Tadeu Everton Zamoiski
O mirante do Morro do Boi é uma ferida aberta na paisagem. De dia, vira formigueiro de turistas gritando nomes que a montanha devolve com generosidade de eco barato. “JÚLIA!” Um segundo de silêncio. “JÚLIA!” E riem.
Eu era um deles. Não por vaidade, mas por tédio — um tédio que roía as entranhas como ácido. Subia, gritava o nome de alguém que já esqueci, ouvia a resposta e descia. Onofre, gordo e solitário, estava sempre lá, gritando o nome de uma mulher que nunca aparecia. Eu o via de longe, suando sob o sol, e pensava: que patético. Ele gritava “JÚLIA!” e o morro respondia “JÚLIA!”. E ele sorria como se ela tivesse respondido de verdade.
Numa terça-feira, subi sozinho, à noite.
O cheiro de protetor solar tinha sumido. Restava só o odor mineral da pedra. O vento não uivava: sussurrava. A cidade lá embaixo era um tapete de luzes que não aquecia nada.
Cheguei ao mirante. O mar era um poço de tinta preta. O silêncio pressionava os tímpanos. Senti uma necessidade idiota de quebrá-lo.
— Quem está aí? — gritei.
— Você.
Não foi eco. Tinha textura. Era minha voz, sim, mas havia uma inflexão a mais, uma espécie de prazer. O ar frio do mirante ficou mais gelado.
— Quem está aí? — repeti, mais alto.
— Você.
Mais nítido. Mais perto. Como se a montanha tivesse dado um passo na minha direção. O vento cessou. Desci o morro tropeçando em raízes que pareciam dedos, o coração martelando contra as costelas.
Na manhã seguinte tentei rir. Acústica de mirante, pensei. Vento entre as pedras. Algum turista escondido. Subi de dia, com o sol a pino, e gritei “bom dia”. O eco respondeu “bom dia”. Normal. Idiota. Voltei para casa me sentindo um tolo.
Mas à noite, no chuveiro, o som da água virou sussurro. “Você.” Desliguei o chuveiro. Silêncio. Abri a torneira de novo. “Quem está aí?” perguntou a água. Fechei o registro com força e fiquei parado, molhado, ouvindo o coração.
Parei de falar. Não foi exatamente uma decisão. A garganta simplesmente se fechou e não abriu mais. As palavras, antes fáceis, agora eram objetos cortantes, e eu tinha medo do que poderia sair se abrisse a boca. Em casa, com Elisa, a comunicação virou mímica e papéis.
— O que houve, Tadeu? — ela perguntou. Os olhos castanhos cheios de uma preocupação que eu já não sabia como processar.
Peguei um bloco de notas e escrevi: “Não é eco.”
Ela leu. Franziu a testa.
— Que bobagem é essa?
Escrevi: “O morro responde.”
Ela suspirou — aquele suspiro cansado e familiar.
— Você está trabalhando demais.
Elisa era uma mulher que preenchia silêncios. Falava pelo rádio, pelo telefone, pela janela. Nosso casamento tinha sido construído sobre a minha escuta e a voz dela. Agora eu era um vácuo.
Ela começou a dormir no quarto de hóspedes. Uma noite me acordou, ou tentou. Eu estava de pé no meio do quarto, olhando para a parede que dá para o morro.
— Tadeu? — a voz dela tremia. — Você está falando dormindo.
Eu não estava dormindo. Estava ouvindo. E respondendo. Ela contou depois que eu ria: uma risada baixa, gutural, que não era minha.
No escritório o ar-condicionado perguntava “Quem está aí?”. E eu, com a boca fechada, sentia a resposta subir pela garganta como bile. No zumbido da geladeira, a mesma voz: “Você.” Comecei a desligar os aparelhos. A casa ficou muda. Mas o silêncio também tinha voz.
Onofre me parou na rua. Eu não o via no mirante havia meses. Estava mais magro, os olhos fundos.
— Você subiu à noite — disse ele. Não era pergunta.
Eu não respondi. Ele não esperou.
— Eu também. No começo a gente acha que é eco. Depois acha que é a gente. — Ele sorriu, um sorriso que não era de alegria. — Não é. Ela nunca responde de verdade. A gente é que começa a responder por ela.
Foi embora sem dizer mais nada. Eu fiquei parado na calçada, sentindo o sol na pele, e por um segundo tive vontade de correr atrás dele. Perguntar o que ele tinha ouvido, o que tinha respondido, o que tinha acontecido com Júlia. Mas minha garganta estava fechada. E eu já sabia a resposta.
As semanas seguintes foram um afundamento lento.
Elisa ainda tentava. Escrevia bilhetes e deixava na mesa da cozinha: “Fala comigo.” “Vamos ao médico.” Uma noite a encontrei no corredor, de pé, segurando a maçaneta do nosso antigo quarto. Olhou para mim e perguntou, quase sem voz:
— Ainda sou eu que você ouve, Tadeu?
Não consegui responder. Apenas balancei a cabeça. Ela entrou no quarto de hóspedes e trancou a porta por dentro. Na manhã seguinte havia uma mala no corredor. Não a abri.
Em casa desliguei tudo o que fazia barulho. Mesmo assim, à noite, quando o silêncio apertava, a voz vinha de dentro da garganta, baixa, paciente: “Quem está aí?”. E outra, mais antiga, respondia: “Você.”
Perdi peso. Os espelhos começaram a me devolver um homem de olhos fundos, magro, que eu só reconhecia pelo cansaço. As pessoas na rua desviavam o olhar. Eu também.
Numa madrugada Elisa me encontrou no quintal. Eu estava de costas para a casa, descalço na terra fria, olhando para o morro. Ela me chamou. Eu não virei. Depois contou que eu estava sorrindo. Não lembro de ter sorrido. Ela me puxou pelo braço e eu obedeci.
No dia seguinte a mala sumiu do corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta e o quarto, vazio.
Onofre morava na casa dos fundos. Era ele quem via tudo pela janela da cozinha. Foi ele quem chamou a polícia. Ele me viu no quintal, à noite, sob a lua. Eu estava no centro do gramado, imóvel, voltado para a silhueta negra do Morro do Boi. Ele me ouviu falando. Duas vozes. Não pareceu surpreso — apenas cansado.
— Quem está aí? — perguntava uma.
— Você — respondia a outra.
Era minha voz. As duas. Uma com o timbre de antes. A outra com um chiado de pedra, como se viesse de um poço.
Quando a viatura chegou eu estava sentado no chão de terra batida. O cheiro de grama pisada e orvalho era forte. O céu, um manto de estrelas frias.
Eu olhava para o morro. Calado. Sorrindo.
— Sr. Tadeu? — chamou o policial, a mão no coldre. — Tudo bem aí?
Eu não me movi. Meus olhos estavam fixos na montanha.
O policial se aproximou, cauteloso, e agachou-se ao meu lado.
— Ele está sorrindo — sussurrou para o colega. — E não pisca.
Foi quando eu abri a boca. Senti os maxilares se destravarem com um estalo seco. O ar frio entrou, e com ele um som. Uma voz que não era minha.
— Quem está aí? — perguntou a minha boca.
O policial recuou. O outro sacou a arma.
E então, do alto do Morro do Boi, veio a resposta. Um sussurro carregado de pedra e sal, que soprou diretamente nos nossos ouvidos, deixando um rastro de arrepio na pele.
— Você.
O policial olhou para o morro. Depois para mim. Depois para o morro de novo.
O sorriso no meu rosto se alargou. Um movimento que não era meu. A mesma curvatura vazia, a mesma ausência.
Minha boca se moveu outra vez. Sem som.
Só o sorriso permaneceu.
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