Uma viagem de trabalho
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A primeira vez que Nélson parou no posto do km 58, o frentista disse uma frase que ele não conseguiu esquecer: “O senhor voltou”.
Chovia desde Curitiba. Uma chuva fina embaçava o para-brisa e transformava os faróis dos caminhões em manchas amarelas na neblina. Dirigia pela BR-277, sentido Paranaguá, levando material odontológico para uma clínica em Morretes. Conhecia aquele trecho como as próprias mãos — a curva depois do pedágio, o radar atrás da placa, o posto do km 40, a descida íngreme antes da ponte. Não havia posto no km 58. Passava por ali duas vezes por semana, fazia onze anos.
Mas o letreiro azul cortava a neblina e um Fiat antigo, cor de vinho, ocupava a bomba 3 com a porta do motorista aberta. Vazio. Nélson reduziu. Por um segundo quase puxou para a bomba 3, como se o carro quisesse ir até ela. Corrigiu. Parou na 2. O frentista veio andando devagar, magro, de uniforme azul-marinho e nome bordado em amarelo no peito. Nélson não leu. O rapaz inclinava a cabeça para o lado, como quem escuta algo distante.
— O senhor voltou.
O cheiro de café queimado misturava-se ao diesel e à terra molhada. Uma lâmpada fluorescente piscava sobre a porta.
— Eu nunca estive aqui.
O frentista apenas assentiu, de forma quase imperceptível.
— A bomba 3, como sempre.
Voltou para a loja. Nélson encheu o tanque, pagou e guardou o recibo no bolso sem olhar.
Em Morretes, entregou o material sob a figueira antiga cujas raízes rachavam o asfalto. A recepcionista comentou que o doutor saíra cedo por causa da chuva. Ele assentiu e ficou um momento olhando o Nhundiaquara: água marrom, alta, carregando restos de galhos.
Depois, foi à casa da mãe. Fechada desde o enterro. Empurrou a porta dos fundos com o ombro. O cheiro de mofo e madeira velha veio primeiro. Louça no escorredor, toalha na mesa, calendário de 2019 ainda na parede. Na gaveta da cômoda, fotografias. Ele e Aldo na beira do rio, com os cabelos molhados. Aldo erguia uma moeda antiga, furada no meio, contra a luz. O outro menino — que deveria ser Nélson — estava de costas. Não se via o rosto. Guardou a foto.
Do lado de fora, Dona Cida estava no portão, com o mesmo avental florido de quarenta anos atrás. Olhou-o como se olhasse para um estranho, depois virou-se para o quintal, atrás do pé de araçá que ninguém podara.
— O senhor por aqui de novo?
— Vim ver a casa.
— A casa está fechada desde que a sua mãe morreu.
Ficou calada um instante.
— O senhor não tem irmão, Nélson.
A mão no bolso tocou a foto.
— O Aldo mora em São Paulo.
Ela fez o sinal da cruz rápido, quase escondido, e fechou o portão sem barulho. Nélson ficou ali sentindo o frio subir pela nuca. Lembrou da voz grossa do irmão, do pastel no Brás, da discussão pela herança. Lembrou também do peso do corpo na correnteza. Um peso que já não era de criança. Como se algo tivesse mudado dentro da água antes mesmo de ele conseguir puxar. E do grito da mãe.
Passou em frente ao cemitério municipal sem parar. Numa lápide baixa, perto do muro, viu uma data que parecia 1962.
Voltou já de noite. A neblina subia densa da serra. No km 58, o posto estava lá de novo. O Fiat na bomba 3, porta aberta. O frentista no mesmo lugar. Nélson não parou. Pelo retrovisor, viu o rapaz inclinar a cabeça.
Em casa, em Curitiba, esvaziou os bolsos. O recibo dizia 23:47. A data era de uma semana atrás. Naquela noite, ele estava no aniversário da filha: bolo, vela, o abraço apertado da menina de sete anos. Abriu a galeria do celular e ficou olhando a foto por muito tempo. Tudo parecia certo. Mas alguma coisa não encaixava.
Na manhã seguinte, ligou para o número de Aldo. Chamou. Uma voz de mulher, baixa, cansada:
— Alô?
Ele desligou. Tentou de novo. A chamada não completou.
À noite, dirigiu sem entrega e sem motivo. Passou pelo posto do km 40 sem ver. No km 58, o letreiro azul esperava. O frentista veio até a janela antes que ele decidisse parar.
— O senhor esqueceu.
Dessa vez, Nélson olhou o peito do uniforme. O nome bordado em amarelo era legível sob a luz do posto. Um nome que ele conhecia demais. No banco do passageiro, havia uma moeda antiga, furada no meio. Quente. O frentista inclinou a cabeça e voltou para a loja. Nélson pegou a moeda, guardou-a no bolso e engatou a primeira. Ao sair, olhou uma última vez para a bomba 3. O Fiat continuava lá, com a porta aberta, como se alguém tivesse acabado de descer e nunca mais voltado.
A estrada não acabava. Placa de Curitiba. Depois, placa de Morretes com a tinta descascada. O relógio do painel travado em 23:47. O mesmo poste, a mesma curva. Em determinada passagem, viu o Fiat na bomba 3 antes mesmo de chegar ao posto. Parou no acostamento. O ar frio da serra encheu os pulmões. Não havia som.
Voltou ao carro. A moeda pesava no bolso. No verso: 1962. Deu partida. Chegou a Curitiba de manhã e dormiu o dia inteiro.
Quando acordou, a foto do aniversário ainda estava aberta no celular. Olhou de novo. O homem que abraçava a menina não era ele. O rosto era outro. A menina sorria do mesmo jeito. Minutos depois, o celular vibrou. Mensagem da filha:
Pai?
Onde está o Aldo?
Naquela noite, dirigiu pela terceira vez. No km 58, não havia posto. Não havia letreiro azul. Não havia Fiat. Só a estrada, o mato e a neblina. Ele parou exatamente no lugar onde a bomba 3 ficava. Desligou o motor. O silêncio entrou pelo vidro aberto, denso, quase sólido. O relógio do painel continuava em 23:47. Ficou ali longos minutos, sentindo o cheiro de gasolina que não deveria existir, ouvindo a chuva fina sobre o teto, esperando que o letreiro azul acendesse de novo. Não acendeu. Desceu. Andou até a beira do mato. A terra estava molhada, mas não havia pegadas. Nada.
Voltou ao carro. No banco do motorista, a moeda. Ele não se lembrava de tê-la tirado do bolso. Não a pegou. Ligou o motor e seguiu. Ela ficou imóvel, brilhando fracamente na luz do painel.
Na manhã seguinte, ao pagar o café na padaria, Nélson abriu a carteira. O nome no documento era o mesmo do crachá. Fechou. Pagou. O padeiro não disse nada.
Do lado de fora, estendeu a mão para a chave. Não era a dele. No outro bolso, a moeda estava de volta. Procurou o carro na rua. Não estava onde ele havia estacionado. Em vez dele, o Fiat cor de vinho estava parado na calçada, com a porta do motorista aberta. O celular vibrou. O mesmo número de antes. Atendeu.
— O senhor voltou — disse a voz de mulher, baixa, cansada.
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