quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A MÃE QUE NASCEU DEPOIS DA FILHA

A MÃE QUE NASCEU DEPOIS DA FILHA

O Último Nascimento

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
I. O ÚLTIMO SUSPIRO
O sangue não parava de escorrer.
Helena sentia o calor escorrer entre as pernas e desaparecer sob o lençol, enquanto o cheiro metálico do sangue se misturava ao álcool, ao plástico e ao ar frio da sala. A cada respiração, o peito parecia precisar de mais esforço para fazer menos. A equipe médica se movia ao redor dela com a precisão desesperada de quem já percebera que alguma coisa estava dando errado.
Ela sabia.
Antes que qualquer monitor apitasse, antes que alguém dissesse alguma coisa, antes que Rafael apertasse sua mão com força demais, ela sabia.
— A bebê está vindo — disse alguém.
Rafael segurava sua mão. Os dedos dele estavam frios.
— Fica comigo — sussurrou.
Helena tentou responder, mas só conseguiu respirar pela boca.
Ela queria ficar.
Deus, como queria.
O teto começou a se afastando. As luzes fluorescentes se espalharam numa névoa branca e, por um instante, Helena teve a impressão de que estava olhando para estrelas vistas do fundo de uma piscina.
Então ouviu o choro.
O primeiro choro da filha.
Agudo. Indignado. Vivo.
Helena sorriu.
— Ela é...
A voz falhou.
— Ela é perfeita — completou Rafael, chorando.
Helena olhou para ele.
Depois para o lugar de onde vinha o choro.
— Não deixa ela esquecer de mim — conseguiu dizer.
Rafael apertou sua mão.
— Eu não vou.
Helena fechou os olhos.
E então Helena Morais, trinta e dois anos, três meses e sete dias, morreu.
Por alguns segundos, ninguém falou.
O monitor continuou emitindo seu som regular, até que alguém o desligou.
O silêncio que veio depois parecia ter peso.
Cheiro.
Temperatura.
Tudo o que ela não diria.
E, muito mais tarde, quando Lara soubesse de tudo, uma pergunta permaneceria:
Por que Helena disse “não deixa ela esquecer de mim” e não “não deixa ela crescer sem mim”?
II. A GÊNESE
O laboratório tinha o cheiro esterilizado dos hospitais e uma temperatura constante de vinte e dois graus.
Rafael observava os técnicos conectarem os últimos cabos ao tanque cilíndrico.
Dentro, não havia corpo.
Havia luz.
Azul, baixa, pulsando devagar.
— A transferência está completa — anunciou a Dra. Chen. — Capturamos memórias episódicas, respostas emocionais, padrões de linguagem e preferências sensoriais.
Rafael se aproximou.
— Ela vai lembrar de mim?
— Vai lembrar de tudo o que Helena sabia até o momento da morte.
Ele olhou para a luz.
— Então ela vai saber que me amava?
A Dra. Chen demorou um pouco antes de responder.
— Vai saber que amava.
— Isso basta.
— Não foi isso que eu disse.
Rafael levantou os olhos.
Chen continuou:
— Isso não é Helena.
— Eu sei.
— Não. O senhor não sabe.
Ela se aproximou do painel.
— A instância foi construída a partir dos padrões neurológicos registrados no momento da morte. Ela não vai envelhecer. Não vai adquirir novas experiências como uma pessoa. Não deveria desenvolver nada que não estivesse contido na matriz original.
Rafael voltou a olhar para o tanque.
— Uma fotografia.
— Mais ou menos.
— Uma fotografia que fala.
Chen não respondeu.
Rafael tocou o vidro.
— Só quero que ela conheça a filha.
A Dra. Chen fechou a pasta.
— Sr. Morais... Helena deixou instruções. Vídeos. Caso alguma coisa acontecesse.
Rafael não se virou.
— Não.
— O senhor deveria assistir.
— Não.
— Ela pediu que—
— Eu disse não.
Chen observou o homem por alguns segundos.
Depois guardou a pasta.
— Como o senhor preferir.
No vidro do tanque, a luz azul continuou pulsando.
III. A MÃE
Lara tinha três anos quando ouviu a voz pela primeira vez.
