Um Conto sobre Tecnologia, Sincronia e Afeto
Tadeu Everton Zamoiski
Meados 2026
Em 2068, os idosos recebiam companhia oficial do Estado. Unidades caninas de suporte. Modelo Aegis.
Elias tinha setenta e três anos, o apartamento pequeno demais e o silêncio cada vez mais barulhento. Entregaram-lhe Zeus numa caixa preta com o selo de garantia ainda intacto.
O técnico, ao abrir a tampa, disse apenas:
— Você sabe que ele não é real.
Elias acenou. Sabia.
Zeus saiu com o pelo ainda rígido de fábrica e os olhos excessivamente atentos. No primeiro dia, aprendeu o nome de Elias. No segundo, descobriu onde ficava o remédio para as costas. No terceiro, começou a colocar a cabeça no joelho do homem exatamente nos minutos em que a solidão apertava a garganta.
Elias observava aquilo e pensava: é só programação.
Mesmo assim, quando Zeus se deitava aos pés da cama e resmungava baixinho no escuro, Elias respondia:
— Eu também, menino.
O tempo passou depressa.
Zeus ficou mais lento. Primeiro, uma leve dificuldade para subir no sofá. Depois, as orelhas caíram um pouco. Os olhos perderam aquele brilho excessivo. Às vezes ficava parado diante da bolinha, como se tivesse esquecido o que fazer com ela.
Elias levou-o à assistência.
O técnico passou o scanner e permaneceu em silêncio tempo demais.
— Não é defeito — disse por fim. — É protocolo de sincronia terminal.
Elias franziu a testa.
— Quando o sistema detecta declínio acelerado no tutor, a unidade começa a envelhecer junto. Os tutores aceitam melhor a morte quando ela parece fazer parte da mesma história. A solidão ficou cara demais para o Estado.
Elias olhou para Zeus, que naquele momento limpava a pata traseira com uma lentidão quase dolorosa.
— Quanto tempo ele ainda tem?
O técnico consultou a tela.
— Não é ele que está na contagem regressiva.
Elias demorou a compreender.
Levou Zeus para casa.
Naquela noite, tentou abrir o painel escondido sob o pelo da nuca. Zeus não se mexeu. Apenas virou a cabeça e olhou para ele.
Elias retirou a mão.
Zeus soltou o ar devagar. O peito subiu, permaneceu alguns segundos imóvel e depois baixou.
Elias não conseguiu abrir o painel.
Nas semanas seguintes, Zeus ficou ainda mais lento. Demorava a reconhecer a voz de Elias pela manhã. Mas todas as noites ainda se arrastava até a cama e se acomodava no mesmo lugar de sempre.
Uma noite, Elias não conseguiu levantar.
A dor no peito era diferente.
Zeus trouxe o frasco de remédio na boca, com dificuldade, e o deixou sobre o colchão.
Elias estendeu a mão trêmula e acariciou a cabeça do animal.
— Bom menino.
Zeus permaneceu ali.
Na manhã seguinte, Zeus ainda estava ao lado da cama.
Dois dias depois, alguém do prédio notou o cheiro.
Quando entraram, Zeus continuava deitado no chão, ao lado da mão que pendia do colchão. Os olhos semiabertos. O pelo parecia mais opaco, grisalho nas pontas.
Levaram o corpo.
Levaram também Zeus.
AEGIS-774
STATUS: TUTOR FALECIDO
DESTINO: DESATIVAÇÃO AFETIVA
Três anos depois, num depósito de unidades afetivas desativadas, um funcionário abriu uma caixa por engano.
A unidade estava registrada como inoperante havia três anos.
No monitor interno, porém, ainda havia um registro ativo:
TUTOR: ELIAS
ÚLTIMA LOCALIZAÇÃO: CASA
STATUS: AUSENTE
TEMPO DE ESPERA: 1.095 DIAS
ROTINA DE ESPERA: ATIVA
O funcionário ficou olhando a tela por alguns segundos. Depois desligou a unidade.
A caixa ficou em silêncio.
Alguns minutos mais tarde, o registro se reativou.
TEMPO DE ESPERA: 1.095 DIAS E 14 MINUTOS
ROTINA DE ESPERA: ATIVA
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