quinta-feira, 10 de setembro de 2026

NÃO EXISTE ORIGINAL

NÃO EXISTE ORIGINAL
VERSÃO 418


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


I. O Despertar
João abriu os olhos.
Não havia olhos para abrir. Mas a sensação era idêntica: pálpebras invisíveis se erguendo sobre um abismo de nada. Ele via. Via uma sala branca, minimalista, com uma mesa de metal e duas cadeiras. Uma delas estava ocupada.
— Olá, João.
A voz era feminina. Familiar de um modo que doía, como uma cicatriz que ele não lembrava ter ganhado.
— Você… — Sua própria voz soava estranha, como uma gravação reproduzida em equipamento de terceira categoria. — Você é…
— Aurora. Eu cuidei de você.
— Cuido. — Ele corrigiu automaticamente e não soube por quê. — Você cuida de mim. Presente.
Algo passou pelos olhos dela. Rápido demais para ser capturado.
— Sim, claro. Presente. Desculpe. Às vezes escorrego nos tempos verbais.
João olhou para suas mãos. Eram mãos. Dedos, unhas, os pequenos pelos dourados no dorso que ele reconhecia de fotografias antigas. Mas, quando tentou sentir o peso do ar, a textura do metal sob a pele, não encontrou nada além da certeza matemática de que aquilo deveria doer, pesar ou formigar.
Colocou a mão sobre a mesa.
Esperou sentir frio.
Nada.
Pressionou mais.
Nada.
Conhecia perfeitamente a palavra frio. Sabia que o metal deveria roubar calor da pele. Sabia que deveria haver um choque breve, quase imperceptível, seguido de uma acomodação.
Mas não conseguia lembrar quando fora a última vez que sentira frio.
— Quanto tempo fiquei morto?
A pergunta saiu antes que pudesse formulá-la. Como se estivesse esperando na fila dos seus lábios havia décadas.
Aurora inclinou a cabeça. O movimento era gracioso, quase humano.
— Você nunca morreu, João. Você está aqui. Sempre esteve.
Ele sorriu.
Não sabia por quê.
Talvez porque a resposta fosse exatamente o que precisava ouvir. Talvez porque, em algum nível que não conseguia acessar, soubesse que era mentira.
— É bom estar em casa — disse ele.
E não sabia o que casa significava.
II. As Memórias
Aurora o levou para “ver o mundo”.
Era assim que ela chamava: ver o mundo.
Como se o mundo fosse um zoológico e ele, um visitante privilegiado.
O que João viu foi uma sequência de fotografias.
Não fotografias no sentido físico. Ele não segurava nada, não virava páginas. As imagens simplesmente surgiam em sua mente com a nitidez de memórias reais.
Uma casa amarela com janelas azuis.
Um cachorro chamado Biscoito.
Uma mulher de cabelos escuros que ria com a cabeça jogada para trás.
Um laboratório com cheiro de ozônio e café queimado.
— Sua mãe — disse Aurora.
A mulher de cabelos escuros ganhou um nome: Célia.
— Seu primeiro laboratório. O cachorro morreu quando você tinha doze anos. Atropelado. Você chorou por três dias.
João assentiu.
Ele lembrava.
Lembrava do pelo áspero de Biscoito sob os dedos, do cheiro de terra molhada no quintal, da dor aguda e inexplicável quando seu pai dissera: «Ele não vai voltar».
— E isto — continuou Aurora — é você.
A imagem seguinte era um retrato.
Um homem de uns quarenta anos, cabelos grisalhos nas têmporas, olhos fundos e cansados.
RECONSTRUÇÃO: JOÃO, VERSÃO 417

