Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A primeira vez que Marcelo viu a placa foi em 17 de setembro de 2025.
Chovia desde Curitiba. Uma chuva fina que engrossava na serra, deixava o asfalto escuro e trazia o cheiro de mato molhado misturado à névoa que subia do vale. Marcelo dirigia sozinho pela BR-277, sentido Morretes, pasta de documentos no banco do passageiro, rádio desligado. O contrato do dia seguinte.
Às 21h52, a primeira mensagem de Renata:
— Você vem me encontrar?
Leu no semáforo. Não respondeu.
Às 22h04:
— Estou na estrada.
Guardou o celular.
Às 22h17:
— Acho que errei a saída.
Respondeu:
— Estou indo.
Mentira.
Às 22h18, a placa.
MORRETES — 18 km
A curva longa, a ponte estreita, o posto fechado. Conhecia de cor.
Às 22h31, o caminhão no acostamento, pisca-alerta. Motorista fora da cabine, capa transparente, lanterna na mão esquerda, inclinado sobre o pneu.
Marcelo reduziu. Baixou o vidro.
— Problema?
— Pneu. Tem posto por aqui?
— Um antigo. Mais adiante. Não sei se funciona.
Aceno curto. Voltou à estrada.
O celular tocou quase um minuto depois.
— Onde você está?
Voz abafada pela chuva.
— Na estrada.
— Você vem?
22h32.
— Estou indo.
Silêncio.
— Não pega a estrada velha.
— Qual estrada velha?
A ligação caiu. Sem sinal.
Às 22h34, as luzes de emergência. O carro de Renata. Ela do lado de fora, mão levantada.
Tirou o pé do acelerador. Chegou a tocar o freio. Ela deu um passo.
Olhou a pasta. Pensou no contrato. Pensou na frase dela: “Você sempre esquece o guarda-chuva.”
Acelerou.
No retrovisor, ela ficou imóvel sob a água.
Não voltou.
No dia seguinte, respondeu:
— Em casa.
E repetiu durante quase um ano.
— ❖ —
Em 17 de setembro de 2026, acordou antes das seis. A chuva batia na janela com o mesmo ritmo. Um ano. Preparou café, abriu a planilha, leu a mesma linha três vezes.
À tarde, abriu a caixa.
Fotografias. Documentos. Chaves. O celular antigo.
Entre as fotos, um panfleto dobrado de um apartamento em Antonina — “vista para o mar, duas suítes”. E um par de alianças simples, ainda na caixinha.
Colocou o celular para carregar. Espalhou o resto.
Renata diante do mar, cabelo molhado. Os dois num restaurante, a mão dela sobre a dele. Uma estrada molhada fotografada de dentro do carro. Ao fundo, a placa.
MORRETES — 18 km
Largou a fotografia. O cheiro de menta e cigarro veio sem aviso.
O celular acendeu. Mensagens. 21h52. 22h04. 22h17. Sua resposta não estava mais lá. Apenas o espaço vazio. E, no final, uma mensagem que ele não lembrava de ter visto:
21h52 — Você vem me encontrar?
22h04 — Estou na estrada.
22h17 — Acho que errei a saída.
22h33 — Não devia ter voltado.
Fechou o aparelho. Ficou olhando a parede. Depois, às 19h50, pegou as chaves.
O cheiro de mato molhado outra vez. A névoa baixa. A serra.
Às 22h11, o sinal caiu.
Olhou o relógio. 22h17. A placa às 22h18. A mesma. O mesmo poste. A mesma deformação no canto.
Passou devagar. A curva. Depois a ponte. Entre um e outro, o tempo alongou-se, os minutos demorando a cair. 22h27 na ponte.
Às 22h31, o caminhão. O mesmo lugar. O motorista não estava trocando o pneu. Estava parado, capa transparente, lanterna apagada, olhando a estrada.
Não parou. Passou lento. No retrovisor, o homem o acompanhou com os olhos. A mão que segurava a lanterna era a direita.
