terça-feira, 8 de setembro de 2026

O HOMEM QUE JÁ NÃO ERA ELE

O HOMEM QUE JÁ NÃO ERA ELE

Algumas pessoas mudam. Outras são substituídas.


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


Às 18h17, Henrique desligou o celular e permaneceu alguns segundos olhando para a tela escura, onde seu próprio rosto surgia ligeiramente deformado pela superfície negra do aparelho. Não havia nada de extraordinário naquela imagem. O mesmo cabelo ralo, os olhos cansados, a barba por fazer, a pequena assimetria da boca que sempre aparecia quando estava preocupado. Ainda assim, havia alguma coisa profundamente desconfortável naquele reflexo, não porque parecesse diferente, mas porque, pela primeira vez, teve a impressão de estar olhando para alguém que conhecia muito bem e de quem, no entanto, não conseguia lembrar o nome.
Aproximou o telefone do peito, como se tivesse sido flagrado fazendo alguma coisa íntima, e depois o colocou sobre a mesa. A última frase do áudio continuava repetindo-se dentro da cabeça, embora já não houvesse som algum na sala.
— Você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
Henrique soltou uma risada curta.
— Que pergunta idiota.
Disse aquilo em voz alta, esperando que ouvir a própria voz resolvisse a sensação estranha que havia se instalado nele. Não resolveu. Havia alguma coisa no timbre que lhe pareceu ligeiramente deslocada, como se a voz estivesse chegando de um lugar alguns metros atrás de seu corpo.
Pegou novamente o celular e abriu o áudio. A barra de reprodução apareceu exatamente onde havia parado. Voltou alguns segundos e ouviu outra vez a pergunta sobre o machado, depois o barco, depois o corpo humano. A voz falava com uma tranquilidade quase doméstica, sem a menor intenção de assustá-lo, como alguém que estivesse apenas fazendo uma pergunta cuja resposta considerava óbvia.
Quando a gravação chegou novamente à pergunta final, Henrique interrompeu.
Olhou para os detalhes do arquivo.
Criado às 18h23.
Franziu a testa.
Consultou o relógio da parede.
18h17.
Voltou ao celular.
18h23.
Durante alguns segundos comparou os dois horários, tentando encontrar uma explicação razoável. Pensou em erro de sincronização, aplicativo defeituoso, atualização automática. Era perfeitamente possível. Hoje em dia, até os relógios precisavam de outros relógios para saber que horas eram.
Mesmo assim, alguma coisa pequena e fria se instalou em seu estômago.
Relógios podiam atrasar.
Não costumavam errar para o futuro.
Levantou-se devagar, apoiando as duas mãos nos braços da cadeira antes de inclinar o tronco para a frente e transferir o peso para as pernas. Os joelhos protestaram com um estalo seco, e ele permaneceu imóvel por alguns segundos, esperando que o equilíbrio se estabilizasse.
Foi então que olhou para as próprias mãos.
Havia pequenas manchas na pele, uma cicatriz fina próxima ao polegar esquerdo e uma unha irregular no indicador.
Passou a ponta do dedo sobre a cicatriz.
Não se lembrava dela.
Tentou puxar pela memória alguma queda, algum acidente doméstico, uma faca, uma ferramenta, qualquer coisa que pudesse ter produzido aquela marca. Vieram lembranças de coisas muito mais antigas, algumas quase apagadas pelo tempo, mas nada relacionado à cicatriz.
Era uma insignificância. Uma pequena marca numa mão de homem.
Mesmo assim, alguma coisa dentro dele se deslocou.
Não saber quando havia adquirido uma cicatriz parecia, de repente, muito mais grave do que deveria.
Foi até a cozinha, arrastando ligeiramente os chinelos pelo piso frio, e abriu a geladeira. Ficou diante dela durante alguns segundos, observando ovos, queijo, uma panela de arroz, uma garrafa de água e duas cervejas.
Pegou uma.
Fechou a porta com o quadril.
Ficou olhando para a garrafa.
Depois a devolveu à geladeira, pegou a água, fechou a porta e imediatamente tornou a abri-la para recuperar a cerveja.
Riu sozinho.
— Eu gosto de cerveja.
A frase pareceu estranha assim que saiu.
Não pelo conteúdo.
Pela maneira como havia dito.
Era como se estivesse repetindo uma informação que alguém lhe ensinara.
Abriu a garrafa, bebeu um gole e sentiu o amargor familiar percorrer a língua. Conhecia aquele sabor. Conhecia aquela marca. Sabia onde ficavam as cervejas no supermercado e lembrava que costumava comprar a mesma havia anos.
Ainda assim, durante uma fração de segundo, teve a impressão desconfortável de estar experimentando aquilo pela primeira vez.
Colocou a garrafa sobre a pia.
O telefone vibrou na sala.
Henrique não foi buscá-lo.
Ficou olhando para a porta da cozinha, tentando entender por que, naquele instante, tinha medo de descobrir quem havia mandado a mensagem.
♦ ♦ ♦
A garrafa permaneceu sobre a pia até que a luz da tarde desaparecesse completamente pelas janelas. Quando finalmente foi para o quarto, Henrique deixou a televisão ligada durante algum tempo sem prestar atenção ao programa. Dormiu tarde e mal.
Por volta das três da manhã, acordou com a impressão de que alguém caminhava pela casa.
Não abriu os olhos imediatamente. Permaneceu imóvel, prestando atenção ao silêncio, até ouvir um ruído no corredor, depois outro, passos cautelosos de alguém que conhecesse perfeitamente a disposição dos móveis.
Abriu os olhos.
A porta do quarto estava entreaberta, deixando uma faixa estreita de escuridão atravessar o chão.
Estendeu a mão até o criado-mudo, encontrou os óculos e os colocou. Sentou-se na cama, apoiou os pés no piso e ficou assim durante alguns segundos, sentindo o frio subir pelas pernas.
Outro ruído veio da sala.
Dessa vez levantou-se.
Caminhou pelo corredor mantendo a mão direita apoiada na parede. Não precisava daquele apoio, mas o contato com a superfície fria lhe dava uma sensação de segurança. Avançou devagar, parando a cada poucos passos para escutar, até alcançar a sala.
Não havia ninguém.
A televisão estava desligada. A janela permanecia fechada. A porta da frente estava trancada.
A casa parecia exatamente como a deixara.
Então viu Zeus.
O cachorro estava sentado diante da porta da sala e olhava diretamente para ele.
Henrique sentiu um alívio quase infantil.
— Foi você, seu desgraçado?
Zeus não se mexeu.
Aproximou-se, abaixando-se lentamente até ficar agachado, e estendeu a mão. O cachorro aproximou o focinho, cheirou seus dedos, inspirou novamente e recuou.
Henrique permaneceu com a mão suspensa.
— Zeus?
O animal inclinou a cabeça.
Tentou tocar sua cabeça, mas Zeus recuou mais um passo. Não havia exatamente medo naquele movimento. Era uma hesitação cuidadosa, quase uma avaliação, como se estivesse tentando decidir se aquele homem era realmente quem dizia ser.
Henrique sentou-se no chão.
— Sou eu, filho.
Zeus aproximou-se novamente, cheirou seu rosto, depois a mão, e tornou a recuar. Em seguida caminhou até o corredor e, antes de desaparecer, parou para olhar para trás.
Henrique ficou sentado no chão, sentindo o frio atravessar o tecido da calça.
Tentou explicar aquilo.
Talvez Zeus estivesse doente. Talvez estivesse ficando velho. Talvez tivesse acordado assustado. Talvez Henrique estivesse cheirando diferente por causa do sabonete, da cerveja, do suor.
Talvez.
Levantou-se e foi até a cozinha.
Cheirou a própria mão.
Depois ficou parado diante da pia.
Não sabia exatamente o que estava procurando.
♦ ♦ ♦
Na manhã seguinte, o áudio havia desaparecido.
Verificou o histórico de mensagens, os arquivos recentes, a lixeira e as conversas arquivadas. Pesquisou pelo nome do contato. Nada.
O arquivo simplesmente não existia.
