domingo, 1 de novembro de 2026

O VIZINHO DO 302

O VIZINHO DO 302
Tadeu Everton Zamoiski

No Edifício Atlântico, na Riviera de Matinhos, o apartamento 302 está fechado. Fechado desde 98.

Foi o que o Seu Milton me disse quando eu me mudei pro 301. Depois ele corrigiu.

— Fechado desde que você chegou. Quer dizer, desde 98.

Eu anotei a frase torta e deixei quieta.

O Atlântico tem dois cheiros que não se misturam. Lá fora é maresia aberta, sal queimando no concreto quente. Lá dentro é corredor abafado, cheiro de caixa d'água parada e inseticida. Meu quarto fica no meio dos dois. A parede que divide o 301 do 302 sua no verão. Uma umidade fria, com cheiro de pano esquecido no varal.

No começo eu ouvia o mar. Depois passei a ouvir o 302.

Foi numa terça, duas e pouca da manhã. Ventilador girando com barulho de helicóptero cansado, aquele cheiro de poeira quente. Ouvi uma tosse.

Seca. Da parede da cabeceira.

Eu tossi de volta sem pensar.

— Cof, cof.

O apartamento ficou em silêncio.

Do outro lado, no mesmo ponto:

— Cof, cof.

Fui até a cozinha. A água daqui deixa a língua áspera, gosto de ferrugem e cloro. Abri a torneira. A dele abriu junto. Fechei. A dele fechou meio segundo depois.

Era esse meio segundo que me pegava. Não era a cópia. Era o atraso. Como se alguém prestasse muita atenção pra não errar.

Passei a testar a parede sem perceber que já tinha virado mania.

Bati três vezes com o nó do dedo, perto da mancha de infiltração em forma de Austrália, na parede da cabeceira.

— Toc, toc, toc.

Deixei a palma encostada no tijolo frio. Senti a vibração voltar pro osso.

— Toc, toc, toc.

Liguei o chuveiro uma noite, só pra ver. Aquela água que vem primeiro gelada, com cheiro de lodo morno. O dele ligou junto.

Eu dormia com o lençol azul enrolado só na perna esquerda. De manhã, ouvia o lençol do outro lado sendo chutado do mesmo jeito.

O cheiro do 302 mudou. No início era cheiro de coisa morta e seca, de apartamento lacrado. Depois de uma semana ficou úmido. Quente. Cheiro de travesseiro que não seca. De suor azedo. Meu cheiro.

Fui falar com o Seu Milton. Ele estava com o copo de café frio, sem olhar pra mim.

— Seu Milton, o 302 tá fazendo barulho de novo.

— Tadeu, já te falei. Desde que... — ele se corrigiu rápido — desde que a Dona Elza morreu lá.

He disse isso olhando pro corredor, não pra mim.

Naquela noite a regra quebrou.

Eu tinha levado o colchão pra sala pra fugir da parede quente do quarto. Era umas três da manhã. Ouvi uma cadeira de madeira sendo arrastada no piso frio até o meio do quarto dele. Depois, o barulho seco de alguém ocupando a cadeira. Ficou ali no escuro, me ouvindo dormir.

Na noite seguinte, o choro.

Baixinho, abafado pelo tijolo. Meu choro. Aquele soluço feio, engasgado.

Eu fiquei deitado, de boca seca, ouvindo. Até que veio baixinho, com a minha voz de menino:

— Mãe?

Ninguém no prédio sabia que minha mãe me chamava assim.

Levantei. Fui até a porta do 302. O corredor cheirava a veneno de barata. Bati.

— Quem tá aí?

O lacre amarelo da porta tremeu.

Colei o ouvido na madeira. Ouvi passos vindo até mim, lá de dentro. Pararam na minha frente.

Pela fresta de baixo veio um bafo quente, úmido. E um fio de ar frio que tocou meu dedão descalço. Um frio cortante, como se do outro lado o chão fosse de pedra gelada.

Voltei pro 301. Tranquei. Encostei a testa na parede do quarto.

— Tlec.

O som de pele úmida encostando em parede fria. Do outro lado. Na mesma altura da minha testa. Senti o calor dele atravessar o reboco. Febril.

A respiração dele sincronizada com a minha.

E com a minha voz, numa calma que eu nunca tive, ele sussurrou:

— Agora você.

Continuei na sala, com a TV ligada. Barulho de gente. Mas na parede que ainda fazia divisa com o quarto dele, eu ouvia alguém dormindo. O ranger do colchão.

Saber é diferente de ouvir.

Ontem eu quebrei.

Peguei o martelo. Minha mão tremia tanto que na primeira martelada acertei meu dedão. A dor foi uma âncora, forte, real. O dedo ficou roxo, latejando. No ar ficou um cheiro de sangue e metal.

Continuei. Tijolo maciço do Atlântico. Cada porrada soltava um pó branco, fino, com cheiro de osso e maresia. Suor ardendo no olho, zumbido no ouvido.

Fiz um buraco do tamanho de um prato.

A poeira baixou.

Do outro lado tinha meu quarto. Mais exato que o meu. O mesmo colchão no chão, a mesma mancha da Austrália na parede da cabeceira, o mesmo ventilador.

E tinha mais. O amassado do colchão na sala, onde eu estava deitado do lado de cá, aparecia no chão do quarto dele. No mesmo lugar.

Depois eu vi o lençol.

O meu lençol azul, enrolado na perna esquerda de quem dormia de costas pra mim.

Depois a mancha.

Na parede dele, exatamente na altura da minha mancha da Austrália, havia uma gota vermelha. O sangue que espirrei ali ontem, quando acertei o dedo.

— Ei!

Meio segundo. Um atraso exato. Como na torneira.

Ele parou de roncar. Virou a cabeça devagar.

Era eu. Um eu mais magro, pele amarelada, cabelo úmido colado na testa. Cheiro de parede suada.

He sorriu com meus dentes tortos de baixo.

— Demorou.

Eu não tampei direito.

Não tinha massa suficiente. Passei o que achei no armário da área, com a mão. Ficou torto. Passei tinta branca por cima com o dedo. Até agora ela não secou. Continua brilhando, molhada.

Voltei a dormir no quarto. Porque na sala eu ouço ele acordado agora. Sentado na cadeira. Me assistindo.

Toda noite encosto o ouvido na parede nova. Ela esquenta.

Nenhum comentário: