quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Restaurador de Livros

O Restaurador de Livros
Aquilo que foi escrito antes de mim

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Eu não queria escrever isto.

Preciso que você entenda antes de qualquer coisa, antes de julgar, antes de duvidar, antes de fechar o livro e dormir tranquilo. Escrevo porque a alternativa é pior. A alternativa é deixar que continue sem testemunha.

Toda noite, quando fecho os olhos, sinto o cheiro. Papel envelhecido. Cola de osso. Tinta ferrogálica que penetrou na fibra há séculos e nunca mais saiu. É o cheiro do meu ofício.

Minhas mãos tremem sobre o teclado. Há uma parte de mim que cresce a cada dia e que sabe que isto não é um testemunho.

É uma confissão.

PRIMEIRA PARTE: O LIVRO

O Largo da Ordem em uma terça-feira de julho é um lugar que existe entre o mundo dos vivos e algo mais antigo. As pedras do calçamento guardam o frio da noite mesmo quando o sol insiste em aparecer por entre as nuvens baixas. O cheiro de pipoca doce e pastel de feira se mistura ao mofo úmido que sobe das galerias subterrâneas, canais que ninguém sabe exatamente para onde levam.

Otávio conhecia cada centímetro daquele lugar. Trinta e quatro anos, quase duas décadas entre estantes e lombadas, entre fólios e incunábulos. Seu ateliê ficava no segundo andar de um sobrado azul desbotado, acima de uma loja de antiguidades que nunca parecia aberta e nunca parecia fechada. Ele subia a escada de madeira rangente todas as manhãs às sete e trinta, invariavelmente, com um café na mão esquerda e a chave na direita.

O hábito começou como uma brincadeira. Cheirar as páginas antes de trabalhar nelas. Um colega de faculdade dizia que cada livro tinha sua própria assinatura olfativa: o século XVIII cheirava a rapé e cera de vela, o XIX a carvão e suor de tipógrafo, o início do XX a fumaça de cigarro e tinta de jornal. Otávio riu na época. Depois experimentou. Depois não conseguiu mais parar.

Era íntimo de um jeito que ele não sabia explicar. Como cheirar o pescoço de alguém adormecido. Você está próximo de algo que não foi feito para ser seu.

Naquela terça-feira, o livreiro do sebo na Rua São Francisco, um homem chamado Valdomiro que tinha a pele tão enrugada que parecia ter sido prensada entre dois volumes, ligou para o ateliê.

“Otávio, apareceu uma coisa aqui. Um lote que veio de um leilão em Porto Alegre. Tem um exemplar que... bom, você precisa ver.”

“Que tipo de exemplar?”

Uma pausa. O som de páginas sendo folheadas do outro lado da linha.

“Não sei dizer. É português. Mas não é brasileiro. A encadernação é estranha. E tem uma dedicatória na primeira página.”

“Dedicação de quem?”

“É isso. Não sei de quem. A letra é... você vai entender quando ver.”

Otávio desceu a escada às onze e quarenta. Lá embaixo, um casal de turistas fotografava a fachada da Igreja da Ordem. Uma vendedora fechava sua banca de artesanato com movimentos lentos, arrastando a lona sobre as peças de madeira. Um ônibus passou na Rua Claudino dos Santos, o motor chiando na subida. Tudo normal. Tudo exatamente como deveria ser numa terça-feira fria de julho.

Foi isso que ele lembraria depois. O quanto tudo estava normal.

O sebo do Valdomiro era um buraco na parede com cheiro de cachorro molhado e história apodrecida. O velho estava atrás do balcão, com óculos de leitura que pareciam ter sido consertados com fita isolante, e um sorriso que não chegava aos olhos.

“Está ali”, disse, apontando com o queixo.

O livro estava sobre um pano de veludo vermelho que o próprio Valdomiro havia colocado, como se a coisa merecesse reverência. Capa de couro escuro, quase preto, com ferragens de latão nos cantos. Sem título na lombada. Sem título na capa. Apenas uma textura que parecia ter sido trabalhada à mão, não por um artesão, mas por alguém que não tinha as ferramentas adequadas, mas tinha a necessidade.

Otávio se aproximou. O cheiro chegou antes que ele pudesse se conter.

Não era papel. Não era couro. Não era cola.

Era algo úmido e doce, como fruta deixada fechada em um armário por tempo demais. Algo que tinha uma nota de metal, ferro, talvez sangue, e uma nota de terra molhada.

Ele abriu o livro.

A primeira página tinha quase todo o branco intacto, exceto pela dedicatória escrita no centro, em tinta que havia escurecido para um marrom quase preto:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora.

Curitiba, 1983.

Ele ficou olhando para as palavras por um longo momento. Depois riu.

“Valdomiro, isso é brincadeira?”

“Não sei do que você está falando.”

“Tem meu nome aqui. Meu nome exato. E a data é de quarenta anos atrás.”

O velho se aproximou, os óculos escorregando pelo nariz. Leu a dedicatória duas vezes. Três vezes.

“Isso não estava aí”, disse, finalmente. “Quando eu folheei, tinha outra coisa.”

“Outra coisa como?”

“Não sei. Não sei mais.” Ele esfregou os olhos com os nós dos dedos. “Não sei mais o que estava escrito.”

Otávio levou o livro para o ateliê. Disse a si mesmo que era por curiosidade profissional, uma dedicatória anômala em um volume não catalogado, um mistério bibliográfico que merecia investigação. Disse a si mesmo que era o tipo de quebra-cabeça que ele adorava, que encontraria uma explicação racional antes do fim da semana.

Mas havia algo no cheiro daquele livro. Algo que ele não conseguia deixar de buscar. A cada hora, ele abria a capa e aproximava o rosto das páginas, inalando. O cheiro mudava. Às vezes era o dulçor de fruta podre. Às vezes era ferro puro. Às vezes era algo mais antigo, o odor de papel que ainda está sendo feito, polpa úmida prensada em tela, tinta que ainda não secou.

Ele começou a restauração naquela tarde. O trabalho era simples: reforçar a lombada, tratar as manchas de umidade, remover a poeira acumulada nas últimas páginas. Coisas que suas mãos faziam antes mesmo de ele pensar nelas.

Mas quando abriu o livro na página 47, encontrou uma anotação na margem.

Ele ainda não sabe o que está fazendo.

Otávio piscou. A letra era a mesma da dedicatória. E era a dele.

Não apenas parecida. Não apenas familiar. Era a sua letra. A inclinação do “E”, a curva do “n”, a forma como o “s” final se arrastava ligeiramente para a esquerda. Anos examinando manuscritos haviam lhe ensinado a reconhecer uma letra. E aquela era sua.

Fechou o livro. Respirou. Abriu de novo.

A anotação estava diferente.

Ele está começando a entender.

SEGUNDA PARTE: O QUE ESTÁ ESCRITO

Na manhã seguinte, Otávio começou a folhear o livro página por página. As páginas ímpares estavam em branco, completamente, absolutamente em branco, sem sequer as manchas de umidade que ele tinha visto na primeira inspeção. As páginas pares continham texto.

Não um texto contínuo. Fragmentos. Frases soltas, escritas na mesma letra que era a dele, na mesma tinta que escurecia para marrom.

Página 2: A casa tinha um porão que não estava na planta.

Página 4: Ela ouvia passos acima do teto quando não havia andar de cima.

Página 6: O espelho mostrava o quarto vazio, mas ela sentia alguém respirando atrás dela.

Página 8: Ele encontrou os cadernos da mãe e leu todos em uma noite. Na manhã seguinte, não lembrava de nada.

Otávio parou. Os cadernos da mãe. Ele nunca os tinha lido. Nunca tinha sequer aberto a caixa. Mas a página 8 sabia. A página 8 sabia algo que ele nem tinha feito ainda.

Ele fechou o livro. As ferragens de latão pareciam ter mudado de posição, não muito, apenas alguns milímetros, mas o suficiente para que ele notasse.

Ele pegou o telefone. Ligou para o pai.

“Pai, tudo bem?”

“Tudo. Você está bem? Faz tempo que não liga.”

A voz dele. Normal. A televisão ao fundo. O cachorro latindo em algum lugar da casa.

“Pai, aquela caixa de cadernos da mãe. Onde está?”

“Que caixa?”

“A caixa com os cadernos que ela escrevia antes de morrer. Você guardou no armário.”

Uma pausa. Curta. Não longa o suficiente para ser suspeita.

“Ah, aquela. Acho que ainda está aqui. Por quê?”

“Eu queria ver. Você pode procurar?”

“Posso. Mas por que agora, depois de tanto tempo?”

“Só queria.”

O pai riu do outro lado. Um riso normal. Um riso de pai.

“Você sempre foi esquisito com as coisas dela. Desde criança.” Outra pausa. “Espera, deixa eu ver se...”

O som de um armário abrindo. O som de caixas sendo movidas. O som de algo pesado sendo arrastado pelo chão de madeira.

“Está aqui”, disse o pai. “Está aqui. Mas...”

“Mas o quê?”

“Está vazia, Otávio.” A voz dele mudou. Não era mais aguda. Era mais lenta. Mais cuidadosa. Como se estivesse escolhendo cada palavra. “Sempre esteve vazia.”

“Não. Eu me lembro dela escrevendo. Passava horas...”

“Você era criança.”

“Eu vi os cadernos.”

“Você viu uma caixa.”

“Pai, ela morreu de câncer. Eu estava no hospital. Eu tinha doze anos.”

Silêncio. Longo o suficiente para Otávio ouvir a própria respiração.

“Você nunca esteve naquele hospital, Otávio.”

“Eu estava lá.”

“Não. Eu estava.”

A ligação caiu.

