A casa do lote 14
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Marcos Lustosa tinha cinquenta e três anos e consertava ar-condicionado. Não era o dono da empresa; era o que ia de Fiorino branca com a lateral amassada na altura da porta do passageiro, um joelho esquerdo que estalava ao subir escadas e o hábito de guardar parafusos no bolso da bermuda. Separado há quatro anos. O filho, Rafael, morto há dois. Não foi doença longa. Foi uma curva na BR-277, entre São José dos Pinhais e Morretes, num sábado de janeiro, voltando da praia. Marcos deveria ter buscado o menino na rodoviária de Paranaguá. Fechou um serviço extra em Matinhos. Pagava melhor, em dinheiro vivo: instalação de dois splits num sobrado no Solymar. Disse ao Rafael para pegar o ônibus da Graciosa até Curitiba e que depois o buscava. O ônibus atrasou três horas. Rafael pegou carona num Gol cinza.
O irmão de Marcos, Jurandir, morreu em março, de infarto ao descarregar cimento. Deixou para ele uma casa no Balneário Solymar, lote 14 da Rua das Canoas. Dois andares de reboco aparente na lateral, laje batida. Marcos precisava vender. A corretora marcou visita para quinta-feira e pediu que limpasse tudo. Ele foi numa terça-feira no fim de maio. Levou rodo, saco de lixo grande, extensão e a caixa de ferramentas de sempre.
A casa estava fechada desde o Carnaval. Quando girou a chave no portão lateral, sentiu o bafo quente sair pelas frestas do basculante. Abriu a porta da frente e o zumbido veio. Todos os aparelhos de ar-condicionado estavam ligados. Dois embaixo, um em cima, todos em dezoito graus, ventilando no máximo. Calculou uns seiscentos reais de luz jogados fora só naquele mês. Foi até o quadro de luz no corredor e baixou a chave geral. O silêncio que ficou foi maior que o barulho dos aparelhos. Maior que a rua vazia de baixa temporada.
Começou pela cozinha. Copos com crosta de café seco na pia, uma caixa de fósforos inchada de umidade. No banheiro do térreo, a toalha estava estendida no box. Úmida. Cheirando forte a protetor solar — aquele de coco barato que gruda no nariz e na garganta. Isso o irritou mais que o ar ligado. A casa estava fechada havia três meses. Toalha fechada mofa, fica preta, não fica úmida. Jogou a toalha no tanque de cimento da área de serviço, por cima de um balde virado. Pensou em moleque pulando muro para dormir, coisa comum fora de temporada.
No cômodo que Jurandir chamava de quarto de hóspedes, mas que era depósito de colchão dobrado e caixa de papelão com rolo de fio, havia uma risca na parede. Feita a lápis, firme, com data e nome ao lado: 12/01/24. Rafa. 1,58 m. A letra era do filho. Rafael tinha mania de medir a altura nas paredes das casas onde ficava, desde pequeno. Marcava com lápis de pedreiro que pegava do pai e anotava a data. Marcos passou o dedo sobre a risca. O grafite esfarelou um pouco, sujou a ponta do dedo. Ficou olhando para aquele pó preto, como se fosse fuligem. Rafael nunca tinha entrado naquela casa. Jurandir e Marcos estavam brigados no último ano de vida do menino por causa de um dinheiro emprestado que Jurandir não devolveu. O filho nunca conhecera o lote 14. Marcos não disse nada. Pegou a trena da caixa de ferramentas para medir o quarto para o anúncio da corretora e, sem querer, encostou a trena na parede, na mesma altura da risca. Anotou a medida no caderninho e seguiu em frente.
Deixou para resolver depois. Precisava ver o dreno do ar da sala, que pingava no reboco. O parafuso do dreno estava espanado; a chave Philips amarela não pegava. Procurou a chave no bolso da bermuda. Não estava. Lembrou-se de tê-la deixado em cima da geladeira quando chegou, ao lado da conta de luz antiga. Voltou até a cozinha e lá estava ela, deitada exatamente sobre o canto da geladeira, onde a deixara. A fita isolante preta enrolada no cabo para não escorregar da mão suada. Guardou-a no bolso.
Precisava de uma chave de fenda maior. Foi até a pilha de caixas no canto do quarto de hóspedes, onde Jurandir guardava ferramentas velhas, e puxou uma caixa de frete que estava em cima. A caixa rasgou, caiu de lado e espalhou no chão um caderno de capa dura, daqueles de anotar entregas, com folhas amareladas. Não foi um achado, foi um acidente, como tudo que acontece em casa de pedreiro. Abriu numa página de janeiro de 2024. A letra de Jurandir, grande e torta: 12/01 – buscar Rafa rodoviária PGuá – Marcos não pôde – trazer pro lote 14 esperar. Embaixo, outra anotação, com caneta diferente: 14:30 – deixei Rafa na casa – fui pro porto buscar peça – ele disse que ia de carona encontrar o pai em CWB – Gol cinza.
Marcos ficou com o caderno na mão, parado. Jurandir tinha buscado o filho. Tinha trazido o filho para aquela casa. O filho fizera a risca na parede naquele dia, enquanto esperava. Depois pegara a carona.
Subiu para o andar de cima. O quarto principal tinha uma cama de casal com colchão nu, só um lençol amassado no meio, como se alguém tivesse dormido ali e levantado com pressa. Havia areia no chão. Não era sujeira acumulada; era uma trilha fina, de pés descalços, vindo da porta e parando no meio do quarto, em frente ao criado-mudo. Grãos grossos, de praia, ainda úmidos, marcando o taco de madeira barato. No criado-mudo, uma foto polaroid. Não era de Jurandir. Era de Rafael, de costas, na praia, com a camiseta do Atlético que usava para dormir. A foto estava desbotada, com bordas amareladas de sol, mas era o filho: a nuca queimada, o ombro magro, o cabelo com sal. Atrás dele, desfocada, dava para ver parte da rua de areia do Solymar e um pedaço da Fiorino branca.
O celular vibrou no bolso. Era uma ligação. Número com DDD 41, mas desconhecido. Atendeu. Uma mulher com voz cansada e chiado de rádio ao fundo — aquele chiado que se mistura com anúncio de ônibus para Morretes e Antonina — disse: — Rodoviária de Paranaguá. O ônibus do seu filho está com três horas de atraso. Ele está aqui no guichê perguntando se o senhor ainda vai buscar. Marcos ficou com a boca seca. Tentou responder o nome do filho, mas a ligação caiu. Olhou para o histórico. A chamada estava lá. Recebida às 11h42, duração de 00:14, identificada como Rodoviária Paranaguá. Tentou retornar. Caixa-postal cheia.
Desceu as escadas devagar, segurando no corrimão de ferro frio. Foi até o quadro de luz. A chave geral estava ligada de novo. Tinha certeza de tê-la desligado; sentira o peso da alavanca. Desligou outra vez, com força, até ouvir o clique. Quando voltou para a sala, o zumbido retornou. Os três aparelhos ligados, em dezoito graus. No tanque da área de serviço, a toalha que tinha jogado estava de novo estendida no box do banheiro do térreo. Úmida. Cheirando a protetor solar. E ao lado da toalha, em cima do tanque, havia outra chave Philips amarela. Igual à dele. Mesma fita isolante preta enrolada, mesma ponta gasta de tanto forçar parafuso espanado. Colocou a mão no bolso da bermuda. A dele estava lá, quente. Pegou a do tanque. Estava fria e úmida, com um grão de areia grossa grudado na fita.
Enfiou a segunda chave, a úmida, no outro bolso e subiu. No quarto principal, a trilha de areia agora ia e voltava. Duas trilhas sobrepostas: uma mais clara, já seca, e outra fresca, escura. A polaroid não estava mais no criado-mudo. Estava em cima do travesseiro, com o lençol amassado por baixo. E agora Rafael não estava de costas. Estava de frente, mas cortado pela borda da foto, como quem errou o enquadramento na pressa. Dava para ver a camiseta do Atlético e, atrás dele, a parede do quarto de hóspedes, com a risca de lápis. Atrás da foto, com a mesma letra do filho, estava escrito: Pai, me espera aqui? E embaixo, o número antigo de Marcos, o que usava em 2024, antes de trocar de operadora.
Marcos colocou a foto no bolso, junto com os parafusos que tilintaram. Só então olhou para o caderninho da corretora onde anotara as medidas. Tinha escrito 1,58 m para o quarto de hóspedes. O quarto tinha mais de três metros. A trena, que deixara em cima da caixa, ainda estava travada em 1,58 m. O ar-condicionado do quarto fez um estalo seco e começou a emitir um barulho metálico, ritmado, como se algo estivesse preso na turbina, batendo. Um rangido que acompanhava a respiração. Puxou a escada de alumínio que Jurandir deixava no corredor e abriu a tampa do split. Usou a chave Philips amarela, a dele, a seca. Quando tirou o filtro, o cheiro de maresia ficou mais forte, como se o aparelho tivesse puxado ar da praia para dentro. Enrolada no filtro, entalada na hélice, havia uma camiseta. A do Atlético, a mesma da foto: úmida, pesada, pingando água escura no chão de taco. Não cabia ali dentro. Não tinha como ter entrado sem desmontar o aparelho inteiro. Puxou. A água sujou o chão e o cheiro de protetor subiu. No bolso da frente da camiseta, havia algo duro e dobrado.
