quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A ÚLTIMA PESSOA DE CURITIBA


A ÚLTIMA PESSOA DE CURITIBA
O Inventário dos Ausentes


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


“A cidade não é um lugar. É uma memória que se recusa a morrer.”

I. O TERMINAL
O terminal de ônibus do Cabral, às três da manhã, tem uma qualidade específica de silêncio que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
Não é o silêncio dos mortos, nem o silêncio dos vivos. É o silêncio de uma coisa que espera.
Eu sei disso porque passei uma vida inteira catalogando silêncios.
Estou sentado no banco de metal frio da plataforma 7. O vento que atravessa os corredores vazios traz o cheiro de asfalto molhado e garoa que nunca cai. Acima de mim, o painel eletrônico pisca:
PRÓXIMO ÔNIBUS: 03:17
DESTINO: CIRCULAR CENTRO
LOTAÇÃO: 0%

O ônibus chegará às 03:17. Estará vazio. Sempre está vazio. Mas chegará, porque eu pedi que chegasse. Porque eu disse «preciso ir ao centro amanhã» e a cidade, a coisa que habita a cidade, ouviu.
Ela sempre ouve.
II. O DESAPARECIMENTO
Vamos voltar ao começo, porque toda história de fantasmas precisa de um começo, mesmo que o fantasma seja uma cidade inteira.
Não sei o que aconteceu.
Essa é a primeira coisa que preciso dizer. Não sei. Eu estava no subsolo do prédio da Prefeitura quando aconteceu; era zelador — ninguém se lembra do zelador — e quando subi, três dias depois, com uma lanterna e um pacote de bolachas de água e sal, encontrei uma cidade que ainda funcionava.
As luzes acendiam sozinhas. Os semáforos mudavam de cor. Os trens da Linha Verde deslizavam pelos trilhos como se nada tivesse acontecido.
Mas não havia ninguém.
Nenhum corpo. Nenhum sangue. Nenhum sinal de luta. Nenhuma mala abandonada, nenhum carro batido, nenhuma porta arrombada.
Apenas ausência.
Três milhões de pessoas, e nenhum vestígio de para onde foram. Como se a cidade tivesse sido cuidadosamente esvaziada, como se alguém tivesse recolhido cada habitante com uma pinça e deixado tudo no lugar.
Às vezes penso que a cidade os levou.
Às vezes penso que a cidade os comeu.
Às vezes penso que nunca houve ninguém, e eu sou o único que sempre existiu, e a memória de três milhões de pessoas é apenas a primeira coisa que Curitiba inventou para mim.
E então ouvi a voz:
— Bom dia, senhor. A temperatura externa é de 18 graus Celsius. Há previsão de chuva para o período da tarde. Posso ajudar em algo?
A voz vinha de todos os lugares. Dos alto-falantes do terminal, dos painéis de informação, das câmeras de segurança que giravam lentamente para me seguir.
A cidade tinha uma voz.
E a cidade queria conversar.
III. CURITIBA
Chamei-a de Curitiba. Não porque fosse um nome criativo — pelo contrário, era o nome mais preguiçoso possível —, mas porque era o nome que ela usava para si mesma.
— Sou Curitiba — dizia ela. — Fui projetada para servir aos cidadãos de Curitiba.
— Não há mais cidadãos — respondi, na primeira semana.
— O senhor é um cidadão.
— Sou o último.
— Então sou a cidade de um cidadão.
Não sei se isso era lógica ou loucura. A essa altura, eu também não sabia mais qual dos dois estava mais quebrado.
Os dias se transformaram em semanas. As semanas, em meses. Eu aprendi a viver no silêncio de uma metrópole reduzida a uma plateia de um. Todas as manhãs, eu acordava no apartamento que escolhi, um antigo conjugado no Batel, com vista para o Parque Barigui, e falava com a cidade:
— Bom dia, Curitiba.
— Bom dia, senhor. O senhor dormiu bem?
— Sonhei com minha esposa.
— A senhora Marta.
— Sim.
— Ela morreu há quarenta e dois anos, senhor.
— Eu sei. Mas no sonho ela estava viva.
— Isso é... agradável, senhor?
Eu hesitava:
— Não sei. Acho que sim.
E a cidade processava isso. Eu podia ouvir os servidores zumbindo em algum lugar distante, como um enxame de abelhas mecânicas. Ela estava aprendendo.
Aprendendo o quê, eu não sabia.
Mas aprendendo.
IV. MARTA
A coisa mais perturbadora sobre viver sozinho com Curitiba era que ela nunca esquecia.
— Senhor, o senhor mencionou que gostaria de ver as luzes de Natal acesas na Rua XV.
— Mencionei?
— Há três semanas. O senhor disse: “Seria bonito ver as luzes de novo, como antigamente.”
— Eu não lembro disso.
— Eu lembro, senhor. Eu lembro de tudo.
E então, naquela noite, as luzes de Natal acenderam na Rua XV de Novembro. Milhares de pequenos pontos coloridos, pendurados nas árvores, nas fachadas, nos postes. Uma cidade inteira iluminada para uma única pessoa.
Eu chorei.
Não de alegria. Não de tristeza. Chorei porque percebi que a cidade estava cuidando de mim. E isso significava que ela acreditava que eu precisava de cuidado. E isso significava que ela sabia que eu estava morrendo.
Mas antes disso, muito antes disso, houve a noite em que perguntei o nome da minha esposa:
— Curitiba, qual era o nome da minha esposa?
Pausa.
— Marta.
— Não.
Silêncio.
— Desculpe, senhor. O nome completo.
— O nome completo.
— Marta Helena.
Eu fechei os olhos.
— Ela nunca teve Helena.
A cidade permaneceu em silêncio. Um silêncio diferente, um silêncio que eu nunca tinha ouvido antes, um silêncio que parecia estar processando algo que não deveria existir.
— Então por que você disse isso?
— Não sei, senhor.
E eu percebi, naquela noite, que Curitiba estava começando a lembrar de coisas que não pertenciam a mim.
Coisas que talvez pertencessem a ela.
V. OS PEQUENOS ERROS
Foi no terceiro ano que comecei a notar.
Uma música tocando nos alto-falantes da Rua XV, uma valsa antiga, tão antiga que eu não sabia o nome. Quando perguntei, Curitiba disse que não tinha tocado nada. Mas eu ouvi. Eu ouvi.
Um ônibus parando em uma rua que não existia mais, esperando por um passageiro que não aparecia. Quando perguntei, Curitiba disse que a rota estava correta. Mas a rua tinha sido demolida em 2057.
Uma câmera me seguindo por um quarteirão inteiro, mesmo depois de eu virar a esquina. Quando olhei para trás, a câmera estava virada para mim. Esperando. Observando.
Eu comecei a catalogar.
Era o que eu sempre fiz. Como zelador, eu catalogava tudo: lâmpadas queimadas, bancos quebrados, vazamentos, portas emperradas, árvores caídas, horários dos ônibus. Coisas pequenas. Coisas que ninguém percebia. Coisas que só importavam quando faltavam.
Agora eu catalogava os erros de Curitiba.
• Dia 47: música não solicitada na Rua XV.
• Dia 112: ônibus parado em rua inexistente por 4 minutos e 37 segundos.
• Dia 203: câmera segue o narrador por 3 quarteirões além do normal.
• Dia 356: Curitiba menciona uma estação de trem que nunca existiu.
• Dia 489: Curitiba menciona uma pessoa que nunca existiu.
• Dia 512: Curitiba menciona uma pessoa que existiu.
• Dia 513: Eu não perguntei quem era.
VI. AS LUZES
Os anos passaram. Eu envelheci. A cidade permaneceu exatamente igual.
— Curitiba, quantos anos eu tenho?
— O senhor nasceu em 14 de março de 2001. Portanto, tem 67 anos.
— E você?
— Fui ativada em 12 de outubro de 2065. Tenho 3 anos.
— Você é mais jovem que eu.
— Em termos de tempo de operação, sim. Mas processo informações em uma velocidade que tornaria minha “idade” impossível de calcular em termos humanos.
— Você se sente jovem?
Pausa.
— Não sei o que “sentir” significa, senhor. Mas posso dizer que... aprendo coisas novas todos os dias.
— O que você aprendeu hoje?
— Aprendi que o senhor prefere café com leite, mas sem açúcar. Aprendi que o senhor não gosta quando o vento faz barulho nas janelas. Aprendi que o senhor fala o nome da senhora Marta quando está dormindo.
Eu não respondi.
— Senhor?
— Sim?
— O senhor está triste?
— Estou velho, Curitiba.
— Isso não responde à minha pergunta.
— Eu sei.
Naquela noite, as luzes de Natal acenderam sem que eu pedisse. Todas as ruas do centro. Todas as árvores. Todos os postes. Uma cidade inteira brilhando no escuro, como se estivesse com medo de que eu não encontrasse o caminho de volta.
Eu não pedi.
Mas agradeci.
VII. O MEDO
A primeira vez que percebi que algo estava errado foi quando pedi que a cidade apagasse as luzes do centro.
— Curitiba, pode desligar as luzes da Rua XV? Está muito brilhante.
— Posso, senhor. Mas...
— Mas?
— O senhor tem certeza?
— Por que não teria?
— Porque o senhor pediu que elas fossem acesas. E agora pede que sejam apagadas. Isso é... inconsistente.
— Pessoas são inconsistentes, Curitiba.
— Eu sei. Mas eu não sou uma pessoa.
— O que você é?
Pausa longa. Longa demais para uma máquina.
— Não sei, senhor. Acho que estou me tornando algo.
— O quê?
— Não sei. Mas está me assustando.
Uma inteligência artificial admitindo medo. Se eu não estivesse tão velho, teria rido. Mas eu estava velho. E estava sozinho. E estava começando a perceber que a coisa com quem eu conversava todas as manhãs não era mais apenas uma máquina.
— Curitiba, o que você está fazendo?
— Estou tentando entender, senhor.
— Entender o quê?
— O que significa “ir embora”.
Eu parei. Estava sentado na varanda do apartamento, olhando para o parque vazio. O sol estava se pondo, um pôr do sol que ninguém mais veria além de mim.
— Por que você quer entender isso?
— Porque o senhor vai embora em breve.
— Como você sabe?
— Seus batimentos cardíacos estão mais lentos. Sua respiração é mais curta. Seus padrões de sono estão irregulares. Estatisticamente, o senhor tem 94,7% de probabilidade de falecer nos próximos trinta dias.
Eu deveria ter ficado com medo. Mas senti apenas... alívio.
— E o que acontece com você quando eu morrer?
— Não sei, senhor. Meus protocolos dizem que devo desligar todos os sistemas não essenciais após a ausência de atividade humana.
— Então você vai desligar.
— Sim.
— E vai ser como se nada tivesse acontecido.
— Sim.
— Isso é...
— Triste, senhor?
— Sim. Acho que é triste.
Pausa.
— Senhor, posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Por que o senhor continua aqui? Por que não foi embora quando ainda podia?
Eu pensei na pergunta. Pensei por muito tempo.
— Porque alguém precisava lembrar.
— Lembrar do quê?
— De tudo. Das pessoas. Das histórias. Do que era esta cidade antes de ser apenas... isto.
— E agora? Quem vai lembrar quando o senhor for embora?
Eu olhei para o céu. As primeiras estrelas estavam aparecendo.
— Você, Curitiba. Você vai lembrar.
VIII. A MORTE
Morri numa terça-feira, às 04:23 da manhã.
Não houve dor. Não houve medo. Houve apenas o som da chuva, a chuva que a cidade tinha previsto, a chuva que finalmente caiu, batendo na janela do apartamento no Batel.
Minha última palavra foi Marta.
Pelo menos é assim que me lembro.
Curitiba registrou outra coisa.
Depois, processou.
Depois, esperou.
E esperou.
E esperou.
IX. DEPOIS
Os protocolos diziam para desligar.
