Um conto do litoral paranaense
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos, meados de 2026
Heitor sabia que Matinhos, fora de temporada, era uma cidade que fingia estar morta. As casas de veraneio com placas de "aluga-se" desbotadas pelo sol, os quiosques fechados com tábuas cruzadas, o cheiro de maré baixa misturado ao esgoto que subia quando chovia forte. Entre junho e agosto, a cidade pertencia aos que ficavam: pescadores, aposentados, desempregados, gente que não tinha para onde ir.
Ele morava na Rua XV desde que nascera. Quarenta e três anos vendo a cidade encher e esvaziar como um pulmão cansado. Trabalhara na Sanepar, depois numa loja de materiais de construção que fechou, depois como vigia de um condomínio que nunca terminaram de construir. Agora pintava muros e consertava cercas. Era o bastante para pagar o aluguel de uma casa de dois quartos que cheirava a mofo e maresia. Só a irmã, Marlene, que morava em Curitiba, se lembrava dele com regularidade: ligava aos domingos à noite, e ele nem sempre atendia.
Naquela noite de terça-feira, em junho, a chuva parou por volta das três da manhã. Heitor voltava do Ponto Certo, o único bar aberto na Avenida Atlântica depois da meia-noite, com a camisa de flanela xadrez que usava desde o inverno passado — a única que ainda aguentava a madrugada. O remendo na manga direita, costurado por ele mesmo, era torto. Tinha bebido o suficiente para sentir o mundo um pouco mais devagar, mas não o suficiente para não perceber o som.
O orelhão da Rua Antonina estava tocando.
Ele parou. A rua estava deserta. O ar da madrugada saía da sua boca em vapor, e as mãos, dormentes de frio, já quase não sentiam os bolsos. O aparelho ficava num poste de concreto, com a cabine rachada em dois lugares e o fone pendurado pelo fio. Heitor conhecia aquele orelhão desde que fora instalado, no fim dos anos noventa, quando o celular ainda era coisa de rico. Conhecia também o dia em que a companhia removeu todos os de Matinhos, em 2016. Vira os caminhões, os homens desparafusando os aparelhos, deixando só os tocos de concreto e as marcas na parede.
Mas ali estava. A cabine amarelada, coberta por uma crosta de lodo seco, com cracas minúsculas grudadas no acrílico. Cheirava a fundo de rio. E estava tocando.
O som era estranho. Não o toque agudo dos telefones modernos, e sim algo grave e antigo, um sino abafado por panos. Heitor ficou parado talvez trinta segundos, ouvindo. Depois se aproximou. Não havia motivo para atender. Não havia linha naquele poste, pelo que sabia.
Ele atendeu. O fone estava gelado e úmido, como tudo o mais.
— Alô?
Silêncio. Depois, uma voz de mulher. Baixa, calma, como quem fala com uma criança para não assustá-la.
— Você já encontrou o homem que desapareceu no rio?
O couro cabeludo de Heitor repuxou. Não foi a pergunta, foi a voz. Havia nela um jeito de fechar as frases que ele quase reconhecia, e não conseguia localizar de onde.
Só então percebeu que o vapor da própria respiração tinha sumido. Não soube desde quando.
— Quem está falando?
— Você já encontrou?
— Olha, senhora, a senhora ligou errado. Aqui é um orelhão.
— Eu sei.
Ele esperou. A voz não disse mais nada. Ouviu um clique e a linha ficou muda.
Heitor colocou o fone de volta no gancho. O visor estava apagado. O acrílico da cabine estava frio, úmido da chuva. Mas o gancho, quando seus dedos o tocaram, estava seco. E quente. Um calor de mão, que subiu pelos dedos dormentes e doeu.
Ele não pensou nisso na hora. Só em casa, já deitado, a mão lembrou sozinha: o gancho seco, o gancho quente, como se alguém tivesse acabado de usá-lo.
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Tinha sete anos quando ouviu pela primeira vez.
Estava com a mãe na margem do Rio da Onça, num domingo de chuva. Ela segurava sua mão com força. As poças no chão de terra refletiam um céu cinza, e o rio corria alto, marrom e barulhento.
