A ÁGUA NÃO ESCOLHE
O que entra por uma porta que nunca foi trancada
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Há uma coisa que aprendi em quinze anos limpando o que os outros sujam: todo lugar guarda o cheiro de quem já viveu ali. Não é metáfora. É química. Suor cristalizado no reboco, óleo de cozinha entranhado no rejunte, unha cortada que escorrega pelo ralo e fica. O corpo deixa rastro mesmo quando vai embora. Mesmo quando morre.
Estou escrevendo isso porque não durmo há nove dias.
Não é insônia.
É que, quando fecho os olhos, sinto a água subindo pelo colchão.
• • •
O Balneário Flórida fora de temporada é um lugar que ninguém fotografa. As placas dos edifícios estão descascadas, os nomes dos condomínios perderam vogais. Edifício Mar Azul virou Edi. Mar Az, como se a cidade também estivesse esquecendo de falar.
Adilson conhecia cada sílaba desse esquecimento.
Era zelador do Residencial Costa Verde desde 2009, quando ainda tinha cabelo preto e Neusa ainda respirava.
Agora era só ele, uma bicicleta Caloi com o selim rasgado e trezentas e quarenta e duas chaves penduradas em ganchos de latão na sala da zeladoria.
Conhecia cada uma.
Apartamento 101.
102.
103.
Bloco A. Bloco B.
Portão. Casa de máquinas. Caixa de correio. Salão de festas.
Nunca precisava olhar as etiquetas.
— Nunca perdi uma — dizia.
Ninguém perguntava.
Ele dizia mesmo assim, para as paredes, para o ventilador de teto que girava devagar como um pensamento cansado, para a fotografia de Neusa na parede, sorrindo com aquele dente torto que ele amava.
Uma vez, anos atrás, ela perguntara:
— Você confere essas chaves todo dia?
— Todo dia.
— Por quê?
Ele levantara o molho diante dos olhos.
— Porque alguma porta sempre fica aberta.
Ela rira.
Adilson também.
Na época ainda era possível rir daquela frase.
O inverno em Matinhos não é frio como em Curitiba. É úmido. Uma umidade que entra nos ossos e fica, que faz as juntas estalarem às cinco da manhã, quando ele levantava para verificar as bombas de água.
Adilson gostava dessa hora.
A cidade toda parecia pertencer a ele.
As ruas vazias. Os postes piscando. O mar batendo longe como um coração que nunca aprendera a parar.
Foi numa terça-feira de junho que encontrou a primeira.
• • •
Apartamento 302.
Fechado desde março, quando a família de São Paulo fora embora depois do carnaval.
Adilson subiu para verificar um vazamento na laje. O síndico do bloco B ligara reclamando de uma mancha no teto do 202.
A chave girou macia na fechadura.
Ele tinha orgulho disso.
Óleo de máquina nas engrenagens uma vez por mês, chave por chave.
O apartamento cheirava a fechado. Poeira, plástico de móvel coberto, madeira guardando o cheiro de uma família que já não estava ali.
Acendeu a lanterna.
A luz do corredor não chegava até a cozinha.
Foi quando viu.
Uma pegada molhada.
Descalça.
No porcelanato branco, entre a porta e a geladeira desligada.
Adilson ficou parado.
A marca era perfeita.
Calcanhar.
Arco.
Dedos.
Uma unha ligeiramente mais escura no segundo dedo.
Ele olhou para os próprios pés.
Chinelo de borracha.
Número 44.
O dedo mindinho do pé direito era torto desde criança, desde uma bicicleta que caíra em cima dele.
Voltou a olhar.
A mesma deformação.
Adilson se abaixou.
Passou o dedo na água.
Gelada.
Ainda fresca.
Não cheirava a nada.
Olhou para a torneira.
Seca.
Banheiro seco.
Registro fechado.
As janelas, trancadas.
Não chovia havia quatro dias.
Por alguns segundos, pensou em chamar Nivaldo.
