domingo, 1 de novembro de 2026

O ÚLTIMO ÔNIBUS

O ÚLTIMO ÔNIBUS
Tadeu Everton Zamoiski

Matinhos

O cheiro era sempre o mesmo. Diesel queimado, suor de gente que passava o dia trabalhando e mofo entranhado nos bancos de vinil. O ônibus que fazia a linha do Riviera tinha vinte e três lugares. O banco atrás da porta estava rasgado desde que João começara a trabalhar ali. Uma espuma amarelada aparecia pela abertura, e ninguém na garagem parecia interessado em consertá-lo. Na lateral, o número 317 estava pintado em branco.

João Alvarez tinha quarenta e três anos e dezessete de profissão. Conhecia aquele ônibus pelo barulho. A porta hidráulica demorava dois segundos a mais para fechar quando chovia. O freio traseiro esquerdo assobiava nas descidas. O rádio perdia a sintonia sempre no mesmo trecho, perto do retorno.

Acima da porta, um visor vermelho registrava a quantidade de passageiros.

Quando ficava nervoso, João passava o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda, sem perceber.

Havia uma coisa que ele nunca entendeu: a contagem.

Sempre tinha um passageiro a mais. Três pessoas subiam, quatro desciam. Vinte e duas entravam, vinte e três saíam. Não importava quantas vezes conferisse. A diferença permanecia.

Naquela terça-feira, completavam cinco anos da morte de Cleide. João acordara lembrando da data, embora não tivesse contado a ninguém. Antes de sair, parou diante do avental dela, ainda pendurado atrás da porta da cozinha. Sentiu o cheiro de lavanda que permanecia no tecido e ficou alguns segundos olhando o bolso onde ela costumava guardar os sachês de açúcar. Depois pegou a jaqueta no gancho. A mão ainda estava suja de graxa do último turno. Limpou a palma na manga e saiu.

Chegou à Praça Central às onze e quarenta e sete. Três pessoas esperavam no ponto: uma senhora com sacola de feira, um rapaz de mochila e uma garota de uniforme.

— Boa noite — disse, abrindo a porta.

A senhora sentou na frente. O rapaz escolheu o banco do meio. A garota caminhou até o fundo e sentou perto do rasgo no estofado. João contou os três pelo espelho lateral antes de fechar a porta.

O visor vermelho marcou três.

Engatou a primeira e dirigiu até o trecho de estrada cercado por árvores. Ali, os postes ficavam distantes uns dos outros, e havia partes do caminho em que os faróis do ônibus eram a única iluminação. Mais adiante, a placa enferrujada do retorno do Riviera aparecia na beira da estrada.

A senhora da frente se benzeu. João olhou rapidamente pelo espelho lateral.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.

— Nada, meu filho.

Ela voltou a olhar pela janela.

O rádio permaneceu em silêncio.

O ônibus avançou pelo trecho escuro. No fundo, alguém arrastou os pés.

O relógio do painel marcava meia-noite e três.

O visor mudou de três para quatro.

João olhou para o espelho lateral. Ninguém havia passado pela porta. Manteve os olhos na estrada e apertou o volante.

Não olhou para trás.

Chegou ao ponto final do Riviera. Abriu a porta e esperou. A senhora desceu primeiro. O rapaz veio logo atrás.

O visor vermelho marcou dois.

A garota foi a última dos três passageiros que haviam embarcado. Parou no primeiro degrau e olhou para o fundo do ônibus.

— Moço, quem é aquele homem lá atrás?

João manteve os olhos na rua.

— Não tem ninguém.

Ela hesitou, depois pisou na calçada.

O visor marcou um.

João fechou a porta. Antes que o mecanismo terminasse o movimento, ouviu passos no corredor. Eram lentos, pesados. Alguém caminhou do último banco até a porta.

O visor continuava marcando um.

Os passos chegaram ao degrau. A porta abriu sozinha. João olhou para a rua. Não viu ninguém.

Quando a porta fechou novamente, reparou na marca de areia molhada sobre a borracha escura, do tamanho de um pé descalço. A água escorria pela borda, formando uma pequena poça.

Os passos se afastaram. Subiram pelo corredor, um de cada vez, lentos, até chegarem ao último banco. O visor vermelho continuou aceso.

João engatou a primeira.

Precisava voltar para Matinhos e entregar o ônibus na garagem. Perto da placa enferrujada do retorno, o polegar procurou o dedo anelar da mão esquerda. A aliança tinha desaparecido no mar em 2003, num domingo de sol. Procurara na água rasa por quase uma hora, até desistir. Cleide nunca o perdoara completamente. Dizia que ele precisava aprender a cuidar das coisas.

Osório, o motorista anterior, deixara para João um bilhete escrito num guardanapo de padaria antes de morrer de infarto dentro do ônibus, aos sessenta e dois anos:

"Não olha pelo retrovisor, João. Conta os passageiros, mas não olha. O que sobe não é gente. É o que sobra da gente."

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

Na primeira semana, o visor marcou um a mais. João passou a obedecer.

Naquele mesmo trecho, perto do retorno, o rádio começou a chiar. João mexeu no botão da sintonia, mas a interferência continuou. Por baixo do ruído, surgiu uma única nota, sustentada por alguns segundos. Ele reconheceu a maneira como Cleide costumava cantarolar enquanto preparava o café. A melodia tinha quatro notas. Aquela era só a primeira.

Desligou o aparelho.

O chiado continuou.

Então ouviu as quatro notas completas. Vinham do último banco, cantaroladas com a voz de Cleide.

As mãos apertaram o volante.

Em dezessete anos, nunca tinha olhado.

João olhou pelo retrovisor.

Viu o homem sentado no último banco. Tinha cabelo curto e grisalho, camisa azul-clara e as mãos apoiadas nos joelhos. Na mão esquerda havia uma aliança.

João reconheceu o anel.

Era o dele.

Havia areia molhada presa entre a aliança e o dedo do homem. Alguns grãos escorriam lentamente pela mão e caíam sobre a calça.

Tentou desviar os olhos.

O motor morreu.

O painel apagou de uma vez. Os faróis se extinguiram, e o ônibus parou no meio da estrada. Durante alguns segundos, não houve nenhum ruído além do vento nas árvores.

A chave girou. Nada. João tentou novamente. O motor não respondeu.

No escuro, ouviu alguém mexendo no banco de trás.

— Vai embora — disse.

A voz saiu baixa.

— Por favor.

Um som veio do último banco. Parecia um riso, mas era cansado demais para ser debochado.

João girou a chave outra vez. O motor pegou. O painel acendeu, e os faróis iluminaram a estrada vazia.

Não olhou mais pelo retrovisor naquela noite.

Em casa, João deixou a chave do ônibus sobre a mesa da cozinha e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos. A areia continuava ali. Havia dois grãos presos sob a unha do polegar esquerdo. Esfregou com sabonete, depois com uma escova. Quando terminou, a pele estava vermelha.

Ao tirar a jaqueta, sentiu algo no bolso. Era um sachê de açúcar rasgado. Estava vazio, com areia molhada grudada no papel. Levou-o até a cozinha e o guardou no bolso do avental de Cleide, atrás da porta.

Preparou café e sentou-se. O cheiro de lavanda que sentira pela manhã havia desaparecido. No lugar dele, havia um cheiro doce, parecido com o das flores que tinham ficado no quarto durante o velório.

Olhou para a cadeira vazia.

— Você não vem junto — murmurou.

Às três e dezessete, ouviu o ônibus. O motor estava ligado na rua.

Levantou e afastou a cortina da janela. O veículo estava parado em frente ao prédio. Os faróis iluminavam a entrada do edifício. O número 317, pintado na lateral, aparecia sob a luz de um poste.

No banco do motorista havia um homem. Usava a mesma camisa azul-clara, a calça jeans e os chinelos. Na jaqueta, João reconheceu a mancha de graxa que fizera ao limpar a mão na manga antes de sair.

O homem olhou para cima, sorriu e apontou para o fundo do ônibus.

João acompanhou o gesto.

No banco do meio estava um homem mais jovem, com o cabelo escuro e o rosto sem as marcas do tempo. Usava a roupa que João vestira na primeira noite em que dirigiu aquela linha. No último banco estava o homem grisalho, com a mesma camisa azul-clara e a aliança na mão esquerda.

Os três ocupantes faziam o mesmo movimento: o polegar girava lentamente o dedo anelar.

João olhou para o próprio polegar refletido no vidro. Também girava sobre o dedo anelar.

Depois olhou para o visor vermelho acima da porta.

Marcava quatro.

Às três e vinte e um, os faróis apagaram.

O ônibus desapareceu.

João permaneceu na janela até amanhecer.

Na manhã seguinte, ligou para Valdir, o chefe da garagem. Disse que estava doente e precisava se afastar. Não explicou o motivo. Valdir reclamou da falta de motoristas e perguntou se ele conseguiria pelo menos cumprir o turno daquela noite.

— Não volto mais, Valdir.

