sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Rio da Onça

O Rio da Onça
Tadeu Everton Zamoiski

Vou te contar uma coisa que eu nunca contei pra ninguém. Nem pra minha esposa, nem pro meu chefe, nem pro delegado que me chamou pra depor. Não é que eu tenha medo de contar. É que contar dá uma espécie de realidade pras coisas.

Eu trabalho no Parque Estadual do Rio da Onça há vinte anos. Cento e dezenove hectares de Mata Atlântica preservada. Pontes suspensas, mirante, trilha sinalizada. O nome vem das onças que desciam pra beber água, muito tempo atrás, quando ainda tinha pouca gente morando aqui. Meu antigo chefe dizia que era conversa de morador antigo. Nunca encontrei pegada de onça por ali. Nem antiga. Hoje ninguém vê onça. Mas o nome ficou. Essas coisas ficam.

Vinte anos andando no mesmo mato. A gente aprende a ouvir o que está lá e o que não está. A mata tem um silêncio próprio quando está vazia. Um silêncio de coisa guardada. E tem outro silêncio quando tem bicho por perto. Um silêncio que parece que está esperando junto com você. Quem trabalha no mato sabe a diferença. Não sabe explicar, mas sabe. Eu sei diferenciar o barulho de uma capivara atravessando o mato do barulho de qualquer outra coisa. Sei ver galho quebrado por bicho e galho quebrado por gente. Sei os pontos da trilha que alagam depois da chuva, sei onde a correnteza do rio muda, sei onde a água costuma ficar mais funda. Conheço esse parque como conheço a minha casa.

Foi esse segundo silêncio que eu ouvi naquela tarde.

Um passo pesado. Galhos quebrando. Não era bicho pequeno. Era peso. Peso grande, distribuído em quatro patas, andando devagar. Parei. O som parou. Fiquei parado, ouvindo o meu próprio peito, esperando. O som voltou. Mais perto. E eu não vi nada. A mata estava fechada. Aquele verde denso, o ar parado, aquele calor úmido que sobe do chão depois da chuva. Nada. Nenhum movimento. Nenhuma folha mexendo.

O cheiro veio depois. Carne podre. Aquele cheiro doce e pesado que gruda na garganta e não sai. Segui até o rio. Me aproximei da margem, num ponto onde a correnteza costuma mudar, onde a água fica mais funda e mais escura. Conheço aquele ponto. Já medi a profundidade ali. Já vi o rio secar e encher. Naquela tarde, a superfície estava parada como um vidro. Mas eu sabia que a água continuava correndo embaixo, porque a correnteza não para, nunca para. Só a superfície é que não se mexia. Não refletia nada. Nem as árvores, nem o céu, nem eu. Me inclinei pra ver melhor.

A água mostrou uma sombra atrás de mim.

Grande. Parada. Do tamanho de um homem, mas mais larga. Sem contorno definido, como se a água tivesse esquecido de refletir o que estava lá. Me virei. Não tinha nada. Só mato, sombra, silêncio. Olhei de novo pra água. A sombra ainda estava lá. Maior. Mais perto. Senti um frio na nuca que não vinha do tempo. E na boca, um gosto de metal, fraco, quase nada, como se eu tivesse mordido a própria língua sem perceber.

Saí do parque. Não fiz o relatório. Não contei pro chefe. Não contei pra ninguém. Dirigi até em casa com as mãos apertando o volante, olhando pelo retrovisor a cada curva. No dia seguinte, voltei. Precisava voltar. A mata estava igual. O cheiro tinha sumido. A água refletia tudo. Refletia demais. As árvores, o céu, o meu rosto cansado, cada folha, cada galho, cada sombra do mato. Eu ri de mim mesmo. Vinte anos de mato e eu com medo de sombra. Passei a semana sem pensar no assunto. Quase.

No sábado, um visitante desapareceu.

Eu estava na guarita quando ele entrou. Homem de quarenta e poucos anos, sozinho, bermuda cáqui, camiseta branca, uma mochila pequena nas costas. A esposa ficou no carro, no estacionamento. Ele veio até o balcão da guarita e perguntou quanto tempo levava até o mirante. Eu disse que uns quarenta minutos, ida e volta. Ele sorriu, agradeceu. Quando ele sorriu, tive a impressão de já conhecer aquele rosto. Não de ter visto o homem antes. Era outra coisa. Uma lembrança sem imagem, como quando a gente reconhece uma voz que nunca ouviu. Ele não pareceu notar. Antes de pegar a trilha, olhou para o rio. Não tinha motivo pra olhar o rio dali. A trilha do mirante vai pra outro lado. Mas ele olhou. E não olhou pra qualquer parte do rio. Olhou pro ponto onde a correnteza muda, onde a água fica mais funda. O mesmo ponto onde eu tinha estado na véspera. Não havia nada ali que chamasse a atenção de um visitante. Nenhuma placa, nenhuma trilha, nenhuma curva que se destacasse. Mas ele olhou direto pra lá. Ficou parado um segundo, dois, depois acenou pra esposa e entrou na trilha. Eram dez e sete da manhã. Eu lembro do horário porque olhei o relógio da guarita naquele segundo. Não sei por que olhei.

A esposa esperou no carro até escurecer. Depois chamou a polícia. As buscas duraram três dias. Cães, drones, bombeiros, voluntários. Nada. Nenhum rastro. Nenhum pertence. A trilha do mirante estava intacta, como se ninguém tivesse passado por ali.

No terceiro dia, a esposa voltou à guarita. Não perguntou se tinham encontrado o marido. Perguntou se eu tinha visto um homem entrar no parque antes dele. Disse que, naquela manhã, quando chegaram, havia alguém parado perto do rio. Pensou que fosse um funcionário. Eu disse que não vi ninguém. Ela me olhou por um segundo a mais do que precisava, depois agradeceu e foi embora. Fiquei na guarita, olhando pra trilha, sentindo o gosto de metal voltar na boca.