Medo. Não do homem. Da correção.
Às 22h32, o telefone vibrou.
Chamada perdida: Renata.
Freou. A notificação sumiu. Sem sinal.
Ficou parado. Depois seguiu.
Às 22h34, as luzes. O carro dela. Porta aberta.
Parou alguns metros adiante. A chuva no para-brisa. Ela não se mexia.
Abriu a porta. Desceu. O asfalto tremeu sob os pés. Gosto metálico na boca. A pasta, atrás, pesava demais. Engoliu com dificuldade.
— Renata?
Só a chuva.
Caminhou até o carro. Ficou diante do interior molhado. A garrafa amassada no banco do passageiro. A marca que ela comprava. Tocou. Fria. No para-brisa, do lado do motorista, a marca antiga de batom. No volante, o lugar onde os polegares dela apertavam.
A memória veio inteira: o cheiro de menta e cigarro quando ela tinha pressa, o hábito de morder o lábio inferior antes de falar algo difícil, a voz baixa dizendo “Você sempre esquece o guarda-chuva.”
O motor pesado atrás. O caminhão parou. O motorista desceu. Limpou a lente da lanterna com o dedo. Ficou em silêncio, olhando o carro dela.
— O senhor voltou.
Marcelo não respondeu.
— Estava aqui no ano passado?
O homem continuou olhando o carro.
— Estava.
— Viu minha mulher?
— Vi.
Silêncio.
— Ela estava esperando.
— Por mim?
O homem ergueu os olhos. A lanterna iluminava metade do rosto.
— O senhor ainda está vindo.
Marcelo engoliu. O gosto voltou.
— Eu passei por ela.
O caminhoneiro não disse nada. Seguiu para a cabine. Marcelo chamou:
— Quando ela morreu?
Demora.
— Depois que o senhor foi embora.
O caminhão partiu.
Marcelo ficou só. A porta do carro dela ainda aberta.
Às 22h47, voltou ao próprio carro. A pasta no banco. A mesma. Abriu. Os documentos do contrato estavam lá, mas agora cada página trazia, no canto inferior, uma assinatura fina que ele reconheceu como a dela. Por baixo de tudo, a folha dobrada. Sua letra — só que mais trêmula, como de alguém mais velho.
NÃO PARE.
Uma pequena mancha de umidade no canto. Dobrou. Guardou. 22h49.
A pasta pesava.
Seguiu.
23h03 na ponte. 23h11 o sinal voltou. Nada no telefone.
No retrovisor, dois faróis. Carro antigo. Acelerou. O outro acelerou. Diminuiu. O outro acompanhou. Na curva, desapareceu.
À frente, a placa.
MORRETES — 17 km
Freou. Parou. 23h18. Tinha passado ali menos de uma hora antes.
Desceu. Passou os dedos pela deformação. Fria. Real. A estrada de terra atrás. Não entrou.
Voltou. Três batidas no vidro do passageiro. Uma. Duas. Três.
Não olhou.
O telefone tocou. Renata. Deixou tocar. Parou. Tocou de novo.
A voz de fora, baixa:
— Você sempre esquece o guarda-chuva.
Fechou os olhos. Não sabia de onde vinha. O telefone calou.
Abriu os olhos.
Mancha de água no banco. Ao lado, a fotografia. Agora, ao fundo, seu próprio carro parado. E ela ao lado.
No verso:
17/09/2025 — 22h34
Você passou por mim.
A fotografia caiu.
Ligou o motor. Engatou a primeira. Seguiu.
A fotografia virada para cima. A estrada para trás.
Alguns quilômetros adiante, as luzes de emergência.
Um carro no acostamento. Sem chuva.
Uma mulher de pé ao lado.
A mão esquerda.
A blusa.
O rosto.
Freou.
O painel marcava 22h34.
Ela não se mexia.
As mãos no volante.
A pasta ao lado.
A fotografia no chão.
O gosto metálico na boca.
Nenhum comentário:
Postar um comentário