra tava de volta em pé. No mesmo lugar. Só que lisa. Sem nome. Como se nunca tivesse tido nome nenhum.

E do lado dela, a cova velha — aquela que tava fechada há 50 anos com grama por cima, que ninguém abre porque é de criança — tava aberta.

Aberta sozinha. Terra fofa em volta, cheirando a ferro e mangue. Fundo escuro. Do meu tamanho exato.

E dentro, água preta do mangue subindo devagar, borbulhando.

Eu tinha apagado meu nome. Mas Guaraqueçaba não apaga cova.

Fiquei ali olhando a água subir. Se eu corresse, o mangue ia me buscar na trilha mesmo. Se eu ficasse, ia me buscar aqui.

Então fiz a única coisa que um teimoso faz.

Deitei.

Deitei dentro da minha própria cova, com a roupa suja de terra, com a mão sangrando, com cheiro de Almerinda, de Elias, de Marlene, de João.

A água preta do mangue tava fria. Subiu no meu tornozelo. No meu joelho.

Fechei o olho.

A última coisa que ouvi não foi a pedra escrevendo.

Foi o mato crescendo por cima de mim, fazendo o muro.

RIVIERA

RIVIERA 

Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos 

Riviera de dia é placa de vende-se. De noite é breu e grilo.

Fui caseiro temporário. Dona de Curitiba me pagou trezentos pra olhar casa três dias. Chave grande, portão de madeira que incha na chuva. Casa de dois andares, cerâmica gelada, cheiro de casa fechada que não sai nem abrindo janela.

Primeira noite luz da rua queimada. Só a minha acesa no meio do escuro. Na frente, outra casa igual, janelas pretas. No muro, placa desbotada: BALNEÁRIO RIVIERA.

Fiquei na varanda com Velho Barreiro. Mar barulho longe. Cachorro magro passou e não latiu.

Segunda noite, de madrugada, barulho de chinelo arrastando na rua. Levantei. Rua vazia, areia úmida. Pegada molhada indo da minha porta pra casa da frente. Molhada, mesmo sem chuva.

Voltei, tranquei.

No espelho do banheiro, marca de mão na porta de vidro por dentro. Pequena, criança. Eu tinha limpado de manhã.

Terceira noite dona não atendeu pra devolver chave. Fiquei.

Deitei e ouvi casa da frente abrir. Porta de correr. Sem luz. Vi da fresta da cortina: mulher de camisola branca na varanda da frente, cabelo preto molhado, parada olhando pra minha casa. Esmalte vermelho descascado.

Não acendi luz. Ela ficou lá meia hora. Imóvel. Depois entrou.

De manhã fui lá. Casa fechada, cadeado enferrujado por fora. Areia na porta sem pegada. No vidro da janela, por dentro, mesma mãozinha. E escrito com dedo: VOLTA.

Voltei pra Curitiba à tarde, deixei chave na imobiliária de Ipanema. Moça nem olhou: "Riviera, né? Sempre deixam antes."

Hoje, três meses depois, acordei de madrugada com chinelo arrastando no corredor da minha casa aqui em Riviera. Tava na rede, olhando o verde do quintal. Sem areia da praia, mas com o mesmo barulho de chinelo na casa.

No espelho do banheiro, marca de mão pequena. Por dentro.

No meu celular, foto que não tirei. Minha rede aqui em Riviera, de noite. O verde do quintal lá atrás. Na rua lá embaixo, mulher de camisola branca olhando pra cima. Esmalte vermelho.

Na legenda da foto, escrita com meu dedo mas não fui eu:

"Você trouxe a chave."

O LADO B

O LADO B
Tadeu Everton Zamoiski
Pontal do Paraná / Praia de Leste

Beira da estrada velha, chão batido
A canção que a criança aprende antes de nascer.

O carro morreu na subida de areia. Não foi dramático. Só fez nhoc e apagou.

Era um Corsa velho, 98, com o banco do carona quebrado pra trás. Eu tinha oito meses de barriga e trinta e sete reais no bolso. O celular sem sinal desde o balneário Shangri-lá. A estrada velha de Praia de Leste, aquela que ninguém usa mais depois que asfaltaram a outra.

O Beto me achou às cinco da tarde. Me deu dois tapas porque eu queimei o arroz. Na segunda ele jogou o prato na parede. Na terça disse que se eu fosse embora ia me achar. Na quarta eu fui.

Dirigi quatro horas com a calcinha molhada de medo e a bexiga apertando o bebê. Agora o carro não ligava. A chave virava e nada.

Na minha frente, uma luz amarela. Um bar.

Não tinha nome. Só um quadrado de madeira com telha de Brasilit, chão de terra batida mesmo, compactada de tanto pé. Uma lâmpada nua pendurada por um fio. Uma mesa de madeira crua com marca de cigarro. Um freezer velho desligado.

E uma jukebox.

Wurlitzer. Daquelas grandes, com plástico bolha na frente, luz que gira. Só que suja, cheia de barro seco na base. Não tava ligada na tomada. O fio atrás tava cortado, enrolado.

O velho atrás do balcão não perguntou nada. Devia ter uns oitenta anos, pele de couro. Me olhou de cima a baixo, olhou minha barriga, e só fez que sim com a cabeça.

— Tem água? — eu perguntei.

Ele me deu um copo de plástico com água morna. Cheirava a poço.

Eu sentei. O banco de madeira tava quente do sol do dia todo. Minhas pernas incharam. Minha calça legging grudava.

— Seu carro?

— Morreu.

— Amanhã o guincho passa. Se passar.

Eu comecei a chorar. Sem som. Só as lágrimas descendo.

Foi aí que a jukebox acendeu.

Sozinha.

Click. Uma luzinha fraca. O disco de dentro começou a girar. Não tinha ficha. Não tinha ninguém perto.

E tocou.

Não era sertanejo, não era rádio. Era uma valsa. Lenta. Piano velho e uma mulher cantando baixo, em português mas com sotaque esquisito, como se fosse de muito antigamente.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Quando o primeiro acorde fez pam-pam-pam, o bebê chutou.

No tempo.

Eu levei a mão na barriga automaticamente.

— Ai.

O velho me olhou.

— Ela gostou.

— O que é isso?

— Lado B.

A música continuou. E o bebê continuou marcando. Cada nota grave do piano, um chute. A voz da mulher fazia um vibrato e o bebê virava dentro de mim.

Me deu ânsia. Aquela sensação de corpo invadido que você tem a gravidez inteira mas tenta não pensar. De que tem uma coisa viva usando seu corpo por dentro. Agora essa coisa tava ouvindo música antes de nascer e dançando.

— Desliga isso — eu falei.

— Não desliga.

Ele enxugou um copo com um pano sujo.

— De onde veio essa jukebox?

— Veio da praia.

Ele apontou pra estrada, pro lado do mar que a gente não via. Só isso.

— Tinha uma vila ali. O mar comeu.

A valsa repetia. Eu comecei a entender a letra, porque a mulher cantava bem arrastado, bem perto do microfone:

Dorme, meu bem, dorme no fundo Onde o mar não faz barulho Mamãe te leva pro profundo Onde nenhum homem te machuca

Minha espinha gelou. O bebê chutou mais forte.

O velho disse, sem eu perguntar:

— Cantavam pra dormir. Antes de levar.

Eu vomitei. Água morna e bile, no chão batido.

O bebê não parou.

— Por que tá tocando pra mim?

Ele olhou pra minha barriga.

— Ela sabe.

— Eu não vou fazer nada com meu filho!

Ele não respondeu. Só secou o mesmo copo de novo.

— Nenhuma delas ia.

A jukebox aumentou o volume sozinha. A lâmpada nua começou a piscar no ritmo. O chão batido vibrava.

Senti uma contração. Forte. Falsa, eu achei. Só que veio outra em cima. E água. Minha calça molhou de vez.

— Minha bolsa...

— Já vi isso antes — ele disse, baixo. E olhou pra estrada. Não disse mais nada.

A dor rasgou de um lado ao outro da minha barriga. Eu caí de joelhos no chão batido. Terra entrou na minha unha. A valsa tava no refrão de novo. E o bebê se mexia como se quisesse sair no tempo exato.

Dorme, meu bem, dorme no fundo...

Eu gritei. Não de dor de parto. De ódio. Peguei uma pedra do chão — terra dura — e taquei na jukebox.

O plástico quebrou. A luz faiscou. A música arranhou, ficou lenta, voz de mulher arrastada como disco molhado.

O bebê parou de chutar.

Silêncio.

Só minha respiração e o chiado da jukebox morrendo.

Aí a dor voltou, mas era minha agora. Era parto mesmo. Sem música. Sem ritmo.

— Me ajuda! — eu gritei pro velho.

Ele finalmente saiu de trás do balcão. Se ajoelhou com dificuldade. Tinha uma toalha imunda no ombro.

— Faz força.

Eu fiz. Na terra. No chão batido de um bar sem nome na estrada velha de Praia de Leste, com 37 reais no bolso e sem marido pra me bater nunca mais.

Empurrei. Gritei o nome da minha mãe que morreu quando eu tinha 12. Empurrei de novo.

O bebê saiu. Escorregou na terra. Vermelho, sujo de sangue e de barro. Chorou alto. Choro de pulmão bom.