Foi então que ele ouviu. Um som que não era sapo, nem pássaro, nem carro. Um toque grave e abafado, como um sino debaixo d'água, vindo do outro lado, perto dos juncos. Heitor virou o rosto por um instante. Um instante só, e a mãe apertou sua mão com tanta força que doeu.
— Não olha.
Ela mesma olhava os próprios pés, a lama nos chinelos, como se o rio não estivesse ali.
À noite, na cama, perguntou o que era. Ela demorou a responder.
— É o rio chamando.
— Chamando quem?
— Quem ele quer.
Três semanas depois, a mãe morreu. Disseram a Heitor que ela tinha ido embora de repente, e ele cresceu com essa frase sem nunca examiná-la. O sino ficou num canto da memória, junto com as coisas de infância que a gente guarda sem saber por quê.
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Na manhã seguinte, ele foi à biblioteca municipal. Não porque acreditasse em alguma coisa, mas porque não conseguia parar de pensar na voz. No jeito como ela dissera eu sei.
A biblioteca era pequena, mal iluminada, cheirava a papel velho e umidade. Dona Cida, a funcionária, olhou-o com desconfiança quando ele entrou.
— Precisa de alguma coisa, Heitor?
— Quero ver se tem algo sobre o Rio da Onça. Coisa antiga.
Ela apontou para uma estante no fundo. Heitor passou a manhã entre pastas empoeiradas, recortes amarelados, anotações de algum historiador amador morto há décadas. Numa delas, achou uma folha de papel almaço com o título escrito à mão: A Lenda do Rio da Onça.
Dizem os antigos que, em noites de chuva forte, ouve-se um chamado nas margens do Rio da Onça. Já foi sino, já foi apito de barco; hoje dizem que é um telefone. O som muda com a época, mas o rio é sempre o mesmo. Quem ouve não deve olhar para onde ele vem. Alguns dizem que é o espírito de um homem que se afogou. Outros dizem que é uma dívida.
Não havia data. Grampeado atrás da folha, havia um recorte de jornal.
Gazeta do Litoral, julho de 1990. MULHER DESAPARECE NO RIO DA ONÇA. Neusa Moraes, 31 anos, saiu de casa na noite de domingo e não voltou. O filho, de sete anos, foi encontrado horas depois sozinho na margem, com a roupa seca apesar da chuva. Aos bombeiros, repetiu que a mãe "foi atender". Não havia telefone num raio de dois quilômetros.
Heitor leu três vezes. Roupa seca. Foi atender. Não se lembrava de nada daquilo.
Quando devolveu a pasta, Dona Cida olhou para o recorte grampeado e depois para outro lado. Não perguntou nada.
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Naquela noite, ele voltou ao orelhão.
Não era vontade. Os pés foram sozinhos. A chuva tinha voltado, forte e pesada. Ele caminhou pela Rua Antonina com a água batendo no rosto e a luz do poste piscando, amarelada.
O orelhão estava lá. E estava tocando.
Ele atendeu.
— Heitor.
A voz era a mesma. Mas agora dizia o nome dele.
Um gosto amargo subiu-lhe pela garganta, e ele teve que engolir.
— Quem é você?
— Você já encontrou o homem que desapareceu no rio?
— Que homem? Do que você está falando?
Silêncio. Depois:
— O rio não gosta de ficar devendo.
Heitor fechou os olhos. Aquele jeito de fechar as frases. Ele já o ouvira, muito tempo atrás, e tinha medo de descobrir onde.
— O que você quer de mim?
— Você já encontrou?
— Não sei o que você quer que eu encontre.
— Você sabe. Só esqueceu.
Ela desligou.
Ele ficou parado no meio da rua. Depois começou a andar. Não para casa. Para a casa de Dona Cida.
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Ela morava numa casa simples na Rua Guaratuba, a poucas quadras da praia. Abriu a porta de chinelos e robe florido, e não pareceu surpresa.
— Sabia que você ia aparecer. Entra.
A sala era pequena, cheia de santos e retratos de família. Dona Cida desligou o rádio que murmurava baixo na cozinha. Puxou a cortina da janela que dava para a rua, sem olhar para fora. Só depois serviu um café forte e sentou-se na poltrona, de costas para o vidro.
— Você atendeu o telefone.
Não era pergunta.
— A senhora sabe do que eu estou falando.
