O zelador que contava as cadeiras
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Nei abria o cadeado do portão lateral da escola municipal às cinco e quarenta da manhã. Acendia as lâmpadas frias do corredor na ordem que só ele sabia, uma por uma, e varria o pátio ainda coberto de folhas de amendoeira. Conhecia o peso da vassoura de piaçava, o rangido da porta da secretaria que precisava ser levantada para fechar e o cheiro de desinfetante barato com areia fina que nunca saía do piso. Morava sozinho num sobrado pequeno na segunda rua depois da Avenida Juscelino Kubitschek — não a rua da praia, a de trás, onde o vento Tordesilhas entrava de sudeste e deixava os cadeados novos ásperos de ferrugem em uma semana. Tinha cinquenta e três anos, separado havia oito. A filha, Lina, tinha morrido aos seis na Barra do Saí. Foi num dia de verão em que ele disse que ficaria de olho, mas ficou no celular respondendo sobre a falta de giz.
Quando a mãe morreu, em fevereiro, deixou para ele a casa do Tabuleiro, uma construção de madeira com dois cômodos de alvenaria nos fundos. Ele não entrava ali havia quinze anos. A irmã, morando em Curitiba, disse que não queria nada. Nei pediu duas semanas de licença-prêmio à diretora. Queria uma tarefa que começasse e terminasse, diferente da lista de chamada que nunca fechava. Levou uma lata de tinta branca que sobrara da reforma da escola, um molho de chaves num arame e a camiseta cinza da escola, a única que não estava rasgada na gola. Deixara-a pendurada no banheiro do sobrado para secar, pingando no azulejo.
Na primeira manhã, a rua do Tabuleiro estava vazia. Uma vizinha antiga varria a calçada em frente, de chinelos de borracha e vassoura de palha, fazendo aquele chiado arrastado no cimento. Olhou para ele e acenou com a cabeça, sem falar, como quem reconhece alguém que sumira. A casa cheirava a mofo e sabão de coco. A mãe deixara as cortinas dobradas, os copos virados sobre um pano de prato e, na gaveta da cozinha, um grampo de cabelo preto e um caderno de capa dura com contas de luz anotadas à mão, com letra pequena e firme. Na sala, a cadeira de balanço de imbuia, quase preta de verniz, estava com o assento de palha gasto no centro. O pai tinha feito a cadeira quando Nei era adolescente, para a mãe esperá-lo chegar tarde da rua. A palha tinha a depressão exata do peso dela, um corpo magro que marcou o mesmo lugar por anos — esperando novela, esperando filho, esperando. Nei passou a mão no braço da cadeira e sentiu a madeira morna, apesar do dia encoberto.
Trabalhou arrancando limo do banheiro e lixando portas. Perto das quatro horas, o céu fechou. Foi até o mercadinho da esquina comprar pão e um refrigerante Fabiane de abacaxi — de garrafa PET de dois litros, amarelo-forte, um doce que arde e que a mãe deixava na geladeira mesmo sem visita. Trancou a porta da frente, que emperrava, e a dos fundos, com trinco por dentro. Voltou vinte minutos depois, com a chuva fina começando. A cadeira não estava mais na sala. Estava na cozinha, de frente para a pia de cimento, como se alguém tivesse se sentado para esperar a louça ser lavada. A garrafa de Fabiane suava em sua mão. A porta dos fundos continuava trancada por dentro, na mesma posição. Riu curto. Coisa de cabeça cansada. Na escola, ele às vezes varria a mesma sala duas vezes. Arrastou a cadeira de volta para a sala. O arrasto fez um risco claro na poeira fina. Era a primeira vez que a casa tinha uma marca dele.
Dormiu lá num colchão fino do Corsa, com lençol e um rádio de pilha da secretaria. Acordou de madrugada com frio e com a telha de fibrocimento estalando com a chuva. A cadeira estava onde deixara. Mas o risco na poeira tinha sido apagado — não borrado por passos, mas apagado com a palma da mão, com cuidado. No lugar do risco, havia uma poça pequena de água escura, do tamanho de uma tampa de garrafa; o telhado não tinha goteira naquele ponto. Tocou com a ponta do dedo. Fria. Acendeu a lanterna do celular e ficou de joelhos olhando. Pensou que tinha sido ele, sonâmbulo. Apagou a luz. O cheiro de protetor solar barato veio fraco e sumiu.
No segundo dia, o vento Tordesilhas apertou. A tinta da sala não secou, ficou pegajosa, cheia de bolhas. Ligou o rádio para abafar o estalo da madeira. Sintonizou sem querer a Litoral Sul e deixou chiando entre duas estações — um chiado puro, sem música, como quem procura uma estação que não existe mais. Quando passou com a lata de tinta, viu que a palha da cadeira estava úmida no centro, mais escura, fria ao toque. Esfregou os dedos e eles secaram na hora, mas o cheiro ficou: protetor solar e água de rio barrenta, o mesmo cheiro da Barra do Saí quando a maré baixa mexe o fundo. Lavou as mãos no banheiro com sabão em barra. Quando voltou, a palha estava seca e empoeirada de novo. A poça do dia anterior não estava mais lá. No lugar, havia um círculo de areia preta e fina, de rio, ainda úmido ao redor, como resíduo.
Precisava pegar o ônibus da AMAT das dezesseis e trinta e dois para a prefeitura. Atrasou-se. A irmã ligou enquanto ele esperava no ponto, com a camiseta cinza suada nas costas.
— Você foi à casa? — A voz dela vinha abafada, com barulho de teclado e carimbo ao fundo, do cartório onde trabalhava.
— Tô pintando.
— Você mexeu na cadeira? — Falava baixo, como se não quisesse que ouvissem no trabalho.
— Por quê?
— Nos últimos meses, a mãe falava que a casa não gosta de ficar sozinha. Que já perdeu gente demais, que tem sempre alguém aqui, mesmo quando não tem. Eu achei que era remédio.
O ônibus freou com barulho de ar. Nei desligou. Deixou a garrafa de Fabiane pela metade na geladeira desligada da casa, por hábito.
Naquela noite, não dormiu lá. Voltou para o sobrado. Sonhou com a Barra do Saí. Não com o afogamento, mas com o minuto anterior. Ele sentado na cadeira de plástico branco, o celular na mão, Lina chamando "pai" a cada trinta segundos de um lugar um pouco mais fundo, um pouco mais longe, e ele não se levantava para ver, porque achava que ela estava brincando de se esconder entre as outras crianças.
Voltou na quinta-feira para terminar e ir embora de vez. Trouxe uma marreta. Ao abrir a porta, o cheiro tinha mudado. Não era mofo. Era café coado no coador de pano e roupa molhada no varal dos fundos. Na pia, duas xícaras. Uma era a dele, de plástico amarelo da escola, com borra da véspera. A outra era de porcelana florida da mãe, lascada na borda, que ele tinha guardado numa caixa de papelão fechada com fita no quarto dos fundos para doação. Essa segunda tinha um resto de líquido amarelo espesso, com cheiro de Fabiane de abacaxi e areia fina preta no fundo, grudada. Ao lado, a garrafa de Fabiane estava vazia, amassada, com a tampinha ao lado. O rádio que deixara desligado estava ligado, chiando puro, sem estação, em volume baixo. A cadeira estava na cozinha, de frente para as duas xícaras. A palha, úmida e funda. No chão, ao lado da cadeira, outra poça escura que não secava, agora do tamanho de um prato, com areia nas bordas.
Na parede que pintara de branco, ao lado da geladeira desligada, havia duas marcas de mãos pequenas, na altura da cintura dele — cinco dedinhos perfeitos, feitos com a mão molhada na tinta ainda pegajosa, voltados para dentro, como de quem fica na ponta dos pés para olhar por cima da pia.
Nei ficou em pé com a marreta na mão, sem saber onde colocá-la. O rádio chiava. O cheiro de protetor solar tinha tomado a cozinha toda. Largou a marreta no chão. Sentou-se no chão frio, com as costas na porta trancada. Chorou sem pôr a mão na frente, de boca aberta, sem som. Encostou a testa na parede, sem querer, como fazia para medir a febre de Lina, testa com testa. A tinta grudou na pele.
Levantou-se com as pernas dormentes. Tinha duas escolhas ali. Podia pegar a xícara de porcelana, lavar, sentar-se na cadeira de balanço e esperar junto, terminando de uma vez o que não terminou na praia. Ou sair. Ficou quase um minuto com a xícara florida na mão. O peso dela era familiar, quente. Quase se sentou. Sentiu o corpo ceder um centímetro na direção da palha, o joelho dobrando sozinho. A palha rangeu forte, como um corpo pequeno levantando depressa, assustado por ter sido visto.
Nesse instante, a porta da frente, encostada por causa do cheiro de tinta, bateu com o vento. No chão de madeira onde a cadeira estivera, a poça escura tinha aumentado. No meio dela, sozinha, estava a tampinha amarela de plástico da Fabiane, com areia grudada na rosca por dentro. Em seus tênis, ao sair da cozinha, ele viu areia preta também — fina, que não estava ali quando entrou.
Nei não correu. Pegou as ferramentas, a lata, o rádio chiando. Olhou uma última vez para a cozinha antes de sair: as duas xícaras na pia, a cadeira vazia com a palha funda e úmida, as duas mãozinhas na parede branca e a poça no chão que refletia a luz fraca da janela. Não lavou a parede. Não enxugou a poça. Deixou tudo como estava, como se alguém ainda fosse usar.
Trancou a porta com as duas chaves e o cadeado novo, já áspero de ferrugem. Atravessou a rua. Do outro lado, a mesma vizinha varria a calçada.
— Já vai, seu Nei? Vi a luz acesa a noite toda ontem. Achei que tinha gente morando já.
Ele não respondeu. Caminhou até o ponto com as mãos sujas de tinta branca. Pegou o ônibus das dezessete e dezoito, lotado. Sentou-se na última fileira e olhou pela janela traseira embaçada, suja de gordura de mão. A casa ficou para trás, pequena, com a tinta manchada.
A cadeira de balanço agora estava na varanda da frente — coisa que nunca estivera em quarenta anos —, balançando sozinha num ritmo paciente, sem vento. E, sobre o assento dela, secava a camiseta cinza da escola municipal que ele deixara pendurada no banheiro do seu sobrado na noite anterior.
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