Depois desistiu.
Era só água.
E água sempre vinha de algum lugar.
Pegou o pano de chão que carregava no bolso traseiro, secou a marca e passou álcool.
Antes de sair, olhou novamente para o piso.
Havia ficado uma pequena mancha úmida onde estivera o calcanhar.
Adilson fechou a porta.
Desceu contando os degraus.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Contava desde criança quando queria afastar pensamentos ruins.
Na zeladoria, conferiu os ganchos.
Uma, duas, três fileiras.
Parou.
Contou novamente.
Trezentas e quarenta e duas.
Todas ali.
Nunca faltava nenhuma.
• • •
A segunda apareceu três dias depois.
Apartamento 105.
Fechado desde janeiro.
Adilson entrou para trocar uma lâmpada do corredor interno. O síndico achava que ele não percebia quando as lâmpadas queimavam sozinhas nos apartamentos vazios.
Adilson percebia tudo.
Trocava.
Ninguém agradecia.
Trocava de novo.
A pegada estava no banheiro.
Dentro do box.
Uma única marca de pé no piso seco.
Ao redor dela, nenhum respingo.
Nenhuma gota.
Nada.
Adilson se agachou.
Reconheceu antes de querer reconhecer.
A pequena torção no dedo mínimo.
Ele não tinha entrado no box.
Nunca entrava.
Desde que Neusa morreu, não entrava.
Era uma regra que nunca explicara a ninguém.
Talvez nem a si mesmo.
Fechou a porta do banheiro.
Depois a do apartamento.
Sentou no chão do corredor, encostado à parede.
Havia uma infiltração antiga no teto. A mancha escura lembrava o mapa da Itália.
Ele nunca consertara.
Gostava dela.
— É o encanamento — disse.
A voz saiu baixa.
— É só o encanamento.
Olhou para a mancha no teto.
Por um instante, teve a impressão de que ela havia mudado de forma.
Parecia uma mão.
Piscou.
Era apenas infiltração.
• • •
Naquela noite, sonhou com Neusa.
Ela estava na cozinha do apartamento 101.
De costas.
Lavava pratos.
A água corria da torneira.
Corria.
Corria.
Corria.
— Neusa.
Ela não respondeu.
— A água tá transbordando.
Nada.
Adilson percebeu que a água já cobria o chão.
Subia pelos tornozelos.
Pelos joelhos.
Pela cintura.
— Neusa.
Ela continuava de costas.
Ele tentou chegar até ela, mas a cozinha ficava cada vez maior.
A torneira continuava aberta.
A água chegava ao peito.
— Neusa!
Ela parou.
Virou devagar.
O rosto era dela.
Mas os olhos...
Adilson acordou antes de conseguir compreender.
O travesseiro estava molhado.
Não de suor.
Água.
Ele sentou na cama.
O quarto estava escuro.
Passou a mão pelo colchão.
Seco.
Olhou para o chão.
Uma pequena poça.
No centro dela, uma marca de pé.
Ele não se aproximou.
Ficou sentado até amanhecer.
• • •
Às seis e vinte da manhã, pegou o pano.
Depois o balde.
Depois o desinfetante.
Antes de limpar, percebeu uma coisa.
A pegada estava virada para a cama.
Como se alguém tivesse ficado parado ali durante a noite.
Adilson limpou.
Não contou para ninguém.
• • •
A terceira apareceu no corredor do bloco A.
Em frente à porta do 401.
O 401 era o único apartamento que nunca fora alugado.
Estava vazio desde a construção, em 1998.
O proprietário, segundo Nivaldo, morava na Europa.
Ou na Alemanha.
Ou na Itália.
Nivaldo nunca lembrava.
Adilson nunca tinha visto o homem.
Mas a chave estava no gancho.
Como todas as outras.
Naquela manhã, a pegada estava no corredor.
Virada para a porta.
Adilson parou.
Não havia outras marcas.
Nenhuma pegada vindo das escadas.