Sentou-se na beirada da cama e segurou o celular com as duas mãos. Repetiu a pesquisa várias vezes, como se a insistência pudesse obrigar o aparelho a devolver alguma coisa que havia decidido esconder.
Por fim, abriu a câmera frontal.
Seu rosto apareceu na tela.
Aproximou o telefone.
Observou o olho direito, depois o esquerdo. Piscou.
A imagem piscou junto.
Levantou a mão.
O reflexo levantou a mão.
Sorriu.
O reflexo sorriu.
Baixou lentamente o telefone.
Pensou na frase da noite anterior.
— Então você é eu.
Percebeu que deveria ter dito outra coisa.
— Sou eu.
Mas não havia dito.
Foi até o banheiro e acendeu a luz. Diante do espelho, observou o próprio rosto durante algum tempo.
— Você lembra do machado? Do meu pai? De Zeus?
Silêncio.
Aproximou o rosto do vidro.
— Você lembra de mim?
O reflexo demorou um instante para responder, não com palavras, mas com um sorriso que ele não havia feito, tão breve que poderia ter sido um erro dos olhos.
Dessa vez não recuou.
Apenas ficou olhando enquanto percebia que o reflexo parecia mais cansado do que ele. E, pela primeira vez, teve a impressão de que não estava diante de uma cópia, mas de uma testemunha.
O celular vibrou no quarto.
♦ ♦ ♦
Álvaro apareceu naquela tarde sem avisar, como fazia havia mais de trinta anos. Bateu uma vez e entrou, deixando as chaves sobre a mesa antes de sentar-se no sofá.
— Você sumiu — disse.
— Eu estava aqui.
— Eu sei.
Ficou observando-o durante algum tempo, e Henrique percebeu.
— O quê?
— Você está diferente.
— Todo mundo está diferente.
— Não desse jeito.
Tentou sorrir.
— Que jeito?
Álvaro demorou a responder.
— Não sei explicar. Parece mais alto.
Henrique riu.
— Mais alto?
— É.
— Você está ficando maluco.
— Pode ser.
Álvaro desviou os olhos para uma fotografia sobre a estante.
— Essa é de quando?
Henrique levantou-se, pegou o porta-retrato e examinou a imagem.
— Vinte e dois.
Álvaro franziu a testa.
— Vinte e três.
Henrique ergueu os olhos.
— Eu tinha vinte e dois.
— Você tinha vinte e três.
A discussão era tão insignificante que deveria ter terminado numa risada. Não terminou.
Colocou a fotografia sobre a mesa.
Observou o jovem que aparecia nela.
Durante alguns segundos teve uma sensação estranha.
Não era nostalgia.
Era reconhecimento.
Aquel rapaz era ele.
Mas não parecia ele.
Álvaro levantou-se.
— Você está bem?
Demorou a responder.
— Você já teve a impressão de lembrar de uma coisa que não aconteceu?
Álvaro sorriu sem humor.
— Isso é uma pergunta ou um pedido de ajuda?
— Não sei.
Antes de sair, Álvaro parou diante de Zeus, que estava deitado perto do corredor.
O cachorro levantou a cabeça.
— Ele está estranho — disse Álvaro.
Henrique sentiu o estômago apertar.
— Como assim?
— Fica olhando para você.
— Ele sempre olha para mim.
— Não desse jeito.
Álvaro saiu.
Henrique permaneceu na porta até ouvir o carro desaparecer.
Quando voltou para a sala, Zeus ainda estava olhando para ele.
♦ ♦ ♦
Naquela noite, subiu ao sótão.
A escada pareceu mais longa do que lembrava. No quarto degrau, sentiu uma dor breve no joelho e parou. No oitavo, precisou recuperar o fôlego. Quando alcançou o último, permaneceu inclinado para a frente durante alguns segundos antes de endireitar o corpo.
Não sabia por que aquela escada lhe parecia familiar.
O sótão estava coberto de caixas, móveis desmontados e objetos que haviam sobrevivido a várias mudanças de casa. A poeira se acumulava sobre tudo, criando a impressão de que o tempo não passara por ali, mas se depositara.
Acendeu a luz.
Abriu uma caixa, depois outra.
Encontrou roupas antigas, fotografias, ferramentas, brinquedos dos filhos, recibos e cartas que já não lembrava ter guardado.
Em uma caixa pequena, escondido sob um cobertor, encontrou um caderno de capa marrom.
Reconheceu a letra do pai.
Sentou-se no chão.
As primeiras páginas falavam de contas, reformas, da doença da mãe, do trabalho e de uma pescaria que Henrique lembrava vagamente.
Depois apareceu uma frase:
"O machado continua sendo o mesmo depois que se troca o cabo?"
Leu novamente.
Virou a página.
"E depois que se troca a lâmina?"
Mais adiante:
"E se tudo for trocado?"
Henrique passou a mão pelo rosto.
O pai descrevia um machado que pertencera ao avô. O cabo havia sido substituído três vezes. A lâmina, duas. Ainda assim, todos continuavam chamando aquilo de machado do avô.
Em outra página havia uma anotação:
"Talvez uma coisa não seja aquilo que possui, mas aquilo que continua sendo chamada pelo mesmo nome."
Henrique fechou os olhos.
Lembrou-se do pai segurando um machado no quintal quando ele era criança.
Lembrou-se do cheiro da madeira cortada.
Lembrou-se de ter medo de segurar aquela ferramenta.
E lembrou-se de uma frase:
— Você precisa saber o que continua sendo seu quando todo o resto muda.
Abriu os olhos.
Não tinha certeza de que o pai realmente dissera aquilo.
Continuou lendo.
Algumas páginas haviam sido arrancadas.
Em outras, a letra ficava cada vez mais irregular.
Até encontrar uma frase escrita quase no rodapé:
"O problema não é descobrir se você continua sendo a mesma pessoa. O problema é descobrir quantas pessoas já foram você."
Henrique ficou muito tempo olhando para aquelas palavras.
Foi então que percebeu uma pequena porta na parede oposta.
Não se lembrava dela.
Levantou-se e aproximou-se.
Passou a mão sobre a madeira.
Havia poeira suficiente para indicar que ninguém tocava naquela porta havia muito tempo.
Encontrou uma maçaneta antiga.
Girou.
Trancada.
♦ ♦ ♦
A chave apareceu no dia seguinte, dentro de uma gaveta que pertencera ao pai.
Henrique reconheceu a pequena peça de metal antes mesmo de lembrar onde a tinha visto.
Subiu ao sótão.
Introduziu a chave.
Girou.
A fechadura cedeu.
A porta abriu lentamente.
Atrás dela havia um pequeno cômodo sem janela.
No centro, sobre uma mesa, estava uma maquete de um barco.
Ao lado havia uma placa de metal:
O NAVIO DE TESEU
Henrique aproximou-se.
Observou as pequenas tábuas. Algumas eram claras, outras escuras. Havia diferenças visíveis entre elas, como se o barco tivesse sido reparado muitas vezes ao longo de sua existência.
Sobre a mesa havia um envelope.
Seu nome estava escrito nele.
HENRIQUE
Sentou-se.
Abriu.
Dentro havia uma folha.
A letra era do pai.
"Se você está lendo isto, já chegou à pergunta."
Henrique sentiu o coração acelerar.
Continuou.
"Não procure a resposta no machado."
Virou a folha.
"Não procure no barco."
Mais abaixo:
"Procure em você."
E, quase no final:
"E não confie inteiramente nas suas lembranças."
Henrique largou a folha.
Durante alguns segundos não respirou direito.
Dentro do envelope havia uma fotografia.
Pegou-a.
Seu pai estava sentado diante daquela mesma mesa.
Ao lado dele estava o barco.
Atrás dele havia um rapaz.
Henrique aproximou a fotografia do rosto.
O rapaz parecia ter aproximadamente cinquenta anos.
Tinha o seu rosto.
Não parecido.
O seu rosto.
Virou a fotografia.
A data estava escrita no verso.
1987.
Henrique tinha dezenove anos.
O homem da fotografia parecia ter mais de cinquenta.
Voltou a olhar para a imagem.
Havia alguma coisa ainda mais estranha.
O homem não sorria.
Seu pai sorria.
Mas o homem atrás dele parecia assustado.
Como se soubesse exatamente o que aconteceria depois daquela fotografia.
♦ ♦ ♦
Naquela noite, Henrique tentou lembrar da infância.
As lembranças vieram aos poucos: a bicicleta azul, o cheiro do café, a voz da mãe chamando para o almoço, o pai no quintal, o machado, uma pescaria, o primeiro beijo, o nascimento dos filhos, o divórcio, a morte do pai.
Tudo estava ali.
Mas, pela primeira vez, percebeu que não lembrava apenas dos acontecimentos.
Lembrava-se de quem havia sido quando cada um deles acontecera.
E aquela pessoa parecia distante.
Como alguém cuja vida ele conhecia perfeitamente, mas que já não conseguia reivindicar como sua.
Foi até o banheiro.
Diante do espelho, perguntou:
— Você lembra do machado?
Silêncio.
— Você lembra do meu pai?
Nada.
— Você lembra de Zeus?
O reflexo continuou olhando para ele.
Aproximou-se do vidro.
— Você lembra de mim?
O reflexo demorou um instante para responder.
Não com palavras.
Com um sorriso.
Um sorriso que Henrique não havia feito.
Foi tão breve que poderia ter sido um erro dos olhos.
Mas, dessa vez, ele não recuou.
Apenas ficou olhando.
O reflexo parecia cansado.
Mais cansado do que ele.
E, pela primeira vez, teve a impressão de que não estava diante de uma cópia.
Estava diante de uma testemunha.
♦ ♦ ♦
O celular vibrou no quarto.
Quando voltou para buscá-lo, não havia mensagem alguma.
Apenas um arquivo de áudio.
Criado às 18h23.
Olhou para o relógio.
18h23.
Dessa vez não sentiu surpresa.
Sentiu reconhecimento.
Como quem encontra uma coisa que não sabia lembrar, mas que alguma parte de si já esperava.
Abriu o arquivo.
A voz começou:
— Hoje eu tenho uma pergunta difícil para você.
Henrique deixou o aparelho sobre a cama.
A voz falou sobre o machado, depois sobre o barco e, por fim, sobre o corpo humano.
Quando chegou à última pergunta, ele já estava sentado.
— E mais ainda: você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
O áudio terminou.
Henrique permaneceu imóvel.
Então alguém bateu à porta.
♦ ♦ ♦
A batida veio novamente.
Henrique levantou-se.
Do outro lado, ouviu sua própria voz:
— Henrique?
A maçaneta começou a girar.
A porta abriu.
Havia um homem do outro lado.
O mesmo rosto.
A mesma idade.
A mesma cicatriz.
Por alguns segundos, os dois permaneceram olhando um para o outro.
Finalmente Henrique perguntou:
— Quem é você?
O homem olhou para Zeus.
O cachorro estava no corredor.
Ao perceber o visitante, aproximou-se lentamente, cheirou sua mão e encostou o focinho em sua perna.
Henrique sentiu os olhos arderem.
— Ele conhece você.
— Conhece.
— Por quê?
O homem acariciou a cabeça do cachorro.
— Porque eu era eu quando ele aprendeu o meu cheiro.
Alguma coisa se partiu dentro dele.
— Então quem sou eu?
O homem levantou os olhos.
— Você ainda pergunta isso?
— Responda.
— Não sei.
A resposta o surpreendeu.
— Como não sabe?
— Porque eu também precisei perguntar.
— Quantos existem?
O homem deu de ombros.
— Não contei.
— Quantos?
— Mais do que você gostaria.
Henrique aproximou-se.
— Meu pai sabia?
O homem demorou a responder.
— Seu pai tentou descobrir.
— Descobriu?
— Descobriu o suficiente para ter medo.
— Quem faz isso?
O homem olhou para ele durante alguns segundos.
— Talvez ninguém.
— Então o que está acontecendo?
— Não sei.
— Você foi quem?
O homem sorriu de maneira triste.
— Eu fui você.
Henrique sentiu vontade de rir.
Não conseguiu.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
O homem caminhou até a cozinha.
Abriu a geladeira.
Pegou uma cerveja.
Abriu.
Bebeu.
Fez uma pequena careta.
— Eu nunca gostei de cerveja.
Henrique olhou para ele.
— Eu gosto.
— Eu sei.
Colocou a garrafa sobre a mesa.
— Foi uma das coisas que mudaram.
— Quando?
— Não sei.
— Como?
— Também não sei.
— Então o que você sabe?
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
— Sei que um dia você vai parar de perguntar.
— Por quê?
— Porque vai chegar alguém depois de você.
Henrique sentiu um frio no estômago.
— Quem?
O homem olhou para Zeus.
— Você vai saber.
Caminhou até a porta.
Antes de sair, parou.
— Quando chegar a pergunta sobre o barco, não responda.
— Por quê?
O homem colocou a mão na maçaneta.
— Porque a resposta já foi dada.
Saiu.
A porta fechou.
Zeus continuou olhando para o corredor.
Henrique ficou sozinho.
♦ ♦ ♦
Voltou para a cozinha e sentou-se.
O celular estava sobre a mesa.
A tela acendeu.
Havia uma fotografia.
Era recente.
Muito recente.
Henrique estava sentado exatamente naquela cadeira, segurando exatamente aquele celular.
Atrás dele estava o homem que acabara de sair.
Virou a fotografia.
No verso havia uma frase:
ESTA É A ÚLTIMA VERSÃO.
Olhou para o relógio.
18h23.
Na fotografia, Zeus estava ao lado do outro homem.
Henrique olhou para o cachorro.
Zeus sustentou seu olhar.
Não havia medo.
Havia tristeza.
— Você sabe.
O cachorro não se mexeu.
— Você sabe quem eu sou.
Zeus aproximou-se.
Henrique se ajoelhou.
Estendeu a mão.
O cachorro cheirou seus dedos.
Dessa vez não recuou.
Encostou o focinho em sua palma.
Henrique fechou os olhos.
— Sou eu?
Zeus permaneceu ali.
Talvez aquilo fosse suficiente.
Talvez identidade não fosse aquilo que permanecia dentro de alguém.
Talvez fosse aquilo que permanecia entre alguém e o mundo.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma mão conhecida.
Um nome.
♦ ♦ ♦
Às 18h24, quando o relógio da parede marcou exatamente o mesmo horário que aparecia nos arquivos e nas fotografias, Henrique levantou os olhos.
Havia um rapaz sentado à sua frente.
Não ouviu a porta. Não ouviu passos. Apenas percebeu que a cadeira que antes estava vazia agora sustentava um jovem de dezenove anos com o rosto que conhecia das fotografias antigas.
O rapaz apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Você demorou.
Henrique não respondeu.
— Quem é você?
O rapaz sorriu.
— Você já perguntou isso.
— Eu não lembro.
— Eu sei.
Henrique sentiu um frio no estômago.
— Você é eu?
O rapaz balançou a cabeça.
— Essa pergunta está ficando velha.
— Então quem sou eu?
O rapaz olhou para Zeus.
O cachorro estava deitado aos pés de Henrique.
— Ele sabe.
— Ele não fala.
— Mas lembra.
Henrique passou a mão sobre a cabeça do animal.
— Você conhece meu pai?
— Conheci.
— Quando?
— Antes de você nascer.
Henrique franziu a testa.
— Isso é impossível.
O rapaz sorriu.
— É uma palavra interessante.
Sobre a mesa estavam o caderno, a fotografia, o celular e a maquete do barco.
O rapaz tocou uma das tábuas.
— Você sabe por que seu pai gostava dessa história?
Henrique não respondeu.
— Porque ele percebeu uma coisa.
— O quê?
— Que o barco não precisa continuar sendo o mesmo para continuar sendo chamado pelo mesmo nome.
Henrique olhou para ele.
— E isso vale para uma pessoa?
O rapaz não respondeu imediatamente.
Passou o dedo sobre outra tábua da maquete.
— Você já sabe.
O celular começou a tocar, a mesma voz, a mesma pergunta, mas agora Henrique reconhecia o timbre: era sua voz, só que mais jovem, muito mais jovem, como se viesse de alguém que ainda não havia vivido o suficiente para cansar.
A gravação falava sobre o machado, sobre o barco e sobre o corpo.
Quando chegou à última pergunta, Henrique fechou os olhos.
— E mais ainda: você é a mesma pessoa de cinco minutos atrás?
O áudio terminou.
Quando abriu os olhos, o rapaz havia desaparecido.
A cadeira estava vazia.
Zeus continuava ali.
Sobre a mesa havia outra fotografia.
Henrique pegou-a.
Era antiga.
Um homem estava parado diante de uma casa segurando um machado.
O homem era ele.
Mas não era o Henrique que conhecia.
Virou a fotografia.
Havia uma data.
1954.
Henrique deixou a fotografia cair.
Seu pai ainda nem havia nascido.
O homem da fotografia, entretanto, tinha o mesmo rosto.
A mesma cicatriz.
A mesma postura.
E, no dedo indicador da mão esquerda, a mesma unha irregular.
Henrique olhou para a própria mão.
A unha estava ali.
Dessa vez não sentiu surpresa.
Sentiu apenas o peso de uma lembrança que finalmente encontrava seu lugar.
Talvez não houvesse uma primeira versão.
Talvez o problema estivesse justamente nessa necessidade humana de imaginar um começo.
♦ ♦ ♦
Do lado de fora, começou a chover.
A água bateu contra as janelas e o cheiro de terra molhada entrou pela fresta.
Henrique ficou diante da mesa.
O machado estava ali.
O cabo não era o original.
A lâmina também não.
A maquete do barco permanecia ao lado.
Nenhuma das tábuas era a primeira.
Tocou o próprio rosto.
Sentiu a pele, a barba, a cicatriz.
Tentou lembrar quando havia adquirido aquela marca.
Dessa vez uma lembrança apareceu.
Seu pai.
O quintal.
O machado.
Sua mão pequena segurando o cabo.
E a voz:
— Não é o cabo que faz o machado.
Henrique abriu os olhos.
Não sabia se aquilo realmente acontecera.
Essa era a parte que mais doía.
Já não conseguia distinguir lembrança de invenção.
Olhou para Zeus.
— Você lembra de mim?
O cachorro aproximou-se.
Sentou-se diante dele.
Henrique estendeu a mão.
Zeus encostou o focinho nela.
Fechou os olhos.
Talvez aquilo fosse suficiente.
Talvez identidade não fosse aquilo que permanecia dentro de alguém.
Talvez fosse aquilo que permanecia entre alguém e o mundo.
Uma voz.
Um cheiro.
Uma mão conhecida.
Um nome.
E, pela primeira vez, Henrique percebeu que talvez o nome não servisse para dizer quem alguém era.
Servia apenas para permitir que os outros continuassem chamando alguém que já havia mudado.
♦ ♦ ♦
Bateram à porta.
Henrique abriu os olhos.
Zeus levantou a cabeça.
Bateram novamente.
Dessa vez não sentiu medo.
Levantou-se.
Caminhou até a entrada. A cada passo teve a sensação de atravessar uma casa que conhecia havia décadas e que, ao mesmo tempo, nunca tinha visto.
Parou diante da porta.
Do outro lado alguém respirava.
Colocou a mão sobre a maçaneta.
Então ouviu:
— Henrique?
Fechou os olhos.
Tentou lembrar da própria voz.
Não conseguiu.
Mas sabia o nome.
Sempre soubera.
Ou talvez apenas tivesse aprendido.
Abriu os olhos.
Olhou para Zeus.
O cachorro estava sentado atrás dele, esperando.
Girou lentamente a maçaneta.
A porta começou a abrir.
Do outro lado havia um homem.
Henrique não viu seu rosto.
Ainda.
Sorriu.
— Pode entrar.
Enquanto a porta se abria, percebeu que talvez nunca tivesse existido um homem chamado Henrique. Talvez tivesse existido apenas uma longa sucessão de homens que aprenderam a responder ao mesmo nome.
A porta abriu completamente.
Zeus olhou para o homem, depois para ele, e pela primeira vez naquela noite o cachorro não pareceu confuso.
Parecia apenas reconhecer que alguém havia chegado.

Nenhum comentário: