sábado, 7 de novembro de 2026

A Duna que Anda

A Duna que Anda
Tadeu Everton Zamoiski
Ivan era o curitibano da casa azul atrás da duna. No bar, o Seu Nestor dizia só: "o da casa azul". Bastava.

Ele alugou em março, quando o verão já tinha ido embora levando os turistas, o cheiro de protetor solar e o som de caixa de som no talo. Só restou o vento. O mar continuou batendo em Caiobá, como um bicho cansado. E a casa azul, de madeira, com o telhado de zinco que rangia de noite, e a duna atrás dela.

Veio para Matinhos porque o apartamento em Curitiba tinha ficado silencioso demais. Tinha um quartinho lá que ele mantinha com a porta fechada. Não trouxe nada dele. Só a trena, o caderninho e uma mala.

Na primeira tarde, ele fez o que todo homem da cidade grande faz quando chega no litoral: mediu.

Do portão de madeira lascada até a base da duna: trinta metros. Trinta metros exatos. Riscou com um prego uma marquinha no cimento do portão, para nunca mudar o ponto de partida. Anotou num caderninho de espiral, com a letra caprichada de quem acha que anotar é controlar.

1º dia, 14h32. Portão até a duna: 30m.

Na manhã seguinte, saiu descalço, a areia fria grudando na sola do pé, encostou a ponta da trena na mesma marquinha e mediu de novo.

Vinte e nove.

Riu sozinho, aquele riso curto de quem não quer acreditar.

— Errei ontem. Devia estar com a trena torta.

Mediu de novo. Duas vezes. Três. Pela mesma linha. Pela mesma marquinha. Vinte e nove metros.

No terceiro dia: vinte e oito.

Ivan começou a cavar.

Pegou a pá emprestada do Seu Nestor, o vizinho que vendia camarão na beira da estrada e tinha a pele curtida de sol como couro de tainha. O velho entregou a pá e ficou olhando para a casa azul um tempo a mais do que precisava.

— A casa azul já teve outro curitibano — disse, sem olhar para Ivan. — Também gostava de medir as coisas.

Ivan olhou para a trena no chão. Ficou olhando um instante a mais. Depois pegou a pá e continuou cavando.

Cavou o dia inteiro. O sol do litoral queima diferente. Não é o sol de Curitiba, que arde e vai embora. É um sol úmido, que gruda. Entra pelo nariz com cheiro de maresia e de mato. O suor dele descia salgado e misturava com a areia. A areia grudava no suor. Entrava nas unhas. Rangia entre os dentes.

De vez em quando, sem notar, enfiava a mão no bolso esquerdo da calça. Procurava alguma coisa. Tirava a mão vazia, irritado consigo mesmo, e voltava a cavar.

No fim da tarde, tinha feito uma vala. Uma trincheira. Jogou a areia para trás, para longe. Para cima da duna, como quem cospe de volta.

— Volta para o teu lugar, desgraça — ele disse.

De noite, dormiu com a janela aberta. O vento trouxe o cheiro de chuva que não caiu. Trouxe o som das ondas. Trouxe um outro som, por baixo de tudo. Um som que ele só foi perceber depois: shhhhhh... shhhhhh... Alguém arrastava um saco de areia no chão da cozinha. Devagar. Ritmicamente.

De manhã, a vala tinha sumido. Não estava cheia. Estava sumida. A superfície estava perfeitamente nivelada, como se nunca tivesse existido. Nem os montes de areia que ele tinha tirado estavam lá. Só a pá, encostada na parede, ainda suja de uma areia úmida, mais escura que a areia da superfície da duna.

E a duna estava a vinte e sete metros.

Anotou no caderninho. Agora já não anotava só a distância. Anotava o horário.

4º dia, 06h15. 27m. A vala sumiu.

Ligou para a prefeitura de Matinhos.

— Bom dia, eu queria registrar... a duna atrás da minha casa está avançando. Um metro por dia.

Do outro lado, uma mulher mastigando alguma coisa.

— É casa própria ou alugada, senhor?

— Alugada. Casa azul, na rua...

— Tem risco de atingir a construção? O senhor tem foto?

— Eu tenho medida. Eu medi. Trinta, vinte e nove, vinte e oito...

— Olha, senhor, isso aí é vento. É normal nessa época. É a ressaca. Se começar a entrar areia na casa, o senhor liga para a Defesa Civil.

— O vento não anda em linha reta! — ele gritou. A voz saiu rachada.

Ela fez uma pausa. Dava para ouvir o ventilador.

— O senhor quer que eu abra um protocolo?

Ivan ficou em silêncio. Um protocolo. Um número. Uma prova de que ele tinha ligado, de que não era loucura. Quase disse sim.

— Não. Obrigado.

Desligou. Mediu de novo. No dia seguinte, anotou: 5º dia. 26m. No outro: 6º dia. 24m. Depois: 7º dia, 05h48. 20m.

Vinte metros em uma semana. A duna estava com pressa.

Ele não foi embora. O aluguel estava pago até o fim do mês e o dinheiro estava curto. E tinha outra coisa: se saísse agora, ia parecer louco. Ia parecer o curitibano que fugiu do vento. Ficou para provar que estava certo.

Começou a dormir no sofá. Arrastou o sofá de dois lugares, aquele sofá velho de tecido florido que veio com a casa, e colocou-o de frente para a janela da sala. De frente para a duna. Dormir de frente para o inimigo.

Não dormia. Ficava olhando.

Porque agora ele via. Não era imaginação. Não era cansaço. A duna se movia. Devagar. Tão devagar que, se você piscasse, perdia. Mas, se ficasse olhando sem piscar, com os olhos ardendo de tanto olhar, você via.

A areia subia. Descia. Subia. Descia.

Na primeira noite no sofá, o som voltou. Shhhhhh... shhhhhh... Mais perto. Como se estivesse no corredor. Ele acendeu a luz. Não tinha ninguém. Só a areia fina no rodapé, onde não deveria ter.

Na segunda noite, o copo de água na mesa vibrou. Um pouquinho. Depois parou. Depois vibrou de novo. De manhã, tinha uma camada fina de areia em cima da mesa, mesmo com as janelas fechadas.

Abriu o caderninho para anotar. Tinha areia fina em cima da primeira página. Exatamente sobre o 30m. O caderno estava guardado na gaveta fechada.

Anotou, por cima da areia: 8º dia, 04h12. 15m. Não dormi.

O cheiro também mudou. Não era mais só maresia. Era um cheiro de fundo. De coisa guardada durante muito tempo em lugar úmido e escuro. Sentiu esse cheiro na roupa no varal. Na fronha do travesseiro. Quando foi escovar os dentes, a água tinha gosto de ferro.

Na tarde do oitavo dia, o Seu Nestor parou no portão. Não entrou. Olhou para a marquinha no cimento, depois para Ivan.

— Não cava mais, curitibano — disse. E foi embora, sem esperar resposta.

Naquela noite, Ivan mediu de novo. Conferiu a trena, depois o caderno. Pela primeira vez, não anotou imediatamente.

Dez metros.

A duna tinha ficado ali a noite inteira, como se estivesse esperando ele sair. Ele não aguentou. Pegou a lanterna e saiu.

A noite no litoral fora de temporada é uma noite preta. Preta de verdade. Sem poste. Sem lua. Só o farol de Caiobá piscando lá longe, como um olho cansado.

Apontou a lanterna para a duna.

E a duna não era só areia.

Tinha uma aliança, meio torta, com um brilho apagado. E tinha uma sandália de criança. Uma só. Rosa, com uma fivela de plástico. Roída nas bordas.

Ficou olhando para a sandália. O polegar dele procurou, sozinho, o jeito de abrir a fivela. A mão sabia. Sabia onde o plástico estava mais liso de tanto uso. Não sabia de onde sabia.

A outra mão foi para o bolso esquerdo. Vazio. Como sempre.

Desviou a lanterna. Baixou os olhos. A mão tremia.

Correu para dentro. Trancou a porta. Trancou a janela. Colocou a cômoda na frente da porta. Colocou a geladeira na frente da janela.

Deitou no sofá. Ficou olhando para o teto. O teto de madeira tinha manchas de umidade que pareciam mapas. Mapas de ilhas. Mapas de lugares que não existem mais.

Acordou com areia na boca. Areia com gosto de ferro.

A duna estava na porta.

Mas não tinha entrado por ali. A areia estava vindo de dentro.

Antes de dormir, ele já tinha encontrado areia dentro do sapato fechado, no armário. Areia sobre a camisa limpa, dentro do guarda-roupa. Areia na fronha, mesmo depois de sacudir. Agora estava na gaveta da cozinha, fechada, por cima dos talheres. Estava embaixo do tapete, levantando o piso de madeira, fazendo o chão ranger sob os móveis.

E estava saindo da tomada do quarto. Fina. Devagar. Um filete de areia escorrendo da tomada, caindo no rodapé, sem fazer barulho. Ficou olhando para aquilo. Uma tomada não tem buraco para areia.

Janela coberta. Por dentro. Telhado coberto. Por dentro. Paredes cheias de areia.

Subiu na cadeira. Empurrou a telha de zinco com o ombro. A telha não se moveu. Empurrou de novo, com o corpo todo. Ela cedeu um palmo. A areia desceu. Peso nos ombros. Areia nos olhos. Areia na boca. Sem ar. Sem cima. Sem porta.

Tossiu areia.

Sentou no sofá. O sofá florido. O sofá que veio com a casa.

A areia subiu até os joelhos. Fria. Depois morna. Depois quente.

Até a cintura. Pressão por todos os lados. Sem espaço para se mexer. A areia conhecia o formato dele. Sabia onde o ombro terminava e onde o joelho dobrava.

Tentou levantar o braço para alcançar o caderninho no chão. A areia segurou. Tentou gritar. A boca encheu de areia.

O zinco rangeu em cima dele, e o cheiro de madeira úmida estava na boca நிலe, e a mancha do teto estava na frente dos olhos dele, mesmo com os olhos fechados, e ele já não sabia onde terminava a casa e onde começava ele.

Até o peito. Não lutou mais.

Olhou para o caderninho caído no chão, aberto na primeira página. 30m.

Lembrou da marquinha que fez com o prego.

Respirou fundo, pela última vez, e o ar tinha cheiro de chuva e de camarão frito na feira e do café da primeira manhã na casa azul, quando ele chegou, olhou para o mar e pensou que tinha finalmente encontrado tranquilidade.

Amanhã, o Seu Nestor vai sair para vender camarão e vai ver a casa azul sumida. Vai ver só um morro novo de areia, lisinho, sem pegada nenhuma.

Amanhã, alguém vai alugar a casa da frente. Um curitibano. Vai medir do portão até a base da duna, no fim da tarde.

Trinta metros.

Vai ver que já existe uma marquinha no cimento. Vai ficar olhando para ela um instante. Depois vai riscar outra, bem ao lado, com um prego.

Vai ver um caderninho de espiral meio enterrado, bem em cima da marquinha do portão. Vai abrir. Vai ler a primeira anotação, ainda legível.

E a duna vai andar.

Devagar.

Como se respirasse.

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