domingo, 6 de setembro de 2026

AS PAREDES TÊM OLHOS DE VIDRO

AS PAREDES TÊM OLHOS DE VIDRO
Um conto de terror psicológico

Autor: Tadeu Everton Zamoiski | Data: Meados de 2026


O Sanatório Santa Augusta estava vazio. Pelo menos era o que os registros afirmavam. Esquecido entre estradas de terra e campos secos do interior de Goiás, o prédio permanecia de pé como uma cicatriz que o tempo não conseguira apagar.
As janelas eram escuras. Escuras demais. Mesmo sob o sol.
Os moradores da região evitavam pronunciar seu nome. Quando alguém perguntava sobre o lugar, surgia um silêncio desconfortável. Olhares desviados. Expressões tensas. E quase sempre a mesma resposta:
— Não olhe para as paredes.
Lucas ouviu aquilo e sorriu. Era criador de conteúdo sobre locais abandonados. Já havia entrado em hospitais desativados, presídios em ruínas e casas que o povo jurava ser assombradas. Nunca encontrara nada além de histórias. Achou que ali seria igual.
Na manhã seguinte, atravessou sozinho o portão enferrujado do sanatório. O ar mudou imediatamente. Tinha gosto. Não de poeira. Nem de mofo. Metal. Cobre. Lucas passou a língua pelos dentes e sentiu aquela estranha impressão de estar provando sangue.
O corredor principal se estendia diante dele. Longo. Branco. Silencioso. As lâmpadas fluorescentes ainda funcionavam. Não deveriam. Mas funcionavam. Piscavam devagar, lançando sobre a cerâmica uma luz doente e intermitente.
Então ele ouviu. Um som. Quase abaixo do limite da audição.

Hummmmmm...

Grave. Profundo. O ruído parecia nascer de algum lugar impossível. Não vinha do teto. Nem do chão. Nem dos corredores. Parecia surgir de dentro das paredes. A vibração atravessou seus pés, subiu pelas pernas e instalou-se no peito, como se o sanatório estivesse respirando.
Lucas continuou. Foi então que percebeu os olhos. Pequenos globos de vidro incrustados na alvenaria. Um em cada canto. Outro próximo ao teto. Outro observando um corredor vazio. Centenas deles. Talvez milhares. Nenhum apontava em sua direção. Mesmo assim, seus músculos se contraíram. O instinto sussurrava uma única coisa: Você está sendo observado.
Ele ignorou a sensação. Prosseguiu. E ouviu um passo às suas costas.
Lucas parou. O corredor ficou imóvel. Silencioso. Ele esperou. Nada. Respirou fundo. Sorriu para si mesmo. Deu mais um passo. Ouviu outro. Mais pesado. Mais lento. Como se alguma coisa estivesse tentando aprender a andar usando seus movimentos como modelo.
Lucas girou rapidamente. Não havia ninguém. Somente o corredor. Somente os olhos. Somente aquele zumbido profundo.

Hummmmmm...

Quando voltou para casa naquela noite, assistiu às gravações. Foi aí que encontrou o primeiro erro. Os olhos mudavam de posição. Um deles aparecia voltado para a esquerda; segundos depois, encarava diretamente a câmera. Outro parecia observá-lo. Outro parecia sorrir. Lucas revisou o vídeo dezenas de vezes. Nada fazia sentido.
Quando finalmente desligou o monitor, viu algo atrás do próprio reflexo. Um brilho circular. Um olho. Piscou. Desapareceu.
Lucas não dormiu. Nem naquela noite, nem na seguinte. Começou a vê-los em todos os lugares. Na televisão desligada. Nas janelas escuras. Na tela preta do celular. No espelho embaçado do banheiro. Sempre havia algo observando. Sempre sumia quando ele tentava encarar.
E o som. Aquele som.

Hummmmmm...

Fraco. Distante. Mas constante. Na casa. No carro. No trabalho. Como se tivesse voltado com ele. Como se estivesse dentro dele.
Na quinta madrugada, acordou às três horas, sentindo uma presença no quarto. Abriu os olhos. Tudo estava mergulhado na escuridão. Então percebeu um brilho próximo à porta. Ligou o abajur. Seu coração falhou um batimento.
Havia um olho na parede. Um olho de vidro. Onde não existia nada no dia anterior.
Ao redor dele, a tinta rachava, descascando em tiras finas como pele morta. Linhas escuras espalhavam-se pela superfície: veias. Veias penetrando a alvenaria com um som úmido, discreto, como raízes bebendo água.
Lucas se aproximou devagar. A pupila moveu-se. Lentamente. Encontrou seu rosto e permaneceu ali, observando.
Na manhã seguinte, ele voltou ao sanatório. Precisava entender. Precisava encontrar alguma explicação. Desceu até os arquivos subterrâneos. Encontrou corredores esquecidos, portas enferrujadas, salas tomadas pela poeira, papéis espalhados e fotografias rasgadas. Desenhos infantis quase todos mostravam a mesma coisa: olhos nas paredes, olhos nos tetos, olhos dentro de outras pessoas. Em algumas folhas, havia frases repetidas centenas de vezes:
"Eles veem. Eles veem. Eles veem."
Lucas encontrou um gravador antigo. A bateria estava corroída. Mesmo assim, ao tocá-lo, o aparelho produziu um chiado. Uma voz surgiu, distante e frágil:
— Não são câmeras...
Silêncio. Outro chiado.
— Não são janelas...
A gravação falhou. Por um instante, pareceu terminar. Então um sussurro surgiu atrás dele, próximo demais:
— São portas.
Lucas deixou o aparelho cair. O corredor mergulhou em silêncio. Mas a voz continuou, agora vindo de todas as direções:
— O problema nunca foi olhar para nós.
As lâmpadas piscaram. A parede à sua esquerda pulsou, como algo respirando sob a tinta.
— O problema...
A voz continuou, mas já não vinha das paredes. Lucas sentiu a vibração atravessar seus dentes, entrar pelos maxilares e instalar-se atrás dos olhos. Aquelas palavras não estavam sendo ouvidas; estavam sendo pensadas. E não eram suas.
— ...é quando percebemos que você consegue nos ver.
O zumbido mudou. Perdeu a eletrônica. Perdeu o eco metálico. Tornou-se úmido, orgânico. O som de ar atravessando passagens estreitas. O som de pulmões gigantescos enchendo-se na escuridão.
O sanatório inspirou.

HUMMMMMMMMMMMMMM...

A cerâmica ondulou. Não era vibração: era expansão. As paredes começaram a crescer, como carne viva pressionando o gesso por dentro. Rachaduras abriram-se. Algo rosado apareceu sob a superfície branca. Pulsando. Respirando. Vivendo.
Lucas recuou. Protuberâncias começaram a surgir por toda parte. Pequenas. Depois maiores. Depois enormes. E então estouraram. Não eram bolhas; eram pálpebras. Centenas delas abrindo-se simultaneamente. Olhos. Olhos vivos. Olhos famintos. Olhos que não procuravam luz: procuravam consciência. Procuravam Lucas.
O corredor inteiro virou um organismo observador.
E então vieram os rostos. Não rostos desconhecidos; isso teria sido mais fácil. Lucas reconheceu todos: seu pai, sua mãe, amigos de infância, colegas de escola. Todos presos dentro das paredes. Todos olhando para ele. Todos sorrindo.
No meio deles, havia algo pior: versões de si mesmo. Uma criança. Um adolescente. Um homem adulto. Centenas de Lucases aprisionados, observando, sorrindo, esperando.
Lucas correu. O corredor respondeu. Alongou-se como um músculo esticado ao limite. Infinito. Escuro. Profundo.
As luzes começaram a apagar atrás dele, uma após outra, como pálpebras fechando. Os passos voltaram, mas já não o imitavam: aprendiam, ajustavam-se, aproximavam-se. Centenas de pés golpeando a cerâmica. Centenas de ritmos imperfeitos tentando se tornar um só: uma matilha aprendendo a correr.
Lucas mal conseguia respirar. O ar parecia cola. Os pulmões queimavam. As paredes pulsavam. Os olhos se multiplicavam. Piscavam. Observavam. Esperavam.
A saída nunca chegava. O som crescia, mais alto, mais perto, mais vivo:

HUMMMMMMMMMMMMMM...

Então tudo desapareceu.
◆ ◆ ◆
A câmera foi encontrada três semanas depois, caída perto da entrada principal do sanatório. A polícia nunca localizou Lucas.
A gravação continha apenas vinte e sete segundos. Durante todo esse tempo, a imagem mostrava um único olho incrustado em uma parede branca. Imóvel. Silencioso. Nada acontecia.
Então a pupila se contraiu, como se tivesse percebido alguma coisa. Ela se moveu, muito devagar, até encontrar a câmera... até encontrar você.
O olho permaneceu imóvel por um instante, observando.
E piscou. Lentamente. Deliberadamente.

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