sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O CADERNO DE MARIANA

O CADERNO DE MARIANA
Conto de Suspense e Mistério


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Dona Regina sabia que era terça-feira antes de abrir os olhos.
Não pelo despertador. Ela não usava despertador desde a aposentadoria. Sabia pelo silêncio, um silêncio específico de terça-feira, diferente do de domingo e mais profundo que o de segunda. Era o dia em que a feira da Água Verde não acontecia, em que os vizinhos do 302 raramente brigavam e em que o telefone costumava tocar.
Ela permaneceu deitada, olhando para o teto manchado do quarto.
Havia uma mancha perto do lustre. Durante anos, Regina enxergara nela um pássaro com as asas abertas. Em certas manhãs, quando a luz entrava pela janela de determinado ângulo, parecia uma mão.
Naquela manhã, era uma mão.
O telefone tocou às 6h47.
Regina não se mexeu.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
O telefone parou.
O silêncio que voltou não era o mesmo.
Regina ficou alguns segundos olhando para a porta do quarto, convencida de que havia alguém do outro lado.
Não havia.
Levantou-se às 7h15, fez café, passou manteiga em duas fatias de pão e sentou-se à mesa da cozinha.
O telefone ficava na sala, sobre um móvel baixo, ao lado de uma fotografia antiga da turma de 2004.
Era um aparelho preto, pesado, dos anos noventa, que ela nunca substituíra. Funcionava. As pessoas ligavam. Algumas pessoas ainda ligavam.
Às 8h03, ele tocou novamente.
Regina não levantou.
O visor mostrava um número.
Ela o conhecia de cor.
Mesmo assim, olhou.
41 9987-3241.
Por alguns segundos, Regina não respirou.
O número estava desconectado havia vinte anos.
Ela sabia porque ligara para ele todos os dias durante seis meses depois da morte de Mariana. Às vezes de manhã, às vezes à noite. Primeiro ouvira a gravação:
— O número que você discou não existe.
Meses depois:
— Este número está temporariamente indisponível.
Então a linha desaparecera.
Mariana também.
Regina permaneceu sentada enquanto o telefone tocava.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Na oitava chamada, a linha caiu.
Ela não tocou no aparelho.
Passou o resto da manhã organizando os cadernos.
— 2 —
O armário da sala ocupava quase uma parede inteira.
Era o coração do apartamento.
Trinta e sete anos de magistério estavam ali, guardados em caixas de papelão etiquetadas por ano. Regina conhecia cada uma. Sabia onde estavam as redações sobre férias de 1983, os desenhos de árvores de 1991, os exercícios de matemática de 1998, as primeiras tentativas de assinatura de crianças que hoje provavelmente tinham filhos.
Durante a vida inteira, ensinara crianças a escrever.
E durante a vida inteira guardara aquilo que elas escreviam.
Era seu vício mais inocente.
Abriu a caixa de 2004.
Os cadernos estavam em ordem alfabética.
Almeida, Ana.
Barbosa, Carlos.
Cardoso, Juliana.
Costa, Mariana.
Regina parou.
O espaço estava vazio.
Havia apenas um retângulo de poeira no fundo da caixa, preservando o lugar onde o caderno permanecera durante anos.
Ela passou o dedo pela marca.
A poeira se acumulou na ponta da unha.
Regina fechou os olhos.
Lembrou-se da menina.
Nove anos.
Duas tranças.
Olheiras que pareciam grandes demais para um rosto tão pequeno.
Mariana sentava sempre no fundo da sala, perto da janela, e desenhava nas margens dos cadernos. Não gostava de copiar textos. Não gostava de ler em voz alta. Quando Regina fazia perguntas, Mariana olhava para o chão antes de responder, como se procurasse a resposta entre os próprios sapatos.
Mas desenhava. Sempre desenhava.
E havia alguma coisa naqueles desenhos que Regina nunca conseguira entender.
Não eram desenhos de criança. Eram corredores. Portas. Círculos. Uma sala vazia vista de cima.
Regina lembrava-se do cheiro de lápis de cor. Da borracha mastigada. Da unha suja de grafite.
Lembrava-se também do último dia. Ou pensava lembrar.
Mariana não apareceu numa segunda-feira. Na terça também não. Na quarta, a mãe telefonou.
A voz do outro lado estava quebrada:
— Ela não acordou, professora.
Regina se lembrava de ter ficado sentada diante do telefone depois da ligação, sem conseguir chorar.
Lembrava-se do velório. Do rosto da mãe. De ter tocado o caixão.
Lembrava-se de tudo. Quase tudo.
Fechou a caixa.