O velho cortou o cordão com um canivete.

Eu peguei ele. Menino. Coloquei no peito. Ele cheirava a mar, mesmo o mar estando a dois quilômetros.

Fiquei ali deitada, sangrando no chão batido, com meu filho no colo.

A jukebox deu um último estalo. Uma faísca.

E tocou de novo. Baixinho. Só um pedaço.

Onde nenhum homem te machuca...

O menino, no meu colo, com menos de um minuto de nascido, parou de chorar.

E cantarolou.

Hmm. Hmm. Hmm.

Do lado de fora, mesmo sem vento, ouvi o mar.

Mesmo longe, ouvi a onda quebrando. E parecia que quebrava no ritmo.

Pam-pam-pam.

Ele respondeu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O JARDIM DE MATINHOS

O JARDIM DE MATINHOS
Tadeu Everton Zamoiski Riviera



Eu não acredito em planta que sente dor. Planta sofre com praga, com sol demais, com raiz entupindo cano. Dor é coisa de gente.

Foi o que eu falei pro velho do chapéu no primeiro dia. Meu nome é Cleuza. 54 anos, dois joelhos ruins e uma Kombi branca que só pega na segunda tentativa. Faço jardinagem na Riviera há vinte anos.

Me chamaram pra limpar a casa da Rua das Palmeiras, 47, antes de vender. A dona morreu. Casa antiga. Madeira comida de maresia. Terreno enorme nos fundos.

No meio do mato, um retângulo capinado. Diferente do resto. Como se alguém tivesse cuidado daquilo até semana passada.

— Isso aqui quem plantou?

— Dona Lúcia. A mãe da moça. Vinha todo mês só pra mexer ali.

No primeiro palmo, a enxada bateu em terra fofa. Um saco plástico preto.

Dentro, fotos de um homem magro, de bigode, com uma criança no colo. Reconheci a criança pela pintinha no queixo. Era a filha que me contratou, mais nova. No mesmo saco, enrolado num guardanapo, um anel de noivado. E atrás da foto: "Guaratuba, 78 -"

Só isso. O resto apagado de tanto dedo.

No dia seguinte, brotou uma flor ali. Tipo copo-de-leite, torta. Com uma mancha que parecia bigode. O homem da foto.

— Que praga é essa, Cleuza?

— É fungo.

Continuei cavando. Mais fundo, começou um som curto, abafado, vindo da terra. Como choro abafado por terra. Achei que era bicho. Mas bicho não chora assim.

No palmo seguinte, uma caixinha de remédio vazia. Receita amarelada. "Maria da Glória - parteira. Pra secar o leite. 1971. Tomar 2 por dia."

Quando tirei a caixinha, as flores mudaram. Não era mais só o homem de bigode. Tinha outras agora, espalhadas pelo canteiro. Umas tinham cara de menina, outras a boca torta. Todas viradas pra casa. É fungo, eu pensei já sem acreditar.

No meio da semana, a filha me ligou.

— Dona Cleuza, deu muito trabalho aí no terreno?

— Só mato.

No fundo, quase um metro abaixo da caixinha da parteira, a enxada bateu numa caixa de madeira, do tamanho de uma de sapato. Pesada.

Dentro, ossos pequenos. E uma pulseirinha de hospital. Nome: Lúcia. Data: 12/03/1971. E embaixo, com a mesma letra do verso da foto:

"Lúcia, como eu. Que"

Só isso.

Levei pra filha, na Caiobá.

Ela pegou a pulseirinha e ficou olhando a letra.

— É a letra dela. Reconheço de cor. Era assim que escrevia as listas de mercado. Ela dizia que tinha perdido um bebê antes de eu nascer.

Ela ficou olhando pra pulseirinha como se tivesse achado uma foto dela que nunca existiu.

Voltamos juntas pra Riviera. Ela queria arrancar tudo.

O jardim já tinha saído do canteiro.

Em duas semanas, tava na grama, na fresta da calçada, subindo pela parede de madeira.

O mais bonito da Riviera.

A corretora passava e elogiava. Algumas pessoas comentavam baixinho e iam embora.

No meio de tudo, no centro do canteiro original, tinha uma flor enorme, vermelha. Com o rosto da Dona Lúcia mais nova. A de 1971.

Quando cheguei com a enxada, a pétala se fechou um pouco. A seiva subiu escura pelo cabo. Quente. Cheirava a leite azedo e talco de bebê. Daquele Johnson rosa antigo. Minha mão tremeu no cabo. Larguei.

A filha ficou em pé, na frente da flor vermelha.

— Ela sorria assim nas fotos antigas — ela disse. — Antes de eu nascer.

No dia seguinte a placa de VENDE-SE sumiu.

— Deixa — ela me disse no telefone. — Se ela quis guardar, deixa guardado lá.

Disse "guardado". Não "enterrado".

Hoje eu passo na frente às vezes. A casa fechada. O jardim lindo.

Cheio de flores com rostos. Todas viradas pro sol.

Menos a vermelha. A vermelha tá sempre virada pra rua. Mesmo quando o sol tá nas costas.

Ontem o velho do chapéu me parou no portão.

— Voltou a ouvir?

Eu não respondi.

Na saída, fui dar partida na Kombi. Pegou de primeira.

Isso nunca aconteceu.

Quando olhei no retrovisor pra sair, vi terra fofa, preta, de canteiro, no banco do passageiro.

Eu não acredito em planta que sente dor.

Mas comecei a achar que tem planta que não esquece.

O Cinema de Ipanema

O Cinema de Ipanema
Pontal do Paraná / Ipanema Tadeu Everton Zamoiski

Ipanema fora de temporada não existe. É só vento e placa de vende-se. E cachorro magro.

Me chamaram porque o Seu Olavo morreu no banheiro do cinema. Afogado. Três dias lá até o filho sentir o cheiro. O banheiro de homem fede a mijo seco e desinfetante barato. Porta riscada com letra caprichada: "Sentado na privada sinto uma emoção profunda: a bosta bate na água e a água bate na bunda."

O projetor ficou sem ninguém que soubesse fazer ele não mastigar o filme.

Aceitei porque estava devendo na farmácia. Fazia três meses que eu tinha largado o Rivotril. Não parei. Só diminuí. Misturava com Velho Barreiro. Dois goles para cada meio comprimido. Ficava no ponto. Nem bêbado, nem acordado. Só menos eu.

O Cine Mar é de madeira. Azul que já foi azul. Na sala, cheiro de pipoca velha requentada e aquele aromatizador de tomada, cheiro de talco de bebê, doce que enjoa e gruda na língua. Na cabine, tapete molhado, óleo de máquina, poeira, filme grudando no dedo. A lâmpada esquenta a mão.

Na porta, cartaz torto de pincel atômico: HOJE 20H - A LAGOA AZUL.

— Seu Olavo passava isso direto — falou o filho, e me entregou uma chave pequena, enferrujada. — Ele guardava dentro da lata. Dizia que era para ninguém roubar a projeção. A chave do cadeado da porta. Tranca quando sair.

— Ninguém vem ver isso.

— Vem. Sempre vem uns dois, três. Gente esquisita.

Na cabine, três latas. Uma estava rodando no projetor, outra já estava preparada para a troca e uma terceira encostada no canto, cheia de pó. Na lata de cima, etiqueta trêmula do Seu Olavo: NÃO PASSAR DE NOVO. JÁ COBROU. Na emenda da fita, esmalte vermelho seco. Tec-tec-tec-tec.

Veio a Dona Célia, de boina mesmo com o abafado, e um piá de uns dez anos com um boné do Banestado desbotado, aquele B bordado torto, de banco que nem existe mais.

Apaguei a luz. Quando a luz bateu na tela, subiu aquele cheiro de mar preso em lata. Sal e lodo. Mais forte que o talco.

Na cena da jangada, a imagem queimou um segundo. Quando voltou, por um frame, não era Brooke Shields. Era um velho de rosto na água suja do vaso. Depois, no frame seguinte, uma senhora de boina dentro da banheira. Água no nariz.

A Dona Célia levantou no meio do filme. Sem falar nada. Deixou a bolsa na cadeira. Saiu.

Continuei passando o filme. Tec-tec-tec-tec. Fingi que não tinha visto.

De manhã o João da farmácia me cutucou no balcão.

— Soube da Célia? Afogada na banheira ontem de noite. Sozinha.

Fui para a cabine. Rebobinei o rolo na mão. A fita estava úmida. Lá estava. O banheiro, a Dona Célia. Antes dela, o Seu Olavo, de rosto na água.

Abri a bolsa dela, que tinha ficado na sala. Dentro, um ingresso antigo do Cine Mar, de 1987. Todo molhado, pingando. No verso, a caneta: Célia + Olavo - 12/07/87.

Na segunda noite botei TUBARÃO porque era o que estava na lata já montada. Vieram o mesmo piá e um casal de Curitiba de Havaianas. A mulher com a toalha molhada no ombro, reclamando do preço da pipoca que nem tinha.

— Tem pipoca?

— Não.

— Achei que tinha.

Na cena do piá da boia amarela, o projetor engasgou e a imagem queimou, a tela ficou branca e doeu no olho, depois voltou manchada. Tec... tec...... tec.

