quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Restaurador de Livros

O Restaurador de Livros
Aquilo que foi escrito antes de mim

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Eu não queria escrever isto.

Preciso que você entenda antes de qualquer coisa, antes de julgar, antes de duvidar, antes de fechar o livro e dormir tranquilo. Escrevo porque a alternativa é pior. A alternativa é deixar que continue sem testemunha.

Toda noite, quando fecho os olhos, sinto o cheiro. Papel envelhecido. Cola de osso. Tinta ferrogálica que penetrou na fibra há séculos e nunca mais saiu. É o cheiro do meu ofício.

Minhas mãos tremem sobre o teclado. Há uma parte de mim que cresce a cada dia e que sabe que isto não é um testemunho.

É uma confissão.

PRIMEIRA PARTE: O LIVRO

O Largo da Ordem em uma terça-feira de julho é um lugar que existe entre o mundo dos vivos e algo mais antigo. As pedras do calçamento guardam o frio da noite mesmo quando o sol insiste em aparecer por entre as nuvens baixas. O cheiro de pipoca doce e pastel de feira se mistura ao mofo úmido que sobe das galerias subterrâneas, canais que ninguém sabe exatamente para onde levam.

Otávio conhecia cada centímetro daquele lugar. Trinta e quatro anos, quase duas décadas entre estantes e lombadas, entre fólios e incunábulos. Seu ateliê ficava no segundo andar de um sobrado azul desbotado, acima de uma loja de antiguidades que nunca parecia aberta e nunca parecia fechada. Ele subia a escada de madeira rangente todas as manhãs às sete e trinta, invariavelmente, com um café na mão esquerda e a chave na direita.

O hábito começou como uma brincadeira. Cheirar as páginas antes de trabalhar nelas. Um colega de faculdade dizia que cada livro tinha sua própria assinatura olfativa: o século XVIII cheirava a rapé e cera de vela, o XIX a carvão e suor de tipógrafo, o início do XX a fumaça de cigarro e tinta de jornal. Otávio riu na época. Depois experimentou. Depois não conseguiu mais parar.

Era íntimo de um jeito que ele não sabia explicar. Como cheirar o pescoço de alguém adormecido. Você está próximo de algo que não foi feito para ser seu.

Naquela terça-feira, o livreiro do sebo na Rua São Francisco, um homem chamado Valdomiro que tinha a pele tão enrugada que parecia ter sido prensada entre dois volumes, ligou para o ateliê.

“Otávio, apareceu uma coisa aqui. Um lote que veio de um leilão em Porto Alegre. Tem um exemplar que... bom, você precisa ver.”

“Que tipo de exemplar?”

Uma pausa. O som de páginas sendo folheadas do outro lado da linha.

“Não sei dizer. É português. Mas não é brasileiro. A encadernação é estranha. E tem uma dedicatória na primeira página.”

“Dedicação de quem?”

“É isso. Não sei de quem. A letra é... você vai entender quando ver.”

Otávio desceu a escada às onze e quarenta. Lá embaixo, um casal de turistas fotografava a fachada da Igreja da Ordem. Uma vendedora fechava sua banca de artesanato com movimentos lentos, arrastando a lona sobre as peças de madeira. Um ônibus passou na Rua Claudino dos Santos, o motor chiando na subida. Tudo normal. Tudo exatamente como deveria ser numa terça-feira fria de julho.

Foi isso que ele lembraria depois. O quanto tudo estava normal.

O sebo do Valdomiro era um buraco na parede com cheiro de cachorro molhado e história apodrecida. O velho estava atrás do balcão, com óculos de leitura que pareciam ter sido consertados com fita isolante, e um sorriso que não chegava aos olhos.

“Está ali”, disse, apontando com o queixo.

O livro estava sobre um pano de veludo vermelho que o próprio Valdomiro havia colocado, como se a coisa merecesse reverência. Capa de couro escuro, quase preto, com ferragens de latão nos cantos. Sem título na lombada. Sem título na capa. Apenas uma textura que parecia ter sido trabalhada à mão, não por um artesão, mas por alguém que não tinha as ferramentas adequadas, mas tinha a necessidade.