Fui chamado pra depor. O delegado me perguntou se eu tinha visto alguma coisa. Se o parque era seguro. Se já tinha acontecido algo parecido. Eu disse que não. Que o parque é seguro. Que nunca aconteceu nada assim. Ele me perguntou de novo, com outras palavras, como quem já sabe a resposta. Eu hesitei. Um segundo, dois. O delegado olhou pro meu rosto, procurando alguma coisa. Eu sustentei o olhar. Não desviei. Senti o gosto de sangue na boca, mais forte agora, quente, como se a mentira tivesse um gosto. Depois disse que não, que nunca tinha visto nada. Falei com calma. E era verdade. Nunca tinha acontecido nada assim. Pelo menos não que eu tivesse contado.

Mas já tinha acontecido antes. Quando eu era novo no parque, no primeiro ano, eu ouvi um passo na trilha do rio. Um passo só, pelo menos era assim que eu me lembrava. Perto da curva onde a água alaga. Eu estava sozinho, com o caderno de campo na mão, anotando a cheia do mês. O passo veio atrás de mim, pesado, grande. Parei. O som parou. Fiquei parado um minuto, dois, esperando. Nada. Não vi nada. Voltei pra guarita e anotei a cheia. Mas deixei uma linha em branco embaixo, sem saber por quê. A linha ficou lá, vazia, vinte anos.

Voltei pra casa naquela noite. Minha esposa já dormia. Antes de entrar, parei no quintal e olhei pro reflexo da janela. Vi a sala atrás de mim. O sofá, o abajur apagado, a porta do corredor. Não tinha sombra. Entrei. Sentei na sala, no escuro, com um copo de água na mão. Não conseguia dormir. Ficava olhando pra janela, pro quintal, pro reflexo do vidro.

E atrás de tudo, a sombra.

Grande. Parada. Do tamanho de um homem, mas mais larga. Não me virei. Sabia que ela estava lá. Sabia que sempre esteve. Sabia que não ia embora. Fiquei sentado, olhando pro reflexo, sentindo o cheiro de carne podre subir devagar pela sala, e o gosto de sangue na boca. Quente. Real. Mesmo sem eu ter mordido a língua. Foi então que entendi: aquele passo nunca tinha ido embora. Só tinha esperado.

Naquela mesma noite, abri a gaveta onde guardava os cadernos antigos. Encontrei o do primeiro ano. A anotação da cheia continuava lá.

Abaixo dela, na linha que eu tinha deixado em branco, havia duas palavras escritas.

Na minha letra: Dois passos.

Não me lembrava de ter escrito aquilo. A tinta era a mesma. O jeito de fazer o "d" também. Fechei o caderno. Guardei na gaveta. Não contei pra ninguém.

Às vezes, no fim da tarde, quando estou sozinho na guarita e o sol está baixo, batendo na mata, eu escuto um passo pesado. Galhos quebrando. E fico parado, ouvindo o meu próprio peito, esperando. Não olho pro vidro. Não preciso. Sei que ela está atrás de mim. Já não sei se chega com o som ou se estava ali antes. Só sei que permanece quando o passo para.

O som para. Sempre para.

Eu não me inclino mais.

A Reta da Quintilha

A Reta da Quintilha
Tadeu Everton Zamoiski

Ninguém leva a sério. Ninguém leva até precisar.

Todo mundo em Matinhos já ouviu falar do motoqueiro da reta da Quintilha. Eu também ouvi. E ri.

Naquela noite, umas dez e meia, parei no posto antes da Cachoeira pra abastecer. O frentista era magro, de bigode fino, e enchia o tanque devagar, olhando pra estrada. O cheiro de gasolina misturava com o de terra úmida. Sem eu perguntar nada, falou baixo:

— Depois das onze eu fecho o box e vou pra dentro.

Perguntei por quê.

— Não é por causa do frio, não.

Perguntei se era por causa do motoqueiro. Ele me olhou um segundo a mais do que precisava. Os olhos dele tinham um cansaço antigo.

— O senhor volta por essa estrada hoje?

Não respondi.

— Se voltar, não pare na reta. Nem pra trocar pneu.

Não perguntei mais nada.

Minha mãe tinha sido internada às pressas em Paranaguá, por volta das dez, com uma angina que o médico achou grave. Fiquei no hospital até quase três da manhã, sentado numa daquelas cadeiras de plástico que gruda na pele. O ar-condicionado gelava a nuca. O cheiro de álcool e comida fria vinha do corredor. Três horas olhando pra parede amarelada, pro relógio que atrasava, pra porta do quarto.

Meu irmão vivia consertando o escapamento da 125. Passava os domingos inteiros na garagem, chave inglesa na mão, o cheiro de óleo e ferrugem grudado na roupa. Dizia que aquele estalo era a assinatura dele. “Reconheço minha moto de longe”, falava. Morreu num domingo, numa reta, sem curva e sem explicação. Ali na cadeira, o tec-tec-tec do escapamento voltou. Na minha cabeça, claro. Como se ele estivesse sentado do meu lado, o joelho encostando no meu.

Когда o médico saiu, disse que ela estava estável, que eu podia ir pra casa descansar e voltar de manhã. Eu morava em Matinhos. Tinha que passar pela reta.