O que boiava de costas não era o ator. Era o piá da plateia. De boné. Na mesma boia amarela. Olho aberto. Boca cheia d'água suja.

Gritei lá de cima que a lâmpada tinha queimado.

O piá ficou sentado. Virou a cara para a cabine. Apertou a borda da cadeira com as duas mãos. Unha branca.

De manhã a mãe dele gritava na Rua das Sereias. Acharam ele na valeta da frente da igreja. Trinta centímetros de água suja.

Fiquei sentado na escada da farmácia até o meio-dia. Boca seca. Fiquei repetindo: eu deixei ele sentado. Quando varreram a sala, peguei o boné dele que tinha ficado na cadeira e enfiei na mochila. Não sei por quê.

Só de tarde abri todas as latas na bancada. Mão suada escorregando no metal. Em cada filme, um frame colado com aquele mesmo esmalte vermelho. No Tubarão, o piá. Na Lagoa Azul, a Célia e o Seu Olavo. Na terceira lata, CONTA COMIGO, um frame do casal de Curitiba. Os dois deitados na areia. Boca cheia de areia.

Na terceira noite voltei para a cabine. No balcão da entrada, quebrei meio Rivotril no dente e empurrei com um gole de Velho Barreiro.

A mão tremia tanto que não achava o plugue. Liguei só para testar.

A luz vazou pela fresta. Foi vista da rua.

Bateram 19h50.

O casal de Curitiba.

— Vai ter?

— Não vai. Fechou.

— Mas está passando. A gente viu da rua, está passando.

Na tela estava eu no chão da cabine, de rosto no chão, com água preta saindo da boca.

Arranquei o plugue com as duas mãos. O cheiro de mar fechado voltou, mais forte que o talco, que o mijo.

O projetor continuou rodando no escuro.

Tec-tec-tec-tec.

Abri a lata de A LAGOA AZUL ainda na cabine, soltei a chave do cadeado lá dentro e larguei tudo girando. Ouvi o metal bater no fundo da lata. Saí e deixei a porta só encostada.

Fui embora a pé pela PR. Não olhei para trás.

Uma semana depois o filho do Seu Olavo me ligou.

— Ô, você fechou direito? O vizinho disse que está com luz acesa de madrugada.

— Vendi.

— Para quem?

Desliguei. Tirei o chip.

Ontem estava no terminal de Paranaguá, esperando o circular para Matinhos que só saía às 20h15. Na fila, duas cadeiras na frente, o casal de Curitiba. Com areia grudada na canela, olhando fixo para a banca de pastel. O piá não estava. Só o boné em cima da cadeira vazia. Pingando.

O mesmo boné que eu tinha enfiado na mochila.

Na banca, cartaz novo colado com durex.

CINE MAR - NOVA DIREÇÃO - IPANEMA - HOJE 20H - A HISTÓRIA SEM FIM - ENTRADA FRANCA.

Embaixo, com a mesma letra trêmula da etiqueta, mas com a minha pressa:

HOJE TEM PROJEÇÃO ESPECIAL PARA VOCÊ.

O Pescador de Guaratuba

O Pescador de Guaratuba

Guaratuba, Paraná Tadeu Everton Zamoiski

Guaratuba não tem mar. Tem boca. Foi meu avô Aníbal que me ensinou isso. Ele morreu em 88, três dias depois de me tirar vivo da boca da barra. Eu tinha dez anos. O dente da frente dele tinha uma falha igual à minha.

Eu sou João Batista. Não por causa do santo. Porque meu pai achou bonito. Nasci em 78. Tenho 48. Pesco desde os nove. Minha baleeira é a LURDES II, azul e branco, com o nome já quase apagado na popa. Todo dia saía quatro da manhã. Passava na Igreja do Porto, molhava o dedo na garrafinha de água benta que a Lurdes deixava na proa, benzia a testa e ia.

Dia 17 de maio o rádio disse que ia ventar. Só ventar. Aqui quando falam só ventar, pode se preparar que o céu fecha em dez minutos e a água fica preta de óleo queimado. Era safra de tainha. Tainha gorda de maio.

Eu já tava fora. Na boca da barra. A mesma boca que levou meu avô. A rede veio estufada. Tainha se debatendo, batendo no fundo do barco. Gritei alto:

— Obrigado, meu Deus!

A água me respondeu.

Veio de sudoeste uma parede preta d'água com aquela renda branca em cima rasgando. O vento arrancou meu boné. O céu ficou verde de machucado. O motor da LURDES II tossiu duas vezes e morreu. Fiquei no remo.

Primeira onda me deitou. Segunda me encheu até a metade. Água na boca, no nariz, no olho. Sal que arde. Gritei Lurdes. Gritei Ana. Depois gritei qualquer coisa, só pra não ficar quieto.

E foi ali que eu fiz merda.

Eu não rezei. Eu negociei.

Dei um tapa na borda do barco, com água na cara, e falei pra baixo, pra água, como se fala pra cachorro bravo que vai morder:

— Me deixa voltar. Me deixa voltar que eu te dou o que você quiser.

O mar parou. Um segundo só. Juro por Deus que parou. No meio daquele inferno todo, o barco ficou parado. Liso. E boiou na minha frente uma boia velha, de isopor, toda comida de craca. A boia do meu avô. Eu conhecia de criança. O barco dele se chamava ANINHA. Nome da minha avó. Minha filha Ana herdou o nome dela. Ele escrevia o nome de caneta azul em tudo que era dele.

Na boia só dava pra ver ANI... o resto a craca comeu. Mas eu li certo. Tava escrito ANINHA.

Aí o vento voltou. O motor pegou. Sozinho. Tec-tec-tec e pegou.

Me empurrou pra dentro da baía feito mão de gigante empurrando pelas costas. Cheguei no cais vomitando água e peixe. A Lurdes me abraçou. Eu chorava no ombro dela que nem piá. A Ana perguntou por que eu tava chorando.

De noite a Ana pegou febre. Quarenta. A Lurdes botou pano frio, deu dipirona, levou no postinho. Nada. A menina delirava. Falava baixinho:

— Pai, tá frio na água. Tá frio.

No terceiro dia eu não aguentava mais.

Fui na Igreja do Porto. Confessei pro Padre Ivo.

— Fiz um pacto.

Ele me olhou por cima dos óculos. Ficou quieto um tempo.

— Igual seu avô, João. Em 88. No dia que ele te trouxe de volta vivo da boca da barra. Você ficou com febre de quarenta por três dias. Ele me contou na porta da igreja, antes de voltar pro barco, que tinha falado igualzinho: "me deixa voltar que eu te dou o que você quiser". No fim da febre, o mar levou ele.

Eu não sabia. Nunca me contaram.

Me deu dez Ave-Marias e mandou eu parar de beber. Eu não bebo. Eu só pesco.

Voltei pra casa. Ana tava pior. Lábio roxo. Unha roxa. E a casa inteira cheirando a mar, mesmo com janela fechada. A Lurdes me olhou e já sabia.

— O que você trouxe, João?

Contei. Ela não gritou. Sentou no chão da cozinha e botou a mão na boca.

— Devolve, João. Devolve pedindo.

Mar não devolve.

Meu avô contava que lá no Poço das Pedras, em 71, o filho do Seu Antônio caiu na rede e não voltava. Ele pegou o cachorro do vizinho, botou no barco e jogou no meio da baía. O cachorro se afogou e o menino melhorou no hospital em Paranaguá na mesma hora. Ele dizia: a boca tem que comer, mas aceita troca.

Pensei no Seu Olavo, do mercado. Velho ruim. Batia na mulher, roubava no peso do camarão. Pensei: levo ele.

De madrugada peguei a LURDES II. Sem lamparina. Bati na porta dele.

— Olavo, me ajuda na rede?

Ele saiu de cueca, fedendo a cachaça. Magro, seco.

— Que horas são, caralho?

Levei ele pro barco. Leve feito graveto. Parei no meio da baía, em frente ao Morro do Cristo, onde a água fica mais preta.

— O que cê tá fazendo, João?

Ele se agarrou na borda com as duas mãos e começou a rezar baixinho, um Pai-Nosso atropelado. No cais, a luz da casa dele acendeu. A mulher dele na janela.

Não consegui. Liguei o motor. Deixei ele no cais.

Me xingou até eu sumir na neblina.

Voltei pra casa. Ana tava sentada na cama. Sem febre nenhuma. Brincando de boneca. Me viu e riu. Atrás dela, no canto do quarto, tinha uma mancha na parede que nunca teve. Em formato de homem. Alta. Pingando água. A silhueta do meu avô.

A mancha olhou pra mim e começou a abrir no meio. Não era mais homem. Virou boca.

A Lurdes tossiu na cozinha. Uma tosse funda, de dentro.

Corri. Ela tava em pé, com a mão no peito, com água saindo pelo nariz. Primeiro clara. Depois escura, de lodo.

Botei a mão no rosto dela. Ficou salgada.

— Não — falei pra boca na parede. Pro mar que tava dentro da minha casa. — Não ela. Eu. Eu que fiz o pacto. Pega eu.

A boca cresceu. Tomou a parede inteira. O cheiro de lodo tomou a casa toda. Aí a Lurdes parou de tossir. A água parou.

