Tadeu Everton Zamoiski
Matinhos
A chuva começou antes do almoço e não parou mais. Clara ficou na janela da sala olhando o mar entre os prédios. A água tava mais escura, daquele jeito pesado de quando o rio encontra o mar e a foz fica toda turva.
Na cozinha, o pote de ração continuava no mesmo lugar.
Ela ainda comprava pacotinho pequeno. No automático. Guardava no fundo do armário, atrás da água sanitária, pra não ter que ficar olhando.
Canela era pequena, caramelo queimado, mancha branca no peito, uma patinha traseira meio torta. Morria de medo do interfone. Quando ficava sozinha roía a quina do tapete. Clara reclamava, mas nunca trocou.
De noite levava o patinho de borracha pra cama. Apertava duas vezes e esperava a luz apagar. Depois ficava rodando em cima do cobertor até achar o lugar nos pés dela.
Foi assim durante anos.
Em julho a Clara tava no México. Deixou a Canela com a vizinha. Falou que voltava em duas semanas. Ficou três.
Na terceira noite caiu aquele temporal em Matinhos. A Canela escapou pelo portão.
Acharam o corpo na beira do rio, perto da foz, já quase na praia.
A vizinha mandou a foto. Clara abriu, viu e fechou na hora. Depois tentou abrir de novo. Não foi. Nunca mais tentou.
Foi lá que ela ouviu falar da ofrenda. A tia da ex mostrou no celular o altarzinho do ano anterior — água, comidinha, foto, brinquedo, flor laranja — e falou que no dia 27 de outubro algumas famílias faziam pros bichos acharem o caminho de volta.
— Quem é lembrado encontra a casa.
Ela guardou a frase.
Naquele 27 de outubro montou o altar aqui.
Comprou umas flores laranjas em Caiobá. Não tinha cempasúchil, pegou as mais parecidas. Em casa abriu a caixa de fotos e achou uma da Canela dormindo de barriga pra cima no sofá, língua pra fora, toda torta.
Colocou num porta-retrato de madeira que achou no armário quando se mudou. Do lado a coleira, o patinho, uma tigelinha com água e uns biscoitos de arroz. Uma vela branca.
Seis da tarde acendeu a vela e sentou.
— Se você achar o caminho, pode ficar.
Falou baixo, riu de si mesma sem graça e foi lavar a louça.
A torneira veio com aquele cheiro de maré baixa. Deixou correr um pouco até passar.
23h43 ouviu um tilintar vindo da sala.
Largou a xícara na pia.
De novo. Baixinho. Metálico.
A medalhinha da coleira.
Foi até a mesa. Encostou o dedo na medalha.
Tava morna.
De manhã tinha areia perto da porta da sacada. Achou que tinha trazido no chinelo. Passou um pano.
Quando voltou do trabalho o patinho tava em cima da cama. Úmido. Gelado.
De noite acordou com barulho de unha no taco. Ficou quieta, prendendo a respiração. Não voltou.
No outro dia a tigela tava quase seca. Chão seco. Encheu de novo.
No fim da tarde a Dona Iracema bateu. Morava no de baixo há mais de vinte anos.
— Tá com cachorro de novo?
— Não.
— Tô ouvindo unha aí em cima. Ontem também.
Olhou pra mesa com as flores.
— Minha mãe dizia que bicho reconhece a casa. Mas nem sempre reconhece o dono.
Desceu.
Clara trancou a porta.
De noite sonhou com a praia. Canela mancando perto dos quiosques, molhada. Chamou. Ela entrou no mar. Foi atrás. A água subiu rápido, cintura, peito. Gelada. Mais longe tinha uma pessoa parada dentro d'água.
Acordou com areia molhada no travesseiro e cheiro de pelo molhado no lençol.
Nos dias seguintes ficou mais tempo na sala. Trocava a água duas vezes por dia. Comprava mais biscoito. Deixava o patinho no chão, do lado da mesa.
Na quinta noite acordou com um peso nos pés.
O peso se mexeu no cobertor. Conhecia aquele jeito.
Esticou a mão.
Calor. Depois frio. Uma pele lisa demais, como se ainda tivesse água.
Abriu os olhos. Cama vazia. Mão molhada de sal.
— Você achou o caminho.
Na sala o patinho rangeu duas vezes.
Sorriu no escuro.
Na noite seguinte acordou às 3h33.
Vela apagada. Cheiro de maré forte, de peixe.
No espelho da penteadeira, a sala.
Perto do tapete, uma forma escura.
Duas manchas claras no escuro.
A medalhinha tilintou atrasada.
Olhou pro porta-retrato.
A foto não era mais a do sofá.
Canela na areia, focinho sujo. A mesma foto que a vizinha tinha mandado. A que ela nunca conseguiu abrir de novo.
Atrás da cadela, uma mulher de costas. Pela roupa, pelo cabelo, era ela.
A forma deu um passo. O taco não rangeu.
Veio o cheiro de peixe morto. Por baixo, fraco, o pelo quente da Canela.
Colocou a vela de volta na mesa.
— Vai embora.
Olhou de novo pra foto. A mulher já não tava atrás da cadela.
Tava entrando no mar.
O patinho rangeu uma vez.
De manhã a Dona Iracema estranhou o silêncio.
Chamou na porta. Esperou. Chamou de novo.
Porta entreaberta.
Entrou.
Apartamento limpo. Cama feita. Louça lavada. Flores na mesa. Celular na bancada, tela apagada.
Areia fina perto da sacada. Cheiro de maré ainda no ar.
Esbarrou na mesinha. O porta-retrato caiu. Vidro quebrou. Fundo soltou.
Uma foto dobrada caiu lá de dentro.
Canela dormindo nos pés de uma cama. No fundo a mesma mesinha, a tigela, o patinho.
A mesa era a mesma.
Na foto a porta do quarto tava aberta.
Olhou pra tigela.
A água tava turva, com grão de areia no fundo.
Igual à foz quando o rio encontra o mar.
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