Algumas coisas que desaparecem não querem ser encontradas.
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Matinhos estava quase vazia quando Augusto voltou.
Fora de temporada, a cidade parecia maior. Os quiosques permaneciam fechados sob lonas presas por cordas, as casas de veraneio exibiam piscinas cobertas e cadeiras empilhadas atrás dos muros, e o movimento da avenida diminuía assim que a tarde perdia a luz. Depois, ficavam o vento, algumas janelas acesas e o mar atrás dos telhados.
Augusto tinha vindo vender a casa da mãe.
Helena fora enterrada no inverno anterior.
Nos últimos meses, vivera numa clínica em Curitiba. Havia dias em que reconhecia o filho e dias em que o chamava pelo nome do irmão mais velho, morto quando criança. No fim, já não reconhecia ninguém.
Augusto preferia lembrar dela antes disso.
A casa permanecera fechada desde o funeral.
No segundo dia, começou a esvaziar os armários.
Encontrou roupas, contas, panelas, fotografias, documentos e uma caixa de madeira escondida atrás de cobertores.
Dentro havia botões, moedas, duas chaves, uma presilha azul e uma pequena lanterna de metal.
A lanterna era pesada.
Havia areia dentro do vidro.
Augusto girou o objeto entre os dedos.
Tentou acendê-lo.
Nada.
Bateu duas vezes contra a palma.
Uma luz amarela apareceu por um instante e morreu.
Colocou a lanterna sobre a mesa.
Continuou arrumando a casa.
Mais tarde percebeu que estava olhando para ela.
Não sabia por quê.
Naquela tarde foi ao bar de Arnaldo.
O velho demorou alguns segundos para reconhecê-lo.
— Augusto.
— Faz tempo.
— Faz.
Arnaldo serviu café.
Não perguntou se ele queria.
Ficaram em silêncio enquanto uma televisão transmitia um jogo antigo sem som.
Augusto mexeu a colher na xícara.
— Minha mãe vinha aqui?
— Às vezes.
— Falava de mim?
Arnaldo continuou limpando um copo.
— Falava pouco.
Augusto esperou.
— Encontrei uma caixa na casa.
O pano parou.
— O que tinha?
— Uma lanterna.
Arnaldo levantou os olhos.
— Ainda estava lá?
Augusto assentiu.
O velho voltou ao copo.
— Então ela guardou.
— O quê?
Arnaldo não respondeu.
Do lado de fora, uma rajada de vento fez a porta de metal bater.
Augusto olhou para o morro.
— Minha mãe esteve lá?
Arnaldo acompanhou seu olhar.
— No Escalvado?
Augusto assentiu.
O velho demorou.
— Você lembra da história?
— Qual?
— A do terceiro andar.
— Da gruta?
Arnaldo olhou para ele.
— Não são três andares.
Augusto esperou.
— São três níveis. O terceiro é o nome que deram ao último.
— E o que tem lá?
Arnaldo dobrou o pano.
— Pedra.
— Só?
O velho levantou os olhos.
— Para quem volta.
Naquela noite, Augusto encontrou uma folha dentro de uma gaveta da cozinha.
A letra era de Helena.
NÃO DEIXE AUGUSTO DESCER.
Abaixo, quase apagado:
Ele já desceu.
Augusto ficou sentado diante da mesa.
Tentou lembrar.
Uma escada.
Um cheiro de terra molhada.
A voz da mãe:
— Fica aqui.
Depois:
— Não olha para trás.
A lembrança terminava ali.
Na manhã seguinte, subiu o Morro do Escalvado.
O caminho estava úmido. O solo cedia sob os tênis nos trechos mais inclinados, e Augusto precisou se apoiar em troncos e raízes para continuar. A vegetação fechava-se sobre a trilha.
A entrada da gruta não parecia uma entrada.
Era uma fenda baixa entre dois blocos de rocha, parcialmente escondida por raízes e folhas acumuladas.
Augusto se agachou.
Uma mancha azul estava presa à pedra.
Entrou.
Precisou avançar de lado nos primeiros metros.
A luz de fora desapareceu depressa.
O teto baixou.
O cheiro de terra molhada aumentou.
Havia água escorrendo pela parede e formando pequenas poças no chão irregular.
Augusto acendeu o celular.
A luz revelou riscos na pedra.
Nomes.
Datas.
Alguns quase apagados.
JORGE
MÁRIO
RENATO
Mais abaixo:
HELENA
O nome estava riscado várias vezes.
Ao lado havia uma pequena marca azul.
Augusto tocou.
A pedra estava gelada.
A presilha apareceu entre duas rochas.
Ele a pegou.
A lembrança veio.
Dez anos.
Praia.