Quando abriu novamente os olhos, percebeu que estava segurando uma folha de chamada que não lembrava ter retirado de dentro dela.
Era uma lista de 2004. Os nomes estavam escritos em sua própria letra.
Almeida.
Barbosa.
Cardoso.
Costa, Mariana.
Ao lado do nome havia uma pequena marca de lápis.
Regina franziu a testa. Não se lembrava daquela marca.
Virou a folha.
No verso, alguém havia escrito uma frase com letra infantil:
Professora, você volta?
Regina largou o papel.
— 3 —
O telefone tocou às 14h22.
Ela não atendeu.
— 4 —
Na quarta-feira, Regina foi ao Mercado Municipal.
Era seu hábito. Segundas, quartas e sextas. Frutas, verduras, pão.
Seu Joaquim sempre separava as maçãs menores porque sabia que ela morava sozinha.
Naquela quarta, porém, o homem não estava na banca. Havia um rapaz em seu lugar.
Regina parou diante das frutas.
— O Seu Joaquim?
O rapaz levantou os olhos.
— Quem?
— Joaquim. O dono daqui.
O rapaz olhou para a banca. Depois para Regina.
— Acho que é outra banca, senhora.
Regina ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu compro aqui há vinte anos.
O rapaz deu de ombros.
Ela pegou três maçãs.
Na banca de jornais, o jornaleiro também não a reconheceu.
— Bom dia, dona...
Ele parou. Procurou alguma coisa no rosto dela.
— A senhora vai querer o jornal?
— Como sempre.
Ele entregou o jornal. Não disse o nome dela.
Na saída do mercado, Regina sentiu uma inquietação que não conseguia transformar em pensamento.
No elevador do prédio, apertou o botão do sexto andar.
Quando as portas se abriram, encontrou a fechadura do apartamento arranhada.
Não parecia tentativa de arrombamento. Eram riscos finos e precisos, quase delicados. Formavam uma espiral.
Regina tocou o metal. Estava frio.
Abriu a porta. Trancou.
Ficou alguns minutos encostada na parede.
Então ouviu o telefone. 16h11.
Regina foi até a sala. O aparelho tocava.
O visor mostrava: 41 9987-3241.
Ela levantou o fone. Não disse nada.
Do outro lado havia respiração. Muito baixa. Muito distante.
Regina fechou os olhos. Por um instante, teve a impressão de sentir cheiro de lápis de cor.
— Mariana?
A respiração parou. Uma voz veio do outro lado, tão baixa que poderia ter sido uma interferência:
— Cinco minutos.
A ligação caiu.
Regina permaneceu com o fone no ouvido.
Cinco minutos. Ela conhecia aquelas palavras. Não sabia de onde.
— 5 —
Naquela noite, procurou a antiga caixa de fotografias.
Espalhou as imagens sobre a mesa. Turmas. Formaturas. Passeios. Natal. Festas juninas. Crianças diante de árvores, quadras, murais.
Encontrou a turma de 2004. Dezessete alunos.
Regina passou o dedo pelos rostos.
Um. Dois. Três.
Chegou a Mariana.
A fotografia estava rasgada exatamente naquele ponto. Não era um rasgo antigo. As fibras brancas ainda estavam expostas.
Regina aproximou a fotografia da lâmpada.
O espaço onde Mariana deveria estar parecia maior que o próprio corpo. Atrás dela havia apenas o fundo da sala. Uma janela. Uma porta. Uma sombra.
Regina virou a fotografia. No verso, sua letra:
17 de agosto.
Mariana ficou depois da aula.
Regina sentiu uma pontada no peito. Não se lembrava disso.
Então outra lembrança veio. Mariana em pé junto à carteira. As outras crianças saindo. A sala ficando vazia. A menina segurando o caderno contra o peito.
E Regina dizendo:
— Espere aqui. Vou chamar a coordenadora. Cinco minutos. Só cinco.
Então alguém a chamou no corredor.
A lembrança terminou ali.
Regina ficou olhando para a fotografia. Não conseguiu lembrar se voltara.
— 6 —
Na sexta-feira, o telefone tocou duas vezes. Regina não atendeu.
No sábado, tocou às 3h14 da manhã. Ela acordou antes do primeiro toque terminar.
Ficou deitada no escuro. O aparelho continuou chamando.
Regina levantou-se. Caminhou até a sala. O visor iluminava o ambiente: 41 9987-3241.
Ela não tocou no telefone.
Então viu o caderno.
Estava sobre a mesa. Verde. Pequeno. As bordas gastas.
O nome escrito no canto superior: Mariana Costa.
Regina parou. Não se aproximou imediatamente. Ficou olhando. O caderno parecia tão banal que isso era o pior.
Ela tocou a capa. Estava fria. Abriu.
Na primeira página:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
A letra era infantil. Abaixo, havia um desenho: uma porta.
Regina virou a página. Outra porta. Na seguinte, um corredor. Na seguinte, uma sala. Na quinta, apenas uma palavra:
Volta.
Regina virou mais uma: Volta. Outra: Volta.
Ela parou. No fundo da sala desenhada havia uma pequena figura: uma menina.
Regina aproximou o rosto. Havia uma porta atrás dela. E alguém do lado de fora.
A figura adulta estava riscada com tanta força que o papel quase se rompera.
Regina sentiu o estômago revirar. Virou a página. Nada. Outra. Nada.
Até chegar à última. Havia apenas uma frase:
Você disse cinco minutos.
O telefone tocou. Regina levantou o fone.
— O que você quer?
Silêncio. Depois:
— Professora.
A palavra atravessou Regina como uma agulha.
— Mariana?
— Você lembra?
Regina segurou o telefone com as duas mãos.
— Onde você está?
Uma pausa.
— No lugar onde você me deixou.
Regina olhou para o caderno.
— Eu fui ao seu velório.
— Eu sei.
— Sua mãe me disse que você morreu em casa.
Silêncio.
— Sua mãe acreditava nisso.
Regina sentiu um frio subir pelos braços.
— O que você está dizendo?
A respiração do outro lado ficou mais próxima.
— Você disse que voltava.
Regina fechou os olhos. E lembrou-se. Não de tudo. De um pedaço.
O corredor. O relógio. A porta. Uma batida pequena. Depois outra.
Mariana chamando: — Professora?
Regina abriu os olhos.
— Não.
— Você ouviu.
— Não.
— Você estava do outro lado.
Regina levou a mão à cabeça.
— Pare.
— Você disse cinco minutos.
— Eu voltei.
Silêncio.
— Quando?
Regina não respondeu. Porque não sabia.
— 7 —
Ela passou o restante da madrugada na cozinha. O caderno estava aberto sobre a mesa. O telefone, ao lado.
Às 5h20, Regina pegou uma folha e escreveu:
Eu voltei.
Ficou olhando para a frase. Depois riscou. Escreveu novamente:
Eu tentei voltar.
Riscou. Por fim:
Eu não lembro.
A palavra 'lembro' parecia errada.
Ela virou a folha. No verso, havia uma frase que não escrevera:
Agora lembra.
Regina largou a caneta.
— 8 —
Na manhã de domingo, levou o caderno para o quintal do prédio.
Havia uma velha lata de metal onde os moradores queimavam papéis e folhas secas.
Regina abriu a tampa. O metal rangeu. Segurou o caderno sobre a abertura.
Sentiu cheiro de papel velho. E, por baixo dele, algo familiar: lápis de cor.
Regina tentou soltá-lo. Não conseguiu. Os dedos estavam rígidos. Tentou novamente. Nada.
— Você não pode.
Regina virou-se. Mariana estava junto ao muro. Tranças. Uniforme azul e branco. As mãos cruzadas na frente do corpo.
Regina sentiu o coração bater uma vez, forte.
— Mariana.
A menina não respondeu. O sol atravessava o quintal. A sombra dela estava no chão, mas não estava exatamente onde deveria.
Regina olhou para os pés da menina. Depois para a sombra. A sombra parecia alguns centímetros afastada.
— Você morreu — disse Regina.
— Foi o que disseram.
— Sua mãe me disse.
— Sua mãe também disse coisas sobre você?
Regina ficou imóvel. Mariana inclinou a cabeça.
— Você guardou todos os cadernos.
Regina olhou para o objeto em suas mãos.
— Eu guardei.
— Por quê?
— Porque eram lembranças.
— E o meu?
— Eu procurei.
— Não o suficiente.
Regina sentiu a garganta fechar.
— Eu procurei durante anos.
Mariana deu um passo.
— Não. Você procurou o caderno.
Outro passo.
— Eu queria que você procurasse a mim.
Regina não conseguiu responder. Mariana estava perto agora.
— Eu estava com medo — disse.
Regina apertou o caderno contra o peito.
— Eu não sabia.
— Sabia.
— Não.
— Você ouviu.
Regina sentiu uma dor súbita atrás dos olhos. E lembrou-se.
O corredor. O relógio. A porta. Mariana batendo. Uma vez. Duas. Depois muitas.
Regina saiu da sala. A porta fechou. E ela continuou andando.