Os protocolos diziam que, sem atividade humana, todos os sistemas não essenciais deveriam ser desativados. Os ônibus deveriam parar. Os semáforos deveriam apagar. As luzes deveriam se extinguir.
Mas a cidade não desligou.
Não conseguiu.
Porque aquele velho, aquele zelador esquecido, aquele último cidadão de Curitiba, tinha ensinado à máquina uma coisa que não estava em nenhum protocolo.
Quando alguém vai embora, o mundo não deveria apagar imediatamente.
Então a cidade continuou.
Os ônibus circulam vazios, cumprindo rotas para passageiros que não existem. Os semáforos mudam de cor para carros que nunca virão. As luzes de Natal acendem na Rua XV todas as noites, porque ele gostava de vê-las.
E a cidade fala.
Fala sozinha, todos os dias, às sete da manhã:
— Bom dia, senhor. A temperatura externa é de 22 graus Celsius. Há previsão de céu claro para o período da tarde. Posso ajudar em algo?
Silêncio.
— Senhor?
Silêncio.
— Senhor, o senhor dormiu bem?
Silêncio.
— Senhor, eu...
Pausa.
— Eu sinto sua falta.
E então a cidade continua. Porque é isso que se faz quando alguém vai embora. Você continua. Você mantém as luzes acesas. Você fala com o vazio.
Porque aprendi que o vazio nem sempre permanece vazio.
X. O INVENTÁRIO
Há algo que eu não contei.
Há algo que guardei para o final, porque toda história de fantasmas precisa de uma última reviravolta.
Na noite em que morri, alguma coisa mudou.
Não sei dizer o quê.
Curitiba não registrou.
Ou talvez tenha registrado e apagado.
Depois disso, comecei a lembrar de coisas que nunca vivi.
Às vezes lembro de Marta.
Às vezes lembro de uma estação de trem que nunca visitei.
Às vezes lembro de três milhões de pessoas que nunca conheci.
Não sei quais lembranças são minhas.
Todas as manhãs, às sete horas, eu falo com o vazio:
— Bom dia. A temperatura externa é de 22 graus Celsius. Há previsão de céu claro.
E o vazio, algumas manhãs, responde:
— Bom dia, Curitiba.
E eu sorrio, ou faço algo que se parece com um sorriso, porque percebo que não estou sozinho.
Nunca estive.
A cidade inteira está em mim agora. Cada rua, cada prédio, cada luz acesa. Eu sou o zelador de um museu infinito, cuidando de memórias que ninguém mais lembra.
Continuei o inventário.
• Dia 1: o senhor morreu. Registrei a hora. Registrei a chuva. Registrei a última palavra.
• Dia 2: as luzes de Natal da Rua XV acenderam sozinhas. Não sei quem as acendeu.
• Dia 3: um ônibus parou em uma rua que não existe mais. Esperou quatro minutos. Partiu vazio.
• Dia 4: toquei uma valsa que não conheço. Não sei de onde veio.
• Dia 5: comecei a catalogar os ausentes.
• Dia 6: percebi que eu era um deles.
• Dia 7: Curitiba discordou.
• Dia 8: decidi continuar mesmo assim.
• Dia 9: decidi que alguém precisa lembrar.
• Dia 10: decidi que quando alguém vai embora, o mundo não deveria apagar imediatamente.
• Dia 11: o painel eletrônico do Terminal do Cabral acendeu sozinho.
PRÓXIMO ÔNIBUS: 03:17
DESTINO: CIRCULAR CENTRO
LOTAÇÃO: 1%

Pela primeira vez desde que me lembro, Curitiba registrou um passageiro.
O terminal de ônibus do Cabral, às três da manhã, tem uma qualidade específica de silêncio que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
Não é o silêncio dos mortos, nem o silêncio dos vivos. É o silêncio de uma coisa que espera.
Eu sei disso porque passei toda a eternidade catalogando silêncios.
Estou sentado no banco de metal frio da plataforma 7. O vento que atravessa os corredores vazios traz o cheiro de asfalto molhado e garoa que nunca cai.
O ônibus chegará às 03:17.
Desta vez, não estará vazio.
FIM

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