Não acredito nessas coisas. Nunca acreditei. Mas quando a placa da Cachoeira da Quintilha apareceu nos faróis, me peguei apertando o volante com mais força. A borracha do volante estava quente e pegajosa. A estrada estava vazia. Só eu, o carro e a noite. A reta começou: dois quilômetros de asfalto cortando o mato, sem curva, sem casa, sem poste. Céu limpo, lua fina. O mato dos dois lados balançava leve, fazendo um barulho seco de folha. Liguei o rádio. Uma música antiga, que eu não gostava, mas deixei tocando baixo. O frio entrava pela janela mal fechada e mordia os dedos. Cheiro forte de borracha quente do asfalto misturado com terra molhada. O plástico do volante grudava na palma da mão.

Vi a luz.

Vinha de longe, no sentido contrário, alta e forte. Farol de moto. Branca, dessas que ofuscam e fazem a gente baixar o olho. O som veio depois, grave, irregular. Uma 125, com uma falha no escapamento que dava um estalo a cada rotação. O mesmo estalo.

Diminuí a velocidade. Esperei que passasse. Não passou.

A luz não se movia. O som não mudava de direção. Ficava ali, parado no meio da pista. Cheguei mais perto. O motoqueiro estava atravessado, a moto de lado, um vulto em cima, sem capacete, sem rosto. Só a silhueta contra o farol alto. O asfalto brilhava úmido em volta. Buzinei. O som da buzina saiu rouco. Nada. Buzinei de novo, mais longo. O vulto não se mexeu. Desviei pra contramão, passei devagar e olhei pelo retrovisor.

A moto sumiu.

Não foi como quem acelera e some no escuro. Sumiu como se nunca tivesse estado ali. O retrovisor mostrava só a reta vazia e o mato escuro. O cheiro de borracha ainda vinha pela janela. Respirei fundo e acelerei. Ainda no meio da reta, a luz apareceu de novo.

Atrás de mim.

O som encheu o carro de uma vez. Grave, irregular, colado, a um metro do para-choque. No retrovisor, só a luz alta, branca, ocupando o espelho inteiro. Não havia moto. Não havia vulto. Só aquela claridade que doía nos olhos e o estalo batendo no ouvido.

Acelerei. A luz acelerou junto. Freei. A luz freou junto. Não me alcançava, mas também não ficava pra trás. O carro inteiro parecia vibrar com o som.

Parei no acostamento. O cascalho estalou debaixo dos pneus.

Desliguei o motor. O silêncio durou só um segundo. O motor da moto continuava. A luz continuava ali, dez metros atrás, parada no meio da pista. O farol dela iluminava a fumaça fina que saía do meu escapamento.

Desci. O frio subiu pelas pernas. Fiquei na beira da estrada, o cheiro de terra e asfalto no nariz, e gritei. Gritei que aquilo não era real. Gritei que fosse embora. A voz saiu rouca, estranha.

A luz se apagou. Sem pressa. O som parou. O silêncio veio de verdade, pesado, só quebrado pelo vento no mato. Fiquei no escuro, ouvindo meu próprio coração batendo no pescoço, com o suor frio escorrendo pelas costas e grudando a camisa.

Voltei pro carro e girei a chave. O motor pegou com um engasgo. E no mesmo instante, lá atrás, bem longe, o da moto pegou também. A luz acendeu de novo, pequena, distante. E ficou ali, me esperando.

Dirigi até Matinhos sem olhar pelo retrovisor. O brilho branco batia no painel e desenhava a sombra do volante no meu colo. A luz me seguiu pela curva, acompanhou o para-choque por um quilômetro. Depois sumiu. O silêncio dentro do carro ficou grande demais.

Não contei a ninguém.

Na noite seguinte tive que fazer o mesmo trajeto. A reta estava lá. A luz estava lá. Passei reto, pé no fundo, olhos fixos na pista. O estalo vinha claro pela janela. Quando passei pela moto, olhei de lado. O vulto virou a cabeça. Devagar. Não vi rosto. Vi só o movimento.

Minha mãe teve alta três dias depois. Busquei ela no hospital numa tarde de sol baixo, daquele que bate de lado e faz a estrada parecer mais longa. O cheiro de remédio ainda vinha na roupa dela. Ela sentou no banco do carona, bolsa no colo, falando do preço do pão, da vizinha, do calor. Eu dirigia devagar, o sol quente no braço esquerdo, tentando não olhar pra reta.

Quando a placa da Cachoeira apareceu, vi a luz. Ouvi o motor, o estalo a cada rotação. O som entrava pela janela aberta, misturado com o cheiro de capim quente.

Minha mãe continuou falando. No meio de uma frase sobre o preço do gás, parou e disse:

— Teu irmão gostava dessa estrada.

O estalo sumiu por um segundo. Minha mão afrouxou no câmbio. Depois voltou, claro, insistente. Ela continuou falando do gás.

Passo pela reta sempre que volto de Paranaguá. A luz vem. Eu acelero, ela acelera. Sei que se eu parar, ela para. Sei que se eu gritar, ela some. Por isso não paro mais. Dirijo com os olhos na pista, o estalo batendo no ouvido, fingindo que não é comigo.

Em casa, desligo o carro e fico um pouco parado. A garagem é a que herdei dele. Ainda tem cheiro de óleo velho e ferrugem. Deixo o portão aberto. Fico ali, no escuro, esperando o estalo.

Quando não vem, fico mais um pouco.