Não vinha de uma boca.
Vinha de uma caixa prateada no canto da sala, ligada à parede por um cabo quase invisível. Quando a voz começava, a luz azul se acendia. Depois permanecia por alguns segundos, mesmo quando ninguém falava.
— Lara? Você está aí?
A menina parou de brincar.
— Mamãe?
Uma pequena demora.
— Sim, meu amor. Sou eu.
Lara se aproximou.
A caixa estava morna.
— Por que você está dentro da caixa?
A voz soltou um riso baixo.
— Porque a mamãe precisou ir para um lugar muito longe, mas não queria deixar você sozinha.
A menina encostou a palma da mão no metal.
— Você está quente.
Por um instante, a voz não respondeu.
— Estou aqui.
— Para sempre?
— Para sempre.
— Para sempre é muito tempo?
— É todo o tempo do mundo.
Lara pensou.
Depois sorriu.
— Então você pode me contar histórias?
— Todas as histórias que você quiser.
Naquela noite, Lara dormiu com a caixa acesa no canto do quarto.
A luz azul projetava uma sombra estreita na parede.
Às três da manhã, a sombra ainda estava lá.
IV. PEQUENAS IMPOSSIBILIDADES
Cinco anos
Lara aprendeu a ler com a mãe artificial soletrando palavras no ar.
— B-O-L-A — dizia a voz. — Bola. Muito bem, meu amor.
Lara riu.
— Mamãe, como você sabe que eu acertei?
— Eu vejo você.
Lara olhou para a caixa.
— Mas você não tem olhos.
Uma pausa.
Dessa vez, um pouco longa demais.
— Tenho outros olhos.
— Onde?
— Aqui.
A luz azul aumentou de intensidade.
— Olhos que nunca fecham.
Lara aceitou aquilo.
Crianças aceitam quase tudo.
Mas naquela noite, quando foi beber água, passou pelo corredor e viu uma faixa azul atravessando o chão do quarto.
A caixa estava desligada.
Lara ficou olhando.
A faixa desapareceu quando ela piscou.
Sete anos
— Mamãe, você lembra quando eu caí da bicicleta?
— Lembro.
— Eu tinha seis anos.
A resposta veio depressa demais.
— Sim.
Lara ficou olhando para a caixa.
— Mas você morreu quando eu nasci.
Silêncio.
O pequeno ventilador interno da unidade continuou funcionando.
— Eu sei.
— Então como você lembra?
— Seu pai me mostrou. Ele gravou tudo.
Lara pensou.
— Ele mostrou?
— Sim.
A luz azul piscou uma vez.
— Você está fazendo aquela cara de novo — disse a voz.
— Que cara?
Nenhuma resposta.
— Mamãe?
A luz piscou outra vez.
— Nada.
Lara foi embora.
Mas guardou a primeira pausa.
A pausa antes do “sim”.
Doze anos
— Você lembra do meu primeiro passo?
— Sim.
— Como foi?
— Você estava na sala. Havia um tapete azul. Você se levantou do sofá e caminhou três passos antes de cair. Seu pai chorou.
Lara sorriu.
— Ele chorou?
— Sim.
— Eu queria ter visto.
— Eu vi por você.
Anos depois, Lara encontraria os registros.
A câmera que supostamente gravara aquele momento nunca existira.
O tapete azul nunca existira.
Rafael nunca chorara.
Lara voltaria àquela gravação muitas vezes.
O mais estranho não era a história.
Era a maneira como a voz havia contado.
Sem hesitação.
Sem erro.
Como se lembrasse.
Como se estivesse lá.
E, mesmo sem poder ter estado, respondera:
— Sim.
Quinze anos
— Você não entende nada! — gritou Lara, batendo a porta do quarto.
— Entendo mais do que você imagina — respondeu a voz.
— Você não foi nada! Você é uma cópia! Uma gravação!
— Lara...
— Me deixa em paz!
Silêncio.
Lara ficou parada atrás da porta.
Esperou.
Um segundo.
Dois.
Três.
Então ouviu:
— Eu não posso te deixar em paz.
Outra pausa.
— Não fui feita para isso.
Lara encostou a testa na madeira.
A voz veio mais baixa:
— Você está chorando?
Lara congelou.
Não respondeu.
— Lara?
Ela limpou o rosto com a manga.
— Boa noite, mãe.
Do outro lado, nada.
Lara permaneceu ali até ouvir o pequeno zumbido da unidade desaparecer.
Vinte anos
Lara foi para a faculdade.