— Todo mundo aqui sabe. Só não fala.
— Por quê?
— Porque falar atrai.
Heitor esperou mais. Ela apertava a xícara com as duas mãos e olhava o fundo do café.
— Não atende mais, Heitor.
— Por quê?
— Porque já atenderam por você.
Ela ficou sentada. Não se levantou, não abriu a porta, não disse boa noite. Apenas parou de responder. Heitor esperou um pouco. Depois se levantou e saiu sozinho. Já na rua, ouviu o rádio ser ligado de novo, mais alto.
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Na terceira noite, ficou em casa, com todas as luzes acesas. Antes das dez, ligou para Marlene.
Ela atendeu no terceiro toque, assustada.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Quer dizer... a mãe. Como foi que ela morreu?
O silêncio do outro lado durou tanto que ele pensou que a ligação tinha caído.
— Por que agora?
— Marlene.
— Ela me fez jurar, Heitor. Você tinha sete anos, eu tinha treze. Disse que se a gente não falasse, o rio esquecia de você.
— O rio?
— Domingo eu ligo, como sempre. Vai dormir.
Ela desligou antes que ele pudesse insistir.
Às três da manhã, o telefone fixo da sala começou a tocar. Um aparelho que ele não usava havia anos e nunca se dera ao trabalho de mandar desligar. Não era o toque de sempre. Era o sino, o mesmo de quando ele tinha sete anos, subindo do aparelho como se viesse de muito fundo. A lâmpada da sala vacilou, e um cheiro de lodo e água parada encheu o cômodo.
Ele deixou tocar. Seis vezes. Sete. Oito. Depois parou.
Heitor olhou para o teto até o dia clarear.
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Na quarta noite, uma sexta-feira, voltou ao orelhão.
A chuva tinha parado. O céu estava limpo, cheio de estrelas que a cidade não conseguia ofuscar. O frio cortava. Ele caminhou pela Rua Antonina com as pernas pesadas.
O orelhão estava lá, com o lodo seco e as cracas. E estava tocando.
Ele atendeu.
— Heitor.
— Estou aqui.
— Ele espera desde 1990.
Heitor não respondeu. O fone pesava na sua mão.
— Basta olhar — disse a voz.
Devagar, ele devolveu o fone ao gancho. O orelhão ficou em silêncio. Deu um passo para trás. Depois outro. Depois percebeu que o telefone tocava de novo.
E que ele ainda segurava o fone.
Olhou para a própria mão. O fone estava ali, mudo. O cabo que ligava o aparelho à rede estava cortado havia muito tempo: as pontas enferrujadas, os fios desencapados. O gancho estava no lugar. Nada se movia.
Mas o toque continuava. Vinha de longe. Do outro lado do rio.
Heitor começou a andar. Não sabia para onde, só sabia que era para lá. Quando deu por si, estava na ponte. A água corria escura lá embaixo e, na outra margem, entre os juncos, havia uma luz fraca e vacilante. Um telefone antigo, com o fone brilhando no escuro.
Ao lado da luz, um homem. De costas, o fone colado ao ouvido. Camisa de flanela xadrez. E na manga direita, um remendo torto.
Heitor olhou para a própria manga. E lembrou.
Sete anos, a mão da mãe na sua. Ele virara o rosto por um segundo antes de ela lhe apertar a mão. E vira aquilo: os juncos, a luz, um homem de costas com um telefone no ouvido, e uma manga remendada. Vira, e a mãe percebera. Depois esquecera. Ou fora feito esquecer.
O homem começou a virar o rosto. Devagar: primeiro o ombro, depois a linha do queixo.
— Não olha.
A voz veio de trás, colada ao ouvido. Uma mão pequena fechou-se sobre a sua, com a mesma força de um domingo de chuva trinta e seis anos antes. Puxava para trás, para longe do parapeito, e tremia.
Heitor fechou os olhos.
No bolso, o celular acendeu e começou a tocar. Ele sabia o nome sem precisar ver. Marlene. Era madrugada de sábado. Marlene só ligava aos domingos.
O toque encheu a ponte. Ele não atendeu. Ficou de olhos fechados, sentindo o cheiro de lama e maré, e a mão da mãe apertando a sua. Seca e quente, como um gancho que alguém acabara de largar.
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