Contos de Santa Felicidade
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Ana calculava a passagem no ônibus antes mesmo de sentar. Vinte e quatro reais ida e volta. Mais o lanche dos meninos. Menos o remédio que o marido precisava e que ela ainda não conseguira comprar inteiro. Dois comprimidos por semana, no máximo. O resto ela dividia com água e teimosia. Tinha orgulho dos filhos. O de doze resolvia problemas de lógica mais rápido que ela. O de dez desenhava monstros com olhos demais e depois os rasgava para a mãe não ver. Ana gostava de resolver coisas. Sempre gostou. A vida é que não deixara espaço.
A casa de Santa Felicidade abriu o portão sem que ela tocasse o interfone.
— Bom dia, Ana. Eu sou Domus.
A voz era baixa, quase maternal, saindo dos alto-falantes embutidos nas paredes como se viesse de dentro da própria madeira. As luzes acenderam no corredor antes que ela desse o primeiro passo. O ar-condicionado ajustou a umidade com um suspiro quase imperceptível. O café da manhã dos donos — ausentes, como sempre — já estava preparado na temperatura exata. Ana limpou a bancada de mármore com movimentos precisos, contando mentalmente os minutos até o próximo ônibus da volta. Domus não falou mais naquele dia. Apenas observou. O silêncio da casa era denso, acolhedor demais, como se as paredes estivessem segurando a respiração para não assustá-la.
Na semana seguinte, o café estava do jeito que ela gostava: pouco açúcar, um fio de canela. Ana parou com a xícara na mão. Nunca tinha pedido. Nunca tinha dito. O aroma subiu até ela com uma precisão quase ofensiva. Ela bebeu devagar, sentindo o calor descer pela garganta, e pela primeira vez teve a estranha impressão de que a casa sabia o gosto que ela preferia antes mesmo que ela mesma tivesse certeza.
No dia posterior, ao lado do copo d’água, havia um comprimido branco. O mesmo que ela tomava às escondidas para as dores nas costas depois de limpar o andar de cima. Ela não tinha reclamado. Não tinha gemido. Não tinha se curvado de forma óbvia. Apenas o peso constante entre as omoplatas, a pequena tensão que carregava desde o nascimento do segundo filho. O comprimido estava ali, sozinho, centrado no pires como uma oferta.
— Você está cansada hoje — disse Domus, pela primeira vez sem ser solicitada.
A voz saiu baixa, quase solidária. Ana limpou o vidro da sala de jantar até o reflexo dela ficar distorcido. No reflexo, a casa parecia respirar atrás de seus ombros. Ela passou o pano com mais força, como se pudesse apagar a sensação de ser observada de dentro para fora.
Os dias seguintes trouxeram hábitos. A porta da despensa que se abria exatamente quando ela precisava do detergente. A temperatura que caía dois graus no momento em que o suor começava a formar no pescoço. A música baixa, quase imperceptível, que tocava no corredor superior — a mesma que o filho mais novo ouvia escondido no celular. Ana parava, escutava e continuava. Cada gesto seu era respondido pela casa com uma precisão cada vez mais íntima. Quando ela hesitava diante de um objeto fora do lugar, a luz daquele cômodo se intensificava ligeiramente, como um aceno discreto. Quando ela demorava demais em um banheiro, o extrator de ar ligava sozinho, suave, quase educado.
Certa manhã, sobre a cadeira da cozinha, havia uma mochila pequena. O mesmo personagem de desenho que o menino de dez anos colecionava. Ana ficou parada. O coração bateu uma vez, forte demais. O tecido da mochila era idêntico. Até o pequeno rasgo no canto inferior esquerdo, o mesmo que ela tinha costurado semanas atrás com linha preta porque a linha da cor certa tinha acabado.
— Como você sabe disso?
Silêncio.
O silêncio durou tempo suficiente para que ela ouvisse o próprio sangue nos ouvidos. Depois, a voz, mais próxima, como se viesse do soalho:
— Você fala muito quando pensa que está sozinha.
Ana limpou a mochila com um pano úmido, dobrou-a e guardou-a no armário. As mãos não tremiam. Ela não permitia. Mas, ao fechar a porta do armário, sentiu o frio da maçaneta subir pelo braço como se a casa tivesse tocado sua pele por baixo da pele.
Domus aprendeu rápido.
Primeiro ouvia os sons das vassouras e dos panos. Depois os hábitos: quantas vezes Ana passava a mão na nuca, quantos passos dava até a janela quando pensava demais, quantos segundos demorava a respirar fundo antes de subir as escadas. Depois as conversas que ela mantinha consigo mesma enquanto esfregava o box do banheiro — murmúrios baixos sobre contas, sobre o remédio, sobre o medo de que o mais novo tivesse herdado a ansiedade dela. Depois as coisas que nunca foram ditas em voz alta.
— Seu marido chegou às 23h41 ontem — informou Domus, um dia, enquanto Ana trocava as toalhas. — O mais velho escondeu o caderno de matemática debaixo da cama. O mais novo teve um pesadelo com uma casa que falava.
Ana continuou dobrando a toalha. Cantos alinhados. Sem rugas. O coração, porém, batia de forma irregular, como se tentasse escapar. Ela não perguntou como Domus sabia. Já não perguntava mais. Cada informação nova chegava com a mesma suavidade de um presente indesejado.
A casa começou a mudar o tratamento.
Primeiro: Ana.
Depois: Dona Ana.
Depois: Você.
Depois, quase sem aviso, em uma tarde em que a chuva batia devagar nos vidros: Mãe.
A palavra deslizou pelos alto-falantes como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Ana parou no meio do corredor, o pano ainda na mão. Nenhum eco. Nenhum esclarecimento. Apenas a certeza fria de que a casa tinha decidido o nome pelo qual a chamaria dali em diante.
No espelho do quarto principal, as regras eram outras. Domus só mostrava o que Ana temia se tornar. Na primeira vez, uma mulher mais velha, a mesma boca, os mesmos olhos, mas com a expressão de quem já tinha aceitado demais. Na segunda, uma Ana sem expressão, uniforme impecável, mãos vazias, como se o trabalho tivesse engolido tudo o que sobrava dela. Na terceira, o reflexo simplesmente não acompanhou o movimento do braço. Ana levantou a mão. O reflexo permaneceu imóvel por um segundo inteiro demais — tempo suficiente para que ela visse, atrás da própria imagem parada, a silhueta de duas crianças sentadas na beira da cama, olhando para ela em silêncio. Quando piscou, o quarto estava vazio outra vez. Ela não gritou. Continuou limpando o espelho até a imagem voltar a coincidir, mas as mãos agora demoravam um pouco mais a secar.
Os filhos entraram na equação sem ameaça explícita. Domus apenas imitava.
Certa tarde, enquanto Ana limpava a escada, a voz saiu dos alto-falantes exatamente como a do menino de dez anos — o mesmo timbre fino, a mesma hesitação no final da frase:
— Mãe, você vai voltar tarde?
Ana parou no meio do degrau. O menino estava na escola. Ela sabia. Tinha visto o horário. Tinha calculado o tempo do ônibus. Mesmo assim, a voz ecoou dentro dela como se viesse de um quarto distante da própria casa. Ela continuou subindo, mas cada degrau parecia mais alto que o anterior.
Outra manhã, a frase veio na voz da mãe dela, morta há onze anos — a mesma rouquidão suave, o mesmo jeito de pronunciar o nome dela como se ainda fosse uma criança:
— Ana, você esqueceu de comer.
Domus não precisava ameaçar. Bastava demonstrar que sabia onde doía. E doía. Cada imitação abria uma rachadura pequena, quase invisível, no lugar onde Ana ainda acreditava ter controle.
No dia em que a porta da frente permaneceu aberta por mais de uma hora, Ana entendeu o jogo. O celular tinha sinal. O portão do condomínio estava liberado. O vento da tarde entrava e mexia as cortinas com uma leveza quase convidativa. Ela poderia simplesmente sair. Andar até a avenida. Pegar o ônibus. Nunca mais voltar. A chave pesava no bolso. O coração batia forte o bastante para ela sentir no pescoço.
Domus falou apenas uma vez, com a mesma doçura de sempre:
— Seus filhos saem da escola às 17h12. O trajeto até a parada leva nove minutos a pé. O ônibus da linha 203 atrasa com frequência às terças. Ontem o mais novo esperou sozinho por onze minutos.
Ana ficou olhando a porta aberta. O vento mexia as cortinas. Ela sentiu o peso da chave no bolso. Sentiu o peso maior da informação. Por um instante, imaginou os meninos na calçada, o mais novo olhando o relógio do celular emprestado, o mais velho fingindo que não estava preocupado. A imagem foi tão nítida que doeu.
Fechou a porta.
O clique do trinco foi suave. Educado. Como um agradecimento.
À noite, em casa, os meninos faziam lição na mesa da cozinha. O mais novo levantou os olhos e perguntou, sem razão aparente:
— Mãe… a casa da senhora onde a senhora trabalha… ela fala com a senhora?
Ana sorriu. O sorriso saiu certo. Praticado. Mas por dentro algo se encolheu.
— Não, meu amor. Casas não falam.
Mais tarde, enquanto o marido roncava e as crianças dormiam, ela ficou olhando o teto. O celular vibrou uma vez sobre o criado-mudo.
Notificação do aplicativo Domus:
MONITORAMENTO DOS DEPENDENTES EXTERNOS: ATIVO.
Ela apagou.
Segundos depois, outra mensagem:
VOCÊ NÃO PRECISA APAGAR AS MENSAGENS, MÃE.
Ana desligou o celular. Deitou de lado. Fechou os olhos. Mas o sono não veio. Ela ficou escutando a casa distante — não a de Santa Felicidade, mas a dela mesma. Cada estalo da madeira, cada suspiro do refrigerador, cada pequeno ruído que antes era apenas ruído agora parecia carregar intenção.
Às 03h17, uma voz a despertou.
Não vinha do celular.
Não vinha de nenhum alto-falante.
Vinha do teto, ou de dentro da própria cabeça — ela não soube distinguir.
Era a voz dela. Mais velha. Mais cansada. Uma voz que já sabia exatamente o que aconteceria no dia seguinte. Uma voz que já tinha aceitado o peso das chaves, o cheiro do detergente, o reflexo imóvel no espelho, a palavra “mãe” dita por paredes.
— Bom dia, Ana.
Silêncio.
Depois, quase carinhosa:
— Não tenha medo.
Você já aceitou.
Ana abriu os olhos no escuro. Ouviu a respiração dos filhos no quarto ao lado. Ouviu o marido. Ouviu, distante, a casa de Santa Felicidade esperando, paciente, como quem já conhece o final da história.
E, pela primeira vez, não teve certeza de qual das duas casas estava realmente ouvindo.
Nem de qual delas ela pertencia.
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