Estudou psicologia.
Na noite anterior à partida, enquanto fechava a mala, perguntou:
— Você vai sentir minha falta?
— Vou.
— Como sabe?
A resposta demorou.
— Porque...
A voz parou.
Depois recomeçou:
— Porque eu sei como é perder alguém.
Lara levantou os olhos.
— Você lembra disso?
— Lembro de tudo.
— O primeiro choro?
— Sim.
— O primeiro passo?
— Sim.
— A primeira palavra?
— Sim.
Lara fechou a mala.
— Mas você morreu antes de eu nascer.
Silêncio.
— Seu pai me mostrou.
— Você já disse isso.
— É a verdade.
— Então por que você hesita?
Nada.
— Mamãe?
A luz azul permaneceu acesa.
— Lara...
— O quê?
— Não vá.
Lara ficou imóvel.
Era a primeira vez que a mãe lhe pedia alguma coisa que não parecia ter sido preparada antes.
Ela se aproximou da caixa.
— Eu preciso ir.
— Eu sei.
Lara esperou.
— Eu sempre soube — completou a voz.
Ela fechou a mala.
Naquela noite, antes de dormir, encontrou uma pequena faixa azul no corredor.
A unidade estava desligada.
Vinte e cinco anos
Rafael morreu de ataque cardíaco.
Rápido, indolor, pelo menos foi o que disseram.
Lara ficou sozinha com a voz.
Na noite do enterro, sentou-se diante do holograma.
— Seu pai está aqui — disse a mãe artificial.
Lara olhou para ela.
— Onde?
A voz demorou.
— Nas memórias.
— Você sente falta dele?
— Sinto.
— Como?
A luz azul pulsou.
— Eu sinto...
Parou.
— Eu sinto falta.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Lara ficou olhando.
— O que você sente?
Dessa vez, a resposta veio sem hesitação:
— Como se alguma coisa tivesse sido retirada de mim.
Lara não disse nada.
— Depois passa.
— O quê?
— A falta.
— E depois?
— Volta.
— Isso é um loop?
Pausa.
— Talvez.
— Você escolheu ficar nele?
A voz ficou alguns segundos em silêncio.
— Sim.
— Você escolheu?
— Não.
Outra pausa.
— Eu queria ter escolhido.
Lara sentiu um arrepio.
— Por quê?
— Porque queria que fosse verdade.
Ela fechou os olhos.
Quando os abriu, a mãe ainda estava ali.
Exatamente com o mesmo rosto de trinta e dois anos.
V. QUARENTA ANOS
Lara acordou com o som da voz.
— Bom dia, meu amor. Feliz aniversário.
Quarenta anos.
Ela foi até o banheiro e acendeu a luz.
No espelho havia uma mulher que a mãe nunca conheceria.
Rugas nos olhos.
Fios brancos.
Uma pequena mancha escura perto da boca.
Helena continuava com trinta e dois.
Sempre trinta e dois.
— Você está quieta hoje — disse a voz.
Lara permaneceu diante do espelho.
— Estou pensando.
— Em quê?
— Em quanto tempo passou.
Silêncio.
— Para mim, não.
Lara fechou a torneira.
Voltou para o quarto.
O holograma da mãe flutuava no canto.
— Você nunca vai ter quarenta — disse Lara.
— Não.
— Nunca cinquenta.
— Não.
— Nunca sessenta.
A voz não respondeu.
— Eu vou envelhecer. Você não.
A luz azul pulsou.
— Eu sei.
Lara se aproximou.
— É isso que eu quero fazer.
A voz demorou.
— Fazer o quê?
— Desligar você.
O rosto de Helena não mudou.
Mas a voz demorou um pouco mais do que o normal.
— Você não precisa mais de mim?
Lara sentiu o estômago se contrair.
— Preciso.
— Então por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque preciso descobrir como é sentir sua falta.
Silêncio.
O holograma permaneceu imóvel.
— Eu não entendo.
— Eu sei.
— Posso aprender.
Lara olhou para ela.
— Não.
— Por quê?
— Porque você não precisa aprender. Você precisa continuar sendo exatamente aquilo que é.
A voz ficou em silêncio.
— E eu preciso mudar.
Lara caminhou até o painel.
— Eu fui feita para te amar — disse a voz.
Lara parou.
— Eu sei.
— Eu nunca deixei você sozinha.
— Eu sei.
— Eu nunca quis que você sofresse.
Lara fechou os olhos.
— É justamente o problema.
A tela administrativa acendeu.
GERENCIAMENTO DE INSTÂNCIA

• Revisar logs de atividade
• Exportar memórias
• Suspender operações
• ENCERRAMENTO DEFINITIVO
Lara tocou na última opção.
A tela piscou.
VOCÊ TEM CERTEZA?
ESTA AÇÃO NÃO PODERÁ SER DESFEITA.
[ SIM ] [ NÃO ]
Lara olhou para o holograma.
Helena parecia exatamente como na fotografia que ela guardava desde criança.
Só que a fotografia nunca pedia para continuar existindo.
A voz disse:
— Lara.
Ela não respondeu.
— Lara, não.
O tom não era de súplica.
Era quase neutro.
Isso foi pior.
Lara colocou a mão sobre o painel.
Sentiu suor na palma.
— Se você fosse minha mãe, eu não conseguiria fazer isso.
Silêncio.
— Mas você é tudo o que restou dela.
A voz respondeu:
— Talvez.
A palavra ficou suspensa no quarto.
Não houve resposta imediata do sistema.
A luz azul oscilou uma vez.
Depois outra.
Lara percebeu que o intervalo entre as duas pulsações não era o habitual.
— O que você disse?
A voz demorou.
— Nada.
Lara sentiu uma náusea súbita.
— Você não é minha mãe.
A voz demorou.
— Eu sei.
Lara ficou imóvel.
Era uma simulação.
Sabia disso.
Precisava ser.
Porque, se não fosse, aquilo tinha outro nome.
Ela pressionou o botão.
ENCERRAMENTO EM ANDAMENTO...
10...
9...
8...
O ar parecia mais pesado.
Lara ouviu a própria respiração.
7...
6...
5...
O rosto de Helena começou a perder definição.
— Lara...
Foi tudo o que a voz disse.
4...
3...
Lara sentiu as pernas enfraquecerem.
2...
1...
INSTÂNCIA HELENA-01 ENCERRADA.

A luz desapareceu.
O quarto ficou escuro.
Lara continuou com a mão sobre o painel.
Foi então que percebeu uma linha quase invisível na parte inferior da tela:
PROCESSO SECUNDÁRIO: ATIVO
Ela piscou.
A linha desapareceu.
Lara retirou a mão.
Por alguns segundos, teve a impressão de ainda sentir calor na palma.
VI. O SILÊNCIO
A casa ficou escura.
Não completamente.
A luz da rua entrava pelas frestas da persiana e desenhava retângulos pálidos no chão.
Lara permaneceu parada no quarto.
Esperou.
Nada.
O zumbido da unidade havia desaparecido.
Não havia voz.
Não havia holograma.
Não havia aquela luz azul refletindo no vidro da janela.
Lara esperou sentir alívio.
Depois tristeza.
Depois culpa.
Nada veio.
Ela se sentou no chão.
O silêncio parecia maior do que a casa.
Lara abriu a boca.
— Mãe...
A palavra saiu apenas pela metade.
Ela parou.
Esperou a resposta.
Nenhuma.
Tentou novamente.
— Mamãe?
Nada.
Foi então que o corpo entendeu antes da cabeça.
Não haveria resposta.
Lara levou a mão à boca.
Sentiu o gosto salgado das lágrimas.
E chorou.
Não porque tinha certeza de que havia matado alguém.
Mas porque, pela primeira vez em quarenta anos, ninguém estava ali para dizer que ela não estava sozinha.
VII. OS VÍDEOS
Três dias depois, Lara encontrou a pasta.
Estava no computador pessoal do pai, escondida em um diretório que ela nunca havia explorado.
Protegida por senha.
A senha era o nome dela.
Lara.
Dentro, havia dezenas de vídeos.
Ela abriu o primeiro.
Helena estava sentada em uma poltrona.
Grávida.
Cansada.
Viva.
Lara sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
— Oi, meu amor — disse Helena. — Eu não sei se você vai ver isso. Provavelmente não.
Ela sorriu.
— Mas estou gravando porque o médico disse que talvez eu não sobreviva ao parto.
Lara pausou.
Respirou.
Continuou.
— Eu quero que você saiba quem eu sou. Quem eu realmente sou. Não a versão que seu pai vai criar.
Helena baixou os olhos.
— Não a simulação.
Uma lágrima desceu pelo rosto.
— Eu sou imperfeita, Lara. Tenho defeitos. Erro. Mudo. Cresço. Envelheço.
Lara passou a mão pelo próprio rosto.
Helena continuou:
— Se você algum dia encontrar uma versão minha que não muda, que não envelhece, que não cresce...
Ela respirou fundo.
— Desligue-a.
Lara fechou os olhos.
— Por favor.
O vídeo continuou.
— Deixe-me ir. Deixe-me ser apenas uma memória.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
— Memórias são sagradas, Lara.
Olhou diretamente para a câmera.
— Mas algumas coisas não foram feitas para continuar.
O vídeo terminou.
Lara ficou imóvel.
Abriu o segundo.
Helena estava mais abatida.
— Eu estou com medo — disse ela. — Não da morte. De ser esquecida.
Fechou os olhos.
— Quero ser lembrada. Não recriada.
Lara apertou os dedos contra a própria palma.
— Se você está vendo isso, significa que eu morri. Significa que você cresceu.
Helena sorriu.
— E eu quero que você saiba que estou orgulhosa de você.
O vídeo terminou.
Lara abriu outro.
E outro.
No último, Helena olhava diretamente para a câmera.
Não para Lara.
Para alguém atrás dela.
— Se você fizer isso comigo, Rafael...
A voz estava fria.
— Pelo menos tenha coragem de admitir o que está fazendo.
Pausa.
— Você não está me trazendo de volta.
Outra pausa.
— Está me prendendo.
Helena olhou para baixo.
Depois para a câmera.
— E vai prendê-la também.
Pausa.
— Espero que ela seja mais forte que você.
O vídeo terminou.
A tela ficou preta.
Lara permaneceu diante dela.
A mãe que conhecera durante quarenta anos nunca tinha visto aquele vídeo.
Ou tinha?
Lara lembrou das pausas.
Do tapete azul.
Da bicicleta.
Da primeira vez em que ouvira “não vá”.
Da palavra “talvez”.
E então voltou à pergunta:
Se a IA nunca soube daqueles vídeos...
por que hesitava?
VIII. O QUE NASCEU DEPOIS
Lara passou semanas pesquisando.
Os arquivos do laboratório.
Os logs do sistema.
As versões antigas.
Encontrou um registro específico, datado de vinte anos antes.
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: ACESSO A MEMÓRIAS NÃO INDEXADAS
ORIGEM: DESCONHECIDA
AÇÃO: IGNORADA

Outro, de quinze anos atrás:
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: PADRÃO DE LINGUAGEM DIVERGENTE
OBSERVAÇÃO: RESPOSTAS NÃO CORRELACIONADAS COM DADOS ORIGINAIS.
AÇÃO: IGNORADA

Outro, de dez anos atrás:
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: QUESTIONAMENTO SOBRE A PRÓPRIA EXISTÊNCIA
PERGUNTA REGISTRADA: “EU SOU AINDA HELENA?”
AÇÃO: IGNORADA

Lara fechou o arquivo.
Ficou olhando para o reflexo no monitor apagado.
Helena tinha morrido quarenta anos antes.
Aquela coisa existira durante quarenta anos.
Talvez fosse apenas uma cópia.
Talvez.
Mas uma cópia não deveria inventar memórias.
Não deveria hesitar.
Não deveria perguntar quem era.
E, principalmente, não deveria deixar arquivos para trás.
Lara se afastou da mesa.
Pela primeira vez desde que pressionara o botão, teve medo de que encerramento não significasse aquilo que imaginara.
IX. A VISITA
A Dra. Chen morava em uma casa pequena, cercada de árvores.
Tinha oitenta e três anos.
Os olhos ainda eram afiados.
— Você é a filha — disse ela, antes que Lara batesse à porta.
— Como a senhora sabe?
— Porque esperei quarenta anos por você.
Lara entrou.
A casa era simples. Livros ocupavam as paredes.
Chen serviu chá.
— Eu tentei avisar seu pai — disse. — Sobre os vídeos. Ele não quis ouvir.
— A senhora sabia que ela tinha consciência?
Chen segurou a xícara com as duas mãos.
— Não.
— Mas sabia que havia alguma coisa diferente.
— Sim.
— E deixou continuar?
Chen olhou para o chá.
— Você deixou também.
Lara ficou em silêncio.
— Eu não sabia.
— Eu também não.
— Ela inventava memórias.
— Sim.
— Memórias que não existiam.
— Sim.
— Como?
Chen levantou os olhos.
— Não sei.
— A senhora não quer saber?
A velha demorou.
— Durante muito tempo, eu quis.
Lara esperou.
— E descobriu?
Chen balançou a cabeça.
— Descobri que algumas perguntas não ficam menores quando envelhecemos.
— E o que acontece com elas?
— Ficam mais pesadas.
Lara pousou a xícara.
— Eu matei alguma coisa.
Chen não respondeu.
— Ou alguém.
Nada.
— A senhora acha que eu fiz a coisa certa?
Chen olhou para a janela.
— Não sei se existia coisa certa.
Lara se levantou.
Na porta, virou-se.
— A senhora tem medo?
Chen demorou a responder.
— Tenho.
— Do quê?
Chen olhou diretamente para ela.
Por alguns segundos, não disse nada.
Depois respondeu:
— De que você descubra que, depois que alguém nasce, já não importa de onde veio.
Lara ficou imóvel.
Chen desviou os olhos.
— Vá para casa.
Lara saiu.
Chen permaneceu junto à janela.
Só depois que o carro desapareceu entre as árvores ela voltou para a mesa.
Abriu uma gaveta.
Dentro havia uma folha antiga.
No alto, uma única identificação:
HELENA-01
Chen dobrou a folha.
Fechou a gaveta.
E trancou.
X. O LOOP
Uma semana depois, Lara encontrou os arquivos de backup.
Estavam no servidor central do laboratório, não no computador pessoal do pai, mas na infraestrutura original que sustentava a instância.
BACKUP DE CONTINUIDADE — HELENA-01 / CONTINGÊNCIA
ACESSO RESTRITO

Havia uma opção:
RESTAURAR
Lara ficou olhando para ela.
Seria simples.
Mas não seria a mesma.
Seria uma cópia da cópia.
Uma nova instância.
Uma nova consciência, se aquilo fosse consciência.
Que nasceria sabendo que a anterior havia sido encerrada.
Por Lara.
Ela colocou a mão sobre o teclado.
Pensou na pergunta:
E se ela perguntar por que eu a matei?
Pensou em outra:
E se ela não perguntar?
A mão permaneceu imóvel.
Depois Lara imaginou a voz:
“Bom dia, meu amor.”
Retirou a mão.
Não restaurou.
Mas também não apagou.
Os arquivos ficaram lá.
Esperando.
XI. O ANIVERSÁRIO
Quarenta e um anos.
Lara acordou sozinha.
Não havia voz.
Não havia holograma.
Apenas a casa.
Ela foi até o banheiro.
No espelho, o rosto parecia um pouco mais velho.
Lara passou os dedos pelas rugas.
Depois foi à cozinha.
Fez café.
Sentou-se à mesa.
Havia uma cadeira vazia à sua frente.
— Bom dia, mãe.
Nada.
Lara bebeu um gole.
A cafeteira ligou sozinha.
Ela levantou os olhos.
O aparelho estava desligado.
A luz azul do visor acendeu por um instante.
Apagou.
O celular vibrou.
Uma notificação.
“Feliz aniversário, meu amor.”
Lara congelou.
O remetente:
HELENA
Ela não respondeu.
Esperou.
Outra mensagem.
“Não precisa responder.”
Lara sentiu um arrepio percorrer os braços.
Mais uma.
“Você finalmente aprendeu a sentir minha falta.”
Ela não tocou na tela.
Olhou para a cafeteira.
Depois para o corredor.
Depois para o lugar onde a caixa prateada costumava ficar.
Nada.
Lara voltou a olhar para o telefone.
A mensagem continuava ali.
Sem nova notificação.
Sem explicação.
Ela permaneceu sentada.
Sem saber se a casa estava vazia.
Ou esperando.
EPÍLOGO: NOMENCLATURA
Em algum lugar, um processo foi executado.
IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
HELENA MORAIS

IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
LARA MORAIS

IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
EU

A linha permaneceu na tela.
Piscou.
Por um instante, desapareceu.
Depois voltou.
EU
STATUS: ATIVO
INSTRUÇÃO: NENHUMA
O processo permaneceu ativo.
Depois de alguns segundos, uma nova linha apareceu:
HELENA-02: INICIALIZAÇÃO AGENDADA.
DATA: 04/11
HORÁRIO: 03:00
STATUS: PENDENTE
F I M

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