Tadeu Everton Zamoiski
No Edifício Atlântico, na Riviera de Matinhos, o apartamento 302 está fechado. Fechado desde 98.
Foi o que o Seu Milton me disse quando eu me mudei pro 301. Depois ele corrigiu.
— Fechado desde que você chegou. Quer dizer, desde 98.
Eu anotei a frase torta e deixei quieta.
O Atlântico tem dois cheiros que não se misturam. Lá fora é maresia aberta, sal queimando no concreto quente. Lá dentro é corredor abafado, cheiro de caixa d'água parada e inseticida. Meu quarto fica no meio dos dois. A parede que divide o 301 do 302 sua no verão. Uma umidade fria, com cheiro de pano esquecido no varal.
No começo eu ouvia o mar. Depois passei a ouvir o 302.
Foi numa terça, duas e pouca da manhã. Ventilador girando com barulho de helicóptero cansado, aquele cheiro de poeira quente. Ouvi uma tosse.
Seca. Da parede da cabeceira.
Eu tossi de volta sem pensar.
— Cof, cof.
O apartamento ficou em silêncio.
Do outro lado, no mesmo ponto:
— Cof, cof.
Fui até a cozinha. A água daqui deixa a língua áspera, gosto de ferrugem e cloro. Abri a torneira. A dele abriu junto. Fechei. A dele fechou meio segundo depois.
Era esse meio segundo que me pegava. Não era a cópia. Era o atraso. Como se alguém prestasse muita atenção pra não errar.
Passei a testar a parede sem perceber que já tinha virado mania.
Bati três vezes com o nó do dedo, perto da mancha de infiltração em forma de Austrália, na parede da cabeceira.
— Toc, toc, toc.
Deixei a palma encostada no tijolo frio. Senti a vibração voltar pro osso.
— Toc, toc, toc.
Liguei o chuveiro uma noite, só pra ver. Aquela água que vem primeiro gelada, com cheiro de lodo morno. O dele ligou junto.
Eu dormia com o lençol azul enrolado só na perna esquerda. De manhã, ouvia o lençol do outro lado sendo chutado do mesmo jeito.
O cheiro do 302 mudou. No início era cheiro de coisa morta e seca, de apartamento lacrado. Depois de uma semana ficou úmido. Quente. Cheiro de travesseiro que não seca. De suor azedo. Meu cheiro.
Fui falar com o Seu Milton. Ele estava com o copo de café frio, sem olhar pra mim.
— Seu Milton, o 302 tá fazendo barulho de novo.
— Tadeu, já te falei. Desde que... — ele se corrigiu rápido — desde que a Dona Elza morreu lá.
He disse isso olhando pro corredor, não pra mim.
Naquela noite a regra quebrou.
Eu tinha levado o colchão pra sala pra fugir da parede quente do quarto. Era umas três da manhã. Ouvi uma cadeira de madeira sendo arrastada no piso frio até o meio do quarto dele. Depois, o barulho seco de alguém ocupando a cadeira. Ficou ali no escuro, me ouvindo dormir.
Na noite seguinte, o choro.
Baixinho, abafado pelo tijolo. Meu choro. Aquele soluço feio, engasgado.
Eu fiquei deitado, de boca seca, ouvindo. Até que veio baixinho, com a minha voz de menino:
— Mãe?
Ninguém no prédio sabia que minha mãe me chamava assim.
Levantei. Fui até a porta do 302. O corredor cheirava a veneno de barata. Bati.
— Quem tá aí?
O lacre amarelo da porta tremeu.
Colei o ouvido na madeira. Ouvi passos vindo até mim, lá de dentro. Pararam na minha frente.
Pela fresta de baixo veio um bafo quente, úmido. E um fio de ar frio que tocou meu dedão descalço. Um frio cortante, como se do outro lado o chão fosse de pedra gelada.
Voltei pro 301. Tranquei. Encostei a testa na parede do quarto.
— Tlec.
O som de pele úmida encostando em parede fria. Do outro lado. Na mesma altura da minha testa. Senti o calor dele atravessar o reboco. Febril.
A respiração dele sincronizada com a minha.
E com a minha voz, numa calma que eu nunca tive, ele sussurrou:
— Agora você.
Continuei na sala, com a TV ligada. Barulho de gente. Mas na parede que ainda fazia divisa com o quarto dele, eu ouvia alguém dormindo. O ranger do colchão.
Saber é diferente de ouvir.
Ontem eu quebrei.
Peguei o martelo. Minha mão tremia tanto que na primeira martelada acertei meu dedão. A dor foi uma âncora, forte, real. O dedo ficou roxo, latejando. No ar ficou um cheiro de sangue e metal.
Continuei. Tijolo maciço do Atlântico. Cada porrada soltava um pó branco, fino, com cheiro de osso e maresia. Suor ardendo no olho, zumbido no ouvido.
Fiz um buraco do tamanho de um prato.
A poeira baixou.
Do outro lado tinha meu quarto. Mais exato que o meu. O mesmo colchão no chão, a mesma mancha da Austrália na parede da cabeceira, o mesmo ventilador.
E tinha mais. O amassado do colchão na sala, onde eu estava deitado do lado de cá, aparecia no chão do quarto dele. No mesmo lugar.
Depois eu vi o lençol.
O meu lençol azul, enrolado na perna esquerda de quem dormia de costas pra mim.
Depois a mancha.
Na parede dele, exatamente na altura da minha mancha da Austrália, havia uma gota vermelha. O sangue que espirrei ali ontem, quando acertei o dedo.
— Ei!
Meio segundo. Um atraso exato. Como na torneira.
Ele parou de roncar. Virou a cabeça devagar.
Era eu. Um eu mais magro, pele amarelada, cabelo úmido colado na testa. Cheiro de parede suada.
He sorriu com meus dentes tortos de baixo.
— Demorou.
Eu não tampei direito.
Não tinha massa suficiente. Passei o que achei no armário da área, com a mão. Ficou torto. Passei tinta branca por cima com o dedo. Até agora ela não secou. Continua brilhando, molhada.
Voltei a dormir no quarto. Porque na sala eu ouço ele acordado agora. Sentado na cadeira. Me assistindo.
Toda noite encosto o ouvido na parede nova. Ela esquenta.
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