Era um comprovante de pedágio da BR-277, da praça de São José dos Pinhais: data 12/01/24, horário 15h08, categoria automóvel. O comprovante original ele guardava na carteira até hoje, porque fora a última vez que fizera aquela estrada antes do acidente, e o guardara por culpa. Este era outro, idêntico, mas com uma segunda via grampeada atrás, com um carimbo roxo onde se lia: ATRASO – JUSTIFICADO. E colada com fita amarela por cima do carimbo, havia uma foto polaroid. Nessa polaroid, a casa do lote 14 aparecia inteira, vista da rua, num dia de sol forte de janeiro, meio-dia, sombra curta. Na frente da casa, de mãos dadas, estavam Jurandir e Rafael, descalços, de bermuda. A foto tinha a luz estourada de verão. Na janela do segundo andar, no quarto principal, dava para ver Marcos. Estava dentro da casa, olhando para fora, com a mão na maçaneta da janela. Estava de costas para a luz, por isso o rosto não aparecia, mas era ele: a bermuda de trabalho, a Fiorino branca estacionada na rua com a lateral amassada exatamente igual. A foto tinha sido tirada de fora para dentro, mas ele não se lembrava de ninguém tê-la tirado. O fotógrafo estava na rua, e ele já estava dentro.
A chave geral caiu sozinha com um estalo seco e tudo ficou escuro, exceto pelo gotejar da camiseta no balde que colocara embaixo. Marcos ficou parado no escuro, respirando o frio que ainda saía do aparelho mesmo desligado. Guardou a camiseta na caixa de ferramentas. Não a dobrou. Apenas a enfiou, molhada, por cima das ferramentas, e a caixa ficou mais pesada. Pegou a escada e desceu. Na cozinha, algo tinha mudado. Os copos que estavam na pia com crosta de café estavam lavados e virados de boca para baixo no escorredor. A caixa de fósforos inchada tinha sumido. A toalha estava dobrada em cima da mesa, seca, por cima da conta de luz antiga. A casa terminara o serviço que ele viera fazer.
Saiu da casa. Trancou a porta da frente com a chave que Jurandir deixava num prego atrás da porta. Trancou o portão lateral com o cadeado novo. Entrou na Fiorino, jogou a caixa molhada no banco do passageiro. Ligou o motor. O ar-condicionado do carro, quebrado havia oito meses — que ele nunca consertava porque era o carro de serviço e não o de cliente —, gelou forte, em dezoito graus. O mesmo zumbido dos splits da casa. Girou o botão para desligar. Não desligou. Bateu no painel com a palma da mão, como fazia com aparelho de cliente teimoso. O zumbido permaneceu.
Dirigiu até a estrada que liga o Solymar à BR-277. No trevo, parou no acostamento de saibro. Pegou o celular e ligou para o número que estava atrás da primeira polaroid. O número antigo dele. Uma voz atendeu. Era a voz dele mesmo, de dois anos atrás, mais cansada, com barulho de compressor de ar ao fundo, de oficina, dizendo: — Alô, quem fala? Desligou na cara, na hora. Ficou olhando para a tela. O histórico marcou a ligação como efetuada às 15h08, duração de 00:14. Não se lembrava de ter falado quatorze segundos. Não se lembrava de ter falado nada. Igual à ligação da rodoviária. Recebida às 11h42, 00:14. Efetuada às 15h08, 00:14. O tempo da casa tinha sempre quatorze segundos a mais.
Voltou para a casa do lote 14. Quando abriu o portão lateral, viu que a luz do segundo andar estava acesa, amarela e forte, mesmo com a chave geral desligada e a casa trancada por fora. Na poeira grossa do vidro da janela do quarto principal, por dentro, alguém passara o dedo e desenhara uma nova risca, na altura dele. A risca fora feita com a ponta da chave, espetada de dentro para fora através do vidro fino, como um prego, ainda pingando água preta de limo no reboco.
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