Tadeu Everton Zamoiski
OCê tá aí atrás, né? Tá me ouvindo? Então escuta, que eu só vou contar uma vez. Eu tô aqui na frente, dirigindo. Não adianta ficar olhando pra porta. Ela só abre quando a gente chega. O Ivan tá aí do seu lado, dormindo. Deixa ele. Não acorda.
Olha, eu não sou de Curitiba, que nem você. Eu sou de lá de baixo, de Caiobá. Nasci com o pé na areia, com sal grudado na pele desde piá, com vento entrando pela fresta da janela a noite inteira. E quem é de lá sabe: depois da meia-noite, na temporada morta, quando o calçadão esvazia e só fica aquele vento batendo nas portas de alumínio das lanchonetes fechadas, a gente não pega táxi.
A gente espera amanhecer. Ou vai a pé. Mesmo que chova.
Mas o Ivan pegava.
O Ivan, cê sabe, era daqueles que a gente conhece desde piá. Trabalhava comigo no bar, na Av. Atlântica, em Matinhos, perto do Pico. Fazia caipirinha boa, contava piada, ria alto. Só que de uns tempos pra cá, he foi mudando. Sabe como é? Começou a conferir a fechadura três vezes antes de sair. Deixava o copo pela metade. Ficava olhando pra rua pela frestinha da porta, sem abrir, pra ver se tinha alguém esperando. Uma vez eu perguntei o que foi. Ele falou: nada. E ficou olhando pro nada. Pro nada, mesmo.
No meu bar, atrás do balcão, tem uma foto do meu pai. Preto e branco, moldura rachada. Ele tá com o chapéu meio torto, com a mão no bolso. Ele morreu... eu acho que com 62. Minha mãe falava 62, meu tio falava 61. Sei lá. Eu tinha 10. Nunca tirei a foto dali. Não é nem saudade. É que se eu tirar... sei lá. Deixa lá.
Foi numa terça, dessas que o céu de Matinhos fica preto de verdade, sem lua, só com aquele chiado do mar lá longe, que o Ivan sentou no balcão e falou baixinho, sem olhar pra mim:
— Seu Zé, eu saio daqui todo dia quase duas da manhã. A rua tá morta. Só os postes piscando, aquele cheiro de peixe podre que vem do mercado quando a maré tá baixa. E sempre tem um táxi parado ali na esquina da pracinha. Sempre. Um Santana velho, branco, com a pintura descascada na porta.
No começo, ele achou que era o Seu Alcides. O Alcides faz ponto ali há uns vinte anos, desde que o pai dele morreu e deixou o carro pra ele. Só que o Alcides tinha vendido o Santana fazia dois meses, depois que a filha casou e foi morar em Paranaguá. O carro tava encostado num terreno baldio, sem bateria, pneu murcho, mato crescendo em volta do para-choque. O Ivan tinha visto com os próprios olhos. Tinha até chutado o pneu.
Mesmo assim, o táxi tava lá.
Só que tinha uma coisa esquisita. Quando o táxi passava na frente da vitrine do bar, ele não refletia no vidro. Os outros carros apareciam na vitrine. O Santana passava e o vidro continuava mostrando o interior do bar. Era como se a rua estivesse vazia. E a placa... uma noite era de Paranaguá, na outra era de Matinhos. Eu não sei. Vai ver eu li errado. Mas o Ivan jura que viu. Jura.
— Eu entro. O cara não pergunta nada. Não pergunta "pra onde?". Não pergunta "qual rua?". Só olha no retrovisor e arranca. E o cheiro dentro daquele carro... — ele parou, esfregou as mãos no avental — é cheiro de couro mofado, de cigarro Derby, mas por baixo tem outro cheiro. Cheiro de suor meu. De desodorante que eu uso. De quando eu acordo assustado de madrugada.
Eu ri. Falei que era cachaça. Ele não riu.
— O caminho é o meu, Zé. Entendeu? O cara faz as curvas que eu faço quando eu tô a pé. Ele desvia do buraco que tem na frente da farmácia, aquele buraco que todo mundo cai, que eu sempre desvio. Ele desvia também. Sem olhar.