Nenhuma saindo.
Apenas aquela.
Diante do 401.
Esperando.
Adilson olhou para a porta.
Depois para o molho de chaves que trazia preso à cintura.
Sentiu um frio no estômago.
Tirou a chave do 401.
Nunca a havia usado.
O metal estava frio demais.
Encostou a chave na fechadura.
Antes de girá-la, ouviu um ruído do outro lado.
Não uma voz.
Não exatamente.
Parecia água escorrendo por dentro de uma parede.
Adilson ficou imóvel.
Depois girou.
A porta abriu.
O cheiro que saiu não era de apartamento fechado.
Era de maré baixa.
Madeira molhada.
Alguma coisa antiga deixada tempo demais debaixo d'água.
Adilson permaneceu na soleira.
A lanterna iluminou a sala vazia.
Piso de taco.
Paredes descascadas.
Nenhum móvel.
Nenhuma janela aberta.
No centro da sala havia uma pegada.
Molhada.
Virada para ele.
Adilson não entrou.
A luz da lanterna tremeu.
Por um instante, teve certeza de que havia alguém parado no fundo da sala.
Quando apontou a luz para lá, não havia ninguém.
Ele fechou a porta.
Dessa vez não contou os degraus.
Correu.
• • •
Na zeladoria, trancou a porta.
Depois a janela.
Depois o armário.
Depois a gaveta.
Por último, conferiu as chaves.
Uma.
Duas.
Três.
Todas.
Trezentas e quarenta e duas.
Ficou olhando para elas.
Alguma coisa parecia errada.
Não sabia o quê.
A fotografia de Neusa estava na parede.
Ele se aproximou.
Ela sorria.
O dente torto.
O cabelo preso.
Os olhos vivos.
Adilson tocou o vidro da moldura.
— Você tá me vendo?
A fotografia não respondeu.
O telefone tocou.
Adilson quase derrubou a moldura.
O telefone fixo não tocava desde 2019.
Atendeu.
— Alô?
Era Nivaldo.
— Adilson?
— Sim.
— Apareceu uma infiltração no 302 de novo.
Adilson fechou os olhos.
— Eu verifiquei aquele apartamento.
— Pois é. O pessoal de São Paulo ligou. Tem água escorrendo pela parede.
Silêncio.
— Nivaldo...
— E tem uma coisa estranha.
Adilson não respondeu.
— O vizinho do 202 disse que a mancha tá crescendo.
— Tá.
— Disse que parece uma pegada.
Adilson sentiu os dedos apertarem o telefone.
— Uma pegada?
— É.
Nivaldo respirou do outro lado.
— Ele disse que parece um pé.
A ligação caiu.
• • •
Na manhã seguinte, havia uma pegada na porta da zeladoria.
Adilson encontrou quando saiu para buscar o jornal.
A água já começava a secar nas bordas.
No centro, permanecia úmida.
Virada para dentro.
Ele não se mexeu.
O sol nascia atrás dos prédios, pintando tudo de um laranja doente.
Uma vizinha passava com o cachorro.
Um ônibus dobrou na avenida.
Alguém ligou uma televisão.
O mundo continuava.
Adilson olhou para os próprios pés.
Estavam molhados.
Ele estava de chinelos.
Não havia água em lugar nenhum.
• • •
Naquela noite, ficou sentado na cama.
A lanterna sobre o criado-mudo.
O relógio marcava 3h47.
O prédio estava silencioso.
Nem o mar se ouvia.
Foi quando percebeu que alguma coisa estava andando no corredor.
Não eram passos comuns.
Eram passos molhados.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Pausa.
Ploc.
Adilson não respirava.
Os passos pararam diante da porta.
Silêncio.
Então a maçaneta girou.
Devagar.
Para um lado.
Depois para o outro.
A porta estava trancada.
Ele tinha conferido duas vezes.
A maçaneta continuou girando.
Não havia pressa do outro lado.
Apenas uma paciência absoluta.
Depois parou.
Adilson esperou.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Levantou.
Foi até a porta.
Encostou o ouvido.
Havia respiração do outro lado.
Lenta.
Profunda.
Quase sonolenta.
— Quem é?
A respiração cessou.
Adilson ficou esperando.
Então ouviu:
— Você não trancou.
A voz era baixa.
Rouca.
Familiar.
Adilson recuou.
Era a voz dele.
• • •
A lanterna caiu.
A luz girou pelo teto.
Pela parede.
Pela fotografia de Neusa.
Por um segundo, Adilson viu alguma coisa diferente nos olhos dela.
Não sabia dizer o quê.
Molhados.
Talvez.
Ou apenas o reflexo da lanterna.
A voz voltou.
— Você nunca tranca.
A água começou a entrar pela fresta da porta.
Primeiro uma linha fina.
Depois outra.
Adilson ficou olhando.
A água avançava pelo piso.
Sem pressa.
No reflexo escuro da poça havia uma forma.
Ele se aproximou.
Era um pé.
Descalço.
O contorno familiar.
Adilson não abriu a porta.
A maçaneta girou novamente.
E, dessa vez, a porta abriu sozinha.
• • •
Ele não lembra de ter gritado.
Não lembra de ter corrido.
Só lembra da água.
O corredor estava alagado.
A água vinha de baixo das portas, das paredes, dos tetos.
O prédio inteiro parecia ter começado a vazar ao mesmo tempo.
Adilson correu para a escada.
Escorregou.
Caiu.
O joelho bateu no degrau.
Levantou.
A água chegava aos tornozelos.
Depois aos joelhos.
Depois à cintura.
Ele tentou voltar para a zeladoria.
A água já cobria a porta.
— Neusa!
Não sabia por que gritara o nome.
A água chegou ao peito.
— Neusa!
A porta do 401 estava aberta.
Havia luz lá dentro.
Adilson parou.
A água batia no queixo.
No interior do apartamento havia uma mulher sentada no chão.
De costas.
Vestido azul.
Adilson reconheceu o vestido antes de reconhecer a pessoa.
Era o vestido que Neusa usava naquela manhã.
Aquela manhã.
Antes de tudo.
Antes da ambulância.
Antes do hospital.
Antes de ele aprender a não entrar mais em boxes.
A mulher levantou a cabeça.
— Você demorou.
Adilson ficou imóvel.
— Neusa?
Ela se virou.
O rosto era o dela.
Só os olhos estavam diferentes.
Pareciam cheios de água.
— Você ainda guarda todas as chaves? — perguntou.
Adilson não respondeu.
— Todas?
— Sim.
Ela sorriu.
O mesmo sorriso.
O mesmo dente torto.
— Então por que não conseguiu abrir aquela porta?
Adilson sentiu a água subir.
— Eu tentei.
Neusa inclinou a cabeça.
— Tentou?
Ele fechou os olhos.
A lembrança veio sem pedir licença.
Uma porta.
Água no chão.
A voz dela.
O barulho do corpo caindo.
E depois a mão dele segurando a maçaneta.
Paralisado.
Por alguns segundos.
Só alguns.
Mas alguns segundos podem durar uma vida inteira.
Quando abriu os olhos, Neusa estava diante dele.
— Você fechou todas as outras — disse ela.
Tocou o rosto dele.
A mão estava gelada.
Molhada.
Cheirava a mar.
— Só deixou uma aberta.
• • •
Adilson acordou na cama.
O sol entrava pela janela.
O relógio marcava 8h12.
O quarto estava seco.
Ele ficou algum tempo sem se mexer.
Depois tocou o colchão.
Seco.
Foi até a cozinha.
Fez café.
O cheiro familiar encheu a zeladoria.
Pela primeira vez em muitos dias, pareceu normal.
Olhou para a fotografia.
Neusa sorria.
O dente torto.
Os olhos vivos.
Adilson pegou o uniforme.
Prendeu o molho de chaves à cintura.
Abriu a porta.
Parou.
Na soleira havia uma pegada molhada.
Virada para dentro.
Não olhou para os próprios pés.
Não precisava.
Fechou a porta.
Depois abriu novamente.
A pegada continuava ali.
Ele respirou fundo.
Pegou o pano.
Ajoelhou-se.
Antes de tocar na água, percebeu uma coisa.
A marca não era do tamanho do seu pé.
Era menor.
Muito menor.
Como o pé de uma criança.
• • •
Hoje faz nove dias.
A água não para de subir.
Não no prédio.
O prédio está seco.
Mas em mim.
Sinto os pulmões pesados.
Sinto os olhos molhados.
Sinto os pés descalços mesmo quando uso botas.
As pegadas aparecem em lugares onde não deveriam existir.
Dentro da cama.
No travesseiro.
Na pia.
No espelho.
Não como reflexos.
Como marcas.
Como se alguém estivesse caminhando do outro lado do vidro.
E elas estão diminuindo.
A cada dia.
Ontem eram do tamanho dos meus pés aos oito anos.
Hoje são menores.
Eu me lembro de ter cinco.
Lembro de uma bicicleta caída.
Lembro de água no chão.
Lembro de uma porta.
Não lembro de quem estava do outro lado.
Talvez seja essa a parte que a água quer levar.
Ou devolver.
À noite, escuto Neusa no 401.
Às vezes ela chama meu nome.
Às vezes não diz nada.
Às vezes escuto apenas passos.
Ploc.
Ploc.
Ploc.
E eu respondo.
— Eu sei.
Porque agora sei.
Passei quinze anos cuidando de portas que não eram minhas.
Passei quinze anos conferindo chaves.
Fechando registros.
Secando corredores.
Consertando vazamentos.
A água nunca precisou de uma chave.
Nunca precisou de força.
Nunca precisou escolher.
Bastava uma fresta.
Uma rachadura.
Um descuido.
Uma porta que não fechasse direito.
A água não escolhe.
A água só entra.
Estou escrevendo isso porque talvez alguém encontre estas páginas.
Se encontrar uma pegada molhada na sua casa, não limpe.
Não pergunte de quem é.
Não tente descobrir de onde veio.
E, principalmente, não confie na fechadura.
Porque algumas portas não foram feitas para impedir que alguma coisa entre.
Foram feitas para impedir que alguma coisa saia.
• • •
[Fim do relato encontrado na antiga zeladoria do Residencial Costa Verde, em Matinhos, datado de 14 de julho de 2024.]
Adilson Ferreira dos Santos, 52 anos, zelador do condomínio desde 2009, foi encontrado morto no apartamento 401 na manhã seguinte.
Havia vinte centímetros de água no cômodo.
O laudo registrou afogamento.
O piso, porém, estava seco.
Não havia água nos demais apartamentos.
Não havia sinais de arrombamento.
Não havia explicação para a chave do 401 estar dentro da fechadura, pelo lado de fora.
Também não havia explicação para o molho encontrado sobre a mesa da zeladoria.
O inventário do condomínio registrava 342 chaves.
Foram encontradas 343.
A última não tinha etiqueta.
Era pequena.
Muito pequena.
Segundo o funcionário responsável pelo inventário, parecia antiga demais para pertencer ao edifício.
Ninguém descobriu qual porta ela abria.
O Residencial Costa Verde foi demolido em 2026.
Durante a demolição, os operários encontraram água sob o piso do antigo apartamento 401.
Água salgada.
A alguns metros da praia.
Na areia, naquela mesma noite, apareceu uma sequência de pegadas.
Começava junto às ruínas.
Terminava no mar.
Os pescadores dizem que, quando a maré recua e a neblina baixa, ainda é possível vê-las.
Às vezes são grandes.
Às vezes pequenas.
E, algumas noites, há apenas uma.
Sempre diante de uma porta.
Esperando que alguém a abra.
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