Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos
O cheiro era sempre o mesmo. Diesel queimado, suor de gente que passava o dia trabalhando e mofo entranhado nos bancos de vinil. O ônibus que fazia a linha do Riviera tinha vinte e três lugares. O banco atrás da porta estava rasgado desde que João começara a trabalhar ali. Uma espuma amarelada aparecia pela abertura, e ninguém na garagem parecia interessado em consertá-lo. Na lateral, o número 317 estava pintado em branco.
João Alvarez tinha quarenta e três anos e dezessete de profissão. Conhecia aquele ônibus pelo barulho. A porta hidráulica demorava dois segundos a mais para fechar quando chovia. O freio traseiro esquerdo assobiava nas descidas. O rádio perdia a sintonia sempre no mesmo trecho, perto do retorno.
Acima da porta, um visor vermelho registrava a quantidade de passageiros.
Quando ficava nervoso, João passava o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda, sem perceber.
Havia uma coisa que ele nunca entendeu: a contagem.
Sempre tinha um passageiro a mais. Três pessoas subiam, quatro desciam. Vinte e duas entravam, vinte e três saíam. Não importava quantas vezes conferisse. A diferença permanecia.
Naquela terça-feira, completavam cinco anos da morte de Cleide. João acordara lembrando da data, embora não tivesse contado a ninguém. Antes de sair, parou diante do avental dela, ainda pendurado atrás da porta da cozinha. Sentiu o cheiro de lavanda que permanecia no tecido e ficou alguns segundos olhando o bolso onde ela costumava guardar os sachês de açúcar. Depois pegou a jaqueta no gancho. A mão ainda estava suja de graxa do último turno. Limpou a palma na manga e saiu.
Chegou à Praça Central às onze e quarenta e sete. Três pessoas esperavam no ponto: uma senhora com sacola de feira, um rapaz de mochila e uma garota de uniforme.
— Boa noite — disse, abrindo a porta.
A senhora sentou na frente. O rapaz escolheu o banco do meio. A garota caminhou até o fundo e sentou perto do rasgo no estofado. João contou os três pelo espelho lateral antes de fechar a porta.
O visor vermelho marcou três.
Engatou a primeira e dirigiu até o trecho de estrada cercado por árvores. Ali, os postes ficavam distantes uns dos outros, e havia partes do caminho em que os faróis do ônibus eram a única iluminação. Mais adiante, a placa enferrujada do retorno do Riviera aparecia na beira da estrada.
A senhora da frente se benzeu. João olhou rapidamente pelo espelho lateral.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Nada, meu filho.
Ela voltou a olhar pela janela.
O rádio permaneceu em silêncio.
O ônibus avançou pelo trecho escuro. No fundo, alguém arrastou os pés.
O relógio do painel marcava meia-noite e três.
O visor mudou de três para quatro.
João olhou para o espelho lateral. Ninguém havia passado pela porta. Manteve os olhos na estrada e apertou o volante.
Não olhou para trás.
Chegou ao ponto final do Riviera. Abriu a porta e esperou. A senhora desceu primeiro. O rapaz veio logo atrás.
O visor vermelho marcou dois.
A garota foi a última dos três passageiros que haviam embarcado. Parou no primeiro degrau e olhou para o fundo do ônibus.
— Moço, quem é aquele homem lá atrás?
João manteve os olhos na rua.
— Não tem ninguém.
Ela hesitou, depois pisou na calçada.
O visor marcou um.
João fechou a porta. Antes que o mecanismo terminasse o movimento, ouviu passos no corredor. Eram lentos, pesados. Alguém caminhou do último banco até a porta.
O visor continuava marcando um.
Os passos chegaram ao degrau. A porta abriu sozinha. João olhou para a rua. Não viu ninguém.
Quando a porta fechou novamente, reparou na marca de areia molhada sobre a borracha escura, do tamanho de um pé descalço. A água escorria pela borda, formando uma pequena poça.
Os passos se afastaram. Subiram pelo corredor, um de cada vez, lentos, até chegarem ao último banco. O visor vermelho continuou aceso.
João engatou a primeira.
Precisava voltar para Matinhos e entregar o ônibus na garagem. Perto da placa enferrujada do retorno, o polegar procurou o dedo anelar da mão esquerda. A aliança tinha desaparecido no mar em 2003, num domingo de sol. Procurara na água rasa por quase uma hora, até desistir. Cleide nunca o perdoara completamente. Dizia que ele precisava aprender a cuidar das coisas.