Ana me chamou da cama:

— Pai, quem é o moço molhado atrás de você?

Dentro da boca na parede tinha um barco desenhado. A LURDES II.

Peguei a Ana no colo. Tava quente, normal. Cheirando a criança. Beijei a testa dela. Falei pra Lurdes:

— Leva ela pra casa da tua mãe hoje. Não volta antes de amanhã.

— João, o que você vai fazer?

— Pagar.

Saí de madrugada. Sozinho. Sem benção. Deixei a garrafinha de água benta no cais. Se o mar quer, que venha sem reza.

Fui até o mesmo ponto. A boca da barra. Desliguei o motor. Tirei a camisa. O mar tava liso, igual vidro sujo. Sem vento nenhum. E mesmo assim o barco balançava.

Eu entrei.

A água tava tão gelada que queimava. Não afundei. Ela me segurou em pé, até a cintura, como se fosse chão. E debaixo d'água eu vi eles. Pescador antigo de chapéu de palha, criança afogada, mulher de toalha molhada. Todo mundo olhando pra cima. Imóvel.

Na frente de todos, tava meu avô Aníbal. Com a falha no dente. Me esperando.

A LURDES II ficou boiando vazia em cima, com o nome descascado.

A última coisa que senti antes da água entrar de vez foi a mãozinha da Ana na minha, quando ela tinha dois aninhos e eu ensinava ela a dar tchau. Fechei a mão, com força, como se a dela ainda tivesse ali dentro.

Ouvi a voz da Ana atravessando a água, gritando: "Mãe! O barco do pai voltou sozinho!" Ouvi as tainhas batendo. E por baixo, ouvi o motor da LURDES II pegar sozinho de novo. Tec-tec-tec.



A LURDES II tava amarrada no cais. Perfeita. Seca. Cheia. Dezoito caixas de tainha gorda, pulando, batendo. Trezentos quilos. Na banca do Olavo, no Mercado Municipal, a tainha fresca tava saindo a R$ 18,90 o quilo naquela semana de maio. Dava mais de cinco mil reais de peixe.

Em cima da tainha tinha meu boné. Pingando.

A Ana pegou e botou na cabeça. Ficou grande.

A Lurdes pegou a garrafinha de água benta no cais, molhou o dedo e benzeu a testa da Ana.

O mar tava liso e azul, de boca fechada.

A Voz do Mangue

A Voz do Mangue
Tadeu Everton Zamoiski Guaratuba

Guaratuba não tem noite. Tem mangue.

Eu voltei porque minha mãe morreu. Semana passada. Ficou na casa da Rua da Praia dizendo que era friagem. Madeira que já foi azul.

Eu tinha oito anos quando o Léo sumiu. Meu irmão. Dez. A gente brincava de atravessar o mangue na maré baixa. Minha mãe gritava: não vai, que a lama come.

Naquele dia a maré subiu rápido demais. Ele ficou preso. Eu vi a lama subir no joelho, depois na cintura. Eu não fiz nada. Corri. Me escondi atrás da caixa-d'água. Quando contei, já era tarde. Só acharam o boné.

Seu Valdir apareceu no dia seguinte com preço. Menina, ninguém compra casa com quintal para o mangue. Isso aqui a gente aluga para os de fora. Para os curitibanos. Dona Nica veio atrás, com café sem açúcar.

Na primeira noite eu ouvi.

— Lia?

Veio da cozinha, mas vinha do quintal.

— Estou com frio.

Ele tinha um jeito de falar meu nome. Liiiia. Fui até a porta dos fundos. A maré estava cheia, preta. Sem lua. O mangue soltou um pum de gás. Cheiro de ovo podre.

Fechei a porta. Tranquei.

De manhã Dona Nica olhou para o quintal.

— Ouviu, né?

— O quê?

Ela não respondeu.

Na segunda noite ele chorou.

— Lia, por que você me deixou?

Fiquei sentada no chão da cozinha, de costas para a porta, com a luz acesa. Falei alto pela primeira vez desde os oito anos.

— Eu tive medo.

Ficou quieto. Aí a voz afundou.

— Traz ele.

Não dormi.

Na terceira noite acordei com a galocha da minha mãe no pé. Morna. O quintal puxava. Cada passo grudava. Fui até onde a água é preta e não reflete nada.

— Léo?

A lama abriu. Não como água.

Tinha gente ali embaixo, com o olho aberto. E ele no meio. Não com dez anos. Trinta e dois. Barba de lama. Estendeu a mão. Estava limpa.

Eu não dei.

Deitei. De costas. Deixei subir no tornozelo, no joelho, na barriga. Fria, depois morna. Entrou no meu nariz. Na boca. Cantei baixinho. A música que minha mãe cantava quando o mangue fazia barulho. A garganta queimou.

Ele chorou.

A lama parou. Não desceu.

De manhã me acharam suja até o peito, com a boca cheia de barro, abraçada com o boné dele. O boné estava limpo demais.

Seu Valdir veio com o trator. Vamos aterrar isso aqui, menina.

Eu falei: não. Deixa.

Ontem sumiu um turista no Cabaraquara. Disseram que foi cachaça. Dona Nica me olhou da janela e fez o sinal da cruz.

Hoje a pia estava cheia de lama preta. A torneira fechada. Fechada.

Agora tem água correndo dentro das paredes. Tic, tic, dentro do reboco.

Dona Nica bateu. Nem entrou.

— Chamou?

— Ainda não.

O Cão da Praia de Leste

O Cão da Praia de Leste
Tadeu Everton Zamoiski
Praia de Leste

Praia de Leste em outubro não é praia. É vento e casa fechada.
Aluguei a mais barata da Rua do Coro, no OLX. A Marcia falou, Tadeu, você precisa sair de Curitiba. Eu passei a ficar sentado no chão, na frente da porta do quarto do Rafael.
O Rafael fez dezessete em fevereiro. Em março me ligaram. Acidente na 277, foi o que me disseram. Eu não fui ver. Não deixaram. Ou eu não quis. Só me entregaram uma urna lacrada depois. Nunca abri.
No terceiro dia o cão apareceu.
Não ouvi ele chegar. Ele tava sentado no fim do meu deck podre, olhando pro mar. Grande, amarelo sujo de praia, pelo duro de sal, uma orelha rasgada no meio. Magro mas não fraco. O olho era amarelo, quase marrom. Olho que te mede.
Falei, vaza.
Ele abanou o rabo uma vez só. Seco.
Eu tava comendo pão com mortadela. Dei metade. Foi assim que fechei contrato sem saber.
De manhã ele já tava na porta. Me seguiu pra areia. Fora de temporada a praia aqui é larga demais, você se sente pequeno. O vento apaga sua pegada enquanto você ainda tá fazendo ela. Ele ia uns dez metros na frente, parava, olhava pra trás pra ver se eu vinha. Se eu parava, latia. Um latido curto.
Perto do canal ele parou. Farejou, cavou, parou, escutou, cavou de novo. A areia voava entre as pernas traseiras. Eu fiquei com a mão no bolso do moletom, olhando.
Aí apareceu o branco.
Não era concha.
Era osso. Depois outro. O cheiro veio depois. Doce e velho, guardado pela areia fria.
Chamei a polícia de Pontal. Vieram duas viaturas. Trouxeram uma pá. Quando abriram mais, juntou gente. Um pescador velho ficou olhando e falou, essa aí é a mulher do lote do seu Valdomiro. A do verão.
No dia seguinte ele já tava na porta.
A gente andou muito até as pedras do Ipanema. A praia estica, o vento fica mais forte, a areia bate na canela e dói. Ele na frente, eu atrás.
Onde o mar deixa aquele lodo preto que fede, ele parou. Farejou e começou a cavar. Dessa vez mais rápido. Eu falei não. Falei chega. Ele cavou mais rápido ainda.
Era pequeno.
Deus do céu, era pequena.
Eu vomitei de joelho. O Jeferson chegou depois. Bigodinho dos anos oitenta. Me olhou e falou, outro, Tadeu?
Não é meu cachorro, eu disse.
Ele anotou num caderninho e falou, cachorro não acha defunto de dois anos enterrado desse jeito. Alguém enterrou e alguém desenterrou antes. Fica por aqui, não viaja.
Na terceira noite deixei a porta aberta. Ele entrou e deitou no pé da cama. Fiquei ali passando a mão naquele pelo duro. Falei do Rafael em voz alta pela primeira vez sem estar na frente de uma porta fechada. Falei que não fui ver. Que assinei os papéis que a Marcia me deu. Que eu precisava saber o que tinha dentro daquela urna e ao mesmo tempo rezei pra nunca saber.
Ele só ficou ali.
De manhã tinha aquela chuva de Pontal que não cai. Ela fica no ar e te encharca sem você ver. Ele me esperou na porta. Andamos até o fim de tudo, onde Praia de Leste acaba e vira mangue, areia fofa que puxa seu pé. Lugar onde ninguém vai nem em janeiro. O vento trazia sacola, pedaço de isopor, cheiro de esgoto.
Ele parou num pedaço liso. Sem pegada. Só areia batida de chuva.
E deitou. Deitou comprido, cobrindo aquele chão com o corpo dele.
Ele não saiu.
Cavei com a mão. A areia tava gelada, pesada, cheia d'água. Minha unha quebrou logo, entrou areia embaixo. Cavei como bicho mesmo. Como ele.
Achei o plástico. Saco preto duplo, de obra.
Rasguei.
O tênis vermelho. All Star, 41, desbotado. Eu dei no Natal. Ele falou que apertava o dedão e usou igual.
A calça jeans rasgada no joelho. De uso.
A camiseta do Coxa. Que ele usava pra dormir e a Marcia reclamava que tava larga demais.
E ele.
Era ele. Parecia que tinha dormido na praia e pegado friagem. Não tinha nada de moto. Nada de asfalto.
Meu celular vibrou no bolso. MARCIA.
Nunca abri aquela urna. Vai ver não tinha nada lá dentro. Ou teve areia. Ou me entregaram a história que era mais fácil de contar.
O cão levantou. Veio até mim, encostou o focinho na minha mão suja de areia. Depois sentou do meu lado, olhando pro mar cinza.
Eu fiquei ali sentado com o tênis vermelho do meu filho na mão.
Eu só tinha vento.

