domingo, 6 de setembro de 2026

O ESPELHO NUNCA FOI VAZIO

O ESPELHO NUNCA FOI VAZIO
Algumas coisas não precisam atravessar o vidro


Tadeu Everton Zamoiski • Meados de 2026
◆ ◇ ◆
A primeira coisa que aprendi naquela casa foi que espelhos não atrasam.
A segunda foi que algumas regras existem apenas para que alguma coisa possa quebrá-las.
O casarão colonial de taipa caiada ficava no fim da estrada de terra, além da última casa da vila. Ninguém passava por ali depois do anoitecer. As venezianas estreitas permaneciam sempre fechadas, e o ar dentro das paredes era denso, permanente, cheirando a mofo, a cera derretida e a madeira velha que já não respirava. O assoalho de peroba rangia mesmo quando ninguém pisava. Às vezes eu jurava que o rangido vinha de cima. Às vezes, de baixo.
Eu nunca gostei de espelhos. Não porque mostrassem demais, mas porque sempre achei estranho que devolvessem exatamente aquilo que recebiam.
O quarto principal era o único lugar onde eu ainda conseguia fingir que dormia. Na parede, encostado de leve, estava o espelho de moldura de ébano. Pesado demais para o tamanho. A madeira negra absorvia a pouca luz. Eu o colocara de propósito de modo que a porta nunca aparecesse no reflexo. Não queria ver a entrada. Não queria saber se algo atravessava o umbral enquanto eu dormia.
No começo foi só o atraso.
Eu levantava a mão direita. O homem do outro lado levantava a mão um segundo depois.
Eu piscava. Ele piscava depois.
Eu respirava fundo. O peito dele só subia quando o meu já descia.
Achei que fosse cansaço. Ou aquela penumbra constante da casa. Ou o tique-taque que eu ouvia no silêncio absoluto — o tique-taque de um relógio que eu mesmo havia arrancado da parede anos atrás e jogado no fundo do poço seco.
Naquela noite ouvi três batidas.
Tique.
Taque.
Tique.
O homem no espelho inclinou a cabeça, como se também tivesse ouvido.
Fiquei imóvel de propósito.
Sentei-me na beira da cama, mãos sobre os joelhos, olhos fixos no espelho. O homem do outro lado fez o mesmo. Olhos iguais. A mesma cicatriz no queixo. A cicatriz tinha vindo de uma queda aos onze anos. Minha mãe dizia que eu chorara mais pelo sangue do que pela dor. No espelho, toquei a cicatriz. Ele tocou também.
Só havia uma coisa estranha.
Eu não me lembrava de ter contado aquilo a ninguém.
Levantei a mão direita.
O reflexo demorou.
Quando finalmente se moveu, levantou a esquerda.
Repeti. Direita.
Ele, esquerda.
Pensei que me confundira. Olhei para a minha própria mão. Confirmei. Direita.
Do outro lado, a esquerda ainda estava no ar.
Então ele sorriu.
Por um instante achei que fosse o meu sorriso.
Só depois percebi que eu não estava sorrindo.
Os cantos dos lábios subiram primeiro. Depois os dentes apareceram — um pouco demais. Os olhos não acompanharam. Continuaram frios, observando. O tique-taque ficou mais próximo. Já não vinha do quarto.
Ele se virou.
Eu não me virei.
Ele deu um passo para o lado, saindo do enquadramento da moldura. Eu continuei sentado, olhando para o lugar onde ele deveria estar. O espelho agora mostrava só a parede vazia do quarto, a cama desfeita, a janela fechada. Mas eu ainda estava ali. Sentado. Imóvel.
Tentei levantar a mão.
Nada.
Tentei gritar.
O ar não saiu.
Do outro lado da moldura — do lado de fora, onde o assoalho rangia de verdade — ouvi passos leves. O homem que usava meu rosto caminhou até a porta, abriu-a com cuidado e saiu. Ouvi a dobradiça. Ouvi o rangido no corredor. Ouvi a porta da frente se fechar com um estalo seco.
Depois que a porta se fechou, o casarão pareceu maior.
Fiquei sozinho dentro do vidro.
A moldura de ébano agora era a única parede que eu tinha. O quarto que eu via do outro lado começava a escurecer depressa demais. As venezianas, do lado de fora, pareciam mais fechadas ainda. O cheiro de mofo chegou até mim, atravessando o que deveria ser só superfície.
Às vezes, à noite, ele volta.
Ele se senta na beira da cama e me olha. Não sorri mais. Só observa. Como se quisesse ter certeza de que eu ainda estou aqui. Às vezes aproxima o rosto até quase tocar o vidro. Eu vejo os poros. Vejo a cicatriz. Vejo que os olhos dele já não são exatamente iguais aos meus.
E eu fico parado.
Porque se eu me mover — se eu conseguir me mover — ele pode perceber que ainda existe alguém do lado de dentro.
E talvez seja justamente isso que ele esteja esperando.
O silêncio é tão denso que continuo ouvindo o tique-taque.
Só que agora sei de quem é o relógio.

Nenhum comentário: