Tadeu Everton Zamoiski
Ninguém leva a sério. Ninguém leva até precisar.
Todo mundo em Matinhos já ouviu falar do motoqueiro da reta da Quintilha. Eu também ouvi. E ri.
Naquela noite, umas dez e meia, parei no posto antes da Cachoeira pra abastecer. O frentista era magro, de bigode fino, e enchia o tanque devagar, olhando pra estrada. O cheiro de gasolina misturava com o de terra úmida. Sem eu perguntar nada, falou baixo:
— Depois das onze eu fecho o box e vou pra dentro.
Perguntei por quê.
— Não é por causa do frio, não.
Perguntei se era por causa do motoqueiro. Ele me olhou um segundo a mais do que precisava. Os olhos dele tinham um cansaço antigo.
— O senhor volta por essa estrada hoje?
Não respondi.
— Se voltar, não pare na reta. Nem pra trocar pneu.
Não perguntei mais nada.
Minha mãe tinha sido internada às pressas em Paranaguá, por volta das dez, com uma angina que o médico achou grave. Fiquei no hospital até quase três da manhã, sentado numa daquelas cadeiras de plástico que gruda na pele. O ar-condicionado gelava a nuca. O cheiro de álcool e comida fria vinha do corredor. Três horas olhando pra parede amarelada, pro relógio que atrasava, pra porta do quarto.
Meu irmão vivia consertando o escapamento da 125. Passava os domingos inteiros na garagem, chave inglesa na mão, o cheiro de óleo e ferrugem grudado na roupa. Dizia que aquele estalo era a assinatura dele. “Reconheço minha moto de longe”, falava. Morreu num domingo, numa reta, sem curva e sem explicação. Ali na cadeira, o tec-tec-tec do escapamento voltou. Na minha cabeça, claro. Como se ele estivesse sentado do meu lado, o joelho encostando no meu.
Когда o médico saiu, disse que ela estava estável, que eu podia ir pra casa descansar e voltar de manhã. Eu morava em Matinhos. Tinha que passar pela reta.
Não acredito nessas coisas. Nunca acreditei. Mas quando a placa da Cachoeira da Quintilha apareceu nos faróis, me peguei apertando o volante com mais força. A borracha do volante estava quente e pegajosa. A estrada estava vazia. Só eu, o carro e a noite. A reta começou: dois quilômetros de asfalto cortando o mato, sem curva, sem casa, sem poste. Céu limpo, lua fina. O mato dos dois lados balançava leve, fazendo um barulho seco de folha. Liguei o rádio. Uma música antiga, que eu não gostava, mas deixei tocando baixo. O frio entrava pela janela mal fechada e mordia os dedos. Cheiro forte de borracha quente do asfalto misturado com terra molhada. O plástico do volante grudava na palma da mão.
Vi a luz.
Vinha de longe, no sentido contrário, alta e forte. Farol de moto. Branca, dessas que ofuscam e fazem a gente baixar o olho. O som veio depois, grave, irregular. Uma 125, com uma falha no escapamento que dava um estalo a cada rotação. O mesmo estalo.
Diminuí a velocidade. Esperei que passasse. Não passou.
A luz não se movia. O som não mudava de direção. Ficava ali, parado no meio da pista. Cheguei mais perto. O motoqueiro estava atravessado, a moto de lado, um vulto em cima, sem capacete, sem rosto. Só a silhueta contra o farol alto. O asfalto brilhava úmido em volta. Buzinei. O som da buzina saiu rouco. Nada. Buzinei de novo, mais longo. O vulto não se mexeu. Desviei pra contramão, passei devagar e olhei pelo retrovisor.
A moto sumiu.
Não foi como quem acelera e some no escuro. Sumiu como se nunca tivesse estado ali. O retrovisor mostrava só a reta vazia e o mato escuro. O cheiro de borracha ainda vinha pela janela. Respirei fundo e acelerei. Ainda no meio da reta, a luz apareceu de novo.
Atrás de mim.
O som encheu o carro de uma vez. Grave, irregular, colado, a um metro do para-choque. No retrovisor, só a luz alta, branca, ocupando o espelho inteiro. Não havia moto. Não havia vulto. Só aquela claridade que doía nos olhos e o estalo batendo no ouvido.
Acelerei. A luz acelerou junto. Freei. A luz freou junto. Não me alcançava, mas também não ficava pra trás. O carro inteiro parecia vibrar com o som.
Parei no acostamento. O cascalho estalou debaixo dos pneus.
Desliguei o motor. O silêncio durou só um segundo. O motor da moto continuava. A luz continuava ali, dez metros atrás, parada no meio da pista. O farol dela iluminava a fumaça fina que saía do meu escapamento.
Desci. O frio subiu pelas pernas. Fiquei na beira da estrada, o cheiro de terra e asfalto no nariz, e gritei. Gritei que aquilo não era real. Gritei que fosse embora. A voz saiu rouca, estranha.
A luz se apagou. Sem pressa. O som parou. O silêncio veio de verdade, pesado, só quebrado pelo vento no mato. Fiquei no escuro, ouvindo meu próprio coração batendo no pescoço, com o suor frio escorrendo pelas costas e grudando a camisa.
Voltei pro carro e girei a chave. O motor pegou com um engasgo. E no mesmo instante, lá atrás, bem longe, o da moto pegou também. A luz acendeu de novo, pequena, distante. E ficou ali, me esperando.
Dirigi até Matinhos sem olhar pelo retrovisor. O brilho branco batia no painel e desenhava a sombra do volante no meu colo. A luz me seguiu pela curva, acompanhou o para-choque por um quilômetro. Depois sumiu. O silêncio dentro do carro ficou grande demais.
Não contei a ninguém.
Na noite seguinte tive que fazer o mesmo trajeto. A reta estava lá. A luz estava lá. Passei reto, pé no fundo, olhos fixos na pista. O estalo vinha claro pela janela. Quando passei pela moto, olhei de lado. O vulto virou a cabeça. Devagar. Não vi rosto. Vi só o movimento.
Minha mãe teve alta três dias depois. Busquei ela no hospital numa tarde de sol baixo, daquele que bate de lado e faz a estrada parecer mais longa. O cheiro de remédio ainda vinha na roupa dela. Ela sentou no banco do carona, bolsa no colo, falando do preço do pão, da vizinha, do calor. Eu dirigia devagar, o sol quente no braço esquerdo, tentando não olhar pra reta.
Quando a placa da Cachoeira apareceu, vi a luz. Ouvi o motor, o estalo a cada rotação. O som entrava pela janela aberta, misturado com o cheiro de capim quente.
Minha mãe continuou falando. No meio de uma frase sobre o preço do gás, parou e disse:
— Teu irmão gostava dessa estrada.
O estalo sumiu por um segundo. Minha mão afrouxou no câmbio. Depois voltou, claro, insistente. Ela continuou falando do gás.
Passo pela reta sempre que volto de Paranaguá. A luz vem. Eu acelero, ela acelera. Sei que se eu parar, ela para. Sei que se eu gritar, ela some. Por isso não paro mais. Dirijo com os olhos na pista, o estalo batendo no ouvido, fingindo que não é comigo.
Em casa, desligo o carro e fico um pouco parado. A garagem é a que herdei dele. Ainda tem cheiro de óleo velho e ferrugem. Deixo o portão aberto. Fico ali, no escuro, esperando o estalo.
Quando não vem, fico mais um pouco.
Nenhum comentário:
Postar um comentário