Casa dos Relógios

Casa dos Relógios
Tadeu Everton Zamoiski
Caiobá

Eu não ia voltar para aquela casa nunca mais.

Era a casa da minha avó. Madeira, dois andares, aquele azul desbotado de casa de veraneio que passou anos tomando sol. Janela que emperra, ferragem comida de maresia.

Rua das Palmeiras, duas quadras da Brava. Você que é de Matinhos já viu uma igual.

A última vez que entrei ali foi com a Lúcia. Ela deixou a presilha azul na cômoda e disse que a gente voltava no verão.

Tinha que esvaziar para vender.

Cheguei numa terça. Baixa temporada. Rua vazia, um cara só lavando a calçada. Aquela neblina fina que faz o mar sumir. A chave emperrou.

O cheiro me pegou primeiro. Mofo e guarda-roupa antigo. E aquele silêncio de casa vazia.

Aí eu vi os relógios.

Um carrilhão grande na sala, parado. Três despertadores em cima da geladeira. Um de cuco no corredor, com o passarinho para fora. Mais um no banheiro, um no quarto dos fundos.

Eu contei sem querer. Dezessete.

Todos marcando 3:14.

Empurrei o pêndulo da sala. Balançou duas vezes e parou, como se o ar ali fosse mais grosso.

De noite deitei no sofá porque a cama cheirava forte demais. E comecei a ouvir.

Tique-taque.

Baixinho, vindo das paredes. Mesmo parados, eles estavam fazendo barulho. Fora de ritmo.

Olhei para o celular. 3:13.

A tela mudou. 3:14.

Os dezessete deram um estalo só. Um TAC seco, junto.

E eu apaguei.

Sonhei que a casa estava nova. Cheirava a café.

A Lúcia estava na cozinha, de costas, fazendo pão na chapa.

Você dormiu demais, amor.

Depois janeiro na praia, comprando pastel. Abril, aniversário dela. Inverno com chuva na janela de madeira. Natal, a gente montou uma árvore pequena na sala. Depois ela tossiu. Ficou na cama. Ambulância. Enterro. De novo.

Acordei com o sol na cara e a boca seca.

No banheiro, na têmpora, um fio branco. Bem branco. Ontem não tinha. O joelho esquerdo doía. Uma dor fina, que eu não sentia havia anos. Esfreguei o rosto e a pele repuxou seca, áspera.

O espelho estava embaçado da friagem. Tinha uma marca de dedo por dentro do vapor. Escrito torto: OBRIGADO.

Eu não escrevi aquilo.

Passei o dia tentando lembrar de uma coisa do sonho. Na árvore de Natal, tinha um enfeite que a Lúcia colocou. Eu sabia que tinha. Mas não vinha. Ficava na ponta da língua e sumia.

Fiquei mais uma noite. Disse a mim mesmo que era para terminar de limpar.

Tomei café até me dar dor de barriga. Acendi todas as luzes. Deu 3:13 e a luz caiu sozinha.

Dormi sentado.

Na segunda vez a casa estava mais fria. A água saiu gelada demais e o ar cheirava a pano molhado velho. A escova na gaveta estava mais gasta. A camiseta pesava, larga no corpo. O mercadinho da esquina tinha mudado de dono.

Em cima da cômoda, a presilha da Lúcia. A azul. Olhei para ela um tempão, tentando puxar de quando ela tinha deixado ali. A imagem não completava.

Fui contar os relógios.

Doze, treze, quatorze, quinze, dezesseis.

Parei no meio da sala com o dedo no ar. Tive que voltar. Sala de novo. Cozinha. Corredor. Perdi a conta e recomecei do carrilhão. Um, dois...

Dezesseis?

Dezesseis.

Eu tinha contado dezessete no primeiro dia. Estava certo disso. Fechei os olhos e tentei lembrar a parede onde ficava o outro. Não havia parede vazia. Nenhuma marca de prego. Só dezesseis. E o pior não era não achar. Era não lembrar qual era o que faltava.

Aí vi o espelho. Embaçado de novo, sem ninguém ter tomado banho. Uns riscos quase apagados, tortos, como se alguém tivesse tentado escrever e desistido no meio: O R G

Dessa vez eu lembrava da sensação de alguém me agradecendo. O alívio. Mas sem voz. Sem rosto.

O álcool estava embaixo da pia. Não pensei. Arranquei a tampa e despejei no sofá, nas cortinas, por cima dos dezesseis relógios que eu achava.

3:13.

A tela mudou. 3:14.

Risquei o isqueiro.

Fiquei na rua, descalço, vendo pegar fogo. Nenhum grito. Nenhum estalo a mais.

No meio da fumaça, o carrilhão da sala ainda estava na parede.

Marcando 3:14.

Os bombeiros chegaram quando já era só brasa.

Hoje ali é um terreno baldio, com mato alto. Faz umas duas semanas que queimei a casa. Semana passada passei de carro na frente, na baixa, rua vazia. Desliguei o carro e fiquei olhando.

Veio um vento. O mato mexeu.

No meio do mato, sozinho, deu um único tic.

Engoli seco.

Fui ao médico ontem. Ele olhou meus exames e falou que meu coração estava cansado. Parecia o de alguém perto dos quarenta.

Tenho 37 no RG.

Eu não consigo mais lembrar quando foi que eu fiz 37 anos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O COLECIONADOR DE MARÉS

O COLECIONADOR DE MARÉS
Guaratuba não devolve nada de graça.

Tadeu Everton Zamoiski

Valdecir tinha 59 anos, pedreiro aposentado, morador da terceira quadra da Rua Vieira. Todo dia, cinco e meia da manhã, fazia a mesma coisa há onze anos. Um balde branco de massa na mão esquerda, olho no chão, novecentos metros até a foz e novecentos de volta.

Começou depois que a mulher se afogou no canal. Na primeira semana sem ela, ele achou na beira um grampo de cabelo de florzinha verde, igualzinho ao que ela usava pra prender o coque. Não era dela. Ele sabia. Mesmo assim guardou. Ficou apertando o grampo na palma até deixar marca e levou pra casa. Lavou na torneira do tanque e deixou em cima da cômoda. Depois disso não conseguiu mais passar pela praia sem olhar.

O povo já sabia e atravessava a rua.

— Lá vem o Valdecir da maré — dizia Dona Cida da peixaria. — Deixa ele, Cida. Isso é vício. Igual rede. Se não puxa, a mão coça — respondia Seu Nestor.

Ele não catava concha bonita. Catava coisa de gente. Um pé de chinelo 37, um controle de TV com a pilha ainda boa, uma boneca sem um olho. Levava pra casa, lavava, passava uma fita crepe com a data escrita de canetão e enfiava num quartinho nos fundos. O pessoal do posto de saúde chamava aquilo de TOC. Ele dizia que era guarda.

— Eu não roubo, seu Nestor. Eu seguro. Se eu não seguro, some.

O Lucas, filho dele, 23 anos, ajudante dele na obra, vivia zoando.

— Pai, um dia o senhor vai achar até a carteira do prefeito aí.

Lucas tinha mania de estalar o pulso antes de apertar qualquer parafuso. Fazia isso desde pivete. Era um costume que nem percebia.

Numa terça de junho, Valdecir achou um óculos infantil azul, do Ben 10, quase novo, meio enterrado na areia fofa perto do Morro do Cristo. Deixou secando no muro e foi embora. Só na fila do pão, no dia seguinte, ouviu Dona Cida comentar sem olhar pra ele:

— Menino de sete anos sumiu ontem na praia. Entrou com o pai e não voltou.

Dois dias depois o menino apareceu na Barra do Saí. O óculos continuou no muro.

Na outra semana he pegou a praia com vento sul. Veio uma touquinha rosa de crochê, de recém-nascido, ainda com cheiro de amaciante. Valdecir não terminou a volta. Ficou com ela na mão, virando do avesso, e subiu pela Tiradentes antes da foz. De noite, na venda, duas mulheres falavam baixo:

— Sumiu um bebê no Piçarras. Levou a touquinha que a avó fez.

Ele não respondeu. Deixou a touquinha em cima do grampo verde.

Foi na benzedeira da Prainha.

— Valdecir, você tá guardando coisa que não era pra você guardar.

— Mas eu guardo com cuidado, Dona Maria.

— Justamente. Por isso mesmo.

He desceu a rua sem jogar nada fora.

No dia 18 de julho, numa maré muito baixa, céu roxo de chuva, ele foi até a foz mais longe que de costume. O vento cortava. A água tava gelada, com espuma amarela de ressaca. O mar não tava brabo. Tava só quieto demais.

Brilhando entre as pedras pretas, coberto de limo e areia grossa, tava um relógio.

Era um Casio F-91W, de pulseira preta. O visor riscado na diagonal. Valdecir sentiu o estômago virar. A mão ficou fria antes mesmo de encostar. O metal tava frio, a pulseira áspera, impregnada de maresia e um cheiro fraco de ferrugem com suor velho. O risco. Fino, torto, no canto do visor. O mesmo que o Lucas tinha feito no SENAI, com a ponta do compasso tentando gravar um L.

He ficou de joelhos. A água gelada atravessou a calça e mordeu o joelho. Ficou olhando pro risco, com a respiração presa.

— Não. Não, não. Não esse.

Pela primeira vez em onze anos largou o objeto onde tava. Deixou o balde branco tombado na areia e saiu correndo descalço pra casa, com a areia grudando nos pés.

— Lucas! Cadê seu relógio! — gritou da porta.

Lucas tava na cozinha, de bermuda, comendo pão com margarina, estalando o pulso sem perceber.

— Tá aqui, pai. No pulso. Que susto é esse?

E tava. O mesmo Casio, com o mesmo risco.

— Pai, o senhor precisa parar com essa praia. O pessoal do posto já falou. Isso não é vida — disse Lucas.

— Eu parei, filho. Hoje eu parei.

Não parou. De madrugada ele voltou. O balde ainda tava lá, tombado, cheio d'água da maré que subiu. No lugar onde o relógio tava, agora era só um buraco liso na areia.

Seu Nestor encontrou Valdecir sentado, tremendo.

— Valdecir, tem coisa que o mar mostra uma vez só.

Na sexta-feira o Lucas não apareceu pra trabalhar. O mestre ligou no fim da tarde, com a voz abafada de obra.

— Valdecir, seu piá não veio hoje. Deixou a marmita aí.

Valdecir disse que não sabia.

Na manhã seguinte o telefone tocou de novo. Era o mestre.

— De novo, Valdecir. Ele não veio. A mulher da pensão disse que ele não dormiu lá. Você viu ele?

Na rua o pessoal começou a falar baixo quando ele passava. Não era mais o esquisito do balde. Era o pai do Lucas que sumiu.

No sábado de noite Valdecir não aguentou. Pegou o balde e jogou tudo fora. Mais de duas mil peças na maré cheia. Chinelo, boneca, controle, touquinha rosa, e no fundo do balde o grampo verde de florzinha. Gritou com a garganta ardendo de sal.

— Toma! Toma tudo de volta!

O mar não responde.

Voltou pra casa encharcado, com os pés sangrando de concha. Abriu a porta do quartinho. O quartinho tava vazio. No chão ainda apareciam as marcas de poeira onde ficavam as prateleiras.

No meio da mesa de ferramenta tava o relógio.

Pingando, com areia grudada na pulseira e ticando.

Valdecir ficou parado na porta. Não encostou.

Depois de um tempo, respirou fundo, esticou a mão e colocou o relógio no pulso. Ficou grande. E foi andando até a praia. Entrou. A água de julho corta a canela, corta o joelho, corta a cintura. Quando bateu no peito, fechou o olho e continuou.

— PAI!

O grito veio da rua, não da água.

Na calçada um carro de aplicativo parava. Do carro desceu Lucas, mancando, com uma perna presa numa tala improvisada de madeira e a calça de obra suja de cimento, apoiando-se no motorista.

— Pai! Sai daí!

Valdecir ficou no mar, com água no peito, sem entender. O relógio ticava no pulso.

Lucas veio até a beira, respirando fundo, segurando a perna.

— O senhor tá me ouvindo? Eu caí no fosso... Na obra, pai... Sem celular...

Valdecir saiu da água, encharcado, com as pernas bambas, puxando o ar.

— Que que o senhor tá fazendo com meu relógio? Eu perdi na obra na sexta!

Valdecir olhou pro pulso. Olhou pro filho. Riu e chorou ao mesmo tempo, com soluço de velho.

— Achei. Achei na maré.

Naquela madrugada, a maré derrubou o muro dos fundos. Levou o quartinho inteiro.

Só o chão lavado, com cheiro de cimento molhado.

He ficou ali até clarear, sentado na mureta, olhando aquele quadrado limpo. Foi o primeiro amanhecer em onze anos sem balde na mão.

A Praia Central tava lisa, varrida.

Dona Cida passou com a sacola de pão, olhou pro terreno aberto, pro Valdecir sentado na mureta de bermuda molhada.

— E o quartinho, Valdecir? Caiu?

Ele só fez que sim com a cabeça.

— Vixe — ela disse, e continuou andando.

Valdecir nunca mais colecionou.

Até hoje, cinco e meia da manhã, ele vai até a areia. Sem balde. Só fica olhando a espuminha.

De vez em quando ainda brilha um Casio preto lá. E ele finge que não viu. E o mar finge que não está lá.

Estrada do Atami

Estrada do Atami
Tadeu Everton Zamoiski
Atami, Pontal do Paraná, PR

O aplicativo apitou 23h48 e Jorge quase não aceitou.

Tava parado na frente do Mercado Costa, em Praia de Leste, com o Corolla ligado e o ar no dois. O banco do motorista tava gasto do lado esquerdo, de tanto ele ficar ali o dia inteiro. Já fazia três anos. No para-brisa, presa com uma fita crepe já amarela de sol, a foto da Ana em Guaratuba. Vestido amarelo, cabelo comprido. O sol tinha comido o rosto dela, tava quase apagado.

Em casa a cama tava arrumada do lado dela. O travesseiro que ele não lavava desde o velório. O copo d'água na mesinha que ele nunca tirou de lá. Dirigir era melhor. Dirigir era não precisar chegar.

Aceitou.

O passageiro entrou sem falar nada. Magro, de terno cinza encharcado, o cabelo grudado na testa. Sentou atrás e ficou parado. Jorge ajeitou o retrovisor. O homem não piscava. Ele ficou esperando aquele piscar que não vinha, daí desviou os olhos.

— Boa noite — tentou.

O homem só fez que sim com a cabeça.

Chovia fino, aquela chuva que nem molha. Jorge ligou o limpador no intermitente. O GPS mandou pela PR-407 e depois jogou numa vicinal. Jorge fez cara feia. Doze anos fazendo aquela volta. Conhecia a curva do posto, a curva do cemitério, a curva onde o filho do Nelsinho se matou de moto. Aquela entradinha ali não existia. Ele passava toda semana e nunca tinha visto.

— O senhor tem certeza que é por aqui?

— É por aqui.

A voz veio de longe.

A estrada foi estreitando. O mato fechou em cima do carro, os galhos raspando no teto. Ligou o farol alto e a luz não ia. O asfalto tava todo estourado, com mato saindo do meio da rachadura. Daí pra frente não tinha mais poste. Não tinha casa. Só a luz dele mesmo.

— O senhor mora no Atami?

— Morava.

Passaram por uma placa de madeira podre. ATAMI, escrito à mão. Não tinha balneário. Não tinha nada.

— Pare aqui.

Jorge parou. Olhou pra trás. No banco, do lado do passageiro, tinha uma caixinha. De madeira escura, os cantos gastos de tanto ser segurada, sem fecho nenhum.

— Esqueceu sua caixa.

Quando virou de novo, o banco tava vazio.

A porta não tinha aberto. Ele ia ter ouvido. O carro continuava trancado. Olhou pra estrada, pra chuva que de repente engrossou. Não tinha ninguém.

A caixa continuava lá.

No porta-luvas, Jorge guardava um relógio de bolso que um passageiro deixou umas semanas atrás. Tentou devolver. Descobriu que o dono tinha morrido em 87. Desde então ele não devolvia mais nada. Só jogava numa gaveta da cozinha e tentava não pensar.

Mas aquela era diferente. Era pesada demais pro tamanho. Quando encostou a mão, subiu um arrepio pelo braço, como se tivesse enfiado a mão em água gelada.

O aplicativo apitou de novo.

Nova corrida. Destino: Atami.

O estômago dele despencou. Olhou no retrovisor.

O homem de terno cinza tava de volta.

E a caixa, agora, tava aberta.

Dentro tinha uma chave e uma fotografia.

A chave era a reserva do Corolla. Ele guardava na mesma gaveta do relógio. Fazia tempo que não via.

Pegou a foto. Era a mesma do para-brisa. Ana rindo, de vestido amarelo, em Guaratuba. Ele mais novo do lado dela. Só que no fundo, atrás dos dois, tinha um carro que não tava na foto original. Um Corolla prata, com a frente toda amassada. O mesmo adesivinho torto no para-brisa. A mesma fita crepe.

— O que é isso? — a voz dele saiu fina.

— Você já esteve aqui antes.

— Nunca vim aqui.

— Vai estar.

A chuva parou de uma vez. Fez um silêncio total.

Uns cinquenta metros pra frente, no meio da estrada, tinha um carro.

Um Corolla prata. Portas abertas. Airbag estourado. O banco do motorista gasto do lado esquerdo.

Jorge sentiu o volante escorregar de suor. Jogou na ré. O motor berrou, o carro tremeu, mas não saiu do lugar. Puxou a maçaneta. Trancada.

Sentiu gosto de sal antes de perceber que tava chorando.

— Na volta. Na curva do Atami — disse o homem lá de trás.

— Por que tá me falando isso?

— Porque você sempre esquece.

— Tô morto?

O passageiro não respondeu.

Ele ficou olhando pra foto na mão. Pro carro batido. Ana. O cheiro dela. O riso dela quando ficava brava. O jeito que ela falava o nome dele, arrastado. O jeito que reclamava da goteira, da chuva no telhado. O copo d'água na mesinha. Como é que alguém esquece uma coisa dessas?

— Eu quero lembrar dela.

— Você não pode.

— Eu quero.

O homem suspirou. Um barulho igualzinho ao do telhado de casa em dia de chuva.

— Então dirija.

Jorge pisou no acelerador. O carro foi. A estrada esticou escura, sem fim. O limpador continuava batendo, mesmo com o vidro seco. No retrovisor, o carro acidentado sumiu. O homem também.

E ele dirigiu.

A estrada nunca acabava. Às vezes via uma menina na beira, de vestido amarelo, de costas. Às vezes entrava um passageiro, deixava uma coisa no banco — um chinelo, um boné, uma garrafinha d'água pela metade — e sumiu antes de chegar. Jorge aprendeu a não olhar pra trás.

Até que numa noite, a estrada fez uma curva mais aberta.

Tinha uma casa. Pequena, de madeira, com luz acesa na janela. Na varanda, uma mulher de vestido amarelo.

Parou o carro. Desligou o motor. Pela primeira vez em três anos, abriu a porta sem olhar pra aplicativo.

Pisou na terra batida.

Ela tava esperando.

— Demorou — ela disse.

— Me perdi.

— Eu sei. Você sempre se perde.

Ele abraçou ela. Ela tava quente. Chorou no ombro dela, e não doeu.

— Não vou mais dirigir — ele falou.

— Não precisa mais.

E ficaram ali.

De manhã cedo um caminhoneiro achou um Corolla batido na curva do Atami. Portas abertas, airbag estourado. No banco do carona, uma caixinha de madeira vazia. No barro, uma foto velha virada pra baixo.

O celular, preso no painel com aquele suporte velho, ainda tava ligado. A tela acesa.

Passageiro aguardando. A 20 metros.

A porta de trás abriu sozinha.

A LAGOA DAS MÃES

A LAGOA DAS MÃES
Tadeu Everton Zamoiski — Guaratuba
QUINTA
Na quinta-feira, às nove da manhã, como conselheira tutelar, recebi a ficha de Davi, oito anos.

Setenta e duas horas. Domingo, às nove, o caso precisava estar fechado.

Li duas vezes.

Faltas frequentes. Febre. Queda no rendimento.

Liguei para a mãe. Atendeu depois de quatro toques.

— Alô?

— Neusa? Aqui é do Conselho. Sobre o Davi.

— Ele tá em casa.

— Ele andou com febre?

— Já dei um chazinho pra ele.

— A professora disse que ele saiu à noite.

Silêncio curto.

— Ele vai na lagoa.

— Sozinho?

— Às vezes ele vai.

— Por quê?

Demorou.

— Vai ver o Lucas.

Lucas era o mais velho. Onze anos quando morreu afogado, três anos antes.

Anotei.

— O Davi acha que vê o irmão?

— Não é achar.

Minha mão parou sobre o papel.

— Ele conversa com ele.

— Neusa, ele pode estar confundindo uma lembrança.

— Eu sei o que ele fala.

Ouvi um menino ao fundo.

— Mãe.

Ela afastou o telefone.

— Fica aí, Davi.

Voltou mais baixo.

— Ele tá com medo de eu ir embora.

— A senhora tá sozinha com ele?

— Tô.

— E quando ele fala do Lucas?

— Eu deixo.

— O que ele diz?

— Que o Lucas tá esperando. Tá me esperando chegar.

Desligamos.

Escrevi: Necessária avaliação presencial.

No celular, uma mensagem da Lívia.

mãe, vc vem hoje?

Minha filha tinha treze anos, chave no pescoço, já fazia o próprio café de manhã. Mas ainda precisava saber se eu voltava.

Não respondi.

Liguei para o Conselho. Disseram que era baixa temporada, que não tinha viatura. Que eu segurasse até segunda se não houvesse risco iminente.

Anotei: rede acionada, sem retorno.



Fui à casa de Neusa naquela tarde. Antes de entrar, o cheiro de lodo e sabão em pó já vinha da janela da cozinha.

Davi estava no chão, desenhando.

— O que você está fazendo?

— O Lucas.

Dois meninos de mãos dadas diante de uma faixa azul.

— Essa é a lagoa?

— É.

— Esse é você?

— Sou.

— E o outro?

Ele passou o lápis preto várias vezes sobre uma das figuras.

— Ele.

— Por que de preto?

— Porque ele tá longe.

— Longe de onde?

— Daqui.

— E ele volta?

— Quando a água chama.

— Como você sabe que a água chamou?

— Ele escuta primeiro.

Neusa apareceu na porta com o casaco infantil dobrado no braço. Era azul, pequeno.

— Davi.

— Ontem ele perguntou por que a mãe não levou o casaco. Falou que tá frio. Quer o azul.

Neusa fechou os olhos.

— Davi, chega.

— Ele quer o outro também.

— O quê?

— O tênis.

Neusa abriu o armário. Tirou uma caixa vazia. Só cheiro de guardado dentro.

— Como era?

— Tinha uma faixa clara na lateral — eu disse, lembrando da foto da geladeira.

Davi estava descalço.

Anotei: Tênis do irmão não localizado.

— Eu deixei lá. Na lagoa.

Na cozinha, ela serviu café da garrafa térmica. O vapor subiu e trouxe o mesmo cheiro da janela, mas quente agora.

Na geladeira, a foto: Lucas numa cadeira de plástico, perna esticada, tênis preto de faixa clara.

Escrevi naquela noite:

Visita domiciliar realizada. Criança apresenta discurso recorrente relacionado ao irmão falecido. Recomenda-se nova avaliação antes do encerramento.

A tinta da caneta falhou no meio da palavra "encerramento". Passei por cima e borrou. A buzina da balsa chegou abafada lá de fora.


SEXTA
Neusa ligou de manhã.

— O Davi voltou.

— De onde?

— Da lagoa. Entrou pela janela de madrugada.

— Estava molhado?

— Só os pés.

— A senhora assinou o papel para Paranaguá?

— Assinei. Vai amanhã cedo.

— Não deixe ele sair sozinho.

— Eu sei.

A mensagem da Lívia continuava na tela. mãe, vc vem hoje?

Passei a tarde na escola.

— O Davi mudou depois do Lucas?

— Antes não largava a mãe. Agora fica olhando pra ela.

— Esperando o quê?

— Não sei. Ele desenhou a mãe na lagoa semana passada. Neusa numa cadeira. Duas crianças ao lado.

— Quem era?

— Disse que era o Davi e quem estava esperando. A Dona Alzira fala igual. Mora perto da lagoa, perto do mangue. Perdeu um filho faz muitos anos. Ela e a Célia iam juntas pra lá.

Anotei os dois nomes. Célia e Alzira.

À noite, saí tarde. Três chamadas da Lívia.

— Mãe, sou eu. Você vem hoje?

— Lívia, tô trabalhando.

— Você falou que vinha.

— Vou tentar.

Desliguei. Tocou de novo. Deixei o dedo sobre o botão e silenciei. Depois fiquei olhando para a rua escura da minha casa. A luz apagada. Pensei: ela já aprendeu a não me esperar.

Voltei ao Conselho e tentei digitar:

Não foram identificados indícios objetivos de atividade criminosa.

O cursor travou no campo. Tive que fechar e abrir de novo o sistema.


SÁBADO
Fui à casa de Célia de manhã.

Casa pequena, perto do mangue. Sobre a mesa, um caderno escolar aberto: Miguel, 8 anos. Uma letra infantil na primeira página. Na pia, um prato a mais, seco, separado dos outros.

O quarto ao lado continuava como ele deixara. Mochila roxa atrás da porta, bola murcha debaixo da cama, uma cama menor encostada na parede.

— Era da irmã. Agora mora em outra cidade.

Ela fechou o caderno e passou a mão sobre a capa, como quem limpa poeira.

— Quando uma mãe passa muito tempo esperando, as outras percebem.

Na volta, sete chamadas perdidas da Lívia.

Parei na casa de Neusa para conferir o documento da tia de Paranaguá.

Porta aberta. Na mesa, o documento. Ao lado, o casaco azul de Lucas.

No portão, a garrafa térmica ainda quente e o tênis preto. Faixa clara na lateral. Molhado por dentro, encharcado de lodo. O lodo escorreu pelo meu pulso e sujou o relatório que eu levava na mão.

Coloquei o tênis no banco do passageiro. A buzina da balsa tocou de novo, mais perto.

