Tadeu Everton Zamoiski
A primeira fornada daquele dia estava pronta antes de o forno ser aceso.
O padeiro percebeu isso às quatro e quarenta da manhã. Ao entrar na padaria, encontrou seis pães redondos sobre a pá de madeira. Tinham a casca dourada, o miolo macio e ainda soltavam um pouco de vapor.
A porta estava trancada. As janelas também.
Conferiu o forno. O registro de gás permanecía fechado. Um dos pães tinha uma mancha escura na crosta, parecida com letras escritas às pressas.
Esfregou o polegar sobre ela. A mancha permaneceu.
O sino da porta tocou.
Um homem entrou. Usava um casaco escuro, apesar de a manhã não estar tão fria.
— Já tem pão?
O padeiro olhou para a pá.
— Tem. Mas ainda não abri.
O homem escolheu um pão, colocou uma moeda sobre o balcão e perguntou:
— Você lembra de mim?
O padeiro examinou seu rosto.
— Não.
— Eu também não.
O homem pegou o pão e saiu.
A moeda ficou sobre o balcão. Era antiga, de um valor que já não circulava havia muitos anos. O padeiro a segurou entre os dedos. Estava gelada.
Guardou-a no bolso do avental e começou a trabalhar.
A padaria ficava numa das ruas internas do Riviera, em Matinhos. Fora da temporada, o movimento diminuía bastante. Algumas casas permaneciam fechadas durante meses. Às cinco, ele levantava a porta de aço. Às seis, os primeiros clientes apareciam para comprar pão de sal, leite e alguma coisa para levar ao trabalho.
Conhecia os hábitos de todos. Sabia quem preferia pão mais escuro, quem comprava sempre a mesma quantidade e quem pedia para separar os pães ainda quentes.
Quando abriu o forno para preparar a segunda fornada, encontrou uma camada fina de cinzas no fundo. Não havia queimado nada. O forno estava frio, e o registro de gás continuava fechado.
Retirou o material com a pá e despejou tudo numa lata. No meio das cinzas havia pequenos fragmentos escuros, quase como restos de papel queimado.
Um dos pães da primeira fornada ainda estava sobre o balcão. A mancha na crosta tinha aumentado.
Agora era possível ler um nome.
ÁLVARO.
Ele conhecia aquele nome. A palavra trouxe a lembrança de uma conversa antiga, talvez na própria padaria, mas o rosto associado a ela não apareceu.
Jogou o pão no lixo.
Na parede atrás do balcão havia uma faixa de azulejos brancos que nunca lhe agradara. Desde a reforma, pensava em cobri-la com madeira. Naquela manhã, percebeu algumas letras perto da tomada.
Passou um pano úmido. O carvão se espalhou, mas as letras continuaram ali.
ÁLVARO.
Abaixo, outros nomes apareciam em traços finos, alguns quase apagados.
Pegou uma espátula e raspou a superfície. O carvão caiu sobre o balcão. Os nomes permaneceram.
Quando a vizinha entrou para comprar pão, ele ainda estava diante da parede.
— Bom dia, seu Álvaro.
O padeiro se virou.
— Não sou Álvaro.
A mulher pareceu confusa.
— Claro que é. Desculpe. Hoje estou com a cabeça longe.
He abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
A mulher esperou alguns segundos.
— Está tudo bem?
O padeiro pegou um pão no cesto e colocou na sacola dela.
— Deve ser o cansaço.
Ela pagou e saiu. Antes de atravessar a porta, voltou-se uma última vez.
— Até amanhã, Álvaro.
Ele ficou com a mão sobre o balcão.
O homem de casaco escuro voltou na manhã seguinte.
Entrou às quatro e quarenta e cinco, quando o padeiro organizava as bandejas. Escolheu um pão redondo e colocou outra moeda sobre o balcão.
Era igual à primeira.
O padeiro pegou as duas e as colocou lado a lado. A recém-chegada parecia mais escura. Quando a tocou, sentiu o frio atravessar a ponta dos dedos.
— Você lembra de mim? — perguntou o homem.
— Já esteve aqui.
— Estive?
O homem sorriu discretamente.
— Eu também não.
Saiu com o pão debaixo do braço.
O padeiro guardou a segunda moeda junto da primeira.
Às oito, chegou o fornecedor de farinha. Fazia aquela entrega havia anos. Conhecia o acesso pelos fundos, a irregularidade do piso e o lugar onde costumavam deixar os sacos quando a porta do depósito estava fechada.
Naquela manhã, porém, não entrou.
— O senhor é o responsável aqui?
— Sou eu.
— Qual é o seu nome?
O padeiro hesitou.
— Por quê?
— Preciso confirmar no pedido.
Ele deu uma resposta qualquer. O fornecedor consultou a prancheta e franziu a testa.
— Não tem entrega registrada para este endereço.
— Você entrega aqui toda semana.
— Nunca entreguei.
— Está brincando?
O homem olhou para o salão vazio, depois para o balcão.
— Esta padaria estava fechada quando comecei a trabalhar nesta rota.
O padeiro apontou para os sacos empilhados no depósito.
— E aquilo veio de onde?
O fornecedor entrou, examinou um dos sacos e passou o dedo pela etiqueta.
— Essa marca saiu de linha faz mais de quinze anos.
Conferiu a data impressa no papel. Depois olhou novamente para o padeiro.
— O senhor devia chamar alguém.
Foi embora sem descarregar o restante.
O padeiro acompanhou o caminhão pela janela até desaparecer na esquina.
Quando voltou ao balcão, encontrou uma fina camada de farinha espalhada sobre a madeira. No meio dela havia uma marca de dedo, pequena demais para ser sua.
Lembrou-se de uma mão miúda apoiada ali, perto do caixa.
A cliente entrou perto do meio-dia. Morava numa das casas da rua e costumava comprar pão quando voltava do mercado.
Pediu dois pães de sal e perguntou:
— O senhor está trabalhando sozinho?
— Como sempre.
Ela olhou para o salão.
— E o menino?
O padeiro parou de fechar a sacola.
— Que menino?
— Seu filho. Aquele que ficava aqui depois da escola.
Ele sentiu a moeda antiga encostar na coxa, dentro do bolso do avental.
— Não tenho filho.
A mulher franziu a testa.
— Como não? Ele ficava sentado naquele banco, perto da janela. Às vezes saía com um pão antes de você terminar de trabalhar.
O padeiro olhou para o banco. Era baixo, de madeira escura.
— Deve estar confundindo com outra pessoa.
A mulher não insistiu. Pagou, guardou os pães e saiu devagar.
Ele fechou a porta por alguns minutos.
No depósito, encontrou uma caixa de papelão embaixo de uma prateleira, coberta por farinha e poeira. Dentro havia fotografias antigas, recibos e pequenos objetos.
Um uniforme escolar azul estava dobrado no fundo. O tecido tinha encolhido, os botões estavam gastos. No bolso, uma etiqueta trazia o nome CAIO e uma data de mais de vinte anos antes.
O padeiro passou os dedos pelo bordado.
A fotografia estava embaixo do uniforme.
Mostrava um homem sentado num banco de praça, segurando um menino pela cintura. O homem usava uma camisa azul de mangas dobradas. O menino tinha os cabelos claros e segurava um pão redondo com as duas mãos.
O padeiro aproximou a imagem do rosto.
O homem da fotografia usava um relógio de pulseira metálica. O vidro tinha uma pequena rachadura perto do número quatro.
O padeiro olhou para o próprio pulso.
Usava aquele relógio. A rachadura continuava no mesmo lugar.
Havia outra coisa. O homem segurava o menino com a mão esquerda apoiada na cintura e a direita sobre o ombro, protegendo-o de uma queda. O padeiro conhecia aquele gesto. Ao levantar os sacos de farinha, fazia exatamente a mesma coisa com o braço.
Virou a fotografia.
No verso, escrito com letra infantil, havia uma frase:
Para o pai, quando eu crescer.
Abaixo, um nome:
CAIO.
O padeiro sentou-se no chão.
A fotografia tremia entre seus dedos.
— Caio.
Uma lembrança surgiu inteira por alguns segundos.
O menino sentado no banco da padaria, com as pernas balançando sem alcançar o piso. O pão estava frio, mas ele soprava a casca antes de morder. O padeiro dizia que aquilo não adiantava nada. Caio ria e soprava outra vez.
Depois vinha a imagem de uma pequena mochila encostada à porta dos fundos.
O padeiro apertou a fotografia contra o peito.
Quando se levantou, os nomes na parede estavam mais fracos.
Todos, menos um.
ÁLVARO.
O homem de casaco escuro voltou no terceiro dia.
Dessa vez, entrou quando o padeiro estava diante do forno. Foi direto ao balcão e colocou uma moeda sobre a madeira.
O padeiro não precisou tocá-la para saber que estava fria.
— O senhor já veio aqui — disse.
O homem olhou para a moeda.
— Pode ser.
O padeiro segurou a borda do balcão.
