Tadeu Everton Zamoiski
A gente não compra uma casa por causa do preço. A gente compra porque está cansado. De caixas de papelão, de paredes finas onde se ouve o vizinho respirar, de não ter onde cravar um prego sem pedir licença. Quando o banco leiloou o casarão da Avenida Sete de Setembro, não olhamos para o tamanho do terreno nem para a quantidade de janelas. Olhamos um para o outro. Havia uma exaustão silenciosa nos olhos dela, a mesma que eu sentia nos ombros. A gente estava com dois aluguéis atrasados, o cartão estourado, e uma mudança marcada para o fim do mês. O preço era bom demais para o tamanho do terreno. Não fizemos perguntas. A gente precisava de um chão. Qualquer chão.
A reforma foi o nosso ritual de posse. Foram três meses de lixa, pó de gesso e cheiro forte de tinta. Pintamos tudo de um branco absoluto, quase clínico, para cobrir as manchas amareladas do tempo. Arrancamos os tapetes que guardavam a sujeira de décadas e as cortinas pesadas que exalavam guardado e um adocicado enjoativo, como açúcar mascavo queimado. Entre os entulhos, achei uma embalagem antiga de açúcar mascavo, vazia, amassada, guardada no fundo de um armário. Joguei fora junto com o resto. Também encontrei, no fundo de uma gaveta, uma fotografia antiga da cozinha. Preto e branco, gasta nas bordas. Só a cozinha, sem ninguém. Não prestei atenção. Guardei junto com os documentos da casa. Quando o cheiro de mofo finalmente deu lugar ao cheiro de tinta fresca, nos abraçamos no meio da sala vazia. A casa estava limpa. A casa era nossa.
Foi então que a escova de dentes apareceu.
Estava na beirada da pia do banheiro, do lado esquerdo. As cerdas estavam abertas, gastas pelo uso, com um resíduo branco e seco na base. Não era a minha, que estava do lado direito. Não era a dela. Perguntei, tentando manter o tom leve. Ela deu de ombros, dizendo que não fazia ideia. Joguei a escova fora. No dia seguinte, havia outra igual no mesmo lugar. Não falei nada. Só olhei para ela. Ela me olhou com uma paciência que me desarmou, tocou meu rosto e disse que eu estava com olheiras, que a reforma estava cobrando seu preço. A ternura no olhar dela era tanta que engoli o nó na garganta.
Naquela semana, achei um par de chinelos ao lado da cama. Do lado dela. Eram masculinos, de veludo macio. O coração me deu um salto estranho, uma mistura de esperança e pânico. Perguntei se ela tinha me comprado uma surpresa. Ela franziu a testa, confusa, e disse que não. Perguntei se alguém tinha entrado. Ela riu, um riso nervoso, e disse que eu estava ficando paranoico, que a casa grande demais estava mexendo com a minha cabeça. Eu quis acreditar nela. Eu precisava acreditar.
Mas na sexta-feira, a casa cobrou a sua primeira mentira.
Cheguei do trabalho arrastando os pés. Ao abrir a porta, o cheiro de alho e cebola refogada me recebeu. Havia uma panela no fogão. O fogo estava baixo, azul e silencioso, e a comida borbulhava devagar. Arroz, feijão, um pedaço de carne de panela. Minha esposa estava no quarto, deitada, lendo um livro, a luz do abajur iluminando seu perfil. Fui até lá, beijei sua testa e perguntei o que tinha de bom no jantar. Ela me olhou por cima dos óculos, confusa, e disse que não tinha cozinhado nada, que estava esperando eu chegar para pedir uma pizza.
Voltei para a cozinha. O fogo ainda estava aceso. A comida borbulhava. Mas quando me aproximei, o cheiro mudou. Não era mais alho e cebola. Era o mesmo adocicado enjoativo das cortinas velhas. Açúcar mascavo queimado. Me afastei da panela. Voltei ao quarto. Perguntei de novo. Ela nem levantou os olhos do livro. "Já falei, amor. Pizza." Minha mão desligou o fogo sozinha, por reflexo, antes que eu decidisse. A panela esfriou rápido demais. Em segundos, a superfície do feijão estava seca. Como se tivesse estado ali o dia todo, cozinhando para ninguém, ou para alguém que já tinha ido embora.
Naquela mesma noite, acordei com o som inconfundível de louça sendo lavada. A água correndo, o tilintar suave dos pratos, o arrastar de uma esponja. Olhei para o lado. Minha esposa dormia profundamente, o peito subindo e descendo num ritmo lento. Levantei-me, descalço, e fui até a cozinha. A pia estava seca. Os armários, fechados. Mas a louça no escorredor estava molhada. Gotículas de água escorriam pela porcelana. Passei os dedos por um prato. Estava gelado, mas molhado. Como se tivesse sido lavado segundos antes.
Na noite seguinte, deixei um copo sujo na pia de propósito. Restos de café frio, a borda manchada, açúcar grudado no fundo. Queria provar que eu não estava louco. Queria ver a sujeira ficar. Acordei às três da manhã, o coração batendo forte, e fui até a cozinha. O copo não estava na pia. Estava limpo, seco, guardado no armário, exatamente no lugar onde guardávamos os copos de café. O escorredor estava vazio.
Passei a dormir em pedaços. Uma hora, duas, acordava com o coração disparado, os lençóis grudados nas costas. Na terceira madrugada, deixei um fio de cabelo esticado na gaveta dos talheres. Acordei às três, fui até a cozinha. O fio não estava mais lá. Abri a gaveta. Os garfos estavam alinhados por tamanho, as facas por lâmina, as colheres por modelo. Havia uma colher separada das outras, guardada no fundo da gaveta, virada para baixo. Nunca ninguém naquela casa tinha organizado uma gaveta daquele jeito. No dia seguinte, encontrei minha escova de dentes no armário do banheiro, alinhada com o tubo de pasta, o fio dental e o enxaguante. Tudo na mesma direção. Tudo na mesma altura. Havia alguém morando conosco. Alguém que não fazia barulho, não deixava pegadas, mas que cuidava da casa com um zelo obsessivo.
Numa quarta-feira, cheguei em casa e encontrei minha esposa sentada no chão da sala, abraçada aos próprios joelhos, olhando para a parede. Não se mexeu quando eu chamei. Aproximei-me devagar. Ela estava tremendo. "Tem alguma coisa aqui", ela disse, baixinho, sem olhar para mim. "Eu ouço. Eu ouço desde que a gente chegou." Sentei ao lado dela. Perguntei o que ela ouvia. Ela ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, virou a cabeça devagar, como se tivesse esquecido que eu existia, e sorriu. "Você quer jantar o quê, amor?" Nunca mais tocou no assunto. Nunca mais tremeu.
Minha esposa começou a mudar antes de eu perceber. Ou talvez eu estivesse apenas começando a vê-la de verdade.
Ela passou a sorrir demais. Não era o sorriso cansado de quem trabalha o dia todo. Era um sorriso largo, sereno, quase maternal. Começou a cozinhar. Moqueca de peixe com azeite de dendê, bobó de camarão, uma torta de frango com massa folhada que derretia na boca. O cheiro da minha casa branca e clínica foi sendo invadido por temperos fortes, por memórias que não nos pertenciam. Perguntei de onde ela tinha tirado a receita da torta. Ela me olhou com uma doçura que me gelou a espinha e disse: "Sempre soube fazer, amor. Você que nunca prestou atenção em mim." A mãe dela tinha morrido cedo. Nunca houve receita.
Foi nessa época que comecei a notar os panos de prato. Ela passou a dobrá-los de um jeito diferente. Não ao meio, como sempre fez. Dobrava em três, depois enrolava as pontas para dentro, formando um rolo compacto. Nunca tinha visto ninguém dobrar um pano de prato daquele jeito. Perguntei onde ela tinha aprendido. Ela disse que sempre dobrou assim. Disse que era eu que nunca tinha reparado. Naquela noite, abri a gaveta dos documentos e peguei a fotografia antiga da cozinha. Preto e branco. Sobre a mesa, havia um pano de prato. Dobrado em três, com as pontas enroladas para dentro. Formando um rolo compacto. Igual. Exatamente igual.
Numa terça-feira, cheguei em casa e a encontrei parada na porta da cozinha, olhando para a pia vazia. Não se mexeu quando eu chamei. Fiquei ali, no corredor, sem saber o que dizer, até ela voltar a si e perguntar se eu queria jantar. Naquela noite, mais tarde, ela respondeu a uma pergunta que eu não tinha feito. "Não, ainda não está pronto", disse, e voltou a mexer a panela. Eu nem tinha entrado na cozinha.
Ela começou a usar expressões antigas. "Água de barrela", "dor de cotovelo", "fulano". Palavras que pertenciam a outra época, a outra boca.
O ponto de ruptura foi o café.