A Casa do Leilão

A Casa do Leilão
Tadeu Everton Zamoiski
A gente não compra uma casa por causa do preço. A gente compra porque está cansado. De caixas de papelão, de paredes finas onde se ouve o vizinho respirar, de não ter onde cravar um prego sem pedir licença. Quando o banco leiloou o casarão da Avenida Sete de Setembro, não olhamos para o tamanho do terreno nem para a quantidade de janelas. Olhamos um para o outro. Havia uma exaustão silenciosa nos olhos dela, a mesma que eu sentia nos ombros. A gente estava com dois aluguéis atrasados, o cartão estourado, e uma mudança marcada para o fim do mês. O preço era bom demais para o tamanho do terreno. Não fizemos perguntas. A gente precisava de um chão. Qualquer chão.
A reforma foi o nosso ritual de posse. Foram três meses de lixa, pó de gesso e cheiro forte de tinta. Pintamos tudo de um branco absoluto, quase clínico, para cobrir as manchas amareladas do tempo. Arrancamos os tapetes que guardavam a sujeira de décadas e as cortinas pesadas que exalavam guardado e um adocicado enjoativo, como açúcar mascavo queimado. Entre os entulhos, achei uma embalagem antiga de açúcar mascavo, vazia, amassada, guardada no fundo de um armário. Joguei fora junto com o resto. Também encontrei, no fundo de uma gaveta, uma fotografia antiga da cozinha. Preto e branco, gasta nas bordas. Só a cozinha, sem ninguém. Não prestei atenção. Guardei junto com os documentos da casa. Quando o cheiro de mofo finalmente deu lugar ao cheiro de tinta fresca, nos abraçamos no meio da sala vazia. A casa estava limpa. A casa era nossa.
Foi então que a escova de dentes apareceu.
Estava na beirada da pia do banheiro, do lado esquerdo. As cerdas estavam abertas, gastas pelo uso, com um resíduo branco e seco na base. Não era a minha, que estava do lado direito. Não era a dela. Perguntei, tentando manter o tom leve. Ela deu de ombros, dizendo que não fazia ideia. Joguei a escova fora. No dia seguinte, havia outra igual no mesmo lugar. Não falei nada. Só olhei para ela. Ela me olhou com uma paciência que me desarmou, tocou meu rosto e disse que eu estava com olheiras, que a reforma estava cobrando seu preço. A ternura no olhar dela era tanta que engoli o nó na garganta.
Naquela semana, achei um par de chinelos ao lado da cama. Do lado dela. Eram masculinos, de veludo macio. O coração me deu um salto estranho, uma mistura de esperança e pânico. Perguntei se ela tinha me comprado uma surpresa. Ela franziu a testa, confusa, e disse que não. Perguntei se alguém tinha entrado. Ela riu, um riso nervoso, e disse que eu estava ficando paranoico, que a casa grande demais estava mexendo com a minha cabeça. Eu quis acreditar nela. Eu precisava acreditar.
Mas na sexta-feira, a casa cobrou a sua primeira mentira.
Cheguei do trabalho arrastando os pés. Ao abrir a porta, o cheiro de alho e cebola refogada me recebeu. Havia uma panela no fogão. O fogo estava baixo, azul e silencioso, e a comida borbulhava devagar. Arroz, feijão, um pedaço de carne de panela. Minha esposa estava no quarto, deitada, lendo um livro, a luz do abajur iluminando seu perfil. Fui até lá, beijei sua testa e perguntei o que tinha de bom no jantar. Ela me olhou por cima dos óculos, confusa, e disse que não tinha cozinhado nada, que estava esperando eu chegar para pedir uma pizza.
Voltei para a cozinha. O fogo ainda estava aceso. A comida borbulhava. Mas quando me aproximei, o cheiro mudou. Não era mais alho e cebola. Era o mesmo adocicado enjoativo das cortinas velhas. Açúcar mascavo queimado. Me afastei da panela. Voltei ao quarto. Perguntei de novo. Ela nem levantou os olhos do livro. "Já falei, amor. Pizza." Minha mão desligou o fogo sozinha, por reflexo, antes que eu decidisse. A panela esfriou rápido demais. Em segundos, a superfície do feijão estava seca. Como se tivesse estado ali o dia todo, cozinhando para ninguém, ou para alguém que já tinha ido embora.
Naquela mesma noite, acordei com o som inconfundível de louça sendo lavada. A água correndo, o tilintar suave dos pratos, o arrastar de uma esponja. Olhei para o lado. Minha esposa dormia profundamente, o peito subindo e descendo num ritmo lento. Levantei-me, descalço, e fui até a cozinha. A pia estava seca. Os armários, fechados. Mas a louça no escorredor estava molhada. Gotículas de água escorriam pela porcelana. Passei os dedos por um prato. Estava gelado, mas molhado. Como se tivesse sido lavado segundos antes.
Na noite seguinte, deixei um copo sujo na pia de propósito. Restos de café frio, a borda manchada, açúcar grudado no fundo. Queria provar que eu não estava louco. Queria ver a sujeira ficar. Acordei às três da manhã, o coração batendo forte, e fui até a cozinha. O copo não estava na pia. Estava limpo, seco, guardado no armário, exatamente no lugar onde guardávamos os copos de café. O escorredor estava vazio.
Passei a dormir em pedaços. Uma hora, duas, acordava com o coração disparado, os lençóis grudados nas costas. Na terceira madrugada, deixei um fio de cabelo esticado na gaveta dos talheres. Acordei às três, fui até a cozinha. O fio não estava mais lá. Abri a gaveta. Os garfos estavam alinhados por tamanho, as facas por lâmina, as colheres por modelo. Havia uma colher separada das outras, guardada no fundo da gaveta, virada para baixo. Nunca ninguém naquela casa tinha organizado uma gaveta daquele jeito. No dia seguinte, encontrei minha escova de dentes no armário do banheiro, alinhada com o tubo de pasta, o fio dental e o enxaguante. Tudo na mesma direção. Tudo na mesma altura. Havia alguém morando conosco. Alguém que não fazia barulho, não deixava pegadas, mas que cuidava da casa com um zelo obsessivo.
Numa quarta-feira, cheguei em casa e encontrei minha esposa sentada no chão da sala, abraçada aos próprios joelhos, olhando para a parede. Não se mexeu quando eu chamei. Aproximei-me devagar. Ela estava tremendo. "Tem alguma coisa aqui", ela disse, baixinho, sem olhar para mim. "Eu ouço. Eu ouço desde que a gente chegou." Sentei ao lado dela. Perguntei o que ela ouvia. Ela ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, virou a cabeça devagar, como se tivesse esquecido que eu existia, e sorriu. "Você quer jantar o quê, amor?" Nunca mais tocou no assunto. Nunca mais tremeu.
Minha esposa começou a mudar antes de eu perceber. Ou talvez eu estivesse apenas começando a vê-la de verdade.
Ela passou a sorrir demais. Não era o sorriso cansado de quem trabalha o dia todo. Era um sorriso largo, sereno, quase maternal. Começou a cozinhar. Moqueca de peixe com azeite de dendê, bobó de camarão, uma torta de frango com massa folhada que derretia na boca. O cheiro da minha casa branca e clínica foi sendo invadido por temperos fortes, por memórias que não nos pertenciam. Perguntei de onde ela tinha tirado a receita da torta. Ela me olhou com uma doçura que me gelou a espinha e disse: "Sempre soube fazer, amor. Você que nunca prestou atenção em mim." A mãe dela tinha morrido cedo. Nunca houve receita.
Foi nessa época que comecei a notar os panos de prato. Ela passou a dobrá-los de um jeito diferente. Não ao meio, como sempre fez. Dobrava em três, depois enrolava as pontas para dentro, formando um rolo compacto. Nunca tinha visto ninguém dobrar um pano de prato daquele jeito. Perguntei onde ela tinha aprendido. Ela disse que sempre dobrou assim. Disse que era eu que nunca tinha reparado. Naquela noite, abri a gaveta dos documentos e peguei a fotografia antiga da cozinha. Preto e branco. Sobre a mesa, havia um pano de prato. Dobrado em três, com as pontas enroladas para dentro. Formando um rolo compacto. Igual. Exatamente igual.
Numa terça-feira, cheguei em casa e a encontrei parada na porta da cozinha, olhando para a pia vazia. Não se mexeu quando eu chamei. Fiquei ali, no corredor, sem saber o que dizer, até ela voltar a si e perguntar se eu queria jantar. Naquela noite, mais tarde, ela respondeu a uma pergunta que eu não tinha feito. "Não, ainda não está pronto", disse, e voltou a mexer a panela. Eu nem tinha entrado na cozinha.
Ela começou a usar expressões antigas. "Água de barrela", "dor de cotovelo", "fulano". Palavras que pertenciam a outra época, a outra boca.
O ponto de ruptura foi o café.
Ela me serviu numa manhã de domingo. Passado no coador de pano, com açúcar mascavo. O cheiro era denso, terroso, o mesmo que eu tinha sentido nas cortinas velhas antes de arrancá-las. "É do jeito que você gosta", ela disse, sorrindo. "Sempre foi do jeito que você gosta."
Eu nunca tinha tomado café com açúcar mascavo. Eu odiava. Mas o olhar dela era tão convicto, tão cheio de um amor antigo e desconhecido, que senti náuseas. Derramei o café. O líquido escuro manchou a toalha de mesa branca que eu tanto havia esfregado para manter impecável.
Ela não brigou. Não suspirou. Apenas pegou um pano, limpou a mancha com movimentos circulares e calados, guardou a toalha e sorriu de novo. Aquele sorriso paciente de quem sabe que o tempo cura tudo.
Naquela noite, fingi dormir. Fiquei de olhos cerrados, controlando a respiração. Perto das três da manhã, ouvi. Passos leves no corredor. O som de um armário abrindo. A água correndo. A colher girando na caneca. Olhei para o lado. Minha esposa dormia. Mas a respiração dela estava errada. Lenta demais. Profunda demais. Como se ela não estivesse dormindo, mas em transe. Como se estivesse ouvindo a mesma coisa que eu.
Não levantei. Não fui até a cozinha. Apenas esperei o sol nascer.
Na manhã seguinte, ela acordou antes de mim. Ouvi o sound do fogão, o chiar da água. Quando entrei na cozinha, a caneca estava na mesa. O café passado no pano. O cheiro de açúcar mascavo. "Toma, amor. Você anda tão pálido. Tão distante", ela disse, acariciando meu braço. A mão dela estava gelada. Abri a boca para chamá-la pelo nome. O nome estava ali, na ponta da língua, mas não saiu. Só um som incompleto, uma vogal solta. Ela sorriu como se não tivesse notado. Peguei o celular para conferir a hora. O contato dela na agenda estava sem nome. Só o número.
Naquela mesma manhã, quando passei pela lavanderia, vi os chinelos. Estavam lá, ao lado da máquina, alinhados. Ela passou por mim carregando uma cesta de roupa e disse, sem parar: "Você deixou os chinelos fora do lugar de novo. Guardei para você." Não havia surpresa na voz dela. Não havia estranhamento. Só a paciência de quem repete uma instrução antiga.
Eu não tomei o café.
Peguei as chaves do carro no gancho da porta. "Vou dar uma volta", eu disse. Ela apenas assentiu, voltando a atenção para a pia. "Cuidado na estrada", ela respondeu, sem se virar. Antes de sair, olhei para trás. Ela estava de costas, as mãos na pia, a cabeça levemente inclinada. Tentei lembrar o nome dela outra vez. Não havia mais nada.
Sentei no banco do motorista. Fechei a porta. O silêncio do carro foi um alívio imediato. Girei a chave, mas antes de engatar a marcha, olhei para o banco do passenger.
Havia um par de chinelos.
No banco do passageiro.
Não gritei. Não voltei para casa. Engatei a primeira marcha e saí.
Dirigi sem destino por horas. A Avenida Sete de Setembro ficou para trás. A casa branca, a toalha manchada, o cheiro de dendê, o sorriso paciente. Tudo ficou para trás.
De vez em quando, quando preciso parar o carro num posto de gasolina ou num estacionamento vazio, eu olho para o banco do passageiro. Os chinelos não estão mais lá. Mas o cheiro doce e enjoativo de açúcar mascavo queimado impregnou o estofamento. Em alguns dias, ele parece mais úmido, como se viesse de uma boca. Em outros, mais queimado, como se viesse do fundo de uma panela.
Minha esposa não liga. Não manda mensagem. Não pergunta onde eu estou. Eu também não ligo. Tenho medo de ouvir a voz dela. Tenho medo de que ela me diga, com aquela doçura terrível, que está tudo ótimo, que a casa está linda, e que o café já está passado.
Mas o meu maior medo, o que me faz chorar em silêncio no volante do carro, estacionado na beira de uma estrada qualquer, não é o que aconteceu com ela.
É que, às vezes, acordo com vontade de tomar café. Não gosto de café com açúcar mascavo. Nunca gostei. Mesmo assim, já deixei uma caneca separada no quarto. Ao lado dela, uma colher. Virada para baixo. Como vi na gaveta antiga. Como vi na fotografia.
Não sei por quê.

O Farol Apagado

O Farol Apagado
Tadeu Everton Zamoiski


Eu aluguei aquela casa porque era barata e porque eu precisava sumir por uns dias. O relacionamento de seis anos terminou. Na mesma semana, perdi o emprego. E eu tinha começado a falar sozinho dentro do carro. Não conversas inteiras. Só frases soltas. “Você tá bem?” “Tô.” “Mentira.” No celular, eu ainda não tinha apagado a última conversa. A última mensagem era minha. Eu conferia mesmo assim, de vez em quando, como quem checa uma ferida. A Riviera parecia um bom lugar para não existir por uma semana. O corretor me entregou a chave com um sorriso de quem estava se livrando de um problema. “Silêncio absoluto”, disse. Depois, como quem não quer nada: “O senhor dorme bem?” Não respondi. Ele falou alguma coisa sobre a maré virar de madrugada, sobre a luz do poste da rua piscar às vezes, mas eu não prestei atenção. Não mencionou o outro poste, o da praia. Um cotoco de concreto, cego, torto contra o céu, que o sol deixava morno e que continuava morno depois do pôr do sol. O farol. Os pescadores da venda da esquina cuspiam no chão quando eu perguntava. Um deles, um velho de mãos rachadas, começou a dizer alguma coisa, algo como “antigamente”, mas parou no meio da frase, olhou para os outros e mudou de assunto. Todos os barcos na enseada tinham o mesmo amuleto azul no mastro. Ninguém falava do farol. Era como se o poste tivesse um nome que não podia ser dito.
A primeira noite foi ruim. O colchão afundava no meio, o vento entrava pelas frestas e a casa estalava como se alguém andasse lá embaixo. Não era o estalo de madeira velha. Havia alguma coisa úmida naquele som, como uma junta de dedo. Dormi de roupa, com o celular na mão. Foi então que a luz veio.
Não foi um clarão. Foi um facho lento, atravessando a parede do quarto. Acordei com o suor frio colando o lençol às costas. A luz desenhou um quadrado no papel de parede descascado, deslizou para a esquerda e sumiu. Fiquei sentado na cama, olhando para a janela. O farol, lá longe, era só uma agulha preta no horizonte. Nenhum brilho. Nenhum. Havia um gosto fraco de metal na boca, quase nada. Passou quando bebi água. Olhei para o relógio da mesa de cabeceira. Os números vermelhos queimavam no escuro: 3h17. No silêncio, minha própria voz, baixinho, atrás do ouvido: “Você tá bem?” Eu não respondi. “Tô.” “Mentira.”
Na noite seguinte, decidi ficar acordado. Deitado, os olhos abertos, os punhos fechados. O relógio marcava 3h15. Eu ia ver a luz chegar. Ia cronometrar. Pensei “Tô” antes de pensar a pergunta. Achei que era nervoso. 3h16. O vento parou. O cheiro de ozônio veio primeiro, aquele cheiro de ar depois de tempestade, de aparelho elétrico ligado. Eu pisquei. Só uma vez. O relógio marcava 3h18. Não 3h17. 3h18. A luz já tinha passado. Eu perdi. Sentei na cama, um gosto metálico mais forte na boca, como se tivesse mordido uma pilha. O farol, pela janela, continuava apagado. Eu não tinha visto nada. Mas o gosto ficou até o amanhecer.
Na terceira noite, decidi filmar. Peguei o celular, apontei para a parede, esperei. Às 3h17, a luz veio. Na tela, só escuridão. No quarto, o quadrado branco deslizando pelo papel de parede. Aproximei. Nada. Afastei. Nada. Troquei o ângulo. Mudei para o modo noturno. A tela mostrava o quarto vazio, as paredes vazias, e a luz passando por cima de tudo sem aparecer. Como se o celular fosse cego. Desliguei o aparelho e fiquei quieto. O enjoo veio depois, e eu passei o resto da noite sentado no banheiro, com a testa na porcelana fria, sem conseguir vomitar. Foi quando peguei o celular de novo, sem pensar, e abri a galeria. A gravação não tinha parado. O vídeo mostrava a parede, o quadrado de luz parado no mesmo canto. Só que, no vídeo, o quadrado continuava avançando. Devagar. Um centímetro, outro, outro. No quarto, não se movia. E o áudio tinha um estalo. Úmido. Como junta de dedo. No fim da gravação, quase encoberta pelo estalo, uma voz dizia baixinho: “Mentira”. Eu não tinha falado nada.
No dia seguinte, fui à praia. Bebi água de coco. Comprei um pastel. Levei o copo à boca e senti ozônio. Só por um segundo. Depois era só água de coco de novo. O velho das mãos rachadas me viu de longe, virou as costas, puxou a cortina de plástico com força e se recolheu atrás do balcão, como se estivesse trancando uma porta. Voltei para a casa às cinco da tarde e dormi com as luzes acesas, o que não serviu de nada.
Na quarta noite, decidi enfrentar o farol.
Calcei o tênis sem meia, peguei a lanterna do celular e saí. A areia fria entrava nos meus sapatos. A lua estava nova, o céu um breu salpicado de estrelas frias. O poste crescia à medida que eu me aproximava. Era uma torre de concreto cega. O vento parou quando cheguei perto. O silêncio era pesado, como se alguém tivesse apertado o mudo do mundo. O cheiro de sal era forte, mas havia outra coisa por baixo. Um cheiro doce, como fruta passada. Toquei o concreto.
Morno.
Não a frieza da noite. Morno como pele. Passei a mão na aspereza e por baixo havia um calor de febre. Senti o estômago subir e engoli em seco. Foi quando vi, preso numa fissura do concreto, um fio azul. O mesmo azul dos amuletos. Amarrado. Como se alguém tivesse tentado prender alguma coisa ali. Puxei. O fio não cedeu. Estava úmido. Quase morno também. Virei-me para olhar a minha casa, lá longe, uma caixa escura na beira da praia.
A luz estava acesa no quarto.
O quarto brilhava como um olho aberto na face escura da casa. Fiquei paralisado. O tempo esticou. Olhei para a luz, para o farol, para a luz de novo. Nada se movia. Só o quadrado aceso, imóvel. E eu soube, sem saber como, que ele tinha o mesmo tamanho do quadrado que varria a parede do meu quarto. Não havia como medir. Mas eu sabia.
Corri.
A areia parecia me puxar para trás, cada passo afundava mais fundo, e eu perdi a noção de distância. A casa não chegava nunca. Atrás de mim, ouvi um estalo úmido, como junta de dedo. Perto. Muito perto. E depois silêncio. Só o meu corpo cortando o ar. Não olhei. O celular voou da minha mão, bateu na areia, a luz da lanterna rodopiou e se apagou. Continuei correndo. Quando cheguei ao quintal, a casa estava toda apagada.
A janela do quarto, negra.
Fiquei ali, ofegante, os joelhos tremendo, esperando meu peito parar de bater. Não parou. Subi as escadas com a mão no corrimão, que rangeu sob meus dedos. Acendi a luz do corredor. Tudo normal. Entrei no quarto. A lâmpada do teto, apagada. Passei a mão no interruptor. Frio. Não tocado. Mas o ar tinha os dois cheiros. Ozônio e fruta passada, misturados. O quarto cheirava como o farol. Ou o farol cheirava como o quarto. Não havia diferença. Hesitei antes de encostar na lâmpada do abajur. Quando encostei, ela estava morna. Como o farol. Afastei a mão e senti o calor residual na palma, um calor que não vinha de mim. Sentei na cama. Olhei para o relógio: 3h10. Sete minutos. Esperei.
3h17.
A luz veio. Varreu a parede. Mas desta vez, eu não me levantei. Não olhei para a janela. Fiquei sentado no escuro, os olhos fixos no facho que se movia preguiçosamente. Esperei que passasse. Não passou. A luz desacelerou. Parou. Um quadrado perfeito, branco, sólido. Não se movia. Não piscava. Ficou ali, cravada no papel de parede, como uma janela para outro lugar. O ar no quarto ficou denso. Tentei me mexer, mas meus músculos eram pedra. E então a borda superior do quadrado desceu. O retângulo virou um trapézio. Ficou assim. Por um segundo, tive a impressão de que o quarto não estava recebendo aquela luz. Estava sendo puxado para dentro dela. E na minha cabeça, a voz voltou, distorcida, quebrada, como se viesse de dentro do rádio do carro: “Tô. Você tá bem? Mentira. Tô. Mentira. Tô.” A resposta veio antes da pergunta. Uma voz mais grave pronunciou o restante da frase antes que ela se formasse na minha cabeça. As vozes se sobrepunham, se atropelavam, e nenhuma delas era mais a minha. Ficou assim até o amanhecer.
Quando os primeiros raios cinzentos cortaram o horizonte, a luz sumiu. Não se apagou. Sumiu. Como se tivesse sido sugada. O quarto voltou a ser um quarto. O relógio marcava 6h04. Eu estava exausto, sujo, o corpo dolorido de uma noite inteira na mesma posição. Quando me levantei, senti alguma coisa na barra da camisa. Um fio azul. Pequeno. Preso no tecido. Não lembrava de ter tocado em nada. Não lembrava de ter puxado nada.
Naquela manhã, fiz as malas. Não falei com ninguém. Não olhou para trás. Passei pelo corretor na rua, que me cumprimentou com o sorriso fácil. Olhou para o meu rosto por um segundo a mais do que devia. “Pretende ficar mais alguns dias?”, perguntou. Não respondi. Dirigi por horas, o pé no fundo, till a Riviera ser apenas uma lembrança salgada no retrovisor. Mas não foi uma lembrança limpa. O cheiro de ozônio ficou no carro por dias. E de vez em quando, no canto do olho, no retrovisor, eu via um retângulo fraco no horizonte. Quando eu olhava direto, sumia.
O farol continua apagado. Eu sei. Eu vi.
Mas a luz ainda está lá.
Todas as noites. Às 3h17.
Ainda espera.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A Ofrenda de Canela

A Ofrenda de Canela
Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos

A chuva começou antes do almoço e não parou mais. Clara ficou na janela da sala olhando o mar entre os prédios. A água tava mais escura, daquele jeito pesado de quando o rio encontra o mar e a foz fica toda turva.

Na cozinha, o pote de ração continuava no mesmo lugar.

Ela ainda comprava pacotinho pequeno. No automático. Guardava no fundo do armário, atrás da água sanitária, pra não ter que ficar olhando.

Canela era pequena, caramelo queimado, mancha branca no peito, uma patinha traseira meio torta. Morria de medo do interfone. Quando ficava sozinha roía a quina do tapete. Clara reclamava, mas nunca trocou.

De noite levava o patinho de borracha pra cama. Apertava duas vezes e esperava a luz apagar. Depois ficava rodando em cima do cobertor até achar o lugar nos pés dela.

Foi assim durante anos.

Em julho a Clara tava no México. Deixou a Canela com a vizinha. Falou que voltava em duas semanas. Ficou três.

Na terceira noite caiu aquele temporal em Matinhos. A Canela escapou pelo portão.

Acharam o corpo na beira do rio, perto da foz, já quase na praia.

A vizinha mandou a foto. Clara abriu, viu e fechou na hora. Depois tentou abrir de novo. Não foi. Nunca mais tentou.

Foi lá que ela ouviu falar da ofrenda. A tia da ex mostrou no celular o altarzinho do ano anterior — água, comidinha, foto, brinquedo, flor laranja — e falou que no dia 27 de outubro algumas famílias faziam pros bichos acharem o caminho de volta.

— Quem é lembrado encontra a casa.

Ela guardou a frase.

Naquele 27 de outubro montou o altar aqui.

Comprou umas flores laranjas em Caiobá. Não tinha cempasúchil, pegou as mais parecidas. Em casa abriu a caixa de fotos e achou uma da Canela dormindo de barriga pra cima no sofá, língua pra fora, toda torta.

Colocou num porta-retrato de madeira que achou no armário quando se mudou. Do lado a coleira, o patinho, uma tigelinha com água e uns biscoitos de arroz. Uma vela branca.

Seis da tarde acendeu a vela e sentou.

— Se você achar o caminho, pode ficar.

Falou baixo, riu de si mesma sem graça e foi lavar a louça.

A torneira veio com aquele cheiro de maré baixa. Deixou correr um pouco até passar.

23h43 ouviu um tilintar vindo da sala.

Largou a xícara na pia.

De novo. Baixinho. Metálico.

A medalhinha da coleira.

Foi até a mesa. Encostou o dedo na medalha.

Tava morna.

De manhã tinha areia perto da porta da sacada. Achou que tinha trazido no chinelo. Passou um pano.

Quando voltou do trabalho o patinho tava em cima da cama. Úmido. Gelado.

De noite acordou com barulho de unha no taco. Ficou quieta, prendendo a respiração. Não voltou.

No outro dia a tigela tava quase seca. Chão seco. Encheu de novo.

No fim da tarde a Dona Iracema bateu. Morava no de baixo há mais de vinte anos.

— Tá com cachorro de novo?

— Não.

— Tô ouvindo unha aí em cima. Ontem também.

Olhou pra mesa com as flores.

— Minha mãe dizia que bicho reconhece a casa. Mas nem sempre reconhece o dono.

Desceu.

Clara trancou a porta.

De noite sonhou com a praia. Canela mancando perto dos quiosques, molhada. Chamou. Ela entrou no mar. Foi atrás. A água subiu rápido, cintura, peito. Gelada. Mais longe tinha uma pessoa parada dentro d'água.

Acordou com areia molhada no travesseiro e cheiro de pelo molhado no lençol.

Nos dias seguintes ficou mais tempo na sala. Trocava a água duas vezes por dia. Comprava mais biscoito. Deixava o patinho no chão, do lado da mesa.

Na quinta noite acordou com um peso nos pés.

O peso se mexeu no cobertor. Conhecia aquele jeito.

Esticou a mão.

Calor. Depois frio. Uma pele lisa demais, como se ainda tivesse água.

Abriu os olhos. Cama vazia. Mão molhada de sal.

— Você achou o caminho.

Na sala o patinho rangeu duas vezes.

Sorriu no escuro.

Na noite seguinte acordou às 3h33.

Vela apagada. Cheiro de maré forte, de peixe.

No espelho da penteadeira, a sala.

Perto do tapete, uma forma escura.

Duas manchas claras no escuro.

A medalhinha tilintou atrasada.

Olhou pro porta-retrato.

A foto não era mais a do sofá.

Canela na areia, focinho sujo. A mesma foto que a vizinha tinha mandado. A que ela nunca conseguiu abrir de novo.

Atrás da cadela, uma mulher de costas. Pela roupa, pelo cabelo, era ela.

A forma deu um passo. O taco não rangeu.

Veio o cheiro de peixe morto. Por baixo, fraco, o pelo quente da Canela.

Colocou a vela de volta na mesa.

— Vai embora.

Olhou de novo pra foto. A mulher já não tava atrás da cadela.

Tava entrando no mar.

O patinho rangeu uma vez.

De manhã a Dona Iracema estranhou o silêncio.

Chamou na porta. Esperou. Chamou de novo.

Porta entreaberta.

Entrou.

Apartamento limpo. Cama feita. Louça lavada. Flores na mesa. Celular na bancada, tela apagada.

Areia fina perto da sacada. Cheiro de maré ainda no ar.

Esbarrou na mesinha. O porta-retrato caiu. Vidro quebrou. Fundo soltou.

Uma foto dobrada caiu lá de dentro.

Canela dormindo nos pés de uma cama. No fundo a mesma mesinha, a tigela, o patinho.

A mesa era a mesma.

Na foto a porta do quarto tava aberta.

Olhou pra tigela.

A água tava turva, com grão de areia no fundo.

Igual à foz quando o rio encontra o mar.