Tadeu Everton Zamoiski
Vou te contar uma coisa que eu nunca contei pra ninguém. Nem pra minha esposa, nem pro meu chefe, nem pro delegado que me chamou pra depor. Não é que eu tenha medo de contar. É que contar dá uma espécie de realidade pras coisas.
Eu trabalho no Parque Estadual do Rio da Onça há vinte anos. Cento e dezenove hectares de Mata Atlântica preservada. Pontes suspensas, mirante, trilha sinalizada. O nome vem das onças que desciam pra beber água, muito tempo atrás, quando ainda tinha pouca gente morando aqui. Meu antigo chefe dizia que era conversa de morador antigo. Nunca encontrei pegada de onça por ali. Nem antiga. Hoje ninguém vê onça. Mas o nome ficou. Essas coisas ficam.
Vinte anos andando no mesmo mato. A gente aprende a ouvir o que está lá e o que não está. A mata tem um silêncio próprio quando está vazia. Um silêncio de coisa guardada. E tem outro silêncio quando tem bicho por perto. Um silêncio que parece que está esperando junto com você. Quem trabalha no mato sabe a diferença. Não sabe explicar, mas sabe. Eu sei diferenciar o barulho de uma capivara atravessando o mato do barulho de qualquer outra coisa. Sei ver galho quebrado por bicho e galho quebrado por gente. Sei os pontos da trilha que alagam depois da chuva, sei onde a correnteza do rio muda, sei onde a água costuma ficar mais funda. Conheço esse parque como conheço a minha casa.
Foi esse segundo silêncio que eu ouvi naquela tarde.
Um passo pesado. Galhos quebrando. Não era bicho pequeno. Era peso. Peso grande, distribuído em quatro patas, andando devagar. Parei. O som parou. Fiquei parado, ouvindo o meu próprio peito, esperando. O som voltou. Mais perto. E eu não vi nada. A mata estava fechada. Aquele verde denso, o ar parado, aquele calor úmido que sobe do chão depois da chuva. Nada. Nenhum movimento. Nenhuma folha mexendo.
O cheiro veio depois. Carne podre. Aquele cheiro doce e pesado que gruda na garganta e não sai. Segui até o rio. Me aproximei da margem, num ponto onde a correnteza costuma mudar, onde a água fica mais funda e mais escura. Conheço aquele ponto. Já medi a profundidade ali. Já vi o rio secar e encher. Naquela tarde, a superfície estava parada como um vidro. Mas eu sabia que a água continuava correndo embaixo, porque a correnteza não para, nunca para. Só a superfície é que não se mexia. Não refletia nada. Nem as árvores, nem o céu, nem eu. Me inclinei pra ver melhor.
A água mostrou uma sombra atrás de mim.
Grande. Parada. Do tamanho de um homem, mas mais larga. Sem contorno definido, como se a água tivesse esquecido de refletir o que estava lá. Me virei. Não tinha nada. Só mato, sombra, silêncio. Olhei de novo pra água. A sombra ainda estava lá. Maior. Mais perto. Senti um frio na nuca que não vinha do tempo. E na boca, um gosto de metal, fraco, quase nada, como se eu tivesse mordido a própria língua sem perceber.
Saí do parque. Não fiz o relatório. Não contei pro chefe. Não contei pra ninguém. Dirigi até em casa com as mãos apertando o volante, olhando pelo retrovisor a cada curva. No dia seguinte, voltei. Precisava voltar. A mata estava igual. O cheiro tinha sumido. A água refletia tudo. Refletia demais. As árvores, o céu, o meu rosto cansado, cada folha, cada galho, cada sombra do mato. Eu ri de mim mesmo. Vinte anos de mato e eu com medo de sombra. Passei a semana sem pensar no assunto. Quase.
No sábado, um visitante desapareceu.
Eu estava na guarita quando ele entrou. Homem de quarenta e poucos anos, sozinho, bermuda cáqui, camiseta branca, uma mochila pequena nas costas. A esposa ficou no carro, no estacionamento. Ele veio até o balcão da guarita e perguntou quanto tempo levava até o mirante. Eu disse que uns quarenta minutos, ida e volta. Ele sorriu, agradeceu. Quando ele sorriu, tive a impressão de já conhecer aquele rosto. Não de ter visto o homem antes. Era outra coisa. Uma lembrança sem imagem, como quando a gente reconhece uma voz que nunca ouviu. Ele não pareceu notar. Antes de pegar a trilha, olhou para o rio. Não tinha motivo pra olhar o rio dali. A trilha do mirante vai pra outro lado. Mas ele olhou. E não olhou pra qualquer parte do rio. Olhou pro ponto onde a correnteza muda, onde a água fica mais funda. O mesmo ponto onde eu tinha estado na véspera. Não havia nada ali que chamasse a atenção de um visitante. Nenhuma placa, nenhuma trilha, nenhuma curva que se destacasse. Mas ele olhou direto pra lá. Ficou parado um segundo, dois, depois acenou pra esposa e entrou na trilha. Eram dez e sete da manhã. Eu lembro do horário porque olhei o relógio da guarita naquele segundo. Não sei por que olhei.
A esposa esperou no carro até escurecer. Depois chamou a polícia. As buscas duraram três dias. Cães, drones, bombeiros, voluntários. Nada. Nenhum rastro. Nenhum pertence. A trilha do mirante estava intacta, como se ninguém tivesse passado por ali.
No terceiro dia, a esposa voltou à guarita. Não perguntou se tinham encontrado o marido. Perguntou se eu tinha visto um homem entrar no parque antes dele. Disse que, naquela manhã, quando chegaram, havia alguém parado perto do rio. Pensou que fosse um funcionário. Eu disse que não vi ninguém. Ela me olhou por um segundo a mais do que precisava, depois agradeceu e foi embora. Fiquei na guarita, olhando pra trilha, sentindo o gosto de metal voltar na boca.
Fui chamado pra depor. O delegado me perguntou se eu tinha visto alguma coisa. Se o parque era seguro. Se já tinha acontecido algo parecido. Eu disse que não. Que o parque é seguro. Que nunca aconteceu nada assim. Ele me perguntou de novo, com outras palavras, como quem já sabe a resposta. Eu hesitei. Um segundo, dois. O delegado olhou pro meu rosto, procurando alguma coisa. Eu sustentei o olhar. Não desviei. Senti o gosto de sangue na boca, mais forte agora, quente, como se a mentira tivesse um gosto. Depois disse que não, que nunca tinha visto nada. Falei com calma. E era verdade. Nunca tinha acontecido nada assim. Pelo menos não que eu tivesse contado.
Mas já tinha acontecido antes. Quando eu era novo no parque, no primeiro ano, eu ouvi um passo na trilha do rio. Um passo só, pelo menos era assim que eu me lembrava. Perto da curva onde a água alaga. Eu estava sozinho, com o caderno de campo na mão, anotando a cheia do mês. O passo veio atrás de mim, pesado, grande. Parei. O som parou. Fiquei parado um minuto, dois, esperando. Nada. Não vi nada. Voltei pra guarita e anotei a cheia. Mas deixei uma linha em branco embaixo, sem saber por quê. A linha ficou lá, vazia, vinte anos.
Voltei pra casa naquela noite. Minha esposa já dormia. Antes de entrar, parei no quintal e olhei pro reflexo da janela. Vi a sala atrás de mim. O sofá, o abajur apagado, a porta do corredor. Não tinha sombra. Entrei. Sentei na sala, no escuro, com um copo de água na mão. Não conseguia dormir. Ficava olhando pra janela, pro quintal, pro reflexo do vidro.
E atrás de tudo, a sombra.
Grande. Parada. Do tamanho de um homem, mas mais larga. Não me virei. Sabia que ela estava lá. Sabia que sempre esteve. Sabia que não ia embora. Fiquei sentado, olhando pro reflexo, sentindo o cheiro de carne podre subir devagar pela sala, e o gosto de sangue na boca. Quente. Real. Mesmo sem eu ter mordido a língua. Foi então que entendi: aquele passo nunca tinha ido embora. Só tinha esperado.
Naquela mesma noite, abri a gaveta onde guardava os cadernos antigos. Encontrei o do primeiro ano. A anotação da cheia continuava lá.
Abaixo dela, na linha que eu tinha deixado em branco, havia duas palavras escritas.
Na minha letra: Dois passos.
Não me lembrava de ter escrito aquilo. A tinta era a mesma. O jeito de fazer o "d" também. Fechei o caderno. Guardei na gaveta. Não contei pra ninguém.
Às vezes, no fim da tarde, quando estou sozinho na guarita e o sol está baixo, batendo na mata, eu escuto um passo pesado. Galhos quebrando. E fico parado, ouvindo o meu próprio peito, esperando. Não olho pro vidro. Não preciso. Sei que ela está atrás de mim. Já não sei se chega com o som ou se estava ali antes. Só sei que permanece quando o passo para.
O som para. Sempre para.
Eu não me inclino mais.