quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Do Tamanho

Do Tamanho
Tadeu Everton Zamoiski
Reencontrei Álvaro numa tarde abafada de novembro, perto do Rio da Onça. Ele estava no portão da casa onde morava, com as mãos sujas de graxa. A gente tinha trabalhado no mesmo posto alguns anos antes. Às vezes tomávamos uma cerveja depois do expediente.
Eu esperava ao lado do carro, com o peso na perna esquerda. Zeus ia no banco de trás, com o focinho para fora da janela. Meu quintal, em Matinhos, é quase todo cimentado, com uma faixa estreita de terra junto ao muro. Comentei que precisava consertar uma rachadura no piso do quarto. Álvaro olhou para o chão, depois para mim.
— Você ainda mora naquele terreno?
— Moro.
O celular vibrou no meu bolso. Era minha filha. Fazia dois dias que ela perguntava se eu ia visitá-la no fim de semana, e eu ainda não tinha respondido. Vi o nome na tela e guardei o aparelho.
Álvaro demorou a falar. Tinha emagrecido. A barba crescida escondia metade do rosto.
— Encontrei uma coisa no quintal.
Não perguntei o quê. Ele olhou para a rua, como quem espera alguém passar.
— Um buraco. Mas não foi feito com pá.
Contou que tudo começou numa terça-feira, quando achou uma depressão comprida na areia, atrás da casa. As bordas eram bem definidas. O formato era o de alguém deitado. Pensou que um cachorro tivesse cavado ali. Jogou um galho dentro, cobriu tudo e voltou para casa.
Na manhã seguinte, o galho tinha sumido.
A areia estava nivelada, sem pegada nem marca de pata. Álvaro não deu importância. Só voltou a pensar no assunto quando encontrou areia no quarto, junto à cama. Havia grãos sobre o lençol e outros dentro dos sapatos.
Na quinta, o buraco estava aberto outra vez.
Dessa vez ele levou uma trena. Mediu o comprimento e a largura. Depois ficou olhando a depressão, com a sensação de que alguém o esperava ali.
— Deu um metro e setenta e seis — disse. — Do meu tamanho.
Naquela noite, Álvaro deitou na areia.
Disse que não foi por coragem nem por curiosidade. Queria acabar com aquilo. Se o buraco tinha o tamanho dele, bastava entrar, sentir o fundo e provar a si mesmo que não havia nada ali.
A areia estava fria. O corpo se acomodou sem esforço. Ele esticou os braços ao lado do corpo e olhou o céu entre os galhos da árvore.
— E aí? — perguntei.
Álvaro esfregou as mãos, como se ainda sentisse a areia.
— Eu me senti em casa.
Ficou ali alguns minutos. Não soube dizer quantos. A tranquilidade era tão grande que ele fechou os olhos.
Quando acordou, estava na cama.
O relógio marcava 18h42. Ele não lembrava de ter levantado nem de ter entrado em casa. O celular mostrava uma ligação perdida da filha, às 16h17. Havia areia no lençol, na dobra do colchão e entre os dedos dos pés.
Às 3h17 da madrugada, ouviu três batidas na porta dos fundos.
Foi até a cozinha. Ninguém. Abriu a porta e viu o quintal escuro, o buraco fechado, a areia lisa.
No sábado, a depressão apareceu junto à parede da casa.
Álvaro chamou um pedreiro que trabalhava na rua. O homem examinou o terreno e perguntou quem tinha cavado aquilo. Álvaro disse que ninguém. O pedreiro não insistiu. Aconselhou aterrar, antes que alguém caísse.
Álvaro levou uma cadeira para perto do buraco e passou a noite sentado ali, levantando de tempos em tempos para conferir a areia. O cachorro do vizinho latia para o fundo do quintal. Pouco antes de a areia se mexer, parou.
A depressão se desfez pelas bordas. A areia escorreu para dentro até o chão ficar plano. Não havia vento. O cachorro continuou calado, com o focinho apontado para o chão.
Álvaro esperou mais um pouco e entrou.
De manhã, a cadeira estava no mesmo lugar. Sobre o assento, a marca de uma cabeça.
Parou de falar. Eu não ri.
— Olha o seu quintal quando chegar em casa — disse ele.
Prometi que olharia. Olhei naquela mesma noite. A faixa de terra estava intacta.
Álvaro deixou a casa de Matinhos na semana seguinte. Passaram dois meses sem notícia. Tentei ligar algumas vezes, e o número não completava.
A carta chegou numa manhã de chuva, sem remetente. Reconheci a letra dele antes de abrir.
Ele escreveu que primeiro alugou uma casa mobiliada em Paranaguá. Levou pouca coisa e passou os primeiros dias tentando voltar à rotina. Achou areia no ralo do banheiro. Na semana seguinte, no bolso de uma calça pendurada no armário. Numa noite, ao voltar do mercado, viu grãos no banco do carro. Limpou tudo antes de entrar em casa.
Depois foi para Pontal do Paraná. Alugou uma kitnet com piso de cerâmica e um quintalzinho coberto de cimento. Achou que ali estaria protegido. Até ver uma rachadura perto da lavanderia.
Chamou um pedreiro. O homem quebrou um pedaço do cimento e encontrou areia por baixo. Quando terminou de tirar o material, havia um buraco estreito, fundo o bastante para receber um corpo.
Álvaro não esperou o homem voltar.
