quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O QUARTO QUE NINGUÉM ALUGAVA

O QUARTO QUE NINGUÉM ALUGAVA
O lugar onde algumas pessoas continuam esperando

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Na terceira noite, o homem do apartamento ao lado bateu na minha porta para perguntar por que eu estava deixando a televisão ligada enquanto dormia.
Eu não tinha televisão.
Abri a porta e encontrei o vizinho no corredor, segurando uma sacola de mercado. Era um homem magro, de cabelos brancos, usando uma camiseta velha e chinelos. A lâmpada fluorescente acima dele piscava em intervalos irregulares e, cada vez que apagava, seu rosto parecia desaparecer por um instante.
— Desculpe incomodar — disse. — O som está passando pela parede.
— Que som?
— Televisão.
Olhei para dentro do apartamento.
A sala estava escura. Na cozinha, a luz permanecia acesa sobre a pia, iluminando o prato que eu havia deixado de molho.
— Eu não tenho televisão.
Ele não respondeu imediatamente. Olhou para o corredor atrás de mim.
— Está ouvindo agora?
Escutei.
Nada além do motor distante de um carro e da água correndo em algum encanamento do prédio.
— Não.
Ele apertou a sacola contra o corpo.
— Então talvez seja melhor deixar a porta do quarto fechada.
— Qual quarto?
A pergunta fez o homem piscar.
— O do fundo.
Ele voltou para o apartamento.
Antes de entrar, parou com a mão na maçaneta.
— É o mesmo carro?
— O quê?
Ele olhou para a rua.
Meu carro estava estacionado junto ao meio-fio.
— Nada.
Entrou e fechou a porta.
Fiquei algum tempo no corredor, sem saber por que aquela pergunta tinha ficado comigo.
O apartamento ficava no térreo de um prédio antigo em Matinhos, a poucas quadras da praia. Eu o alugara por dois meses para terminar um trabalho de revisão documental. Setembro deixava a cidade quase vazia. Havia prédios com todas as janelas fechadas, lojas que funcionavam somente pela manhã e ruas onde o vento espalhava areia contra as fachadas.
Eu gostava daquele tipo de silêncio.
Depois da separação, tinha aprendido a gostar de coisas que antes me incomodavam: comer sozinho, dirigir sem destino, não precisar avisar ninguém quando mudava de ideia.
Minha ex-mulher dizia que eu sempre havia confundido liberdade com ausência.
Na época, eu achava exagero.
Agora, às vezes, não tinha certeza.
O trabalho consistia em revisar documentos de imóveis antigos antes que fossem colocados à venda. Escrituras, recibos, contratos, fotografias, registros de pagamento. Eu passava horas conferindo datas e nomes.
Talvez por isso tenha reparado imediatamente quando encontrei um nome que não reconhecia.
Helena.
Estava escrito na margem de uma escritura.
Risquei.
Alguns minutos depois, escrevi de novo sem perceber.
Risquei com mais força, até quase rasgar o papel.
• • •
O apartamento tinha dois quartos. O primeiro ficava junto à sala e era onde eu dormia. O segundo ficava no fim de um corredor estreito.
A imobiliária avisara que havia infiltração.
Eu mantinha a porta fechada.
Na manhã seguinte à visita do vizinho, encontrei-a aberta.
Poucos centímetros.
Aproximei-me com a caneca de café na mão.
O cheiro veio antes de eu entrar. Parede molhada, madeira antiga, alguma coisa parecida com roupa guardada por muito tempo.
O quarto estava vazio.
Uma cama sem colchão.
Uma cadeira.
Uma janela emperrada.
No chão, junto à porta, havia uma moeda de um real.
Peguei.
A borda estava úmida.
Passei o polegar sobre a superfície e senti uma pequena aspereza.
Coloquei a moeda no bolso.
Durante o trabalho, encontrei outra coisa.
Uma fotografia antiga do meu irmão.
Não estava entre os documentos.
Estava dentro da minha própria carteira.
