quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A SEGUNDA CURVA DO VIADUTO

A SEGUNDA CURVA DO VIADUTO
Onde a estrada devolve aquilo que a memória não conseguiu enterrar

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A mala do passageiro pesava mais do que uma mala daquele tamanho tinha o direito de pesar.
Lauro percebeu isso quando a ergueu do acostamento. A alça de couro afundou na palma da mão, obrigando-o a apoiar o joelho no para-choque do Voyage para empurrá-la para dentro do porta-malas. Não era grande, nem parecia cheia. Ainda assim, quando conseguiu acomodá-la, a traseira do carro baixou alguns centímetros.
O homem não ofereceu ajuda.
Estava parado junto à placa de retorno da antiga praça de pedágio de São José dos Pinhais, com as mãos nos bolsos de um sobretudo cinza-escuro. A garoa cobria sua cabeça calva de pequenas gotas que se acumulavam umas sobre as outras sem escorrer pelo rosto. Parecia esperar havia muito tempo.
Ele abriu a porta do passageiro e entrou.
— Morretes? — Até o restaurante antes da ponte.
Lauro olhou o aplicativo. A corrida havia desaparecido.
— O senhor chamou pelo aplicativo? — Chamei. — Não aparece mais para mim.
O homem sorriu de leve.
— Aqui a estrada costuma tirar algumas coisas do telefone.
Lauro não respondeu.
Entrou no Voyage e ligou o motor. O carro tossiu duas vezes antes de pegar.
No console central, entre o câmbio e um maço vazio de cigarros, estava o pato amarelo de borracha que Clara havia deixado três meses antes. O brinquedo perdera o olho esquerdo.
Ela o encontrara numa caixa de coisas antigas quando era criança e, anos depois, colocara o pato no painel numa brincadeira.
Três meses antes, ao encontrar uma fotografia velha no fundo do armário, Clara perguntara:
— Pai, quem é esse menino?
Lauro arrancara a fotografia da mão dela.
— Não mexe nisso. — Por quê? — Porque não é seu.
Ela ficara olhando para ele durante alguns segundos.
— Então de quem é?
Ele não respondera.
Antes de sair, ela colocara o pato no console.
— Você guarda tudo.
Depois batera a porta.
Fazia três meses que não conversavam.
Lauro entrou na BR-277.
A chuva engrossou conforme a estrada descia pela Serra do Mar. A neblina surgia entre as árvores e avançava sobre a pista em manchas brancas. Caminhões passavam levantando água, e o Voyage balançava a cada ultrapassagem.
O homem permaneceu calado durante vários quilômetros.
— O senhor morava em Morretes? — Morei. — Tem família lá? — Tinha. — E vai buscar o quê? — Uma chave. — De casa? — De um cadeado.
Lauro lançou um olhar rápido para o passageiro.
O homem estava com o polegar encostado na lateral do indicador, esfregando os dois dedos devagar.
O gesto pareceu familiar.
Lauro voltou os olhos para a estrada.
— Conhece bem a estrada? — Conheço. — Faz tempo?
O homem demorou a responder.
— Desde antes de você.
Lauro franziu a testa.
— Como?
O homem continuou olhando pela janela.
Alguns quilômetros adiante, perguntou:
— Você ainda mora sozinho?
Lauro olhou para ele.
— Como sabe? — Você falou no aplicativo. — Eu não falei.
O homem manteve os olhos na estrada.
— Falou.
No painel, alguma coisa brilhava.
Uma chave enferrujada estava ao lado do relógio.
Lauro a pegou.
— Isso é seu?
O homem estendeu a mão.
— Era.
Lauro entregou.
O homem fechou os dedos ao redor da chave.
Poucos segundos depois, Lauro olhou para o console.
O pato havia desaparecido.
No lugar dele havia outra chave.
Idêntica à primeira.
— O senhor viu? — Vi. — O pato estava aqui. — Eu sei. — Como?
O homem voltou a esfregar o polegar contra o indicador.
— Porque foi você quem colocou.
Lauro franziu a testa.
— Eu não coloquei. — Não desta vez.
A frase ficou dentro do carro.
A Serra se fechou ao redor deles.
Quando chegaram ao Viaduto dos Padres, a chuva havia se transformado numa cortina contínua. Lauro conhecia aquele trecho. Conhecia a primeira curva depois do viaduto, a segunda, a placa amarela e a descida que levava ao trecho mais aberto antes de Morretes.
Passou pela primeira.
Na segunda, reduziu.
