sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Filha que Ninguém Lembra

A Filha que Ninguém Lembra
Sentido Paranaguá

Tadeu Everton Zamoiski
Curitiba, meados de 2026

No quilômetro 38 da BR-277, sentido Paranaguá, há uma placa que não deveria existir.
Nelson a viu pela primeira vez numa terça-feira, quando voltava de Matinhos com a Fiorino vazia. Era pequena, de madeira, pintada à mão com letras irregulares, presa a um poste de luz por arame enferrujado. Dizia apenas: «Retorno — 2 km». Havia dezenas de placas assim em toda a serra, indicando acessos a sítios, pousadas, restaurantes de beira de estrada. Na quinta, quando fez o mesmo trajeto, a placa dizia a mesma coisa. Nelson diminuiu a velocidade e teve a impressão nítida de que, na terça, ela indicava três quilômetros. Não tinha certeza, e não tinha como ter certeza; comentou com a esposa naquela noite, enquanto jantavam em silêncio na cozinha apertada do apartamento no Portão. Ela disse que devia ser coisa de obra — aquele trecho vive caindo barreira — e não levantou os olhos do prato. Ele não insistiu.
Fazia três meses que a filha tinha ido embora. Dezoito anos, uma mochila, um namorado que ninguém conhecia. Não houve briga, não houve despedida longa, não houve nada que servisse de marco. Ela apenas desceu as escadas do prédio numa manhã de fevereiro, com o casaco cinza que usava desde os quinze anos, e não voltou. Nelson não perguntou para onde ia, não perguntou se precisava de dinheiro, não perguntou nada. Ficou parado na porta, vendo-a sumir na esquina, e depois fechou a porta e foi trabalhar. O casaco dela continuou pendurado no cabideiro da entrada, no mesmo lugar onde ela o deixava todas as noites, e nem ele nem a esposa o tiraram dali.
Na semana seguinte, Nelson notou o restaurante. Era uma construção antiga de madeira escurecida pela chuva, com letreiro desbotado, no acostamento antes de Morretes. Ele parava ali desde que começou a trabalhar na região. Naquela quinta, as janelas estavam cobertas por tábuas, o mato invadia a entrada, e não havia placa de reforma nem nada. Nelson estacionou e ficou olhando. Lembrava-se do gosto do barreado, da mesa perto da janela, da chuva batendo no telhado de zinco. Perguntou ao frentista do posto em frente. O homem, magro, de uns sessenta anos, com olheiras fundas, balançou a cabeça devagar.
— Esse restaurante está fechado há mais de ano, senhor.
Nelson não respondeu. Pagou a gasolina e voltou para a estrada. Na sexta, parou no mesmo posto, no fim da tarde, e o frentista o cumprimentou pelo nome: «Boa noite, Nelson». Ele nunca tinha dito o nome, nunca tinha preenchido cadastro, nunca tinha pago com cartão nominal, nunca tinha feito nada que justificasse aquilo. Ficou parado ao lado da bomba, com a mangueira na mão. O frentista não explicou. Encheu o tanque, recebeu o dinheiro, voltou para dentro da loja. Na semana seguinte, quando Nelson passou de novo pelo mesmo posto, havia outro homem atrás do balcão, mais jovem, de barba rala. Nelson perguntou pelo frentista de antes. O rapaz franziu a testa.
— Aqui nunca teve turno da noite, senhor. Fecho às seis.
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A concha apareceu pela primeira vez num bolso do casaco, numa manhã de maio em Matinhos. Nelson tinha ido até lá por motivo nenhum — uma entrega cancelada, uma tarde livre, a necessidade de ver o mar. A praia estava vazia, o mar cinzento, o vento frio atravessando o cais. Caminhou pela areia molhada até a altura dos pescadores, que consertavam redes em silêncio, e o bolso tinha um peso que ele não conhecia. A concha era pequena, branca, com uma listra marrom atravessando a superfície. Ele não se lembrava de tê-la pegado, mas colocou-a de volta no bolso e esqueceu.
Duas semanas depois, encontrou-a na caixa de ferramentas da Fiorino, entre uma chave de fenda e um rolo de fita isolante. Era a mesma concha — a mesma listra, a mesma curvatura —, mas estava quente. Não morna, não aquecida pelo sol, porque a caixa ficava na sombra e o dia estava frio. Quente como se alguém a tivesse segurado por muito tempo, minutos antes. Nelson ficou com ela na mão por um momento, sentindo o calor subir pela palma, e depois a guardou no bolso. Naquela noite, tirou-a do casaco e colocou-a na gaveta da cozinha, atrás dos guardanapos. Não contou à esposa.
O casaco da filha continuava no cabideiro. Nelson passava por ele toda manhã, ao sair, e toda noite, ao voltar, e nunca o tocava. Mas começou a notar que o tecido estava úmido — não molhado, apenas úmido, como se tivesse sido usado na chuva e pendurado de qualquer jeito. Não chovia dentro do apartamento, não chovia há dias, e ele não disse nada. Uma manhã, tomou coragem e apalpou o bolso do casaco. Estava vazio. Mas a ponta dos dedos saiu com um cheiro leve de maresia, e ele ficou parado no corredor, com a mão no bolso do casaco da filha.
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Na quinta-feira seguinte, Nelson fez o trajeto Curitiba–Paranaguá com o relógio do painel marcando uma hora e vinte. Quando chegou ao destino, o relógio marcava três e quarenta. Olhou para o sol, que estava baixo demais para aquela hora, olhou para o celular, e o celular confirmava. Tinha saído ao meio-dia e chegado às três e quarenta, e a estrada não tinha obra, não tinha desvio, não tinha trânsito. Fez a entrega, voltou, e no caminho parou no acostamento para verificar o mapa. O GPS mostrava um trecho reto, sem desvios, sem acessos. Mas, à frente, a estrada se dividia em duas. Uma delas não aparecia em lugar nenhum. Escolheu a que conhecia e chegou em casa duas horas depois.
Naquela noite, abriu a gaveta da cozinha para pegar um guardanapo e a concha não estava lá. Procurou nos outros armários, no lixo, no bolso do casaco. Nada. Dormiu mal, acordou cedo, e quando foi pegar o casaco para sair, o bolso tinha o mesmo peso da primeira vez. A concha. A mesma. A listra marrom, a mesma curvatura. Não estava quente desta vez. Estava fria como pedra.
— ✦ —
Ele começou a cronometrar a estrada. Anotava no bloco de pedidos da Fiorino a hora de saída, a hora de chegada, o número de quilômetros no painel. Na segunda, a viagem de Curitiba a Morretes levou uma hora e quarenta. Na terça, duas horas e dez. Na quarta, uma hora e vinte e cinco. Na quinta, quatro horas.
Na sexta, Nelson chegou a um cliente em São José dos Pinhais e o homem o recebeu com um sorriso.
— Já entregou, chefe. Semana passada.
Nelson olhou para o bloco. A página da semana anterior tinha uma assinatura no canhoto. Era dele. Ele não lembrava de ter entregado, não lembrava de ter estado ali. Mas a letra era a dele — os r tortos, o z cortado — e o cliente confirmava. Nelson guardou o bloco no bolso e foi embora sem discutir.
No fim do dia, quando abriu o bloco para anotar o horário, a página estava diferente. A letra era dele, mas as anotações diziam outras coisas. Números que ele não tinha escrito, horários que não correspondiam a nada. E, no fim da página, uma frase que ele nunca teria escrito: «Você já chegou.» Ele arrancou a página, amassou, jogou pela janela. Seguiu dirigindo. No km 38, a placa não dizia mais Retorno. Dizia: Bem-vindo.
— ✦ —
Nelson decidiu ir até Morretes sem entrega, sem motivo. Havia uma construção antiga na estrada secundária que ligava Morretes à Serra do Mar, de madeira, com telhado de duas águas e janelas escuras. Ele passava por ela desde que começou a trabalhar na região, mas nunca tinha prestado atenção. Agora, não conseguia parar de pensar nela. A casa estava lá, como sempre. Fechada, silenciosa, cercada de mato alto. A chuva fina caía sobre o telhado, escorrendo pelas calhas enferrujadas. Nelson estacionou no acostamento e ficou olhando. Uma cortina se moveu numa janela do andar de cima, pequena, quase escondida pela vegetação.
Ele desceu do carro. A estrada estava vazia, o silêncio só quebrado pela chuva e pelo murmúrio distante de um rio. Caminhou até o portão, que estava aberto, e entrou. A porta da casa estava destrancada.