Janela do quarto de Davi aberta. Vazio.

Liguei para a tia.

— Neusa disse que o Davi ia ficar com a senhora.

— Comigo? Não estou esperando ninguém.

Neusa apareceu no quintal.

— Onde está o Davi?

— Ia para Paranaguá.

— Sua irmã não está esperando.

— Ele mudou de ideia no caminho.

À noite, fui à casa de Dona Alzira. Casa baixa, perto da estrada da balsa.

Ela abriu a porta torcendo a ponta do avental úmido nas mãos. O mesmo cheiro de sabão em pó barato.

— A senhora é do Conselho?

— Sou.

Na cozinha, uma cadeira de plástico junto à mesa. O assento molhado. O chão seco.

Ela viu meu olhar.

— Ele sentou aí.

— Seu filho?

— Vi a água no banco. Depois foi para a lagoa.

— Como ele a chama?

— Mãezinha Alê.

Às dez e meia, a professora ligou.

— Voltei de um velório da família da Neusa e passei na rua dela. Vi o Davi saindo sozinho, indo para a lagoa.

— Você foi atrás?

— Até a entrada da trilha. Depois voltei.

Faltavam dez horas.

A trilha começava atrás das últimas casas. Moto sem escapamento ao longe. Buzina abafada.

Na lagoa, quatro cadeiras de plástico. Neusa com a garrafa térmica no colo, Célia com o caderno de Miguel abraçado contra o peito, Dona Alzira torcendo o avental úmido. Três ocupadas. Uma vazia.

Ninguém pareceu surpresa.

— Onde está o Davi?

— Com o irmão — disse Neusa, sem soltar a garrafa.

— E o Miguel?

Célia apertou o caderno.

— Ele está esperando. Perguntou por que parei de guardar o prato dele.

Neusa disse baixo, como se fosse segredo:

— O Lucas pergunta do casaco. Ele troca o R pelo L quando está com frio. Frio virava flio.

Dona Alzira olhou para a água.

— Meu filho me chamou pelo apelido.

O cheiro de lodo subiu mais forte, frio.

Voltei para o carro. Deixei o tênis no banco do passageiro e fiquei ali fora, com a mão na porta. O vidro embaçou por dentro.

O telefone tocou. Pai da Lívia.

— Deixei a Lívia na sua casa no fim da tarde.

— Você deixou ela sozinha? Ela tem treze anos!

— Ela tem a chave no pescoço. A porta está trancada.

Liguei para Lívia.

— Lívia? Sou eu. Tranca a porta pra mim. Não abre pra ninguém.

— Tô com sono, mãe.

— Só tranca, por favor.

— Tá.

Dez segundos depois, de novo. Na tela: Lívia.

— Filha?

O contador ficou parado em 00:00. O nome sumiu.

Longe, da água, nítida, a voz atravessou o brejo:

— Mãe, tô com flio.

Não era a Lívia.

Carregada pela água, a voz de Dona Alzira veio também:

— Chegou.

Entrei no carro. Passei dois semáforos vermelhos com o vidro embaçado e o cheiro de lodo entranhado no estofado.

Na rua de casa, antes de descer, com a mão ainda no volante, olhei para o banco do passageiro.

O tênis não estava mais lá. Só uma mancha escura de lodo no tecido.

Desci. Porta destrancada, entreaberta. Luz do corredor acesa. No tapete, barro ainda úmido.

— Lívia?

Ela dormia de lado. Lençol seco. O quarto cheirava a terra molhada, lodo e sabão em pó.

Na altura dos pés, duas marcas úmidas com contorno de solado, número 36.

Ela abriu os olhos.

— Você voltou?

— Quem está aqui com você?

Olhou para o canto vazio.

— Ele disse que você vinha.

Passei a noite sentada no chão, encostada na porta do quarto, com o celular na mão.


DOMINGO
No domingo o plantão tinha deixado a portaria aberta. Levei Lívia comigo. Ela ficou ao meu lado, ainda de pijama, com a chave no pescoço balançando.

Abri o relatório. O relógio da sala marcava 9h03. O papel estava úmido na borda. O carimbo de encerramento que eu tinha batido na sexta estava borrado, como se tivesse pego chuva.

Caso encerrado às 9h. A criança não está em situação de risco. A mãe está em casa. Ele voltou.

Embaixo, dois campos vazios. Tentei digitar o nome de Davi. O campo não aceitava. Ficava em branco.

Nome da criança:

Nome da responsável:

Fiquei olhando para o Ele.

Lívia ao meu lado, celular desligado no colo. A cadeira diante da minha mesa estava molhada. No chão, uma pequena poça se espalhando.

Ela apertou minha mão.

Meu celular tocou sobre a mesa.

Na tela:

Lívia.

Olhei para minha filha. Ela não mexeu no aparelho.

O telefone continuou tocando.

Então veio o silêncio.

Depois, a voz de menino saiu do aparelho:

— Mãe, você vem hoje?

Olhei para Lívia.

Não atendi.

CAIOBÁ, 3H DA MANHÃ

CAIOBÁ, 3H DA MANHÃ

O frio do piso atravessa a meia antes de eu acender a luz. Cheiro de mofo, de colchão que nunca secou e de sal que entrou pela janela mesmo fechada. Quitinete da Rua Argus, segundo andar, vista parcial pro mar.

Trouxe um violão, uma Tascam de 4 canais que comprei em 2012, uma garrafa de cachaça branca do mercado e, no bolso interno do case, um Rivotril quebrado em quatro.

A emergência começou na primeira noite.

Acordei com a luzinha vermelha da Tascam acesa. REC. 2:47 no visor. Eu não tinha apertado. Tava gravando o ronco da geladeira. E por baixo, outra coisa.

O mar não tem harmonia.

Era um som vindo da Praia Brava. Não era onda. Era uma respiração só, longa demais, segurando uma nota. E por baixo, uma vozinha de criança um quarto de tom acima, insistindo.

Eu devia ter apagado a fita e voltado a dormir. Eu aumentei o volume.

Era a música que eu tentei escrever por dez anos e nunca consegui. Dó menor pra um acorde que meus dedos nem sabiam fazer. Toquei até minhas unhas ficarem pretas, com aquele pó preto das cordas velhas entranhado embaixo.

Gravei ela no dia seguinte. Quando terminou, a quitinete ficou em silêncio total. Até a geladeira parou. Foi nesse silêncio que me veio: Os Afogados. Guitarrista. 2018, 2019. Se você procurava meu nome no Google, era isso.

Enquanto as caixinhas ainda chiavam, vi a porta da sala, que eu tinha trancado com duas voltas e colocado a cadeira atrás, entreaberta. Um palmo. Com uma linha fina de areia molhada no linóleo.

Fechei. O clique estalou e a areia grudou úmida no meu dedão. Fiquei um tempo com a mão na maçaneta.

Na gravação seguinte, quando dei o play, o box do banheiro estava todo embaçado, como se alguém tivesse tomado um banho muito quente. No espelho tinha uma marca de mão pelo lado de dentro do vapor. Os dedos muito juntos e o polegar muito pra trás. Como de alguém que não aprendeu direito como é uma mão.

Senti cheiro de perfume. O da Camila. Ela me largou em 2020. Foi morar em Joinville.

Limpei o braço do violão. Ainda lembrava do cheiro do escritório do meu empresário naquela época.

E do gosto de ferro da primeira vez que meu nariz sangrou sozinho no meio da tarde.

Depois daquela gravação, esqueci o sobrenome dela. Fiquei com o comprimido frio na palma. Nem tomei. Só o gosto metálico subindo pela garganta.

Na outra, esqueci como se escreve meu próprio nome. Fiquei olhando a identidade e a letra Z não fazia sentido.

Na outra, esqueci o número da quitinete. Rua Argus, 47. Tomei um gole. O dedo foi sozinho pro acorde que eu não sabia fazer. Acertou.

Depois disso, fiquei na frente do espelho e não reconheci meu rosto por dois segundos. Acordei com sal grudado no lábio de baixo.

O cara de Curitiba mandou mensagem faz uns dias. "Mauro, vence hoje". Eu li e esqueci.

Quanto melhor eu tocava, menos eu ficava.

3h da manhã.

Eu nem sei mais quantas faixas tem. Tem a primeira, a segunda e umas que eu não lembro de ter gravado. Se tento lembrar, vem só aquele silêncio gelado e o cheiro de maré baixa grudado no lençol.

As vozes na Tascam não estão mais por baixo da minha. Estão junto, me corrigindo. Eu faço um sol e uma voz por trás faz um sol sustenido. Meu ombro afrouxou antes da cabeça entender.

Na última gravação, uma voz pequena, muito clara por cima do meu violão, disse só: "Assim."

E tocou o acorde.

O silêncio que veio depois foi pior.

Olhei pro Rivotril quebrado em cima da mesa. A palma gelou de novo. O gosto de ferro desceu rasgando.

Deixei o comprimido cair. Agarrei a garrafa.

Vou deixar a porta aberta de verdade.

Olhei agora pro visor da Tascam. Tem uma FAIXA 8 lá. 3:12 de duração.

3:12 era a duração exata do nosso hit na novela.

Eu não gravei faixa 8 nenhuma.