Uma batida veio do porta-malas.
Lauro olhou pelo retrovisor.
A mala estava lá.
Outra batida.
Mais forte.
— Tem alguma coisa dentro dela?
O homem não respondeu.
Lauro virou o rosto.
O banco do passageiro estava vazio.
A porta permanecia fechada.
Ele freou no acostamento.
Durante alguns segundos ficou apenas sentado, com as mãos no volante, ouvindo a chuva bater no teto.
Havia cheiro de terra molhada, ferrugem e madeira velha.
Ligou para Helena.
A chamada demorou.
Quando finalmente completou, ouviu a voz dela coberta por estática.
— Lauro? — Helena. — Onde você está? — Na BR-277.
Silêncio.
— Você voltou. — Estou indo para Morretes.
A respiração dela mudou.
— Você prometeu. — O quê? — Que nunca mais passaria daquela curva.
A ligação caiu.
Lauro tentou novamente.
Sem sinal.
Foi então que viu uma fotografia sobre o banco do passageiro.
Não estava ali antes.
Pegou.
Era a mesma que Clara havia encontrado.
Uma casa de madeira aparecia ao fundo. Helena, mais jovem, estava perto da porta. Ao lado dela havia um menino de aproximadamente dez anos.
O rosto estava parcialmente coberto pela sombra de uma árvore.
A mão direita, porém, estava visível.
O polegar encostava na lateral do indicador.
Lauro virou a fotografia.
17 de julho de 2002.
Abaixo, escrito à mão:
NÃO LEVAR.
A fotografia caiu de seus dedos.
Ele se lembrou de uma janela da cozinha batendo com o vento.
Helena sempre fechava aquela janela antes das chuvas fortes.
Na lembrança, ela estava fazendo isso.
Depois havia uma porta.
Um menino.
Uma mala.
E a voz de Helena:
— Você não pode fazer isso.
A própria voz respondeu:
— Eu preciso. — Não precisa. — Eu prometi. — Prometeu para quem?
A lembrança terminou.
Lauro abriu os olhos.
A mala estava no porta-malas.
Havia água escorrendo por baixo dela.
Ele saiu do carro.
Abriu a tampa.
A mala estava molhada.
Não por fora.
O tecido da parte inferior parecia encharcado de dentro para fora.
Lauro tocou a alça.
Uma batida veio de dentro.
Ele retirou a mão.
Esperou.
Outra batida.
Mais fraca.
Lauro fechou o porta-malas.
Entrou novamente no Voyage.
Não iria abrir.
Ainda não.
Ligou o motor.
A estrada estava vazia.
A placa apareceu:
CURVA PERIGOSA A 200 m
Ele passou.
Alguns minutos depois, a mesma placa apareceu.
Lauro diminuiu.
O hodômetro marcava 184.502.
Avançou.
184.503.
A neblina cobriu a pista.
184.504.
A mesma placa.
O mesmo poste.
O mesmo pato amarelo.
Sem o olho esquerdo.
A chave enferrujada estava amarrada ao seu pescoço.
Lauro saiu do carro.
Caminhou até o poste.
O brinquedo balançava sob a chuva, embora não houvesse vento.
Não tocou nele.
Quando voltou ao Voyage, o homem estava no banco do passageiro.
Lauro entrou.
Dessa vez não perguntou como.
— Você conhecia aquele menino? — Conhecia. — Quem era ele?
O homem olhou para o retrovisor.
— Você lembra da chuva?
Lauro ficou imóvel.
— Não. — Eu lembro.
O homem esfregou o polegar contra o indicador.
— Lembra da mala?
Lauro olhou para o porta-malas.
— O que aconteceu?
O homem não respondeu.
Lauro fechou os olhos.
A lembrança voltou.
Dessa vez o menino estava entrando no carro.
A mão pequena fechou a porta.
Lauro ouviu:
— Pai, a gente vai voltar? — Depois.
O carro partia.
A primeira curva.
A segunda.
A chuva.
Uma parada.
Lauro abriu o porta-malas.
A mala estava no chão.
Ele se lembrou de ter levado o menino no carro.
Mas não conseguia lembrar o momento em que o menino havia saído.
Abriu os olhos.
O homem não estava mais ali.
O Voyage começou a andar.
Lauro não havia colocado a marcha.
A estrada se estreitou.
As árvores se aproximaram dos faróis.
Então ele viu a casa de madeira entre a neblina.
A mesma da fotografia.
Lauro fechou os olhos.
A memória veio outra vez.
E desta vez havia algo diferente.
O menino não estava no carro.
Estava parado na porta da casa.
A mala estava ao lado dele.
Helena segurava o braço de Lauro.
— Lauro, olha para mim.
Ele não olhava.
— Você não pode levar os dois. — Eu sei. — Então deixe a mala. — Não posso. — Por quê?
Lauro ouviu a própria voz:
— Porque ele não pode voltar.
A lembrança desapareceu.
Lauro abriu os olhos.
O Voyage estava parado.
Diante dele havia uma clareira.
A casa não existia.
Só restava o terreno.
Lauro saiu.
O ar estava frio.
Não havia chuva.
Caminhou até o centro da clareira.
Uma estaca enferrujada emergia do chão.
Preso nela havia um cadeado antigo.
E uma chave.
Lauro não a tocou.
Atrás dele, o porta-malas se abriu.
Ele virou.
A mala estava no chão.
Aberta.
Lauro ficou olhando.
Esperava encontrar roupas.
Documentos.
Alguma coisa.
Não havia nada.
A mala estava completamente vazia.
Nenhum objeto.
Nenhum tecido.
Nenhum vestígio.
Apenas uma lâmina de água escura no fundo.
Lauro se aproximou.
Ajoelhou.
Então viu as marcas.
Pequenas marcas de dedos na parte interna da tampa.
Cinco dedos.
Depois outros cinco, mais abaixo.
Como se alguém tivesse empurrado a tampa por dentro.
Lauro não respirou.
Passou os olhos pelo interior da mala.
A água tremia.
Ele encostou a ponta do dedo.
Estava gelada.
E então percebeu.
A mala continuava pesada.
Vazia.
Aberta.
Pesada.
Lauro tentou levantá-la.
Não conseguiu.
Uma batida veio debaixo da terra.
Ele soltou a alça.
Esperou.
Outra batida.
Desta vez, não vinha da mala.
Vinha do chão.
O celular vibrou.
Era Clara.
A primeira mensagem em três meses.
Ele abriu.
Pai, por que você ainda guarda a mala do menino?
Lauro ficou olhando para a tela.
Outra mensagem apareceu.
Eu encontrei o resto da história.
Antes que pudesse abrir a conversa, o celular apagou.
Lauro ergueu os olhos.
O homem estava do outro lado da clareira.
Não parecia mais velho nem mais jovem.
Parecia simplesmente pertencer àquele lugar.
A mão direita estava abaixada.
O polegar encostava no indicador.
— Você voltou — disse o homem.
Lauro olhou para a mala.
— Ele está vivo?
Silêncio.
— Ele morreu?
O homem não respondeu.
Lauro baixou os olhos.
Não fez uma terceira pergunta.
Depois de alguns segundos, perguntou:
— Por que você volta comigo?
O homem olhou para a estrada.
— Eu nunca voltei com você.
Lauro sentiu um frio subir pela nuca.
— Então...
O homem levantou os olhos.
— Você é que nunca foi embora.
A clareira desapareceu.
Lauro estava novamente dentro do Voyage.
A chuva batia no para-brisa.
O hodômetro marcava 184.502.
O pato amarelo estava no console.
A mala ocupava o porta-malas.
Lauro permaneceu imóvel.
Não havia homem no banco do passageiro.
Não havia fotografia.
Não havia mensagem.
Durante alguns segundos, simplesmente respirou.
Então percebeu a diferença.
Não estava tentando entender.
Estava esperando.
A chave estava na ignição.
Lauro colocou a mão sobre ela.
Não lembrava de tê-la colocado ali.
Ligou o motor.
A estrada apareceu à frente.
Passou pela primeira curva.
Depois pela segunda.
Desta vez não havia placa.
Lauro não precisou dela.
Sabia exatamente onde estava.
A neblina fechou a estrada.
Ele continuou dirigindo.
Muito atrás, no lugar onde a segunda curva desaparecia entre as árvores, o pato amarelo estava sozinho sobre o asfalto.
Sem o olho esquerdo.
A chave permanecia ao lado dele.
A chuva começou a cobri-los.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então a chave afundou.
Primeiro a ponta.
Depois metade.
Depois desapareceu por completo.
Do interior da terra veio uma batida.
Outra.
Uma terceira.
O asfalto rachou alguns centímetros.
Entre as duas margens da rachadura apareceu a ponta azul de uma mochila infantil.
O celular de Lauro vibrou no bolso.
Uma vez.
Ele não olhou.
Debaixo da estrada, alguém bateu mais uma vez.

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