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Um Conto de Mistério e Obsessão
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
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Marcos sempre contava.
Degraus, postes, azulejos rachados, janelas cegas. Era um tique antigo, nascido de noites em que a mãe o deixava sozinho no apartamento e ele precisava de números para não ouvir o silêncio. Agora, aos trinta e sete, endividado e com a promessa feita à filha de que voltaria antes do café da manhã, ele ainda contava. A mansão dos Varela, no alto da colina de terra vermelha, era só mais um trabalho. Fotografar o abandono. Entregar as imagens. Cobrar. Respirar.
A casa cheirava a madeira molhada e a algo doce que lembrava leite esquecido. O ar não circulava. Parecia que a mansão tinha prendido a respiração décadas atrás e se recusava a soltá-la.
A escada ocupava o hall como uma coluna vertebral exposta.
Madeira quase preta. Corrimão talhado em mãos abertas, dedos longos, unhas profundas. Quando Marcos passou a palma por cima, sentiu os nós cederem um milímetro. Continuou.
Subiu contando em voz baixa, o antigo costume.
Um.
Dois.
Três.
…
Doze.
No patamar superior, a lanterna tremia. As sombras dos degraus se alongavam e encolhiam mesmo com a luz parada. Ele tirou a primeira foto. O flash estalou. Na tela do celular, doze degraus. Treze sombras. Piscou. Tirou outra. Doze degraus. Doze sombras. Guardou o celular e desceu.
Um.
Dois.
…
Doze.
O pé encontrou um degrau onde não havia degrau.
Frio.
Úmido.
Como a parte de dentro de uma boca.
Marcos parou. Olhou para baixo. Doze degraus nítidos. Levantou o pé. O espaço continuava vazio. Baixou o pé de novo. Madeira. Retirou o peso. Nada. O cheiro de leite azedo subiu mais forte. Debaixo do lugar onde o décimo terceiro deveria estar, algo respirava. Lento. Molhado.
Ele subiu outra vez.
Doze.
Desceu.
Treze.
A câmera nunca registrava a mesma escada duas vezes. Numa filmagem o pé afundava no ar e voltava. No áudio a respiração ficava mais próxima do microfone do que dos degraus. Marcos começou a suar mesmo no frio. Lembrou-se da filha. Lembrou-se da dívida. Lembrou-se de que precisava sair dali antes do amanhecer.
Tentou descer de uma vez só, sem contar.
O corrimão fechou-se.
Não apertou como madeira. Apertou como dedos. Havia temperatura. Havia uma unha que raspou o pulso e deixou um risco fino, quase carinhoso. Marcos puxou o braço. A mão abriu-se devagar, como se tivesse gosto.
Ele sentou-se no meio da escada e contou de novo. E de novo. Sempre doze subindo. Sempre treze descendo. A cada ciclo o décimo terceiro ficava um pouco mais sólido. Um pouco mais quente. Um pouco mais parecido com os outros. Até que aconteceu algo que Marcos não conseguiu contar: o décimo terceiro passou a ser o décimo segundo. E o que antes era o décimo segundo desceu um lugar. E assim por diante.
A voz veio de debaixo da madeira, tão perto que parecia nascer dentro do próprio peito:
“Senta.
Conta de novo.
Um de nós está errado.”
Marcos sentou-se.
Contou.
Subiu.
Desceu.
Subiu.
Desceu.
Doze.
Treze.
Doze.
Treze.
Quando o sol nasceu sobre a colina, a escada tinha treze degraus visíveis. Um homem estava sentado no meio deles, contando em voz baixa, sem olhar para baixo. Não porque tivesse medo de ver o próprio rosto respirando sob a madeira. Porque já sabia que o rosto não estava mais ali.
A mansão continua no alto da colina.
A escada também.
Agora tem treze degraus.
Se você subir contando doze, tudo bem.
O problema começa no décimo terceiro.
Porque, quando você percebe que alguém está contando com você, já é tarde demais.
E a escada volta a ter doze.
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