Tadeu Everton Zamoiski
Eu aluguei aquela casa porque era barata e porque eu precisava sumir por uns dias. O relacionamento de seis anos terminou. Na mesma semana, perdi o emprego. E eu tinha começado a falar sozinho dentro do carro. Não conversas inteiras. Só frases soltas. “Você tá bem?” “Tô.” “Mentira.” No celular, eu ainda não tinha apagado a última conversa. A última mensagem era minha. Eu conferia mesmo assim, de vez em quando, como quem checa uma ferida. A Riviera parecia um bom lugar para não existir por uma semana. O corretor me entregou a chave com um sorriso de quem estava se livrando de um problema. “Silêncio absoluto”, disse. Depois, como quem não quer nada: “O senhor dorme bem?” Não respondi. Ele falou alguma coisa sobre a maré virar de madrugada, sobre a luz do poste da rua piscar às vezes, mas eu não prestei atenção. Não mencionou o outro poste, o da praia. Um cotoco de concreto, cego, torto contra o céu, que o sol deixava morno e que continuava morno depois do pôr do sol. O farol. Os pescadores da venda da esquina cuspiam no chão quando eu perguntava. Um deles, um velho de mãos rachadas, começou a dizer alguma coisa, algo como “antigamente”, mas parou no meio da frase, olhou para os outros e mudou de assunto. Todos os barcos na enseada tinham o mesmo amuleto azul no mastro. Ninguém falava do farol. Era como se o poste tivesse um nome que não podia ser dito.
A primeira noite foi ruim. O colchão afundava no meio, o vento entrava pelas frestas e a casa estalava como se alguém andasse lá embaixo. Não era o estalo de madeira velha. Havia alguma coisa úmida naquele som, como uma junta de dedo. Dormi de roupa, com o celular na mão. Foi então que a luz veio.
Não foi um clarão. Foi um facho lento, atravessando a parede do quarto. Acordei com o suor frio colando o lençol às costas. A luz desenhou um quadrado no papel de parede descascado, deslizou para a esquerda e sumiu. Fiquei sentado na cama, olhando para a janela. O farol, lá longe, era só uma agulha preta no horizonte. Nenhum brilho. Nenhum. Havia um gosto fraco de metal na boca, quase nada. Passou quando bebi água. Olhei para o relógio da mesa de cabeceira. Os números vermelhos queimavam no escuro: 3h17. No silêncio, minha própria voz, baixinho, atrás do ouvido: “Você tá bem?” Eu não respondi. “Tô.” “Mentira.”
Na noite seguinte, decidi ficar acordado. Deitado, os olhos abertos, os punhos fechados. O relógio marcava 3h15. Eu ia ver a luz chegar. Ia cronometrar. Pensei “Tô” antes de pensar a pergunta. Achei que era nervoso. 3h16. O vento parou. O cheiro de ozônio veio primeiro, aquele cheiro de ar depois de tempestade, de aparelho elétrico ligado. Eu pisquei. Só uma vez. O relógio marcava 3h18. Não 3h17. 3h18. A luz já tinha passado. Eu perdi. Sentei na cama, um gosto metálico mais forte na boca, como se tivesse mordido uma pilha. O farol, pela janela, continuava apagado. Eu não tinha visto nada. Mas o gosto ficou até o amanhecer.
Na terceira noite, decidi filmar. Peguei o celular, apontei para a parede, esperei. Às 3h17, a luz veio. Na tela, só escuridão. No quarto, o quadrado branco deslizando pelo papel de parede. Aproximei. Nada. Afastei. Nada. Troquei o ângulo. Mudei para o modo noturno. A tela mostrava o quarto vazio, as paredes vazias, e a luz passando por cima de tudo sem aparecer. Como se o celular fosse cego. Desliguei o aparelho e fiquei quieto. O enjoo veio depois, e eu passei o resto da noite sentado no banheiro, com a testa na porcelana fria, sem conseguir vomitar. Foi quando peguei o celular de novo, sem pensar, e abri a galeria. A gravação não tinha parado. O vídeo mostrava a parede, o quadrado de luz parado no mesmo canto. Só que, no vídeo, o quadrado continuava avançando. Devagar. Um centímetro, outro, outro. No quarto, não se movia. E o áudio tinha um estalo. Úmido. Como junta de dedo. No fim da gravação, quase encoberta pelo estalo, uma voz dizia baixinho: “Mentira”. Eu não tinha falado nada.
No dia seguinte, fui à praia. Bebi água de coco. Comprei um pastel. Levei o copo à boca e senti ozônio. Só por um segundo. Depois era só água de coco de novo. O velho das mãos rachadas me viu de longe, virou as costas, puxou a cortina de plástico com força e se recolheu atrás do balcão, como se estivesse trancando uma porta. Voltei para a casa às cinco da tarde e dormi com as luzes acesas, o que não serviu de nada.
Na quarta noite, decidi enfrentar o farol.
Calcei o tênis sem meia, peguei a lanterna do celular e saí. A areia fria entrava nos meus sapatos. A lua estava nova, o céu um breu salpicado de estrelas frias. O poste crescia à medida que eu me aproximava. Era uma torre de concreto cega. O vento parou quando cheguei perto. O silêncio era pesado, como se alguém tivesse apertado o mudo do mundo. O cheiro de sal era forte, mas havia outra coisa por baixo. Um cheiro doce, como fruta passada. Toquei o concreto.
Morno.
Não a frieza da noite. Morno como pele. Passei a mão na aspereza e por baixo havia um calor de febre. Senti o estômago subir e engoli em seco. Foi quando vi, preso numa fissura do concreto, um fio azul. O mesmo azul dos amuletos. Amarrado. Como se alguém tivesse tentado prender alguma coisa ali. Puxei. O fio não cedeu. Estava úmido. Quase morno também. Virei-me para olhar a minha casa, lá longe, uma caixa escura na beira da praia.
A luz estava acesa no quarto.
O quarto brilhava como um olho aberto na face escura da casa. Fiquei paralisado. O tempo esticou. Olhei para a luz, para o farol, para a luz de novo. Nada se movia. Só o quadrado aceso, imóvel. E eu soube, sem saber como, que ele tinha o mesmo tamanho do quadrado que varria a parede do meu quarto. Não havia como medir. Mas eu sabia.
Corri.
A areia parecia me puxar para trás, cada passo afundava mais fundo, e eu perdi a noção de distância. A casa não chegava nunca. Atrás de mim, ouvi um estalo úmido, como junta de dedo. Perto. Muito perto. E depois silêncio. Só o meu corpo cortando o ar. Não olhei. O celular voou da minha mão, bateu na areia, a luz da lanterna rodopiou e se apagou. Continuei correndo. Quando cheguei ao quintal, a casa estava toda apagada.
A janela do quarto, negra.
Fiquei ali, ofegante, os joelhos tremendo, esperando meu peito parar de bater. Não parou. Subi as escadas com a mão no corrimão, que rangeu sob meus dedos. Acendi a luz do corredor. Tudo normal. Entrei no quarto. A lâmpada do teto, apagada. Passei a mão no interruptor. Frio. Não tocado. Mas o ar tinha os dois cheiros. Ozônio e fruta passada, misturados. O quarto cheirava como o farol. Ou o farol cheirava como o quarto. Não havia diferença. Hesitei antes de encostar na lâmpada do abajur. Quando encostei, ela estava morna. Como o farol. Afastei a mão e senti o calor residual na palma, um calor que não vinha de mim. Sentei na cama. Olhei para o relógio: 3h10. Sete minutos. Esperei.
3h17.
A luz veio. Varreu a parede. Mas desta vez, eu não me levantei. Não olhei para a janela. Fiquei sentado no escuro, os olhos fixos no facho que se movia preguiçosamente. Esperei que passasse. Não passou. A luz desacelerou. Parou. Um quadrado perfeito, branco, sólido. Não se movia. Não piscava. Ficou ali, cravada no papel de parede, como uma janela para outro lugar. O ar no quarto ficou denso. Tentei me mexer, mas meus músculos eram pedra. E então a borda superior do quadrado desceu. O retângulo virou um trapézio. Ficou assim. Por um segundo, tive a impressão de que o quarto não estava recebendo aquela luz. Estava sendo puxado para dentro dela. E na minha cabeça, a voz voltou, distorcida, quebrada, como se viesse de dentro do rádio do carro: “Tô. Você tá bem? Mentira. Tô. Mentira. Tô.” A resposta veio antes da pergunta. Uma voz mais grave pronunciou o restante da frase antes que ela se formasse na minha cabeça. As vozes se sobrepunham, se atropelavam, e nenhuma delas era mais a minha. Ficou assim até o amanhecer.
Quando os primeiros raios cinzentos cortaram o horizonte, a luz sumiu. Não se apagou. Sumiu. Como se tivesse sido sugada. O quarto voltou a ser um quarto. O relógio marcava 6h04. Eu estava exausto, sujo, o corpo dolorido de uma noite inteira na mesma posição. Quando me levantei, senti alguma coisa na barra da camisa. Um fio azul. Pequeno. Preso no tecido. Não lembrava de ter tocado em nada. Não lembrava de ter puxado nada.
Naquela manhã, fiz as malas. Não falei com ninguém. Não olhou para trás. Passei pelo corretor na rua, que me cumprimentou com o sorriso fácil. Olhou para o meu rosto por um segundo a mais do que devia. “Pretende ficar mais alguns dias?”, perguntou. Não respondi. Dirigi por horas, o pé no fundo, till a Riviera ser apenas uma lembrança salgada no retrovisor. Mas não foi uma lembrança limpa. O cheiro de ozônio ficou no carro por dias. E de vez em quando, no canto do olho, no retrovisor, eu via um retângulo fraco no horizonte. Quando eu olhava direto, sumia.
O farol continua apagado. Eu sei. Eu vi.
Mas a luz ainda está lá.
Todas as noites. Às 3h17.
Ainda espera.
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