Houve um silêncio.

— Você está falando sério?

— Estou.

Valdir respirou fundo.

— Então vou colocar o Fábio no seu lugar. É o novato que entrou semana passada. Vai pegar o 317 hoje à noite.

João ficou olhando para a mesa.

— Qual é o nome dele?

— Fábio. Por quê?

— Preciso falar com ele. Você tem o telefone?

Valdir passou o número. João agradeceu e desligou.

Foi até a cozinha, pegou um guardanapo de padaria que estava na gaveta e uma caneta. Escreveu:

"Não olha pelo retrovisor. Se contar um passageiro a mais, não tente descobrir quem é. Não olhe."

Leu o bilhete duas vezes. Pegou o celular, abriu a conversa com o número de Fábio e fotografou o guardanapo. A imagem ficou na caixa de mensagem.

João não tocou na seta.

Dobrou o papel e guardou no bolso da calça.

À tarde, enquanto tomava café, viu o rosto na colher. Não era uma imagem rápida. O rosto estava ali, perfeitamente desenhado na superfície curva do metal.

Afastou a colher. O homem continuou olhando. Tinha as mesmas olheiras que vira no ônibus, a mesma boca apertada e o mesmo cabelo grisalho.

João deixou a colher cair dentro da xícara. O metal bateu na porcelana. Quando tornou a olhar, havia apenas o reflexo da cozinha.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou deitado, acompanhando o movimento do ventilador. Perto das três, o aparelho parou. As pás ficaram imóveis.

No teto, acima da cama, apareceu o rosto. João não se mexeu. A imagem não parecia uma sombra projetada. Era como se alguém estivesse deitado do outro lado do concreto, olhando para baixo.

A voz veio de trás do ouvido esquerdo.

— Ele vai achar que é vizinho.

João fechou os olhos. Levou a mão ao bolso da calça, onde ainda guardava o guardanapo. O papel estava úmido. Quando o retirou, viu pequenos grãos de areia presos às dobras.

Quando tornou a abrir os olhos, o teto estava vazio.

Às onze e quarenta e sete daquela noite, Fábio abriu a porta do ônibus na Praça Central. Tinha vinte e oito anos e estava contente com o emprego novo. Passara dois anos trabalhando com aplicativos e finalmente conseguiria um salário fixo. Na garagem, Valdir lhe entregara as chaves e explicara o funcionamento do veículo. Também comentou que João havia deixado o serviço por problemas de saúde.

Fábio não perguntou mais nada.

Três passageiros entraram na Praça Central. Uma senhora, um rapaz e uma garota de uniforme. Ele conferiu pelo espelho lateral e fechou a porta.

O visor vermelho marcou três.

O rádio estava sintonizado na Litoral FM. Quando o ônibus chegou ao trecho de estrada perto do retorno do Riviera, a propaganda terminou. Uma única nota ficou suspensa no rádio por alguns segundos.

Fábio diminuiu a velocidade.

No último banco, alguém arrastou os pés.

Olhou pelo retrovisor.

Havia um homem sentado. Camisa azul-clara desbotada, calça jeans e chinelo de dedo. Tinha o rosto cansado e uma aliança na mão esquerda.

O homem levantou a cabeça e ergueu a mão num cumprimento. Fábio respondeu com um movimento da cabeça, como quem retribui o cumprimento de um vizinho que encontra no corredor tarde da noite. Continuou dirigindo.

No ponto final, abriu a porta. A senhora desceu. Depois o rapaz. A garota foi a última. Fábio contou os três.

O visor vermelho marcava um.

O homem continuava sentado.

A porta fechou.

Fábio esperou alguns segundos, depois voltou para Matinhos. Quando chegou à garagem, Valdir estava perto do portão, conferindo a prancheta.

— Quantos passageiros você levou? — perguntou.

— Quatro.

Valdir anotou o número sem levantar os olhos.

— Tudo certo?

— Tudo certo.

Fábio entregue as chaves e foi para casa.

No banheiro, escovou os dentes, abriu a torneira e enxaguou a boca. O celular vibrou ao lado da pia. Uma vez. Fábio não olhou.

Когда começou a escovar novamente, percebeu que estava cantarolando.

Quatro notas.

Parou com a escova na boca. Não sabia de onde vinha aquela melodia.

Continuou escovando os dentes. No espelho, seu rosto estava normal.

Fábio passou o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda. Sob a unha, encontrou algo áspero. Esfregou o polegar contra a palma e viu dois grãos de areia.

Fábio sorriu.

No espelho, o sorriso chegou um segundo depois.

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