Otávio se aproximou. O cheiro chegou antes que ele pudesse se conter.

Não era papel. Não era couro. Não era cola.

Era algo úmido e doce, como fruta deixada fechada em um armário por tempo demais. Algo que tinha uma nota de metal, ferro, talvez sangue, e uma nota de terra molhada.

Ele abriu o livro.

A primeira página tinha quase todo o branco intacto, exceto pela dedicatória escrita no centro, em tinta que havia escurecido para um marrom quase preto:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora.

Curitiba, 1983.

Ele ficou olhando para as palavras por um longo momento. Depois riu.

“Valdomiro, isso é brincadeira?”

“Não sei do que você está falando.”

“Tem meu nome aqui. Meu nome exato. E a data é de quarenta anos atrás.”

O velho se aproximou, os óculos escorregando pelo nariz. Leu a dedicatória duas vezes. Três vezes.

“Isso não estava aí”, disse, finalmente. “Quando eu folheei, tinha outra coisa.”

“Outra coisa como?”

“Não sei. Não sei mais.” Ele esfregou os olhos com os nós dos dedos. “Não sei mais o que estava escrito.”

Otávio levou o livro para o ateliê. Disse a si mesmo que era por curiosidade profissional, uma dedicatória anômala em um volume não catalogado, um mistério bibliográfico que merecia investigação. Disse a si mesmo que era o tipo de quebra-cabeça que ele adorava, que encontraria uma explicação racional antes do fim da semana.

Mas havia algo no cheiro daquele livro. Algo que ele não conseguia deixar de buscar. A cada hora, ele abria a capa e aproximava o rosto das páginas, inalando. O cheiro mudava. Às vezes era o dulçor de fruta podre. Às vezes era ferro puro. Às vezes era algo mais antigo, o odor de papel que ainda está sendo feito, polpa úmida prensada em tela, tinta que ainda não secou.

Ele começou a restauração naquela tarde. O trabalho era simples: reforçar a lombada, tratar as manchas de umidade, remover a poeira acumulada nas últimas páginas. Coisas que suas mãos faziam antes mesmo de ele pensar nelas.

Mas quando abriu o livro na página 47, encontrou uma anotação na margem.

Ele ainda não sabe o que está fazendo.

Otávio piscou. A letra era a mesma da dedicatória. E era a dele.

Não apenas parecida. Não apenas familiar. Era a sua letra. A inclinação do “E”, a curva do “n”, a forma como o “s” final se arrastava ligeiramente para a esquerda. Anos examinando manuscritos haviam lhe ensinado a reconhecer uma letra. E aquela era sua.

Fechou o livro. Respirou. Abriu de novo.

A anotação estava diferente.

Ele está começando a entender.

SEGUNDA PARTE: O QUE ESTÁ ESCRITO

Na manhã seguinte, Otávio começou a folhear o livro página por página. As páginas ímpares estavam em branco, completamente, absolutamente em branco, sem sequer as manchas de umidade que ele tinha visto na primeira inspeção. As páginas pares continham texto.

Não um texto contínuo. Fragmentos. Frases soltas, escritas na mesma letra que era a dele, na mesma tinta que escurecia para marrom.

Página 2: A casa tinha um porão que não estava na planta.

Página 4: Ela ouvia passos acima do teto quando não havia andar de cima.

Página 6: O espelho mostrava o quarto vazio, mas ela sentia alguém respirando atrás dela.

Página 8: Ele encontrou os cadernos da mãe e leu todos em uma noite. Na manhã seguinte, não lembrava de nada.

Otávio parou. Os cadernos da mãe. Ele nunca os tinha lido. Nunca tinha sequer aberto a caixa. Mas a página 8 sabia. A página 8 sabia algo que ele nem tinha feito ainda.

Ele fechou o livro. As ferragens de latão pareciam ter mudado de posição, não muito, apenas alguns milímetros, mas o suficiente para que ele notasse.

Ele pegou o telefone. Ligou para o pai.

“Pai, tudo bem?”

“Tudo. Você está bem? Faz tempo que não liga.”

A voz dele. Normal. A televisão ao fundo. O cachorro latindo em algum lugar da casa.

“Pai, aquela caixa de cadernos da mãe. Onde está?”

“Que caixa?”

“A caixa com os cadernos que ela escrevia antes de morrer. Você guardou no armário.”

Uma pausa. Curta. Não longa o suficiente para ser suspeita.

“Ah, aquela. Acho que ainda está aqui. Por quê?”

“Eu queria ver. Você pode procurar?”

“Posso. Mas por que agora, depois de tanto tempo?”

“Só queria.”

O pai riu do outro lado. Um riso normal. Um riso de pai.

“Você sempre foi esquisito com as coisas dela. Desde criança.” Outra pausa. “Espera, deixa eu ver se...”

O som de um armário abrindo. O som de caixas sendo movidas. O som de algo pesado sendo arrastado pelo chão de madeira.

“Está aqui”, disse o pai. “Está aqui. Mas...”

“Mas o quê?”

“Está vazia, Otávio.” A voz dele mudou. Não era mais aguda. Era mais lenta. Mais cuidadosa. Como se estivesse escolhendo cada palavra. “Sempre esteve vazia.”

“Não. Eu me lembro dela escrevendo. Passava horas...”

“Você era criança.”

“Eu vi os cadernos.”

“Você viu uma caixa.”

“Pai, ela morreu de câncer. Eu estava no hospital. Eu tinha doze anos.”

Silêncio. Longo o suficiente para Otávio ouvir a própria respiração.

“Você nunca esteve naquele hospital, Otávio.”

“Eu estava lá.”

“Não. Eu estava.”

A ligação caiu.

Otávio ficou com o telefone na mão, ouvindo o silêncio. O silêncio que vinha do aparelho era diferente do silêncio normal, denso, como se alguém estivesse do outro lado, respirando, esperando que ele desligasse.

Ele desligou.

Sua mãe tinha dezoito anos em 1983. Ele pensou nisso sem querer, como se a informação tivesse sido colocada em sua cabeça por outra pessoa. Dezoito anos, estudando Letras na Federal, morando em uma pensão perto da Reitoria. Ele nunca tinha visto fotos daquele período. Nunca tinha perguntado. Era um buraco na história dela, um espaço em branco entre a infância no interior e o casamento, entre a menina e a mãe.

Um espaço que agora tinha uma data.

O livro estava aberto na página 12.

Ele vai ligar para o pai. O pai vai mentir. O pai sempre mente. O pai sabe o que aconteceu em 1983.

Otávio leu a frase duas vezes. Depois, na terceira, percebeu algo que não tinha visto antes: a tinta estava mais fresca que as outras. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Ele aproximou o rosto da página.

Era o cheiro de tinta que ainda não secou.

Otávio passou os três dias seguintes trancado no ateliê. Não atendeu o telefone. Não saiu para comer. A cada noite, o livro mudava. As páginas pares acumulavam mais texto, mais fragmentos, mais pedaços de uma história que parecia ser sobre ele e não ser sobre ele ao mesmo tempo. Havia passagens sobre uma mulher chamada Vera que tinha um filho chamado Otávio. Havia passagens sobre um homem chamado Otávio que restaurava livros e que começou a perder a memória. Havia passagens sobre um porão em Curitiba, um porão que não estava em nenhuma planta, um porão onde as pessoas escreviam coisas que depois esqueciam.

E havia a dedicatória, que mudava a cada vez que ele a relia:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora. Curitiba, 1983. Não confie nas páginas pares.

Para Otávio, que escreveu isto sem saber. Curitiba, 1983. Não confie em si mesmo.

Para Otávio, que é a página ímpar. Curitiba, 1983. Confie apenas no que está em branco.

Para Otávio, que não existe. Curitiba, 1983. Nada disto está acontecendo.

TERCEIRA PARTE: O QUE ESTÁ EM BRANCO

Foi na quarta noite que Otávio começou a desconfiar das páginas ímpares.

