Tadeu Everton Zamoiski
Nelson dos Santos passava pelo cemitério do Riviera todo dia. Não porque gostasse. Era caminho. Morava a três quadras do mar, numa casinha de madeira que cheirava a maresia, peixe frito e cachaça. A mulher, Marlene, tinha fala mansa e a mão grossa de tanto torcer roupa no tanque. Vivia reclamando do vento sul que assobiava na cumeeira.
Nelson ria, com o fumo de corda no canto da boca.
— Deixa o vento, muié. Ele traz notícia.
O cemitério era pequeno. Muro de bloco, portão de ferro que rangia, parecia que ia cair a qualquer hora. Urubu em cima do muro, olhando, esperando. Cheiro de flor murcha, vela, terra molhada. Lá no fundo, encostada no muro, debaixo de uma figueira que já tinha rachado o cimento todo com a raiz, tinha a tumba 44. Lápide amarelada, sem nome. Só o número.
Nelson passava por ela sem dar bola. Às vezes cuspia de lado, fazia o sinal da cruz meio na pressa, seguia pra venda do Zé Preto comprar pinga e fumo.
Num sábado, depois de uma chuva fina, ele passou e viu um nome na lápide. Parou. O coração deu um troço. O nome era Nelson dos Santos. A data de morte era o dia seguinte, domingo.
Ele riu. Riu alto, sem graça.
— Brincadeira de mau gosto, só pode.
Olhou em volta. Ninguém. Só o vento mexendo nas folha da figueira.
No domingo, voltou e conferiu. A data era domingo, o próprio dia. Ficou lá até o sol baixar esperando morrer. Nada. À noite, comeu pão com mortadela, tomou um gole de pinga e dormiu. Na segunda, olhou de novo: a data era sábado, o dia anterior. Não tinha morrido.
Começou a anotar num caderno de capa plástica, com letra tremida. Terça: data de segunda. Quarta: data de terça. Aí num dia de maré grande ele faltou de propósito. Ficou na venda do Zé Preto, olhando a chuva, tomando pinga. No outro dia, a lápide tinha a data do dia anterior. Ele não morreu. O jornal não falava nada. Só a data.
Aí ele entendeu. Não sei se entendeu direito, mas entendeu do jeito dele: a pedra marcava o dia em que ele não ia. Só isso. Não matava. Só anotava.
Ele passou a ir todos os dias. Chuva, sol, vento sul, ressaca. Limpava a lápide com pano úmido, deixava um cigarro aceso, um dedo de cachaça. Foi contando os dias num canto do caderno. Perdeu a conta no meio, depois achou de novo. Deu quarenta e quatro, mais ou menos. Naquela visita, a lápide amanheceu em branco. Lisa. Passou a mão no mármore frio e sorriu.
— Venci, desgraçada.
Na quinta-feira seguinte, acordou com febre. Dor no corpo, tosse rasgando o peito. Marlene fez chá de ervas, mas não adiantou nada. Ficou de cama, suando, vendo vulto no teto. Não conseguiu ir ao cemitério. Na sexta, ainda estava mal. Marlene foi à venda comprar pão e voltou com o jornal.
— Nelson, olha isso.
He pegou o papel. Na página de óbitos, a notícia: enterro de Nelson dos Santos, ontem, às dez da manhã, no Cemitério do Riviera. A foto era dele, de chapéu de palha, a mesma da carteira de pescador.
Ele leu de novo. As mãos ossudas tremiam. Estava vivo. Sentia o cheiro de terra molhada entrando pela fresta da janela.
Levantou, cambaleando, vestiu a bombacha e o chapéu.
— Nelson, tu não tá bom pra sair — falou Marlene da porta, com a voz baixa, sem força pra segurar.
Ele não respondeu. Foi. O sol da manhã batia forte na nuca e a perna falhava. O suor frio descia pela espinha. Chegou no cemitério com o rosto molhado e a camisa grudada no peito.
Lá dentro estava movimentado. Gente de preto, coroa de flor, padre de batina surrada. Ninguém cumprimentou ele. Ninguém viu ele. Ele chegou perto da tumba 44. A cova estava fechada, a terra fresca, cheirando a minhoca e raiz. Procurou a pá atrás da capela, não achou. Cavou com as mãos. A terra entrava debaixo da unha, rasgava o dedo, e ele cavava mais. Tava com febre, com medo, com uma raiva que nem sabia de quê.
O caixão era de madeira escura. Ele abriu.
Dentro, um cheiro de suor e fumo de corda. Nada. Só um bilhete dobrado no fundo, com letra tremida parecida com a dele, com uma palavra riscada no meio:
“Agora você vai todo dia. E eu vou também.”
Nelson ficou ali, ajoelhado, sentindo as perna gelar. Fechou o caixão. Cobriu a cova com as mãos. A certa altura, começou a contar os punhados. Perdeu a conta no trinta e pouco, começou de novo. Deu quarenta e quatro, ou perto disso. A terra assentou. Ele parou. Ouviu, lá embaixo, um arranhão. Não abriu de novo. Quando terminou, o sol já tinha baixado e a figueira tava só um borrão escuro em cima da tumba.
Voltou pra casa já de noite. Marlene olhou as mãos dele, sujas de terra, o dedo rasgado. Naquela hora, não perguntou nada. Só ficou de pé na cozinha, com o pano de prato na mão.
No dia seguinte, ele foi. A lápide estava em branco. Limpou o mármore, deixou um cigarro aceso e um gole de pinga. Saiu do cemitério contando os passos até o portão. Quarenta e três, quarenta e quatro... quarenta e cinco? Sei lá. Contou errado. Contou de novo no outro dia.
À noite, Marlene perguntou, baixinho, por que ele precisava ir todos os dias.
Ele ficou um tempo calado. Depois disse:
— Porque agora... somos dois.
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