Tadeu Everton Zamoiski
O Edifício Caiobá é daquele tempo em que os prédios da praia ainda tinham nome simples. Não precisava chamar Residencial Atlântico Sul nem Torre das Gaivotas. Era Caiobá, e pronto. Seis andares, dois apartamentos por andar, mais o térreo e um elevador antigo que rangia desde antes de eu me mudar para lá.
Eu morava no 302. Trabalhava no porto, era divorciado e tinha um guri que via nos fins de semana, quando a mãe dele não arrumava algum compromisso de última hora.
Naquele verão, o calor parecia não dar trégua. A maresia deixava uma camada pegajosa nos corrimãos, e as portas dos apartamentos inchavam com a umidade. Dona Ivone, a síndica, reclamava do elevador quase toda semana. Usava um conjunto de linho bege, sempre o mesmo, e deixava no corredor um cheiro de alfazema que demorava a desaparecer depois que ela passava.
Ela queria chamar um técnico. O problema era o dinheiro. Na última assembleia, a proposta de fazer uma revisão completa perdeu para a ideia de melhorar o churrasco de fim de ano. Ninguém parecia achar aquilo tão absurdo quanto deveria.
O elevador tinha porta sanfonada, um espelho manchado no fundo e botões redondos de baquelite preta. Os números iam de 1 a 12, um para cada apartamento. Abaixo deles, separado dos outros, havia um botão sem número. Só um círculo preto, liso, que meu pai chamava de botão do porão.
Quando eu era pequeno, ele dizia que aquele botão levava ao subsolo. Eu acreditava. Mais tarde descobri que o prédio não tinha porão. O terreno era de restinga, areia desde a superfície. Não havia espaço para um subsolo, nem projeto, nem escada escondida. Mesmo assim, o botão continuava lá.
Ninguém falava dele. Ou quase ninguém.
Foi numa terça-feira, depois do trabalho, que resolvi apertá-lo. Eu tinha tomado uma cerveja no Bar do Zé e estava cansado. Talvez tenha sido isso. Talvez tenha sido a curiosidade acumulada desde a infância. O elevador estava vazio. Fechei a porta sanfonada e fiquei olhando os botões enquanto a cabine começava a subir.
Apertei o zero.
O elevador deu um tranco e começou a descer. Não era o movimento habitual. Senti o estômago subir, como acontece quando o carro passa rápido por uma lombada. O ruído dos cabos ficou mais grave. Depois, silêncio.
A porta abriu.
Reconheci o corredor, mas demorei um pouco para entender o que estava errado. O tapete vermelho continuava no meio, gasto perto da entrada do 301. A parede tinha a mesma mancha de umidade junto ao rodapé. Até o cheiro era conhecido, uma mistura de mofo, produto de limpeza e maresia que nunca saía dali.
O relógio de plástico pendurado na parede marcava uma hora a mais.
Olhei para o espelho do elevador. Meu rosto estava ali, mas parecia de outro momento. Havia mais grisalho nas têmporas e uma dobra funda ao lado da boca. Não eram marcas de uma noite mal dormida. Eu parecia alguns anos mais velho.
Saí da cabine e fui até o 302. A chave estava no meu bolso. Abri a porta.
Marli estava na cozinha, preparando café. Ela nunca gostou muito de café, mas fazia porque sabia que eu gostava. Quando me viu, largou a colher sobre o balcão.
— Você estava demorando. Já faz uma hora que saiu.
Olhei para o relógio da cozinha. Marcava a mesma hora do corredor.
Não perguntei nada. Sentei à mesa e tomei o café. Marli continuou falando sobre uma conta que tinha vencido, uma visita da irmã, alguma coisa que eu não consegui acompanhar. Fiquei olhando para as mãos dela em volta da xícara.
Naquela noite, demorei a dormir. O barulho do mar chegava abafado pela janela fechada. Levantei duas vezes para conferir o relógio. Ele não tinha parado.
Na semana seguinte, apertei o zero outra vez.
Dessa vez, antes mesmo de a porta abrir, percebi que a descida tinha demorado mais. No espelho, meu cabelo estava quase todo branco. A pele do pescoço parecia frouxa, e havia um cansaço no meu rosto que eu não reconhecia.
Quando a porta se abriu, Marli estava no corredor.
Mas era outra Marli. Tinha o cabelo preto, sem os fios brancos, e as rugas ao redor dos olhos ainda não haviam aparecido. Sorriu ao me ver. Reconheci aquele sorriso de uma fotografia do nosso casamento.
— Ivan? Você tá aí fora faz tempo?
— Tadeu? Você tá aí fora faz tempo?
Não consegui responder. Ela esperou um instante, como se aguardasse uma explicação, e começou a fechar a porta.
Entrei no elevador antes que ela terminasse.
A cabine subiu sozinha. Quando cheguei ao térreo, fiquei parado diante da portaria, sem saber se devia procurar alguém ou fingir que nada tinha acontecido. Seu Milton estava sentado atrás do balcão, lendo o jornal. Perguntou se eu estava passando mal. Disse que não.
Depois disso, comecei a voltar.
Não contei a ninguém. Nem para o Zé, com quem costumava conversar depois do expediente, nem para Dona Ivone, que vivia atrás de mim por causa de uma taxa atrasada. Eu tinha vergonha de explicar uma coisa que nem eu entendia.
Apertei o botão mais vezes do que deveria.
Numa das viagens, encontrei meu filho adolescente no sofá. Estava com o controle remoto na mão, assistindo a alguma coisa na televisão. Quando entrei, ele me olhou de cima a baixo.
— Quem é você?
Abri a boca para dizer meu nome. Não saiu nada. Ele voltou os olhos para a televisão, como se eu fosse alguém que tivesse entrado no apartamento por engano.
Fiquei perto da porta, sem coragem de avançar. Havia um prato com restos de pipoca sobre a mesa. Algumas estavam queimadas, e o cheiro doce, misturado ao da sala fechada, me deu enjoo.
Em outra viagem, encontrei Marli no hospital. Estava deitada, muito magra, com um acesso no braço. O quarto tinha cheiro de álcool e roupa de cama guardada. Sentei ao lado dela. Quando percebeu minha presença, segurou meu pulso.
— Por que você continua chegando atrasado?
Fiquei olhando para ela. Quis dizer que estava ali, que tinha vindo assim que pude, que não era culpa minha. Mas não encontrei uma frase que servisse.
O relógio na parede marcava uma hora a mais.
Também vi meu enterro. Não sei se foi antes ou depois do hospital. O tempo já não obedecia a uma ordem que eu pudesse acompanhar. O caixão estava fechado. Havia pouca gente, o Zé do bar, alguns vizinhos e meu filho, já adulto, segurando uma fotografia antiga.
Tentei chegar perto dele. Não consegui.
Foi nessa época que comecei a pensar que cada viagem me custava alguma coisa. Um ano, talvez. Não tinha como provar. Eu só percebia que voltava diferente, mesmo quando o corpo parecia o mesmo. E continuava apertando o botão. Era como gastar dinheiro que a gente não tem, sabendo que a conta vai chegar, mas deixando para pensar nisso depois.
O pior veio quando deixei de saber em que época estava.
Às vezes, Marli aparecia jovem e, na viagem seguinte, tinha o rosto cansado da mulher que eu vira no hospital. Meu filho surgia com a idade de quem ainda precisava de ajuda para atravessar a rua e depois aparecia alto, com barba no rosto. Uma vez encontrei no sofá um casaco que eu tinha perdido anos antes. Reconheci até o rasgo perto do bolso.
O espelho também mudou. Parou de me mostrar mais velho. Passou a refletir exatamente o homem que eu era naquele momento, com a camisa que vestia e o cabelo que tinha. Isso deveria ter me tranquilizado. Não tranquilizou. Eu já não sabia se estava vendo meu rosto ou apenas uma imagem que tinha aprendido a imitá-lo.
Numa quinta-feira de céu carregado, com o vento sul batendo nas janelas, apertei o zero pela última vez.
A descida demorou. O elevador gemeu duas vezes, como se alguma coisa estivesse prendendo a cabine. Quando parou, fiquei esperando a porta abrir.
No espelho, vi meu rosto de sempre. A camisa polo azul desbotada, a calça jeans, o chinelo de dedo. Até a pequena mancha de pasta de dente perto da gola estava lá.
A porta se abriu.
Um homem saiu do elevador. Era eu.
Um homem saiu do elevador. Era eu.
Não parecia mais velho nem mais novo. Tinha a mesma altura, o mesmo jeito de andar. Passou por mim sem olhar. Antes de seguir pelo corredor, ajeitou a gola da camisa e enfiou a mão no bolso, procurando a chave.
Era um gesto que eu fazia desde rapaz. Nem precisava pensar. A chave ficava sempre no mesmo bolso.
Tive vontade de chamá-lo. Talvez pudesse perguntar quem era, para onde estava indo, o que faria quando chegasse ao apartamento. Mais ele já estava longe. Dobrou a esquina do corredor e desapareceu.
Entrei na cabine. A porta sanfonada fechou com um estalo. Não apertei botão nenhum. O elevador começou a subir.
Durante o trajeto, fiquei olhando para minhas mãos. Eram as minhas, reconheci as manchas e a unha quebrada do polegar. Mesmo assim, tive a impressão de que não me pertenciam inteiramente.
Eu sabia que alguém apertaria o zero outra vez. Não sei de onde veio essa certeza. Talvez fosse só medo. Mas, enquanto o elevador subia, pensei que alguém teria de ocupar o lugar que eu estava deixando.
A cabine parou no 302.
O relógio do corredor marcava a hora certa. Não havia ninguém por perto. Entrei no apartamento e encontrei tudo em ordem, mas a casa estava vazia. Marli não estava na cozinha. Não havia café no fogão. O quarto do meu filho estava arrumado, sem roupa jogada sobre a cadeira, sem mochila no chão.
Fui até a sala.
O espelho estava diante do sofá. Olhei para ele e vi um homem mais velho. Tentei reconhecer alguma coisa no rosto, mas não consegui.
Então ele sorriu.
Eu não sorri.
O botão zero traz alguém.
Essa frase me veio à cabeça e não me deixou em paz. Já não sabia quem tinha apertado primeiro, nem se o homem que saiu naquela quinta-feira era o mesmo que havia entrado. Talvez eu tivesse passado por aquele corredor muitas vezes antes de perceber. Talvez o elevador não levasse ninguém a lugar algum. Talvez o problema fosse outro.
O Edifício Caiobá tem doze apartamentos e um elevador antigo. Abaixo dos outros botões, há um círculo preto sem número. Dona Ivone diz que é do porão. Não existe porão no prédio.
Não sei por que continuo escrevendo isso.
Estou no 302, com um caderno de brochura aberto sobre a mesa e uma caneta que encontrei na gaveta. O relógio da parede marca a hora certa. Faz tempo que não vejo uma hora a mais. Ainda assim, tenho a impressão de que estou atrasado.
De vez em quando, escuto o elevador funcionando. Reconheço o ruído dos cabos e o rangido da porta sanfonada. Quando ele para no meu andar, fico esperando ouvir alguém sair.
Até agora, ninguém bateu.
Se você mora no Caiobá, ou em algum prédio antigo do litoral, e encontra um botão sem número no elevador, deixe quieto. Não tente descobrir para onde ele vai. Eu sei que parece bobagem. Também achei que fosse.
O elevador desce. A porta abre. O corredor é o mesmo, mas alguma coisa já mudou.
E, quando você olha para o espelho, pode ser tarde demais para reconhecer quem está ali.
O homem sorri. Feito quem acabou de chegar.
Ivan Nowak — 302
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