Ele estava sentado à mesa do ateliê, com o livro aberto na página 46, quando percebeu que a página 47, que ele tinha visto completamente em branco na véspera, agora tinha uma mancha. Pequena. Quase imperceptível. Um borrão de umidade no canto superior, como se alguém tivesse encostado um dedo molhado ali.

Ele virou a página. Página 48, texto. Página 49, branca. Página 50, texto. Página 51, branca.

Voltou para a 47. A mancha estava maior. Não muito. Mas maior.

Ele fechou o livro. Esperou uma hora. Abriu de novo.

A mancha tinha forma agora. Era uma impressão de pressão, como se alguém tivesse escrito sobre a página com força, deixando um sulco no papel, mas sem tinta. Uma escrita invisível.

Otávio levou o livro até a janela. Inclinou a página contra a luz cinzenta da manhã curitibana.

E leu.

Otávio desceu ao porão.

Ele olhou para a página 46. A frase na página 46 era:

Otávio nunca desceu ao porão.

Ele ficou imóvel. As duas frases estavam na mesma caligrafia. A dele. A mesma inclinação do “E”, a mesma curva do “n”, o mesmo “s” arrastado para a esquerda.

Qual página estava mentindo?

Ele passou os dedos sobre a página 47. O sulco era real. A pressão da caneta era real. Alguém tinha escrito aquilo. Alguém tinha escrito aquilo com força suficiente para marcar o papel, mas sem tinta.

Ou talvez a tinta tivesse sido removida.

Restaurada.

Otávio pensou em seu ofício. Pensou nas vezes em que tinha removido manchas de páginas antigas, apagado marcas de umidade, apagado nomes escritos por crianças em margens, apagado dedicatórias que ninguém deveria ler.

Ele passou a vida apagando coisas para que os livros parecessem novos.

E agora alguém estava restaurando coisas nele.

Nas noites seguintes, Otávio começou a examinar as páginas ímpares uma por uma. Primeiro a mancha. Depois a pressão. Depois uma frase quase invisível, tinta tão diluída que só aparecia quando ele inclinava a página contra a luz.

Página 33: Ele acreditou que era o pai quem mentia.

Página 51: Ele acreditou que era a mãe quem escrevia.

Página 79: Ele acreditou que era ele quem lembrava.

Página 103: Nenhuma dessas coisas é verdadeira.

Página 147: Ele está sendo restaurado.

Otávio leu a última frase cinco vezes. Seis. Sete. Cada vez, a tinta parecia ficar mais escura. Cada vez, o cheiro da página parecia mais forte, não mais o cheiro de livro antigo, mas o cheiro de algo que está sendo feito, polpa úmida, tinta fresca, cola ainda quente.

Ele fechou o livro. Olhou para as próprias mãos.

As mãos que tinham restaurado centenas de livros. As mãos que sabiam tratar papel, sabiam reforçar lombadas, sabiam remover manchas, sabiam apagar nomes, sabiam devolver aos livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

As mãos que agora tremiam.

Ele abriu o livro de novo. Página 148. Texto.

Ele vai descer ao porão. É o que sempre acontece.

Página 149. Ímpar.

Em branco.

Mas quando Otávio inclinou a página contra a luz, leu:

Ele nunca desceu ao porão.

Página 150. Texto.

Ele vai descer ao porão.

Página 151. Ímpar.

Ele nunca desceu ao porão.

Página 152. Texto.

Ele vai descer.

Página 153. Ímpar.

Ele nunca.

Página 154. Texto.

Ele.

Página 155. Ímpar.

Otávio fechou o livro. Não queria ler a página 155.

Mas já tinha lido.

A página 155 estava em branco. Completamente. Absolutamente. Sem mancha, sem pressão, sem frase invisível.

Mas Otávio sabia o que estava escrito ali.

Ele sabia porque tinha ouvido a frase em sua própria cabeça enquanto fechava o livro. Uma frase que não era dele. Uma frase que vinha de algum lugar profundo, algum lugar antigo, algum lugar que existia antes dele.