Helena procurando alguma coisa na areia.
— Não sai daqui.
Ele esperava.
Ela encontrou a presilha.
Prendeu o cabelo.
Depois segurou sua mão.
Os dois começaram a caminhar.
Em direção ao morro.
Augusto abriu os olhos.
O celular piscou.
Apagou.
Voltou.
Apagou novamente.
No escuro, ouviu água.
Uma gota.
Outra.
Depois uma respiração.
A respiração parou.
Augusto continuou.
A luz voltou por um segundo.
Havia um sapato infantil azul no chão.
Mais adiante, uma carteira de couro.
Depois um relógio sem ponteiros.
Uma chave.
Os objetos estavam encostados nas partes mais secas da pedra.
Augusto não tocou em nenhum.
A passagem estreitou.
Precisou apoiar as duas mãos na rocha para atravessar.
A água entrou pela manga da camisa.
O cheiro de bolor se misturava ao cheiro metálico da pedra molhada.
Quando a passagem se abriu, ele não sabia mais dizer se havia descido cinco metros ou cinquenta.
O segundo nível era apenas uma área mais larga da formação rochosa.
O teto subia o suficiente para que pudesse ficar de pé.
Havia marcas de passos no barro.
Algumas antigas.
Uma delas estava nítida.
Pequena.
Augusto aproximou o celular.
A luz apagou de vez.
No escuro, ouviu passos.
Leves.
Rápidos.
De criança.
Os passos atravessaram o segundo nível.
Depois começaram a subir.
Augusto ficou parado.
Não sabia mais se estava ouvindo os passos acima ou abaixo dele.
Então percebeu que estava segurando a lanterna.
Não lembrava de tê-la tirado do bolso.
Ela estava acesa.
A luz era fraca.
Amarela.
Apontava para uma abertura na rocha.
Augusto passou por ela.
A passagem inclinava-se para baixo.
Não havia escada.
Era uma fenda estreita, lisa pela água.
Ele desceu de costas, apoiando as mãos nas laterais e procurando os pontos onde os pés pudessem firmar.
A pedra escorregou sob o tênis.
Por um instante, Augusto perdeu a direção.
Não sabia se estava descendo ou subindo.
Fechou os olhos.
Quando abriu, viu uma porta branca.
Parou.
A porta estava encaixada na pedra.
Não havia parede.
Não havia espaço para ela.
A maçaneta era dourada.
Augusto tocou.
Abriu.
A cozinha da mãe estava do outro lado.
A toalha florida.
A geladeira antiga.
O armário.
O pote de açúcar.
O relógio.
O cheiro de café.
Havia cinco cadeiras.
Augusto contou.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Sempre tinham sido quatro.
Helena estava sentada à mesa.
Levantou os olhos.
— Você está molhado.
Ela se levantou.
Pegou uma toalha.
Aproximou-se.
Começou a secar o cabelo dele.
A toalha áspera atrás das orelhas.
A mão pressionando sua cabeça.
Augusto fechou os olhos.
Quando abriu, havia um menino sentado à mesa.
Dez anos.
Casaco azul.
Comia bolo de fubá.
O menino levantou o rosto.
— Você trouxe meu casaco?
Augusto olhou para ele.
— Não.
O menino baixou os olhos para o próprio casaco.
— Está comigo.
Helena voltou a sentar.
Na cadeira ao lado havia um casaco masculino.
Augusto reconheceu.
Era do pai.
Sentiu o cheiro de cigarro e sabão.
Na quinta cadeira havia um prato vazio.
Mas o prato estava quente.
Augusto tocou.
Retirou a mão.
— Mãe.
Helena passou manteiga no pão.
— Você lembra da presilha?
Augusto olhou para o cabelo dela.
A presilha azul estava ali.
— Lembro.
Ela assentiu.
O menino continuou comendo.
Augusto puxou uma cadeira.
— O que aconteceu?
Helena parou o movimento.
Não respondeu.
Ele olhou para o menino.
— Quem é você?
O menino levantou os olhos.
— Augusto.
— Eu sou Augusto.
O menino deu de ombros.
— Eu sei.
Augusto olhou para Helena.
Ela estava olhando para os dois.
Como se comparasse alguma coisa.
Depois empurrou o prato de bolo para o centro da mesa.
— Come.
Augusto não se mexeu.
— Você não me reconhecia.
Helena segurou a xícara com as duas mãos.
— Aqui reconheço.
Ele sentiu a garganta apertar.
— Por quê?
Ela olhou para o menino.
Depois para Augusto.
Não disse nada.
O menino parou de comer.
— Você precisa ir.
Augusto olhou para a porta.
— Por quê?
O menino não respondeu.
Helena fechou os olhos.
— Não olha para trás.
Augusto levantou.
A cadeira rangeu.
Atravessou a porta.
Parou do outro lado.
Não ouviu nada.
Olhou para trás.
Havia apenas rocha.
A porta desaparecera.
Augusto voltou pela passagem.
A descida parecia diferente.
O sapato não estava mais lá.
Nem a carteira.
Nem o relógio.
Ele continuou.
A entrada apareceu diante dele.
Arnaldo estava sentado perto das pedras.
O velho olhou para a presilha na mão de Augusto.
Depois para o rosto dele.
— Você entrou.
Augusto assentiu.
— Minha mãe estava lá.
Arnaldo ficou em silêncio.
— Ela estava fazendo café.
O velho baixou os olhos.
— Então era a cozinha.
Augusto ficou esperando.
— Você já esteve lá.
Arnaldo não respondeu.
— O que viu?
O velho esfregou o polegar no indicador.
— Uma menina.
Augusto franziu a testa.
— Sua filha?
Arnaldo olhou para o morro.
— Eu não tinha filha.
E foi embora.
Augusto voltou para casa.
Colocou a presilha sobre a mesa.
A lanterna estava onde a deixara.
Pegou.
Sacudiu.
A areia se moveu.
Tentou acender.
Nada.
Foi até a pia.
Lavou o rosto.
Quando voltou, havia cinco cadeiras.
Augusto parou.
Contou.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Cinco.
Não tocou em nenhuma.
Na quinta cadeira havia uma pequena marca de mão.
Molhada.
Na mesa, o café começou a soltar vapor.
O cheiro de bolo veio depois.
Augusto recuou.
Uma cadeira rangeu.
A quinta.
A voz do menino veio de trás.
— Você trouxe meu casaco?
Augusto não respondeu.
Olhou para a cadeira.
O casaco azul estava sobre ela.
Molhado.
Ele o pegou.
No bolso havia uma fotografia.
Augusto aproximou-a da luz.
Helena diante da entrada da gruta.
Os três homens.
O menino.
Na entrada, uma mulher segurava uma lanterna.
O rosto estava borrado.
Augusto passou o dedo sobre a imagem.
A fotografia estava úmida.
A tinta começou a escorrer.
O rosto do menino deformou-se primeiro.
Depois o de Helena.
Augusto virou o papel.
No verso havia apenas:
AGOSTO DE 1997.
Nada mais.
Atrás dele, uma cadeira foi puxada.
Augusto não se virou.
Outra.
Depois outra.
Quatro.
Uma quinta arrastou-se lentamente pelo piso.
A voz da mãe veio da porta.
— Não olha para trás.
Augusto apertou a fotografia.
A lanterna acendeu.
A luz caiu sobre o chão.
Os azulejos desapareceram.
Havia pedra.
Água.
A fenda.
E, muito abaixo, uma pequena luz.
Augusto ficou imóvel.
Outra luz apareceu.
Depois outra.
Três pontos amarelos no escuro.
A primeira começou a subir.
Augusto recuou.
Uma mão pequena surgiu na abertura.
Depois outra.
O menino começou a subir.
Augusto reconheceu o casaco.
Não o rosto.
O rosto estava molhado.
A criança levantou a cabeça.
— Você demorou.
Augusto deu um passo para trás.
A cozinha desapareceu.
Arnaldo chegou à casa na manhã seguinte.
A porta estava aberta.
Chamou por Augusto.
Nada.
Entrou.
A cozinha estava arrumada.
Quatro cadeiras.
Sobre a mesa, a fotografia.
Arnaldo pegou.
Helena diante da gruta.
Os três homens.
O menino.
A entrada escura.
Ele aproximou a fotografia dos olhos.
Havia alguém atrás da criança.
Um homem.
De costas.
Arnaldo conhecia o casaco.
Virou a fotografia.
O verso estava branco.
Completamente branco.
A lanterna estava ao lado.
Arnaldo tocou.
Acendeu.
A luz caiu sobre o chão.
Os azulejos desapareceram.
Por um instante havia pedra molhada sob seus pés.
Uma abertura estreita.
Uma mão pequena apareceu na borda.
Arnaldo recuou.
A mão desapareceu.
Então ouviu:
— Pai?
Ele ficou parado.
A voz veio outra vez.
Mais perto.
— Pai?
Arnaldo olhou para a lanterna.
A luz tremia.
No chão, a sombra dele não estava sozinha.
Havia uma segunda sombra.
Menor.
Arnaldo não se virou.
Sentiu uma mão pequena fechar-se sobre a sua.
A lanterna apagou.
E alguma coisa começou a puxá-lo para baixo.
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