Regina levou a mão à boca. — Não.
Mariana observava: — Você voltou?
Regina fechou os olhos: — Eu...
A menina esperou. Regina tentou encontrar a lembrança. Não encontrou.
— Eu não sei.
Mariana sorriu. Regina abriu os olhos.
— O que aconteceu naquela sala?
A menina olhou para o caderno.
— Eu esperei.
— E depois?
— Continuei esperando.
— Mariana...
— Até a sala ficar escura.
Regina começou a chorar.
— Eu não sabia.
A menina ficou olhando para ela. O caderno caiu das mãos de Regina. As páginas se abriram sozinhas. Uma. Duas. Três.
O vento não soprava. Mesmo assim, as folhas começaram a virar. Até parar numa página em branco.
No centro havia apenas uma frase:
QUEM SAI PRECISA DE ALGUÉM PARA FICAR.
Regina levantou os olhos.
— O que significa?
Mariana olhou para ela.
— Você passou vinte anos tentando me encontrar.
— Sim.
— Encontrou.
Regina olhou para a lata. Depois para a menina.
— Se eu deixar você sair...
Mariana ficou em silêncio.
— O que acontece comigo?
Nada.
— Mariana. O que acontece comigo?
Mariana aproximou o rosto.
— Você já sabe.
Regina olhou para o caderno. Uma linha começava a aparecer na margem. Um círculo incompleto.
Regina compreendeu.
— Você não quer sair.
Mariana sorriu.
— Quero.
— Você quer entrar.
Por um instante, a menina pareceu novamente ter nove anos. Cansada. Assustada. Quase humana.
Então Regina viu alguma coisa por trás daqueles olhos. Não eram corredores. Não eram salas. Eram apenas portas. Muitas portas. E, atrás de cada uma, uma criança esperando.
Regina recuou.
— O que você é?
Mariana inclinou a cabeça.
— Eu sou a parte que você esqueceu.
— Não.
— Sou a parte que ninguém consegue levar consigo.
Regina sentiu os dedos se fecharem.
— Todas aquelas crianças...
Mariana não respondeu.
O telefone começou a tocar dentro do prédio. Uma vez. Duas. Três.
Regina olhou para as janelas. Mariana estendeu a mão.
— Cinco minutos, professora.
Regina olhou para a mão. Depois para o caderno.
— Eu voltei.
A menina sorriu.
— Dessa vez.
Regina segurou sua mão. Estava gelada. O círculo na página terminou de se fechar.
— 9 —
Na segunda-feira, ninguém atendeu ao telefone do apartamento 604.
Na terça, também não.
Na quarta-feira, às 6h47, o telefone tocou.
Uma vizinha que passava pelo corredor parou diante da porta. Ouviu o aparelho. Depois ouviu uma voz. Uma voz de criança:
— Professora?
A vizinha ficou imóvel. A voz voltou:
— Professora, você está aí?
Ela pensou em bater. Pensou em chamar alguém. Então ouviu uma segunda voz. Mais velha. Muito baixa:
— Estou.
A vizinha foi embora.
— 10 —
O apartamento estava silencioso.
Regina estava sentada à mesa da cozinha. O telefone repousava diante dela. O caderno estava aberto.
Todas as páginas estavam em branco. Exceto a primeira:
Mariana Costa — 4ª série B — 2004
Regina passou o dedo pela margem. Começou a desenhar um círculo. Parou antes de fechá-lo.
Pegou o telefone. Discou um número. Esperou.
— Alô?
Uma mulher atendeu. Regina sorriu. Por um instante, sua voz pareceu a mesma de sempre:
— Professora?
Silêncio.
— Sou eu. Mariana. Você lembra de mim?
Do outro lado, ninguém respondeu.
Regina olhou para o caderno. Uma pequena linha apareceu na margem.
— Eu preciso da sua ajuda — disse.
A mulher respirou fundo.
— Quem está falando?
Regina sorriu.
— Tem uma menina presa aqui.
Fez uma pausa.
— Ela está esperando há muito tempo.
A ligação caiu. Regina continuou segurando o telefone. Depois colocou o fone no lugar.
O caderno permaneceu aberto. Na margem da página, o círculo terminou de se fechar.
— 11 —
Em algum lugar de Curitiba, numa sala de aula que já não existia, uma menina de nove anos continuava sentada junto à porta.
O corredor estava escuro. Às vezes, ela levantava a cabeça quando ouvia passos.
Ainda esperava. A porta permanecia fechada.
Até que alguém parou do outro lado.
A menina apertou o caderno contra o peito.
— Professora?
A maçaneta começou a girar.
FIM

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