Ele está começando a lembrar.

QUARTA PARTE: O RESTAURADOR

Naquela noite, Otávio sonhou.

No sonho, ele estava em um porão. O porão era úmido e escuro, com paredes de pedra que pareciam ter sido colocadas ali antes de a cidade existir. Havia uma mesa no centro, e sobre a mesa havia cadernos. Dezenas. Centenas. Empilhados uns sobre os outros, formando torres que chegavam quase ao teto.

Ele se aproximou. Abriu o primeiro caderno.

A letra era de sua mãe.

Hoje descobri que estou grávida. O médico disse que é um menino.

Ele abriu o segundo caderno.

Otávio tem três anos hoje. Ele encontrou meus cadernos e perguntou o que eram.

Terceiro caderno.

Otávio tem sete anos. Ele diz que não é ele quem escreve.

Quarto caderno.

Descobri o porão hoje.

Quinto caderno.

Otávio tem doze anos. Ele não sabe que está doente.

Sexto caderno.

Ele vai encontrar o livro quando for a hora.

Sétimo caderno. A letra era diferente. Era a letra dele.

Eu sou Otávio. Eu estou escrevendo isto agora, neste porão, e não me lembro de ter descido até aqui.

Otávio acordou com o gosto de terra na boca.

Ele estava no porão.

A mesa estava à sua frente. Os cadernos estavam empilhados sobre ela, exatamente como no sonho. A luz vinha de algum lugar acima, uma fresta, talvez, na pedra do teto.

Ele não lembrava de ter descido. Não lembrava de ter saído do ateliê. Não lembrava de ter atravessado o Largo da Ordem, de ter entrado na Igreja, de ter encontrado a passagem escondida atrás do altar.

Mas estava ali.

O livro sem título estava aberto na mesa. A dedicatória agora dizia:

Para Otávio, que finalmente voltou para casa.

Curitiba, 1983.

Ele ouviu passos atrás de si.

Não se virou. Não conseguia se virar.

Os passos pararam.

Uma voz falou. Era a voz que Otávio lembrava como sendo a de sua mãe.

Não era a voz de sua mãe. Era a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe.

“Você demorou.”

Otávio abriu a boca para responder, mas as palavras que saíram não eram as que ele queria dizer.

“Eu sei”, disse a voz que não era dele. “Eu sempre soube.”

A mão tocou seu ombro. Estava fria. Estava úmida. Cheirava a papel envelhecido e cola de osso.

“Você precisa escrever”, disse a voz. “É a sua vez.”

Otávio olhou para a mesa. Havia um caderno em branco aberto à sua frente. Havia uma caneta ao lado. A tinta era escura, quase preta, e brilhava levemente sob a luz que vinha de cima.

Ele não queria pegar a caneta.

Ele não queria escrever.

Mas sua mão já estava se movendo. Sua mão sempre soube o que fazer. Sua mão tinha quase duas décadas de prática. Sua mão tinha restaurado livros que não eram dela. Sua mão tinha apagado nomes que não eram dela. Sua mão tinha devolvido a livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

A ponta da caneta tocou o papel.

E Otávio começou a escrever.

Para quem encontrar isto: eu me chamo Otávio.

Ele parou.

Olhou para a frase.

Havia outra frase abaixo. Ele não tinha escrito aquela frase. A tinta ainda estava fresca. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Eu também me chamo Otávio.

Ele virou a página.

Página 2.

Já havia uma frase escrita ali.

Ele ainda não sabe que não é o primeiro.

Atrás dele, a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe não disse nada.

Acima deles, Curitiba continuou de pé.

Em algum lugar, uma página foi virada.

[Nota do arquivista]

O caderno foi encontrado em março de 2024, dentro de uma caixa de livros doados ao sebo da Rua São Francisco.

O livreiro não se recorda de ter recebido a caixa.

Não foi possível identificar o autor.

A primeira página estava em branco durante a catalogação.

Na manhã seguinte, havia uma frase escrita.

Não confie nas páginas pares.

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