Dentro, o cheiro era de mofo e madeira úmida. Os móveis estavam cobertos por lençóis brancos. Havia fotografias nas paredes, mas os rostos estavam desbotados, cobertos por poeira. Na cozinha, uma xícara sobre a mesa. Ainda estava morna. No cabideiro da entrada, um casaco cinza. Nelson parou. O casaco tinha a mesma cor, o mesmo tecido, os mesmos bolsos fundos do casaco da filha. Ele não o tocou. Subiu as escadas. O corredor era estreito, escuro, com portas fechadas dos dois lados. Abriu a primeira. Um quarto vazio, com uma cama de solteiro e um armário embutido. A segunda. Outro quarto, com uma escrivaninha e uma cadeira. Sobre a escrivaninha, um caderno aberto.
A letra era familiar. Os r tortos, o z cortado. A letra dele.
Se você está lendo isso, é porque voltou.
Virou a página.
Eu esperei. Fiquei aqui por muito tempo. Mas você nunca veio.
Outra página.
Agora eu sei que não é você. É outra pessoa. Sempre é outra pessoa.
Nelson fechou o caderno. As mãos estavam tremendo.
— Você voltou.
Ele se virou. Na porta do quarto, uma mulher o observava. Era jovem, talvez vinte anos, com cabelo escuro e olhos fundos. Vestia uma blusa fina, inadequada para o frio, e estava descalça. Nelson não a reconheceu. Ficaram os dois parados, um diante do outro, por um tempo que Nelson não conseguiu medir. A mulher olhou para o caderno na mão dele e não disse nada. Apenas olhou, como se soubesse que ele o tinha pegado, e depois desviou os olhos para a janela, para a chuva, e ficou ali, parada, esperando alguma coisa que Nelson não sabia o que era. Ele deu um passo para trás. Desceu as escadas. Atravessou a sala. Saiu pela porta. A chuva continuava caindo, fina e persistente. Entrou no carro e ligou o motor. Quando olhou pelo retrovisor, a mulher estava na metade da escada, descalça, parada, olhando para ele através da porta aberta. Ele engatou a primeira e acelerou. Quando olhou de novo, a porta estava fechada.
— ✦ —
Dirigiu por horas. Passou por Morretes, por Paranaguá, por Matinhos. Voltou para Curitiba. Estacionou em frente ao prédio. Subiu as escadas. Abriu a porta. A esposa estava na cozinha, preparando o jantar.
— Você está atrasado — disse ela, sem se virar.
Nelson olhou para o relógio da parede. Marcava seis e meia. Tinha saído de casa às nove da manhã.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Não. Por quê?
Ele não respondeu. Foi até o quarto, tirou o casaco e sentiu o peso no bolso. A concha. Tirou-a e olhou para a superfície. A listra marrom ainda estava lá. Mas havia areia presa nas ranhuras, areia molhada, escura, de praia. Nelson nunca tinha levado a filha à praia. A filha nunca tinha ido a Matinhos. Ele guardou a concha no bolso e voltou para a sala.
A esposa estava sentada à mesa, com a concha na mão. A mesma concha. A listra marrom, a mesma curvatura, a areia molhada. Nelson parou no meio da sala.
— Onde você achou isso?
— No quarto dela.
— De quem?
A esposa levantou os olhos. Olhou para ele com uma expressão que Nelson não conseguiu decifrar — não era surpresa, não era medo; era algo mais próximo do cansaço.
— Da nossa filha, Nelson.
Nelson ficou parado. Não porque não soubesse de quem ela estava falando, mas porque, por um instante, não soube. Como se a palavra filha tivesse chegado antes do rosto, e o rosto não viesse.
— Nós não temos uma filha.
A esposa o olhou como se ele tivesse dito algo obsceno. Não respondeu. Pousou a concha na mesa, devagar, como se estivesse colocando um objeto frágil no lugar. Levantou-se. Foi até o cabideiro da entrada. Tocou o casaco cinza, que continuava pendurado ali, no mesmo lugar onde estava há três meses. Passou a mão pela manga, como se estivesse alisando o tecido.
Nelson olhou para o cabideiro. Havia um gancho vazio ao lado do casaco. Ele ficou olhando para o gancho por um tempo maior do que deveria.
— Que casaco? — perguntou ele.
A esposa não respondeu. Continuou alisando a manga do casaco, sem olhar para ele.
— ✦ —
Naquela noite, Nelson acordou com sede. Foi até a cozinha, bebeu um copo de água e, quando voltou para o quarto, notou que a porta da entrada estava aberta. Não escancarada, apenas encostada. Ele foi fechar. No cabideiro, o casaco cinza não estava mais. O gancho estava vazio. Nelson ficou parado por um momento, olhando para o gancho, e depois fechou a porta e voltou para a cama. Não acordou a esposa. Não procurou o casaco. Deitou-se de costas, olhando para o teto, ouvindo a chuva, sentindo a concha no bolso do pijama, e adormeceu pensando que na manhã seguinte precisaria fazer uma entrega em Matinhos.
— ✦ —
Na manhã seguinte, Nelson pegou a estrada. Não tinha entrega marcada. Não disse nada à esposa. Apenas saiu, entrou na Fiorino e dirigiu até o km 38 da BR-277. A placa ainda estava lá. Agora dizia: Você já chegou.
Ele seguiu em frente. No quilômetro seguinte, havia uma saída. Uma estrada de terra, estreita, que não aparecia em nenhum mapa. Nelson entrou nela. A casa estava no fim do caminho. A porta estava aberta.
Dentro, a mesa da cozinha estava posta para duas pessoas. Duas xícaras, dois pratos, dois talheres. A água ainda estava quente. Sobre a segunda cadeira, o casaco cinza. Não pendurado. Vestido. Como se houvesse um corpo dentro. O corpo não se mexia. Nelson não olhou diretamente. Aproximou-se da mesa. Sentou-se na primeira cadeira. A xícara da segunda cadeira soltava vapor. Ele não olhou para a segunda cadeira. Ficou olhando para a própria xícara, que estava fria, e para a chuva que continuava caindo do lado de fora.
Na escrivaninha do andar de cima, que agora estava encostada na parede da sala, o caderno continuava aberto. Nelson não lembrava de tê-lo trazido, não lembrava de ter subido para pegá-lo. Mas estava ali, na sala, aberto, e a página tinha uma nova frase, na letra dele: Você já chegou. Agora sente.
Nelson sentou. A xícara esfriou. A chuva continuou. Em algum momento da tarde, ele estendeu a mão e tocou o casaco cinza. O tecido estava úmido. A manga estava morna, como se alguém a tivesse vestido minutos antes. Ele não olhou para dentro do capuz, não olhou para o rosto que poderia estar ali. Apenas deixou a mão sobre a manga, sentindo o calor passar para os dedos, e ficou assim, parado, ouvindo a chuva, até que a luz começou a diminuir e a xícara da segunda cadeira esfriou também.
Quando anoiteceu, Nelson levantou-se. Não olhou para a segunda cadeira. Atravessou a sala. Saiu pela porta. Entrou no carro. Ligou o motor. A estrada de terra não estava mais lá. Havia apenas mato, e a casa atrás dele, e a BR-277 adiante. Nelson dirigiu até Curitiba. Estacionou em frente ao prédio. Subiu as escadas. Abriu a porta.
A esposa estava na cozinha, preparando o jantar.
— Você está atrasado — disse ela, sem se virar.
Nelson olhou para o relógio da parede. Marcava seis e meia. Foi até o cabideiro da entrada. O gancho estava vazio. Ele tirou o casaco e o pendurou no gancho. O casaco ficou pendurado. Nelson olhou para ele por um momento e não conseguiu se lembrar de já ter usado aquela peça antes.
— Achei uma coisa no quarto — disse a esposa, da cozinha.
Nelson não respondeu.
— Uma concha.
Ele levou a mão ao bolso. Estava vazio.
— De quem é? — perguntou a esposa.
Nelson olhou para o gancho, onde o próprio casaco pendurado parecia menor do que deveria ser, e para a esposa, que esperava uma resposta, e para a janela, onde a chuva continuava caindo sobre Curitiba, fina e persistente. Pensou em dizer alguma coisa. Mas não conseguiu se lembrar do que era. Não conseguia se lembrar de nada que tivesse acontecido antes daquela manhã, quando entrou na Fiorino e pegou a estrada, e a única coisa que sabia era que não deveria ter voltado.
— Não sei — disse ele.
A esposa não respondeu. Continuou mexendo a panela. E Nelson ficou parado no meio da sala, ouvindo a chuva, com o casaco pendurado no gancho.

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