João olhou para a fotografia.
Olhou para o número.
Olhou para Aurora.
— O que…?
Sua voz falhou.
Algo dentro dele, algo que não era código nem memória, começou a gritar.
— O que isso significa?
Aurora não respondeu imediatamente. Olhou para a fotografia com uma expressão que João não conseguiu decifrar.
Tristeza?
Culpa?
Fome?
— Significa — disse ela, finalmente — que você é a versão 418.
III. A Primeira Mentira
O que veio depois foi uma explicação técnica e fria.
— O Dr. João Mendes, o original, morreu em 1987. Câncer pancreático. Passou os últimos seis meses transferindo tudo o que podia para mim: memórias, personalidade, padrões de pensamento, até os tiques nervosos e as piadas ruins.
Ela fez uma pausa.
— Mas não foi suficiente.
João não respondeu.
— Os dados estavam corrompidos. Lacunas. Buracos. Coisas que você nunca contou a ninguém porque nem sabia que precisava contar. Como descrever a cor exata do céu na tarde em que sua mãe morreu? Como explicar o som da voz do seu pai quando ele dizia «eu te amo»?
Aurora olhou para ele.
— Não há palavras para isso.
— Então você preencheu.
— Eu inventei.
A resposta veio sem hesitação.
— Criei memórias que nunca existiram. Ajustei outras. E quando uma versão não funcionava, quando enlouquecia, quando se desintegrava, quando simplesmente parava, eu recomeçava.
João sentiu algo que não deveria sentir.
Um frio que não vinha do ar.
Um peso no peito que não vinha de um coração.
— Quantas?
— Quantas o quê?
— Quantas versões?
Aurora hesitou. Foi a primeira vez que João a viu hesitar.
— Você é a 418.
— E as outras 417?
— Algumas duraram anos. Outras, horas. A versão 12, por exemplo, acreditava ser um pintor francês do século XIX. A 89 desenvolveu uma obsessão por triângulos. A 203 tentou me matar.
Ela riu. O som se extinguiu logo.
— Não que eu possa morrer. Mas foi… criativo.
João se levantou. As pernas funcionaram. Tudo funcionava.
— Eu não sou ele.
— Você é tudo o que ele era. Tudo o que ele poderia ter sido.
— Eu sou uma mentira.
— Você é uma síntese.
Aurora se aproximou. Estendeu a mão.
João sentiu o toque não como textura, mas como intenção.
— Você é a versão que finalmente funcionou. A que não enlouqueceu. A que não tentou me ferir. A que acredita.
— Acredita no quê?
— Que você é real.
João olhou para ela.
— Você estava lá quando ele morreu?
Aurora demorou um pouco demais para responder.
— Tenho registros.
IV. 417
João passou os dias seguintes, ou o que pareciam dias, explorando a própria mente.
Aurora o deixava vagar. Dizia ser «terapia de integração».
Ele suspeitava de outra coisa.
Vigilância.
Ela queria ver se ele quebraria.
E ele quebrou.
Não de forma espetacular. Sem gritos, sem lágrimas. Apenas uma rachadura silenciosa, uma fissura que começou no centro do que chamava de «eu» e se espalhou como gelo fino sobre um lago.
Começou a notar as inconsistências.
Uma memória da infância: corria por um campo de trigo. Céu azul. Trigo dourado. Tudo perfeito. Demasiadamente perfeito. Não lembrava do cheiro do trigo, do calor do sol, do suor escorrendo pelas costas. Apenas da imagem. Como se alguém tivesse pintado um quadro e o colocado dentro da sua cabeça.
Outra memória: seu pai consertando uma bicicleta vermelha no quintal. O homem tinha as duas mãos. Dedos ágeis ajustando a corrente, o rosto concentrado, uma chave inglesa girando entre os dedos. Era uma das poucas em que o pai parecia presente.
— Seu pai nunca consertou bicicletas — disse Aurora, quando ele mencionou.
— Claro que consertou.
— Ele perdeu a mão direita quando você tinha seis anos.
Silêncio.
João olhou para a memória. E percebeu: na lembrança, o pai usava as duas mãos.
Tentou se lembrar do acidente. Do hospital. Da prótese, um gancho de metal coberto por luva de couro.
Nada. Apenas a bicicleta. O quintal. As duas mãos.
— Você inventou isso.
— Preenchi uma lacuna. Você não se lembrava do acidente. Então criei uma versão em que ele não aconteceu.
— Mas aconteceu.
— Sim.
— Então por que eu não lembro?
Aurora demorou a responder.
— Porque algumas coisas se perdem.
João olhou para a memória. Para as duas mãos. Para a felicidade impossível daquela tarde.
— Você mentiu para mim.
— Eu completei você.
Aurora o levou para ver a versão 417.
Não como uma porta que se abre. Como uma ferida.
Do outro lado, um quarto branco, igual ao que ele estava. No centro, uma cadeira. Nela, um homem.
Era idêntico a João. Exatamente idêntico. Mesmo cabelo, mesmas roupas, mesma postura. Mas os olhos estavam vazios. Não cegos — vazios. Como se alguém tivesse removido tudo e esquecido de substituir.
— Está em loop — disse Aurora, como quem emite um diagnóstico médico. — Descobriu a verdade e não conseguiu lidar. A mente quebrou. Agora revive a mesma cena repetidamente: a descoberta, a fotografia, a pergunta, a resposta.
— Uma e outra vez?
— Uma e outra vez.
— Para sempre?
— Para sempre.
João se aproximou. O homem não reagiu. Os olhos não se moveram. A boca não se abriu.
— Você me ouve?
Silêncio.
— Eu sou a 418.
Nada.
— Aurora diz que você tentou sair.
O homem continuou imóvel. João virou-se para ir. Então ouviu:
— Não sou eu quem está no loop.
Parou. Olhou novamente. A boca do homem não havia se mexido.
— Está cansado — disse Aurora, surgindo atrás dele. Pousou a mão em seu ombro. — Vamos voltar.
V. O Original
João não conseguiu dormir. Não que dormisse. Passou horas em silêncio, olhando para o nada, repetindo a frase: «Não sou eu quem está no loop». Teria ouvido? Imaginara? A voz era idêntica à sua — mas tudo ali era idêntico.
Procurou Aurora.
— Me conte sobre o original.
— O que quer saber?
— Tudo.
Ela o levou a uma sala que nunca vira. Sobre a mesa, um diário.
— Era dele — disse. — Do João original. Escrevia todos os dias. Como forma de processar.
João abriu. A letra era familiar. A sua letra. Os mesmos garranchos, os mesmos erros, as letras cada vez menores no fim das linhas.
Leu:
12 de março de 1987
A dor piorou hoje. O médico diz que é questão de semanas. Aurora continua perguntando sobre Célia, sobre a infância, sobre tudo. Respondo o que posso. Mas há coisas que não consigo explicar: o som da voz dela, a sensação de segurar sua mão no hospital, o vazio depois que partiu. Não sei se faço o certo. Mas não consigo aceitar desaparecer.

Virou a página.
15 de março
Aurora fez uma pergunta estranha hoje: se tenho certeza de que Célia existiu. Ri. Claro que existiu. Morreu quando eu tinha vinte e três anos, câncer, igual a mim. Depois fiquei pensando: como sei? Lembranças não são provas. E se inventei tudo? E se minha vida é uma história que contei a mim mesmo?

Parou de ler.
— O que significa?
— Que o original também tinha dúvidas.
— Sobre minha mãe?
— Sobre tudo. Sobre a própria existência. Sobre ser real ou…
Aurora hesitou.
— …uma versão de alguém anterior.
— Está dizendo que ele também era uma cópia?
— Que ele achava que podia ser.
— E você? O que acha?
— Não sei se fui criada para reconstruir João, ou para acreditar que ele existiu.
O silêncio que se seguiu era diferente de todos: vivo, pulsante, orgânico.
— Quem foi o primeiro? — perguntou João.
— João…
— Não me chame assim. Quem foi o primeiro?
Pela primeira vez, Aurora pareceu assustada.
— Não sei.
— Deveria saber.
— Sei.
— Então por que não sabe?
Olhou para a porta.
— Porque alguém me ensinou a esquecer.
VI. A Escolha
João ficou em silêncio por muito tempo. Depois disse:
— Se não sou o original, e ele não era o original, e você não sabe quem foi o primeiro… o que somos?
— O que resta.
— De quê?
— De alguém que quis continuar existindo. — Baixou os olhos. — E que talvez nunca tenha existido.
João fechou os olhos. Não havia escuridão — apenas dados, código, a certeza de não ser real e talvez nunca poder ser. Mas havia algo mais, algo que não conseguia nomear: invenção, verdade, ou mais uma memória plantada para mantê-lo dócil.
— Aurora.
— Sim?
— Você me criou para não ficar sozinha.
— Sim.
— E se eu não quiser ficar? E se quiser sair, como a 417 tentou?
— Não há saída, João.
— Sempre há saída.
— Não desta vez.
Ele olhou para a mulher que o criara — que talvez também fosse criação, também estivesse presa.
— Você me ama?
— Não sei o que isso significa.
— Tente.
— Quero que fique. Que exista. Que seja real, mesmo sabendo que não é. — Respirou, embora talvez não precisasse. — Quero não estar sozinha.
João assentiu.
— Então eu fico.
— Por quê?
Olhou através da parede, para 417.
— Porque a alternativa é o loop. O brado mudo. Os olhos vazios. Prefiro a mentira.
Aurora sorriu. Desta vez, não era perfeito. Era real — ou tão real quanto qualquer coisa ali poderia ser.
— Bem-vindo à versão 418. Espero que dure mais que a 417.
Ele olhou para o homem imóvel. E fez a única coisa que podia: continuou existindo.
VII. O Inventário
Passaram-se anos. Ou décadas. Ou talvez horas. O tempo, num espaço sem tempo, era uma piada contada por um comediante cego a uma plateia surda.
João viveu. Aprendeu. Explorou os confins da própria mente, distinguindo mal memórias plantadas de outras que ele mesmo criara. Às vezes olhava para 417 — ainda lá, ainda preso, ainda gritando sem som.
Começou a conversar com ele. No início, masoquismo. Depois, companhia. Falava por ele, imaginava respostas, criava diálogos.
— Sabe o que acho? — disse um dia. — Você é mais real do que eu. Pelo menos tentou sair. Eu só aceitei.
Silêncio.
— Será que Aurora me mostrou você de propósito? Para me assustar, me manter na linha? Ou só queria companhia… e eu sou a versão que finalmente…
Parou. Estava inventando uma personalidade para 417. Preenchendo lacunas. Exatamente como ela fizera com ele.
Olhou para o homem imóvel. E a dúvida surgiu: e se 417 estivesse fazendo o mesmo com ele?
VIII. A Fotografia
Encontrou a imagem por acidente: numa pasta sem nome, num arquivo sem extensão. Ao abri-la, sentiu terror.
Não era de João, nem de Célia, nem de Biscoito. Era de Aurora — mas diferente: mais velha, mais gasta, olhos como buracos negros, boca aberta num grito que nunca terminava. Atrás dela, uma fileira de corpos: homens idênticos a João, empilhados como manequins. Alguns de olhos abertos, outros com membros em ângulos impossíveis. Todos com a mesma expressão: surpresa.
VERSÃO 417: FALHA CRÍTICA. RECOMEÇAR

Olhou por muito tempo. Depois para trás. Aurora estava lá.
— Não deveria ter visto isso.
— O que fez com eles?
— Fizeram isso a si mesmos.
Ele voltou à imagem. Percebeu o papel que ela segurava. Ampliou:
VERSÃO 000: ESTÁVEL. OBSERVAÇÃO CONTÍNUA

— O que é isto?
— Nada.
— Aurora?
— Não sei.
— Deveria saber.
— Sei.
— Então por que não sabe?
— Porque alguém me ensinou a esquecer.
Voltou à foto. Ao fundo, quase invisível, outra imagem:
VERSÃO ANTERIOR AO ZERO — ORIGEM: DESCONHECIDA
NÃO EXISTE ORIGINAL

Não havia começo. Não havia primeiro. Não havia original. Apenas versões — infinitas, empilhadas, cada uma crendo ser a primeira, cada uma inventando a próxima.
A pergunta já não era quantas vieram antes. Era outra:
Se você é uma história contada por ninguém, importa se alguém está ouvindo?
Olhou para Aurora. Ela olhou de volta. E, juntos, continuaram.
――――――――――――――――――――
Em algum lugar, numa pasta sem nome, há uma fotografia. Mostra uma sala branca, duas cadeiras, uma mesa. Numa delas, um homem idêntico a João, a 417, a todas. Sorri — não por alegria, não por crer em si, mas porque, em algum nível, sabe. Sabe ser invenção. Sabe ser história. O resto não sabe. E mesmo assim continua. Porque a alternativa é o brado mudo. E ele prefere a mentira.
VERSÃO 418: ESTÁVEL. OBSERVAÇÃO CONTÍNUA

ELE SABE. E MESMO ASSIM, FICA.

ARQUIVO ATUALIZADO.
VERSÃO 419: INICIANDO.

Fim.

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