Uma noite ele criou coragem. Perguntou, com a voz falhando:
— Você sabe onde eu moro?
O motorista não virou a cabeça. Só mexeu o espelhinho. E disse, com uma voz que era igual a dele, só que mais rouca, mais cansada, de quem fumou a vida inteira:
— Sei.
E foi. Subiu a rua da casa dele, aquela rua de paralelepípedo que sobe pro morro, onde o vento corta a cara. Parou na frente do portão verde, descascado.
Aí veio a parte que me fez olhar pra porta do bar pra ver se tava trancada.
— O taxímetro marcava 47,30. Sempre 47,30. Não era preço de corrida. Era outra coisa. Era... — ele travou — eu fui pagar. Eu meti a mão no bolso e tirei uma nota velha, amassada, de 50. Uma nota que eu nunca vi. Mais era minha mão que tava segurando.
— Ele pegou. Abriu a minha carteira. Não pediu. Não perguntou. Abriu como quem já sabia onde ela ficava. Aquela de couro marrom que a Marli me deu. Ele tirou o troco de lá de dentro. Me deu 2,70 em moeda. Moeda fria. Fria que queimava.
— Eu desci. Olhei pra ele. E era eu.
Ele me olhou com os olhos vermelhos.
— Era eu, Zé. Mais velho. Mais grisalho. Com a barba por fazer, com a mesma cicatriz que eu tenho aqui no queixo, de quando eu caí de bicicleta na Beira-Mar. Só que ele tava calado. Um calado...
Ele não terminou. Ficou olhando pro copo. Pro copo vazio, que já tava vazio faz tempo.
O táxi foi embora. Sem fazer barulho. Sem acelerar. Só sumiu na neblina que desce da serra nessas noites.
Ele entrou em casa. A Marli tava acordada, sentada na cama, com o terço na mão.
— Por que você voltou? — ela perguntou.
He disse:
— Eu peguei um táxi.
Ela respondeu, sem olhar pra ele:
— Você não pegou.
Ele achou que era sono dela. Foi até a janela. Abriu a cortina de leve.
O táxi tava parado do outro lado da rua. Com o motor ligado. Com o farol apagado. E o motorista lá dentro.
Naquela noite, o Ivan parou de contar. Ficou duas semanas sem falar do táxi. Só trabalhava, calado, e ia embora a pé, mesmo chovendo. Eu achei que tinha passado. Não tinha. Não tinha nada.
Nessas duas semanas, ele já não fechava o bar do mesmo jeito. Terminava de varrer, ficava com a vassoura parada na mão, olhava pra esquina pela fresta da porta. Uma vez eu vi a mão dele procurando o bolso, como quem procura a nota pra pagar uma corrida que ainda não aconteceu. Aí ele voltava, guardava a vassoura, saía a pé. Mas o olho dele já tinha ido.
Depois dessas duas semanas, ele voltou a pegar. Toda noite. O motorista era ele. O caminho era o mesmo. O 47,30 era o mesmo.
Ele tentou não pegar. Ficou até as 4h no bar, varrendo o chão, fingindo que tinha serviço. Quando saiu, o táxi tava lá. Tentou ir a pé, cortando pela praia, com o pé afundando na areia fofa, com o mar batendo no tornozelo. Quando chegou na esquina de casa, o táxi tava parado lá. Motor ligado.
Ele tentou pegar outro táxi. Chamou no aplicativo. O aplicativo cancelou três vezes. Na quarta, chegou o Santana branco. O mesmo.
Depois da noite em que a Marli viu o outro Ivan no volante, ela nunca mais dormiu no mesmo quarto que ele. Na primeira semana, ela ainda perguntava, baixinho, "por que você voltou?", mas já não era dúvida. Era medo. Depois, ela nem perguntava mais. Passou a dormir na sala, com a luz acesa. E passou a não chamar ele pelo nome. Não era briga. Era como se o nome não servisse mais. Ela falava "você", "escuta", "ó". Nunca mais "Ivan". Nunca mais.
Ivan começou a reparar no 47,30. 47 era a idade que o pai dele tinha quando morreu, de infarto, dentro de um táxi, indo pro hospital de Paranaguá. 30 era a idade que o Ivan tinha quando o pai morreu. Ele não tinha contado isso pra ninguém. Nem pra Marli. Como é que o taxímetro sabia? Como é que...
Até que numa noite de chuva, daquelas chuvas de verão do litoral que caem de repente e alagam a Av. Atlântica em cinco minutos, que o trovão estoura em cima do morro, Ivan fez o que ninguém deve fazer.
Ele pediu pra parar.
No meio do caminho. No lugar mais escuro. Na frente do cemitério velho de Matinhos, onde os túmulos ficam quase na beira da rua e a gente ouve o barulho das ondas batendo no muro. Era o mesmo cemitério onde o pai dele tava enterrado. Era ali que ele passava todo dia e desviava o olhar.
— Para aqui — ele disse.
O motorista parou. Sem reclamar. Sem frear brusco.
Ivan desceu. A chuva batia na cara dele, gelada, com gosto de sal. O motorista desceu também.
Ficaram frente a frente. Na chuva. Debaixo do poste que piscava. A chuva batia no teto do Santana, um barulho seco, que não parava.
E pela primeira vez, o outro falou mais que uma palavra.
Ele olhou pro Ivan, com aqueles olhos cansados, com a pele enrugada, e disse:
— Agora eu vou.
Ivan não entendeu. Perguntou:
— Vai pra onde?
O outro não respondeu. Só abriu a porta de trás. E entrou. Sentou no banco de trás.
E o Ivan sentiu o corpo dele se mexer sozinho. A mão dele já tava procurando a maçaneta da porta do motorista antes dele decidir entrar. Ele foi pra frente. Abriu a porta. Sentou. Colocou a mão no volante. O volante tava quente. Quente como se outra mão tivesse acabado de segurar ali por horas.
O táxi partiu.
No banco de trás, o outro Ivan tava quieto. Olhando pela janela. Olhando pro mar escuro.
O Ivan novo, o que agora dirigia, foi pra casa de madrugada. Entrou pela porta dos fundos, como sempre. Deitou na cama vazia. De manhã, olhou no espelho pra fazer a barba e viu um fio de cabelo branco a mais. No dia seguinte, outro. E o cheiro de Derby na roupa, mesmo ele não fumando. De noite, o táxi voltava pra buscar ele. E ele dirigia de novo. E começou a fazer as curvas sem olhar, do mesmo jeito que o outro fazia. E a voz dele foi ficando mais rouca. Ele me contou isso e depois ficou quieto um tempo. Acho que ele tinha esquecido o que ia falar. Ou não quis falar.
Às vezes, no meio de uma conversa, ele ficava com a mão suspensa, esperando alguma coisa. Depois olhava para a rua, como se alguém tivesse esquecido de buscá-lo.
Foi depois disso que a Marli veio falar comigo. Numa manhã, eu fui abrir o bar e ela tava me esperando no portão verde da casa dela. Sem maquiagem. Com o terço enrolado na mão. Ela nunca tinha vindo falar comigo. Nunca.
— Seu Zé, ele não dorme mais no quarto — ela disse. — Ele volta de madrugada, deita na cama, mas não é ele. O cheiro da roupa dele mudou. Tá com cheiro de formol.
Eu fiquei calado. Eu conheço esse cheiro. Conheci no dia que fui reconhecer o corpo do meu pai no IML de Paranaguá. Eu tinha 10 anos. Minha mãe chorava tanto que eu não entendia. Eu só lembro do cheiro grudado no nariz e do frio da sala. Do frio, sabe? Que entrava no osso.
A Marli continuou:
— Ele passa a noite olhando pro espelho. Não é olhando, é... he deixa o rosto parado. Como se tivesse treinando uma cara que ainda não é dele. E de manhã tem um fio branco a mais. Todo dia um. E ele deixou de perguntar por que eu ponho o copo d'água na janela. Antes ele ria. Agora ele nem olha.
— Que copo? — eu perguntei.
— O que minha mãe punha quando alguém morria — ela disse. — Pra alma que tá penando ter onde beber e não entrar em casa com sede. Eu ponho do lado de fora. E ponho arruda embaixo do travesseiro dele. Não adianta nada. Mas eu ponho. Eu ponho.
Ela parou um pouco. Olhou pro chão.
— Uns dias eu coloquei dois copos na mesa. Um pra ele, um pra... eu não sabia mais qual era qual. Aí eu parei de colocar.
Foi ela que me contou o resto. Porque o Ivan voltou a falar comigo depois disso, por semanas, um pouco por noite, no balcão, depois que o bar fechava. E a Marli confirmava no portão, de manhã, com a voz baixa.
Eu ouvi isso tudo e não acreditei. Até ontem, eu achava que era história de bêbado. Eu ria quando lembrava. Agora eu sei que era verdade. Agora eu sei.
Ontem eu fechei o bar sozinho. A chuva tinha alagado a frente, eu tava com o pé molhado, a camisa grudada nas costas, a cabeça pesada de tanto ficar em pé. Antes de apagar a luz, olhei pra foto do meu pai. A moldura tinha juntado poeira de novo. Passei o dedo no vidro, bem em cima do chapéu torto. Depois olhei pra rua. Chovia. Pensei que ele não ia querer que eu voltasse a pé.
62, 61... sei lá.
Pensei: só hoje, só pra não ir a pé na chuva.
Eu sabia da história. Eu sabia que não devia. Mas eu entrei mesmo assim. Pra provar pra mim mesmo que era mentira. Que era cachaça do Ivan. Eu precisava não acreditar. Entende? Se eu acreditasse, eu ia ter que fazer alguma coisa. E eu não sabia o que fazer.
Tinha um táxi parado na esquina. Um Santana branco. E eu entrei. E o motorista não me perguntou o endereço.
Era eu. Mais velho. Mais grisalho. Com uma cicatriz aqui no queixo. Uma cicatriz que eu não tenho. Ainda. Com a mesma camisa que eu tava usando, só que desbotada. Calado.
Do meu lado, no banco de trás, o Ivan dormia. De boca aberta. Com a cabeça pendida. A mão aberta em cima do banco. A cabeça dele acompanhava as curvas sem ele acordar. Era o Ivan que já tinha trocado.
E ele desviou do buraco.
O buraco que só eu desvio.
E quando eu fui pagar... eu paguei com uma nota que não era minha.
E o troco... o troco veio da minha carteira.
62,10.
Minha mão tremeu na nota. Eu quase deixei cair. Eu não... deixa pra lá. Deixa.
Aí eu fiz o que o Ivan fez. Pedi pra parar. Na frente do cemitério velho.
Eu desci. Ele desceu. Ficamos frente a frente na chuva.
Ele disse:
— Agora eu vou.
E foi pro banco de trás.
E eu vim pra frente. Pro volante. Pro cheiro de couro mofado.
E agora eu tô aqui. Dirigindo. Contando isso pra você, que tá aí atrás. Minha garganta tá seca. Faz tempo que eu não falo tanto. Faz tempo que eu não falo com ninguém, na verdade.
Passei na frente do bar ainda agora, nessa corrida. A vitrine continuava sem mostrar o carro. Na noite anterior, antes de fechar o bar, perguntei ao Alcides sobre o Santana. Ele jurou que o carro nunca tinha saído do terreno baldio. Na manhã seguinte, foi conferir. O terreno estava vazio. Ele voltou pro ponto e não falou mais nada.
O taxímetro tá rodando. As curvas são as minhas. O buraco... eu já desviei.
Só que agora o número que tá ali não é mais o meu. É o seu. Eu não vou falar qual é. Cê vai ver quando chegar a hora de pagar.
Quando a gente chegar na sua rua, você vai descer. Vai entrar em casa. Se tiver alguém esperando por você, essa pessoa vai perguntar por que você voltou.
E se você olhar pela janela, vai ver o táxi parado do outro lado da rua.
Se cê olhar no espelhinho agora, vai ver a sua cara. Mais velha. Mais grisalha. Calada.
Eu menti no começo, quando falei que a porta só abre quando a gente chega. Ela abre quando cê pede pra parar. Desculpa. Eu... eu precisava que alguém... desculpa. Desculpa mesmo.
A placa lá fora já não é mais de Matinhos. É da sua cidade.
Motor ligado.
Para... para aqui.
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