Osório, o motorista anterior, deixara para João um bilhete escrito num guardanapo de padaria antes de morrer de infarto dentro do ônibus, aos sessenta e dois anos:
"Não olha pelo retrovisor, João. Conta os passageiros, mas não olha. O que sobe não é gente. É o que sobra da gente."
Em dezessete anos, nunca tinha olhado.
Na primeira semana, o visor marcou um a mais. João passou a obedecer.
Naquele mesmo trecho, perto do retorno, o rádio começou a chiar. João mexeu no botão da sintonia, mas a interferência continuou. Por baixo do ruído, surgiu uma única nota, sustentada por alguns segundos. Ele reconheceu a maneira como Cleide costumava cantarolar enquanto preparava o café. A melodia tinha quatro notas. Aquela era só a primeira.
Desligou o aparelho.
O chiado continuou.
Então ouviu as quatro notas completas. Vinham do último banco, cantaroladas com a voz de Cleide.
As mãos apertaram o volante.
Em dezessete anos, nunca tinha olhado.
João olhou pelo retrovisor.
Viu o homem sentado no último banco. Tinha cabelo curto e grisalho, camisa azul-clara e as mãos apoiadas nos joelhos. Na mão esquerda havia uma aliança.
João reconheceu o anel.
Era o dele.
Havia areia molhada presa entre a aliança e o dedo do homem. Alguns grãos escorriam lentamente pela mão e caíam sobre a calça.
Tentou desviar os olhos.
O motor morreu.
O painel apagou de uma vez. Os faróis se extinguiram, e o ônibus parou no meio da estrada. Durante alguns segundos, não houve nenhum ruído além do vento nas árvores.
A chave girou. Nada. João tentou novamente. O motor não respondeu.
No escuro, ouviu alguém mexendo no banco de trás.
— Vai embora — disse.
A voz saiu baixa.
— Por favor.
Um som veio do último banco. Parecia um riso, mas era cansado demais para ser debochado.
João girou a chave outra vez. O motor pegou. O painel acendeu, e os faróis iluminaram a estrada vazia.
Não olhou mais pelo retrovisor naquela noite.
Em casa, João deixou a chave do ônibus sobre a mesa da cozinha e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos. A areia continuava ali. Havia dois grãos presos sob a unha do polegar esquerdo. Esfregou com sabonete, depois com uma escova. Quando terminou, a pele estava vermelha.
Ao tirar a jaqueta, sentiu algo no bolso. Era um sachê de açúcar rasgado. Estava vazio, com areia molhada grudada no papel. Levou-o até a cozinha e o guardou no bolso do avental de Cleide, atrás da porta.
Preparou café e sentou-se. O cheiro de lavanda que sentira pela manhã havia desaparecido. No lugar dele, havia um cheiro doce, parecido com o das flores que tinham ficado no quarto durante o velório.
Olhou para a cadeira vazia.
— Você não vem junto — murmurou.
Às três e dezessete, ouviu o ônibus. O motor estava ligado na rua.
Levantou e afastou a cortina da janela. O veículo estava parado em frente ao prédio. Os faróis iluminavam a entrada do edifício. O número 317, pintado na lateral, aparecia sob a luz de um poste.
No banco do motorista havia um homem. Usava a mesma camisa azul-clara, a calça jeans e os chinelos. Na jaqueta, João reconheceu a mancha de graxa que fizera ao limpar a mão na manga antes de sair.
O homem olhou para cima, sorriu e apontou para o fundo do ônibus.
João acompanhou o gesto.
No banco do meio estava um homem mais jovem, com o cabelo escuro e o rosto sem as marcas do tempo. Usava a roupa que João vestira na primeira noite em que dirigiu aquela linha. No último banco estava o homem grisalho, com a mesma camisa azul-clara e a aliança na mão esquerda.
Os três ocupantes faziam o mesmo movimento: o polegar girava lentamente o dedo anelar.
João olhou para o próprio polegar refletido no vidro. Também girava sobre o dedo anelar.
Depois olhou para o visor vermelho acima da porta.
Marcava quatro.
Às três e vinte e um, os faróis apagaram.
O ônibus desapareceu.
João permaneceu na janela até amanhecer.
Na manhã seguinte, ligou para Valdir, o chefe da garagem. Disse que estava doente e precisava se afastar. Não explicou o motivo. Valdir reclamou da falta de motoristas e perguntou se ele conseguiria pelo menos cumprir o turno daquela noite.
— Não volto mais, Valdir.
Houve um silêncio.
— Você está falando sério?
— Estou.
Valdir respirou fundo.