Ela me serviu numa manhã de domingo. Passado no coador de pano, com açúcar mascavo. O cheiro era denso, terroso, o mesmo que eu tinha sentido nas cortinas velhas antes de arrancá-las. "É do jeito que você gosta", ela disse, sorrindo. "Sempre foi do jeito que você gosta."
Eu nunca tinha tomado café com açúcar mascavo. Eu odiava. Mas o olhar dela era tão convicto, tão cheio de um amor antigo e desconhecido, que senti náuseas. Derramei o café. O líquido escuro manchou a toalha de mesa branca que eu tanto havia esfregado para manter impecável.
Ela não brigou. Não suspirou. Apenas pegou um pano, limpou a mancha com movimentos circulares e calados, guardou a toalha e sorriu de novo. Aquele sorriso paciente de quem sabe que o tempo cura tudo.
Naquela noite, fingi dormir. Fiquei de olhos cerrados, controlando a respiração. Perto das três da manhã, ouvi. Passos leves no corredor. O som de um armário abrindo. A água correndo. A colher girando na caneca. Olhei para o lado. Minha esposa dormia. Mas a respiração dela estava errada. Lenta demais. Profunda demais. Como se ela não estivesse dormindo, mas em transe. Como se estivesse ouvindo a mesma coisa que eu.
Não levantei. Não fui até a cozinha. Apenas esperei o sol nascer.
Na manhã seguinte, ela acordou antes de mim. Ouvi o sound do fogão, o chiar da água. Quando entrei na cozinha, a caneca estava na mesa. O café passado no pano. O cheiro de açúcar mascavo. "Toma, amor. Você anda tão pálido. Tão distante", ela disse, acariciando meu braço. A mão dela estava gelada. Abri a boca para chamá-la pelo nome. O nome estava ali, na ponta da língua, mas não saiu. Só um som incompleto, uma vogal solta. Ela sorriu como se não tivesse notado. Peguei o celular para conferir a hora. O contato dela na agenda estava sem nome. Só o número.
Naquela mesma manhã, quando passei pela lavanderia, vi os chinelos. Estavam lá, ao lado da máquina, alinhados. Ela passou por mim carregando uma cesta de roupa e disse, sem parar: "Você deixou os chinelos fora do lugar de novo. Guardei para você." Não havia surpresa na voz dela. Não havia estranhamento. Só a paciência de quem repete uma instrução antiga.
Eu não tomei o café.
Peguei as chaves do carro no gancho da porta. "Vou dar uma volta", eu disse. Ela apenas assentiu, voltando a atenção para a pia. "Cuidado na estrada", ela respondeu, sem se virar. Antes de sair, olhei para trás. Ela estava de costas, as mãos na pia, a cabeça levemente inclinada. Tentei lembrar o nome dela outra vez. Não havia mais nada.
Sentei no banco do motorista. Fechei a porta. O silêncio do carro foi um alívio imediato. Girei a chave, mas antes de engatar a marcha, olhei para o banco do passenger.
Havia um par de chinelos.
No banco do passageiro.
Não gritei. Não voltei para casa. Engatei a primeira marcha e saí.
Dirigi sem destino por horas. A Avenida Sete de Setembro ficou para trás. A casa branca, a toalha manchada, o cheiro de dendê, o sorriso paciente. Tudo ficou para trás.
De vez em quando, quando preciso parar o carro num posto de gasolina ou num estacionamento vazio, eu olho para o banco do passageiro. Os chinelos não estão mais lá. Mas o cheiro doce e enjoativo de açúcar mascavo queimado impregnou o estofamento. Em alguns dias, ele parece mais úmido, como se viesse de uma boca. Em outros, mais queimado, como se viesse do fundo de uma panela.
Minha esposa não liga. Não manda mensagem. Não pergunta onde eu estou. Eu também não ligo. Tenho medo de ouvir a voz dela. Tenho medo de que ela me diga, com aquela doçura terrível, que está tudo ótimo, que a casa está linda, e que o café já está passado.
Mas o meu maior medo, o que me faz chorar em silêncio no volante do carro, estacionado na beira de uma estrada qualquer, não é o que aconteceu com ela.
É que, às vezes, acordo com vontade de tomar café. Não gosto de café com açúcar mascavo. Nunca gostei. Mesmo assim, já deixei uma caneca separada no quarto. Ao lado dela, uma colher. Virada para baixo. Como vi na gaveta antiga. Como vi na fotografia.
Não sei por quê.
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