Passou a trocar de endereço a cada quinze dias. Onde havia terra, a depressão aparecia no quintal. Onde havia cimento, abria uma rachadura. Às vezes achava areia dentro do carro, mesmo depois de limpar os tapetes.
Escreveu também que dormiu uma noite no sofá de uma casa alugada, com a cabeça apoiada no próprio braço. Acordou com o contorno de um corpo no colchão do quarto, feito de areia fina. O desenho começava na altura dos ombros e terminava onde deviam estar os pés.
O chão em volta estava limpo.
No fim, escreveu que tinha encontrado outra casa em Pontal. Os fundos eram de terra batida. Na primeira noite, a depressão apareceu junto ao muro.
A última linha dizia:
Medi ontem. Passa de mim.
Liguei para o número que eu tinha salvo. Fora de serviço. Dois dias depois, fui até a casa de Pontal. O proprietário me recebeu no portão. Disse que Álvaro sumiu sem avisar. Deixou roupas no armário, comida na geladeira e os sapatos alinhados diante da porta dos fundos, virados para o quintal.
O homem me levou até o terreno.
Havia uma depressão comprida junto ao muro. A areia estava úmida, e não tinha chovido. O proprietário contou que já mandou cobrir duas vezes.
— Na terceira, deixei quieto — disse. — Não quero mais mexer nisso.
Voltei para Matinhos no fim da tarde.
Dormi no carro, com a janela entreaberta e Zeus no banco de trás. Não quis entrar em casa. Zeus passou a noite acordado, de olho no banco do passageiro. Quando amanheceu, havia areia no assento, na costura do encosto e no tapete. Estava fria e úmida.
Entrei em casa com ele colado nas minhas pernas.
O quintal continuava quase todo cimentado. A faixa de terra junto ao muro estava intacta. Passei a dormir com a luz do corredor acesa e a porta dos fundos trancada.
Zeus começou a latir de madrugada. Primeiro para o muro, depois para o chão do quarto. Eu chamava, e ele não vinha. Ficava de patas dianteiras afastadas, olhando um ponto que eu não conseguia ver.
Numa tarde, encontrei areia junto à parede do fundo. Não havia buraco. Só um círculo mais claro, onde o cimento tinha perdido a umidade.
Peguei a pá no depósito e cobri o círculo com terra da faixa. Quando enfiei a lâmina, o ombro esquerdo puxou. Parei algumas vezes, com o peso na perna esquerda, até recuperar o fôlego. Voltei a jogar terra, inclinando o corpo para alcançar o centro.
Trabalhei até escurecer. Quando terminei, sentei na cadeira de plástico que fica perto do muro.
O chão estava nivelado.
Na manhã seguinte, havia uma depressão no lugar do círculo.
Dessa vez levei a pá e a trena. Agachei e examinei as bordas. Encostei o cabo da pá numa ponta e marquei a distância até a outra. Depois medi.
Um metro e oitenta e dois.
A depressão era mais larga na altura dos ombros. Na parte de cima, a areia formava uma cavidade rasa, a marca de uma cabeça.
Do meu tamanho.
Cobri o buraco. Sentei na cadeira. Não queria entrar em casa e não conseguia ficar ali. Zeus esperava perto da porta dos fundos. Quando me levantei, ele entrou na casa sem que eu chamasse.
À noite, tranquei tudo. Já na cozinha, o celular vibrou. Eu não tinha ouvido chamada nenhuma durante a tarde. Na tela, uma ligação perdida da minha filha. O registro marcava 16h17.
Meu dedo parou sobre o nome dela, como no portão do Álvaro. Não retornei.
Às 3h17, acordei com Zeus rosnando.
Ele estava no pé da cama, de cabeça baixa. Não olhava a porta nem a janela. Olhava o chão.
Três batidas vieram de baixo do quarto.
Sentei. O som seguinte era outro. Um arrasto comprido, interrompido, de pá raspando terra dura.
Fui até a janela.
No quintal, alguém trabalhava junto ao muro.
A figura estava de pé, com uma pá. Enterrava a lâmina na areia e jogava a terra para trás. A cada golpe, o corpo se inclinava para o lado, num esforço que eu conhecia. Depois de algumas pás, largou a ferramenta e sentou na cadeira de plástico. Ficou ali alguns segundos, olhando o chão à frente.
A luz da cozinha mal chegava ao quintal. Não vi o rosto. Reconheci o jeito de apoiar o peso na perna esquerda e a inclinação dos ombros. Era o meu jeito de ficar em pé.
A figura levantou e voltou a cavar.
Fechei a cortina.
O arrasto durou mais alguns instantes. Parou. Ouvi areia caindo e depois um silêncio tão completo que escutei a respiração de Zeus.
Quando abri a cortina outra vez, o quintal estava intacto. A faixa de terra lisa, sem buraco e sem terra amontoada. A cadeira continuava junto ao muro. A pá estava deitada no chão.
Afastei-me da janela. No piso do quarto, uma linha de areia úmida ia da rachadura, junto ao rodapé, até a lateral da cama. Toquei com a ponta dos dedos. Estava fria.
O barulho voltou.
Não vinha mais do quintal. Vinha de baixo do quarto.
Olhei para o chão. A areia se moveu junto ao rodapé. Um monte pequeno subiu ao lado do meu pé, empurrado por alguma coisa que trabalhava sob o piso.
A pá estava no quintal. Eu tinha acabado de ver.
A pá arrastou mais uma vez.
De dentro.

Nenhum comentário: