E O WHATSAPP
Sobre aquilo que ainda conseguimos ver
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Paulo acordou atrasado numa terça-feira que talvez fosse quarta.
O despertador tocou às 6h47. Ele já estava atrasado às 6h47. Isso acontece com quem dorme pensando no trabalho e acorda pensando no trabalho e, entre uma coisa e outra, sonha com uma planilha.
O primeiro e-mail chegou às 7h03.
Paulo não respondeu.
Às 7h11, chegou outro.
Às 7h18, outro.
Às 7h26, o celular vibrou sobre a pia enquanto ele fazia a barba. Paulo olhou para a tela e, por um instante, teve a impressão de ouvir um rosnado.
Era só a vibração.
Mas ele ficou olhando para o aparelho como se esperasse que alguma coisa saísse de dentro.
Na frente dele, o penhasco.
Atrás, o prazo.
Entrou no carro.
O WhatsApp tinha setenta e três mensagens não lidas. O grupo da família. O grupo do trabalho. O grupo do condomínio. O grupo em que ele não sabia por que estava. Havia também três mensagens da filha, todas sem resposta.
Paulo não abriu.
Ainda.
08:12 — Você viu o que mandaram no grupo?
08:19 — Bom dia! Só passando para lembrar da reunião.
08:43 — URGENTE.
08:44 — Na verdade, não é urgente. Esquece.
No semáforo, Paulo leu a última mensagem duas vezes.
O sinal abriu.
Buzinaram atrás.
Ele guardou o celular.
Chegou ao escritório às 8h58.
Sentou.
Abriu o computador.
O relatório que vencia às seis esperava no fundo do penhasco.
A primeira coisa que Paulo fez foi abrir o e-mail errado.
Depois o certo.
Depois outro.
Às 9h17, estava respondendo a uma mensagem sobre uma reunião marcada para as 10h.
Às 9h21, alguém perguntou se a reunião das 10h continuava de pé.
Às 9h23, avisaram que ela havia sido antecipada para as 9h30.
Às 9h24, desmarcaram.
Às 9h25, remarcaram para as 11h.
Paulo ficou olhando para a tela.
Começou a trabalhar.
Os ratinhos também.
Roíam o cipó em silêncio, embora, de vez em quando, um deles fizesse o celular vibrar.
Paulo leu e-mails. Respondeu e-mails. Marcou reuniões. Desmarcou reuniões. Reagendou reuniões. Pediu para o colega repetir o que tinha acabado de dizer porque, na hora em que o colega disse, Paulo estava lendo um e-mail.
Escreveu três frases do relatório.
Apagou as três.
Escreveu outras três.
Apagou duas.
Às 10h36, tomou café frio.
Às 10h52, encontrou no bolso da calça um papel dobrado.
Era uma lista de coisas que precisava fazer no sábado.
• Trocar a lâmpada da cozinha.
• Levar o carro para lavar.
• Comprar tinta para o quarto.
• Levar a filha ao cinema.
A última linha estava riscada.
Paulo reconheceu a própria letra, inclinada para a direita, mas não lembrava quando havia feito aquele risco.
Dobrou o papel novamente e guardou no bolso.
11h47.
A manhã tinha passado.
Foi então que percebeu uma notificação diferente.
Não havia som.
Apenas uma pequena fotografia na tela.
Era a filha.
Ou melhor, era o desenho dela.
Um sol amarelo ocupava quase metade da folha. Havia uma casa torta, uma árvore menor que a casa e um cachorro comprido demais, com quatro pernas de comprimentos diferentes.
O cachorro tinha dentes.
Muitos dentes.
Paulo sorriu.
Embaixo, escrito com letra torta:
“eu amo meu pai”
Ele ampliou a fotografia.
Não precisava.
Ampliou mesmo assim.
O papel aparecia granulado na tela. Dava para ver a marca do lápis amarelo passando duas vezes sobre o sol. Num canto havia uma mancha azul, provavelmente de tinta.
Paulo conhecia aquela mancha.
A filha costumava apoiar a mão sobre o desenho antes de a tinta secar.
Um e-mail chegou.
Paulo não abriu.
O celular vibrou outra vez.
Ele não olhou.
Ficou olhando para o desenho.
A mensagem tinha chegado às 9h02.
Ele a abriu às 11h47.
Duas horas e quarenta e cinco minutos.
Lembrou-se de quando ela era pequena e desenhava pessoas sem mãos.
Perguntava:
— “Cadê a mão?”
Ela respondia:
— “Depois eu faço.”
Nunca fazia.
Agora os desenhos tinham mãos.
Paulo percebeu isso.
Ficou algum tempo olhando para os dedos tortos do personagem que talvez fosse ele.
Depois salvou a foto.
Levantou.
Foi até a janela.
A janela ficava no fim do corredor, entre a copa e o banheiro. Ninguém ia até lá para olhar. As pessoas iam para o banheiro ou para o café.
Paulo foi para olhar.
Lá embaixo, os carros passavam pequenos entre os prédios.
Um ônibus parou no ponto.
Duas pessoas atravessaram a rua.
Uma delas corria.
A outra não.
O céu estava cinza.
Havia uma faixa mais clara perto dos prédios, onde talvez o sol estivesse tentando aparecer.
O vidro da janela devolvia o reflexo de Paulo sobre a cidade.
Camisa azul.
Mangas dobradas.
Uma mão no bolso.
O celular vibrando.
Ele não tirou o aparelho do bolso.
Ficou ali.
Uma risada veio da copa.
Depois, alguém passou pelo corredor falando ao telefone.
Um carro buzinou na rua.
Paulo continuou olhando.
Não aconteceu nada.
Quando voltou para a mesa, o escritório parecia um pouco mais barulhento.
O ar-condicionado.
Os teclados.
As cadeiras arrastando.
Uma impressora trabalhando em algum lugar.
O celular parecia vibrar mais longe do que antes.
Paulo abriu o e-mail.
Respondeu com uma frase.
Abriu o relatório.
Escreveu duas linhas.
Às 14h17, o relatório ainda estava incompleto.
O chefe mandou uma mensagem:
— “Consegue entregar até as 18h?”
Paulo olhou para a tela.
Depois olhou para o desenho.
Tinha impresso a fotografia em algum momento entre a janela e o relatório.
Não lembrava de ter feito isso.
Prendeu o papel ao lado do monitor.
O cachorro continuava parecendo um jacaré.
Paulo sorriu.
Respondeu:
— “Consigo.”
Ficou olhando para a caixa de mensagem.
Digitou outra coisa.
Apagou.
Digitou novamente:
— “Você viu o desenho que ela mandou?”
O chefe demorou.
— “Que cachorro é esse?”
Paulo olhou para o desenho.
— “É um jacaré.”
Alguns segundos.
— “Ah.”
Outra mensagem:
— “Faz sentido.”
Paulo ficou olhando para a tela.
Depois para o desenho.
O chefe mandou mais uma:
— “Minha filha desenhava umas coisas assim.”
Paulo não respondeu imediatamente.
— “Ainda desenha?”
A resposta demorou.
— “Não.”
Depois:
— “Ela tem 26.”
Paulo ficou com o dedo parado sobre o teclado.
— “Entendi.”
O chefe não respondeu.
Nem precisava.
Paulo voltou ao relatório.
― ◈ ―
Às 18h03, entregou o arquivo.
Estava incompleto.
Ninguém percebeu.
Os tigres continuaram ali, em cima e embaixo.
Os ratinhos continuaram roendo.
No caminho para casa, Paulo passou pelo mercado.
Parou diante da seção de frutas.
Pegou um morango.
Ficou olhando para ele.
Não comprou.
Ainda não.
Em casa, a televisão estava ligada.
A filha tinha chegado antes dele.
Dormia no sofá.
Paulo desligou a televisão sem acordá-la.
Ela tinha deixado o desenho sobre a mesa da cozinha.
O mesmo sol.
A mesma casa.
O mesmo cachorro-jacaré.
Paulo aproximou a cadeira.
Sentou.
Ficou olhando.
Não mexeu no desenho.
Não o guardou.
Não tirou outra fotografia.
Deixou ali.
Antes de dormir, apagou a luz da cozinha.
O desenho ficou sobre a mesa.
Para ver de novo amanhã.
Nenhum comentário:
Postar um comentário