Fiquei olhando para ela sem lembrar quando a havia colocado ali.
Meu irmão sorria para a câmera.
Atrás dele aparecia um trecho de mar.
A fotografia tinha sido dobrada tantas vezes que começava a se desfazer no vinco.
Virei.
Não havia data.
Naquele momento, ouvi um barulho vindo do quarto.
A cadeira havia caído.
Fui até lá.
A cadeira estava de pé.
Não entrei.
• • •
Naquela noite, comprei uma televisão.
Disse a mim mesmo que precisava de algum ruído no apartamento.
Deixei o aparelho ligado enquanto preparava café.
Às duas e quinze da manhã, acordei.
A televisão estava desligada.
O som vinha do quarto.
Uma voz feminina falava baixo, como se conversasse com alguém que estava muito perto.
— Você esqueceu de levar a moeda.
Abri os olhos.
Fiquei imóvel.
A voz continuou:
— Ele vai perceber.
Então ouvi uma voz masculina.
A minha.
— Eu volto amanhã.
Levantei.
A porta do quarto estava fechada.
Acendi a luz do corredor.
Quando abri, não havia ninguém.
A televisão continuava desligada.
A moeda estava sobre a mesa da cozinha.
Eu tinha certeza de tê-la colocado no bolso.
Passei a mão pela calça.
O bolso estava vazio.
• • •
Na manhã seguinte, liguei para a imobiliária.
Perguntei sobre a antiga moradora.
— Helena? — disse a corretora.
— Sim.
Ela demorou.
— Como o senhor sabe o nome?
— Está em alguns documentos.
— Ah.
A resposta veio acompanhada de um silêncio curto.
— Ela ficou pouco tempo — continuou.
— Quanto?
— Não lembro.
— E depois?
— O apartamento ficou fechado.
— Por quê?
A mulher respirou.
— Motivo particular.
— Que motivo?
— Não sei.
Antes de desligar, ouvi a corretora perguntar:
— O senhor encontrou alguma coisa?
— O quê?
Ela não respondeu.
A ligação terminou.
• • •
Naquela tarde, encontrei cinquenta centavos dentro do bolso da camisa azul que eu usara na viagem.
A camisa estava na mala.
Eu ainda não a tinha usado.
A mancha perto da gola era antiga. Pequena, escura, quase imperceptível.
Passei o dedo sobre ela.
Cheirava a ferrugem.
Apertei o tecido entre os dedos.
Por alguns segundos, senti uma coisa quente e úmida contra a palma, como se a camisa tivesse acabado de sair da chuva.
Soltei.
O quarto pareceu menor.
Então veio o cheiro de xampu infantil.
Muito fraco.
Doce.
E uma lembrança que não chegou inteira.
Dentro do carro, meu irmão dirigia com as duas mãos no volante. O para-brisa não conseguia limpar a água suficientemente rápido. Havia uma criança chorando no banco traseiro.
Um cheiro de cabelo molhado ocupava o carro.
— Não para aqui — meu irmão dizia.
— Precisamos voltar.
— Não.
— Ela ficou lá.
Meu irmão bateu a mão no volante.
— Você prometeu que não ia deixá-la.
A criança parou de chorar.
Por um instante, ouvi uma mulher dizer alguma coisa no banco de trás.
Não consegui entender.
A lembrança acabou.
Minha mão continuava fechada sobre a camisa.
Os dedos estavam marcados pela costura.
Não sabia quem era a criança.
Não sabia quem era ela.
Não sabia onde tínhamos parado.
Só sabia que meu irmão não gostava de chuva.
Ele morreu dois anos atrás.
Pelo menos era isso que eu lembrava.
• • •
Naquela noite, a televisão ligou sozinha.
Não olhei.
Fiquei trabalhando na mesa da cozinha.
Às duas e quinze, a voz feminina voltou.
— Você não voltou amanhã.
Dessa vez, a voz masculina respondeu:
— Eu esqueci.
A televisão desligou.
Meu celular tocou.
Era minha ex-mulher.
— Você está em Matinhos?