— O que quer?
— Um pão.
— Tem outros lugares.
— Eu sei.
O homem escolheu um pão redondo e o colocou no bolso do casaco.
Antes de sair, olhou para o padeiro.
Não fez a pergunta.
O sino tocou quando a porta se fechou.
O padeiro correu até a rua, mas o homem já havia desaparecido entre as casas. No chão, perto da entrada, havia um pouco de areia úmida. Ele se abaixou e recolheu a moeda.
Guardou-a junto das outras.
Naquela tarde, voltou à fotografia. O rosto do menino estava mais nítido. Os olhos apertados pelo sol, a boca entreaberta, as mãos pequenas segurando o pão.
O padeiro levou a imagem até a parede e colocou-a ao lado do nome CAIO.
— Eu lembro de você.
O nome na parede perdeu um pouco da cor.
Ele voltou ao forno. No fundo havia uma camada nova de cinzas. Pegou uma pequena quantidade entre os dedos e esfregou. O pó escuro se espalhou pela pele, acumulando-se nas linhas da mão.
Na manhã seguinte, encontrou apenas uma mancha onde o nome de Caio estivera escrito.
A fotografia continuava no balcão.
Às quatro e quarenta, o padeiro entrou na padaria.
A porta estava trancada. As janelas também.
Sobre a pá de madeira havia um único pão redondo. A casca estava dourada, e uma mancha escura atravessava o centro.
Ele se aproximou.
ÁLVARO.
O nome que a vizinha usava. O nome que ele negara. O nome que permanecera na parede quando todos os outros desapareceram.
Foi até os azulejos.
Não havia mais nada escrito, exceto aquela palavra.
Passou a mão sobre o nome. O carvão sujou seus dedos.
Atrás dele, o forno estalou.
A fotografia estava sobre o balcão. O menino segurava o pão com as duas mãos, e o homem da camisa azul mantinha o braço em volta de sua cintura.
O padeiro pegou a imagem.
— Caio.
Dessa vez, a lembrança veio acompanhada de uma voz.
— Pai, sopra para mim.
Ele fechou os olhos.
Lembrou-se de soprar a casca do pão, de esperar o menino morder, de limpar com o polegar uma migalha presa no canto da boca. Lembrou-se também de uma pequena mão segurando a sua na travessia da rua.
Quando abriu os olhos, o rosto do menino começava a desaparecer.
O padeiro correu até a parede.
— Caio!
O nome já não estava escrito.
No forno, as cinzas se mexeram. Uma pequena nuvem subiu e se espalhou pelo salão. O pão sobre a pá soltou um cheiro quente, familiar, de massa recém-assada.
O padeiro olhou para la crosta.
O nome ÁLVARO estava desaparecendo.
Tentou segurá-lo com o polegar, mas a mancha escura se desfez. Restou apenas a casca dourada.
Ele procurou a fotografia. O menino já não estava nela. O homem da camisa azul permanecia sentado no banco, com o braço estendido sobre um espaço vazio.
O padeiro guardou a imagem no bolso.
Às cinco, levantou a porta de aço.
A rua estava vazia. A maresia deixava uma película úmida nos vidros, e a areia trazida pelo vento se acumulava junto ao meio-fio.
Não havia mais nenhum nome.
Fechou a padaria, tirou o avental e guardou as moedas no bolso. Antes de sair, voltou uma última vez ao forno. O pão continuava sobre a pá, agora completamente frio.
Do outro lado da rua havia uma padaria pequena, com uma porta de vidro e uma placa que ele nunca tinha observado. Entrou.
Um rapaz trabalhava atrás do balcão. Tinha farinha nos braços e um pano sobre o ombro. Separou um pão redondo, colocou-o num saco de papel e soprou a casca antes de entregá-lo.
O gesto fez o visitante parar.
O rapaz ergueu os olhos.
— Vai querer mais alguma coisa?
O homem colocou uma moeda antiga sobre o balcão.
O jovem examinou o dinheiro e depois o rosto do cliente.
— Você lembra de mim?
O homem procurou o nome do menino. Procurou a fotografia, a voz, a pequena mão que segurava a sua.
A lembrança não veio.
— Não.
O rapaz recolheu a moeda.
O visitante pegou o pão e saiu.
Do lado de fora, a manhã começava a clarear. Na rua, uma fina camada de areia cobria as marcas dos passos.
Na antiga padaria, o forno continuava apagado.
Sobre a pá de madeira, um pão redondo acabava de sair.
Na crosta, escrito em cinzas, estava o nome de Caio.
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