A Caneca
Que dia era?
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Nelson passou pelo 67 e esperou pelo 68. Não veio. O 69 passou e desapareceu antes que ele pudesse piscar. Reduziu a marcha. Olhou pelo retrovisor: a estrada tinha sido engolida. Não havia mais faixas, nem mato, nem céu. Só neblina. Branca, densa, viva. Seguiu.
Vinte e três anos rodando entre Curitiba e Paranaguá ensinam isso: quando a serra decide esconder alguma coisa, você não discute. O Scania cortava a garoa com os faróis baixos. A mão direita no volante, a esquerda no câmbio, o corpo fazendo o que já não precisava de pensamento. O café na garrafa térmica esfriava devagar. Ele não bebeu.
Naquele horário, a PR-277 costumava ter uma carreta a cada dois minutos. Agora, só o motor. Só a chuva batendo no teto. Só o chiado lento do limpador. Olhou para o relógio: 4h17. Saíra de Paranaguá às duas e meia. Já devia estar entrando no contorno do Atuba. Mas a estrada continuava, e não se lembrava de ter passado por Morretes, nem pela ponte sobre o Rio Sagrado, nem pelo posto onde sempre parava.
Lembrou-se do pai. Não sabia por quê. As mãos do pai cheiravam a peixe e fumo. Nas férias, subiam juntos para pescar. Na volta, paravam numa casa de madeira à beira do caminho. Uma mulher servia café. O pai sentava-se à mesa; ela ficava de pé, ao lado do fogão, olhando pela janela. O pai dizia alguma coisa — ela não respondia. Continuava olhando. Nelson lembrava-se da caneca branca com listra azul, do vapor subindo, da mão do pai envolvendo-a. Lembrava-se da casa. Lembrava-se da mulher. Não do rosto, não da voz. Só dos pés — descalços no assoalho, como quem não tem mais pressa de ir a lugar nenhum.
O pai partira assim, doze anos atrás: estrada molhada, curva cerrada, neblina igual a esta. O caminhão nunca foi encontrado. Nem ele.
Foi quando o asfalto acabou.
Não de repente. Terminou como termina uma frase: sem aviso, sem cerimônia. À frente, terra batida, mato alto dos dois lados e uma casa.
Pequena, de madeira, telhado de duas águas, varanda voltada para o caminho. Uma luz acesa na janela da frente — amarela, fraca, de lâmpada incandescente. Nelson ficou olhando. Conhecia aquele lugar. Não daquela forma, mas de outra. A casa da mulher do café.
Abaixou o olhar para as mãos no volante. Anéis de umidade. E, por um instante, jurou ver uma faixa azul riscando o plástico escuro do painel, fina, como traçada com caneta. Piscou: sumiu.
Desligou o motor.
O silêncio caiu pesado. A chuva passou. Desceu. O barro grudou nas botas. Ficou parado diante da gradeira.
A porta abriu-se.
Uma mulher apareceu. Cabelo preso, vestido de algodão, pés descalços no chão de tábuas. Olhou para ele como se estivesse esperando há muito — e não tivesse dúvida de quem chegava.
— Você voltou — disse.
Ele não respondeu.
— Entra. O café está pronto.
Olhou para o caminhão. Depois, para a estrada de terra que sumia no brejo. Depois, para ela.
— Só um café — disse.
A cozinha era estreita, com fogão a lenha, mesa tosca, janela voltada para a mata. Cheirava a café passado e madeira úmida. A mesa estava posta para dois. Sentou-se. Ela ficou ao lado do fogo e serviu. A caneca veio branca, com uma listra azul. Exatamente como lembrava.
— O açúcar está na lata — disse.
Ele não tocou. Olhou pela janela: mato denso, sem fim. Nenhuma saída do outro lado. Nada.
— A senhora mora aqui sozinha?
— Agora.
— E antes?
Ela virou o rosto para a vidraça. Ficou assim.
O silêncio cresceu, enchendo o espaço entre os dois. A outra cadeira permanecia vazia. Depois, ele pegou a caneca e bebeu. Quente, forte, do jeito que o pai gostava. Do jeito que ele também gostava.
— Que dia é hoje?
— Outubro.
— Que dia?
— O tempo não corre.
Pousou a caneca. A listra parecia mais grossa.
— Preciso ir. Tenho carga para entregar em Curitiba.
— Sempre esteve aqui.
— Como assim?
— Às vezes levam aonde se deve estar.
Levantou-se. A cadeira raspou no assoalho. Olhou para a porta, depois para ela, depois para a caneca. A listra estava torta.
— Vou embora.
Ela não se moveu.
— O caminho não sai. Só fica.
Saiu. A chuva havia parado, mas a neblina era mais densa, colada ao chão como algodão molhado. O caminhão não estava onde o deixara.
Andou em círculos. Terra batida, sem rastro. Uma poça refletia o branco do nevoeiro. Voltou à porta: fechada, escura. Bateu — ninguém respondeu. Contornou a casa. Nos fundos, um poço e uma araucária. Embaixo da árvore, uma cadeira de balanço vazia, movendo-se lentamente, como se alguém tivesse acabado de se levantar.
Voltou para a frente.
No lugar do caminhão, uma placa. Verde, letras brancas, torta. No canto, uma marca azul.
Km 68
Só ele. Nada mais.
Tirou o celular. Sem sinal. A tela marcava 4h17. O número não mudava. Guardou. Olhou de novo depois de um minuto: 4h17. O tempo havia parado mesmo.
A luz da janela acendeu-se de novo. Ela apareceu na varanda.
— Você esqueceu a caneca — disse.
Ele olhou para a mão direita. Lá estava ela: branca, listra azul fina e nítida.
Bebeu.
Baixou a caneca. A listra não estava mais lá. E na superfície lisa, por um instante — não era ele. Era o pai. Jovem. Olhando.
Piscou. Sumiu.
Entrou. A porta estava entreaberta. Nunca tivera tranca.
A cozinha estava vazia. O fogo, apagado. A mesa, ainda posta para dois. Do outro lado, uma caneca idêntica — branca, sem listra. Vazia.
Sentou-se. Ficou olhando a mata engolir a estrada. Depois, ouviu o som de um motor lá fora. Um caminhão subindo. Mesmo ronco, mesma cadência, mesmo chiado de limpador. Tinha uma mancha escura no para-lama. Igual à dele. Talvez fosse ele. Talvez fosse sempre ele. Passou devagar; sentiu o cheiro de diesel entrar pela janela aberta. Os faróis varreram a parede de madeira. Depois, o som foi minguando, sumindo no nevoeiro.
O silêncio voltou.
Olhou para a mão. A caneca. Branca, sem marca.
Levou-a aos lábios.
Faltou uma listra.
Sempre faltaria.
Lá fora, a neblina se mexeu. Alguém viria. Um dia.
Ele ficaria de pé, ao lado do fogão. Esperando.
Do jeito que ela fazia.
Do jeito que o pai fazia.
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