— Estou.
Ela ficou em silêncio.
— Você encontrou o quarto?
Não respondi.
— Tadeu?
— Como você sabe?
— Você me disse.
— Quando?
Ela respirou devagar.
— Naquela noite.
— Que noite?
— A noite em que você voltou sem ele.
Minha mão apertou o celular até a borda entrar na pele.
— Meu irmão morreu.
— Eu sei.
— Então por que você fala como se ele estivesse comigo?
— Porque estava.
A ligação ficou muda.
— Você ligou para mim da estrada — continuou ela. — Disse que estava na BR-277. Chovia. Você não sabia onde estava.
— Eu não lembro.
— Você disse isso também.
— O quê?
— Que não lembrava.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você perguntou três vezes onde tinha deixado a criança.
Fechei os olhos.
— Que criança?
Ela não respondeu.
— O que eu deixei para trás?
Ela demorou.
— Você nunca me contou.
A ligação caiu.
• • •
Fiquei sentado durante alguns minutos.
Não conseguia sentir os dedos da mão direita.
Depois abri a gaveta da mesa e encontrei um recibo.
Não lembrava de tê-lo colocado ali.
Era de um posto na BR-277.
Data: 17 de setembro de 2021.
Horário: 02h18.
Combustível.
Pagamento em dinheiro.
No campo da placa estava a placa do meu carro.
Meu carro havia sido comprado em 2023.
Passei o polegar sobre os números.
A tinta da placa estava descascando exatamente no mesmo ponto que aparecia no recibo.
Levantei e fui até a janela.
O carro estava lá.
Toquei na placa.
Estava fria e molhada.
Voltei para dentro.
Peguei a fotografia que encontrara na carteira.
Havia alguma coisa atrás dela.
Uma anotação.
02h15. Não deixe ele dormir.
A tinta estava borrada nas últimas duas palavras.
A letra parecia minha.
Não parecia apenas.
Era a minha letra.
Reconheci o jeito de fazer o número 2, com a curva quase fechada.
Virei a fotografia.
Meu irmão continuava sorrindo.
Por algum motivo, comecei a raspar a unha sobre a borda do papel.
Uma vez.
Duas.
Até sentir a unha doer.
O prédio estava completamente silencioso.
Nenhuma televisão.
Nenhuma descarga.
Nenhum carro passando.
Só a chuva começando do lado de fora.
• • •
Então ouvi a cadeira arrastar no quarto.
Dessa vez entrei.
A janela estava aberta.
A cama continuava sem colchão.
Sobre a cadeira havia três moedas.
Um real.
Cinquenta centavos.
Vinte e cinco centavos.
E a chave do meu carro.
Aproximei-me.
A chave estava molhada.
Peguei.
O cheiro de terra subiu da palma da minha mão até a garganta.
Meu joelho cedeu.
Apoiei-me na cama vazia.
A chuva batia na janela aberta.
E então eu estava do lado de fora do carro.
Meu irmão estava diante de mim.
Não dentro.
Do lado de fora.
Chovia.
Ele segurava uma chave.
— Se eu voltar, você abre.
— E se não voltar?
Ele não respondeu.
Atrás dele havia uma porta.
Não era a porta de um posto.
Não era a porta de uma casa.
Era a porta daquele quarto.
A mesma cadeira.
A mesma janela.
A mesma parede úmida.
Meu irmão estava do outro lado.
Eu estava entrando.
A criança chorava.
O choro vinha cada vez mais baixo.
Alguém segurava meu braço.
Uma mulher.
Senti o cheiro de xampu infantil outra vez.
Ela disse:
— Não fecha.
Eu fechei.
Depois fui embora.
Abri os olhos.
A palma da mão estava enterrada no carpete.
O tecido havia deixado marcas nos dedos.
A chuva continuava.
O relógio do celular marcava 02h15.
Levantei.
Arrumei a mala.
Não levei a televisão.
Não levei a fotografia.
Peguei apenas o recibo e a camisa azul.
As moedas permaneceram na cadeira.