— Então vou colocar o Fábio no seu lugar. É o novato que entrou semana passada. Vai pegar o 317 hoje à noite.
João ficou olhando para a mesa.
— Qual é o nome dele?
— Fábio. Por quê?
— Preciso falar com ele. Você tem o telefone?
Valdir passou o número. João agradeceu e desligou.
Foi até a cozinha, pegou um guardanapo de padaria que estava na gaveta e uma caneta. Escreveu:
"Não olha pelo retrovisor. Se contar um passageiro a mais, não tente descobrir quem é. Não olhe."
Leu o bilhete duas vezes. Pegou o celular, abriu a conversa com o número de Fábio e fotografou o guardanapo. A imagem ficou na caixa de mensagem.
João não tocou na seta.
Dobrou o papel e guardou no bolso da calça.
À tarde, enquanto tomava café, viu o rosto na colher. Não era uma imagem rápida. O rosto estava ali, perfeitamente desenhado na superfície curva do metal.
Afastou a colher. O homem continuou olhando. Tinha as mesmas olheiras que vira no ônibus, a mesma boca apertada e o mesmo cabelo grisalho.
João deixou a colher cair dentro da xícara. O metal bateu na porcelana. Quando tornou a olhar, havia apenas o reflexo da cozinha.
Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficou deitado, acompanhando o movimento do ventilador. Perto das três, o aparelho parou. As pás ficaram imóveis.
No teto, acima da cama, apareceu o rosto. João não se mexeu. A imagem não parecia uma sombra projetada. Era como se alguém estivesse deitado do outro lado do concreto, olhando para baixo.
A voz veio de trás do ouvido esquerdo.
— Ele vai achar que é vizinho.
João fechou os olhos. Levou a mão ao bolso da calça, onde ainda guardava o guardanapo. O papel estava úmido. Quando o retirou, viu pequenos grãos de areia presos às dobras.
Quando tornou a abrir os olhos, o teto estava vazio.
Às onze e quarenta e sete daquela noite, Fábio abriu a porta do ônibus na Praça Central. Tinha vinte e oito anos e estava contente com o emprego novo. Passara dois anos trabalhando com aplicativos e finalmente conseguiria um salário fixo. Na garagem, Valdir lhe entregara as chaves e explicara o funcionamento do veículo. Também comentou que João havia deixado o serviço por problemas de saúde.
Fábio não perguntou mais nada.
Três passageiros entraram na Praça Central. Uma senhora, um rapaz e uma garota de uniforme. Ele conferiu pelo espelho lateral e fechou a porta.
O visor vermelho marcou três.
O rádio estava sintonizado na Litoral FM. Quando o ônibus chegou ao trecho de estrada perto do retorno do Riviera, a propaganda terminou. Uma única nota ficou suspensa no rádio por alguns segundos.
Fábio diminuiu a velocidade.
No último banco, alguém arrastou os pés.
Olhou pelo retrovisor.
Havia um homem sentado. Camisa azul-clara desbotada, calça jeans e chinelo de dedo. Tinha o rosto cansado e uma aliança na mão esquerda.
O homem levantou a cabeça e ergueu a mão num cumprimento. Fábio respondeu com um movimento da cabeça, como quem retribui o cumprimento de um vizinho que encontra no corredor tarde da noite. Continuou dirigindo.
No ponto final, abriu a porta. A senhora desceu. Depois o rapaz. A garota foi a última. Fábio contou os três.
O visor vermelho marcava um.
O homem continuava sentado.
A porta fechou.
Fábio esperou alguns segundos, depois voltou para Matinhos. Quando chegou à garagem, Valdir estava perto do portão, conferindo a prancheta.
— Quantos passageiros você levou? — perguntou.
— Quatro.
Valdir anotou o número sem levantar os olhos.
— Tudo certo?
— Tudo certo.
Fábio entregue as chaves e foi para casa.
No banheiro, escovou os dentes, abriu a torneira e enxaguou a boca. O celular vibrou ao lado da pia. Uma vez. Fábio não olhou.
Когда começou a escovar novamente, percebeu que estava cantarolando.
Quatro notas.
Parou com a escova na boca. Não sabia de onde vinha aquela melodia.
Continuou escovando os dentes. No espelho, seu rosto estava normal.
Fábio passou o polegar pelo dedo anelar da mão esquerda. Sob a unha, encontrou algo áspero. Esfregou o polegar contra a palma e viu dois grãos de areia.
Fábio sorriu.
No espelho, o sorriso chegou um segundo depois.
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