Antes de sair, olhei uma última vez para o quarto.
A janela estava fechada.
A cadeira estava vazia.
Fechei a porta.
• • •
No corredor, o vizinho estava parado diante do próprio apartamento.
— Vai embora?
— Vou.
Ele olhou para minha mala.
Depois para a porta do quarto.
— Desta vez você vai levá-lo?
Não respondi.
— Eu não tenho ninguém comigo.
O homem franziu a testa.
— Tem certeza?
Entrei no carro.
Saí de Matinhos pouco depois das oito.
Na BR-277, a chuva começou antes da Serra do Mar.
Não era forte.
Era aquela chuva fina que parece não molhar o vidro até você perceber que não enxerga mais a estrada.
Parei no primeiro posto.
Abasteci.
Quando entrei novamente no carro, havia uma moeda sobre o banco do passageiro.
Vinte e cinco centavos.
Não toquei.
Liguei o motor.
O relógio marcava 02h15.
Fiquei olhando.
Os números piscaram.
02h15.
02h15.
02h15.
Peguei o celular.
Havia uma mensagem da minha ex-mulher.
Você chegou em Curitiba?
Antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Era uma fotografia.
Meu carro estava estacionado naquele mesmo posto.
Eu estava no banco do motorista.
O banco do passageiro estava vazio.
Ampliei a imagem.
No reflexo do vidro aparecia o homem do apartamento ao lado.
Ele estava do lado de fora, segurando uma sacola de mercado.
Atrás dele havia uma porta.
A porta do quarto.
No verso da fotografia havia uma frase escrita à mão:
Você já deixou ele aqui três vezes.
Reconheci a letra.
A minha.
Olhei para o banco ao meu lado.
A moeda tinha desaparecido.
A porta do passageiro se abriu.
Ninguém entrou.
Mas o banco ficou molhado.
Fiquei olhando para a água escorrendo lentamente pelo tecido.
O vidro permanecia abaixado.
A chuva caía sobre o estacionamento.
Nenhum carro passava.
Por alguns segundos, não houve nada.
Então o banco começou a afundar devagar, como se alguém estivesse se sentando.
O tecido úmido cedeu sob um peso que eu não conseguia ver.
O cheiro de cabelo molhado tomou o carro.
Meu telefone vibrou.
Uma terceira fotografia.
Dessa vez, tirada de dentro do carro.
Eu estava ao volante.
Meu irmão estava no banco do passageiro.
Ele usava a camisa azul.
A mancha perto da gola estava ali.
E, entre nós dois, sobre o console, havia uma moeda de um real.
No canto inferior da fotografia, aparecia a data.
17 de setembro de 2026.
Olhei para o painel.
02h15.
Depois olhei para a estrada.
Do lado de fora, um homem atravessava lentamente o estacionamento.
Era meu vizinho.
Ele parou junto à porta do passageiro e bateu duas vezes no vidro.
Quando abaixei o vidro, ele perguntou:
— Por que você deixou seu irmão dormindo no quarto?
Olhei para o banco ao meu lado.
Estava vazio.
A marca de um corpo permanecia no tecido molhado.
O vizinho continuava olhando para mim.
Não parecia assustado.
Parecia cansado.
Como alguém que já tinha feito aquela pergunta muitas vezes.
Então ele olhou para o banco traseiro.
Eu não quis olhar.
Foi o silêncio dele que me fez virar.
O banco estava vazio.
Mas havia uma pequena marca de mão no vidro.
Cinco dedos.
Pequenos demais para serem de um adulto.
Fiquei olhando.
O vizinho abaixou os olhos.
— Desta vez ela veio junto — disse.
Não perguntei quem.
Não consegui.
Atrás de mim, alguma coisa respirou.
Depois veio um choro baixo.
Infantil.
Tão próximo que senti o ar quente tocar minha nuca.
O relógio do painel continuava marcando 02h15.
E, no banco do passageiro, uma moeda de um real começou a rolar sozinha em direção ao meu joelho.

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