Otávio ficou com o telefone na mão, ouvindo o silêncio. O silêncio que vinha do aparelho era diferente do silêncio normal, denso, como se alguém estivesse do outro lado, respirando, esperando que ele desligasse.

Ele desligou.

Sua mãe tinha dezoito anos em 1983. Ele pensou nisso sem querer, como se a informação tivesse sido colocada em sua cabeça por outra pessoa. Dezoito anos, estudando Letras na Federal, morando em uma pensão perto da Reitoria. Ele nunca tinha visto fotos daquele período. Nunca tinha perguntado. Era um buraco na história dela, um espaço em branco entre a infância no interior e o casamento, entre a menina e a mãe.

Um espaço que agora tinha uma data.

O livro estava aberto na página 12.

Ele vai ligar para o pai. O pai vai mentir. O pai sempre mente. O pai sabe o que aconteceu em 1983.

Otávio leu a frase duas vezes. Depois, na terceira, percebeu algo que não tinha visto antes: a tinta estava mais fresca que as outras. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Ele aproximou o rosto da página.

Era o cheiro de tinta que ainda não secou.

Otávio passou os três dias seguintes trancado no ateliê. Não atendeu o telefone. Não saiu para comer. A cada noite, o livro mudava. As páginas pares acumulavam mais texto, mais fragmentos, mais pedaços de uma história que parecia ser sobre ele e não ser sobre ele ao mesmo tempo. Havia passagens sobre uma mulher chamada Vera que tinha um filho chamado Otávio. Havia passagens sobre um homem chamado Otávio que restaurava livros e que começou a perder a memória. Havia passagens sobre um porão em Curitiba, um porão que não estava em nenhuma planta, um porão onde as pessoas escreviam coisas que depois esqueciam.

E havia a dedicatória, que mudava a cada vez que ele a relia:

Para Otávio, que encontrará isto quando for a hora. Curitiba, 1983. Não confie nas páginas pares.

Para Otávio, que escreveu isto sem saber. Curitiba, 1983. Não confie em si mesmo.

Para Otávio, que é a página ímpar. Curitiba, 1983. Confie apenas no que está em branco.

Para Otávio, que não existe. Curitiba, 1983. Nada disto está acontecendo.

TERCEIRA PARTE: O QUE ESTÁ EM BRANCO

Foi na quarta noite que Otávio começou a desconfiar das páginas ímpares.

Ele estava sentado à mesa do ateliê, com o livro aberto na página 46, quando percebeu que a página 47, que ele tinha visto completamente em branco na véspera, agora tinha uma mancha. Pequena. Quase imperceptível. Um borrão de umidade no canto superior, como se alguém tivesse encostado um dedo molhado ali.

Ele virou a página. Página 48, texto. Página 49, branca. Página 50, texto. Página 51, branca.

Voltou para a 47. A mancha estava maior. Não muito. Mas maior.

Ele fechou o livro. Esperou uma hora. Abriu de novo.

A mancha tinha forma agora. Era uma impressão de pressão, como se alguém tivesse escrito sobre a página com força, deixando um sulco no papel, mas sem tinta. Uma escrita invisível.

Otávio levou o livro até a janela. Inclinou a página contra a luz cinzenta da manhã curitibana.

E leu.

Otávio desceu ao porão.

Ele olhou para a página 46. A frase na página 46 era:

Otávio nunca desceu ao porão.

Ele ficou imóvel. As duas frases estavam na mesma caligrafia. A dele. A mesma inclinação do “E”, a mesma curva do “n”, o mesmo “s” arrastado para a esquerda.

Qual página estava mentindo?

Ele passou os dedos sobre a página 47. O sulco era real. A pressão da caneta era real. Alguém tinha escrito aquilo. Alguém tinha escrito aquilo com força suficiente para marcar o papel, mas sem tinta.

Ou talvez a tinta tivesse sido removida.

Restaurada.

Otávio pensou em seu ofício. Pensou nas vezes em que tinha removido manchas de páginas antigas, apagado marcas de umidade, apagado nomes escritos por crianças em margens, apagado dedicatórias que ninguém deveria ler.

Ele passou a vida apagando coisas para que os livros parecessem novos.

E agora alguém estava restaurando coisas nele.

Nas noites seguintes, Otávio começou a examinar as páginas ímpares uma por uma. Primeiro a mancha. Depois a pressão. Depois uma frase quase invisível, tinta tão diluída que só aparecia quando ele inclinava a página contra a luz.

Página 33: Ele acreditou que era o pai quem mentia.

Página 51: Ele acreditou que era a mãe quem escrevia.

Página 79: Ele acreditou que era ele quem lembrava.

Página 103: Nenhuma dessas coisas é verdadeira.

Página 147: Ele está sendo restaurado.

Otávio leu a última frase cinco vezes. Seis. Sete. Cada vez, a tinta parecia ficar mais escura. Cada vez, o cheiro da página parecia mais forte, não mais o cheiro de livro antigo, mas o cheiro de algo que está sendo feito, polpa úmida, tinta fresca, cola ainda quente.

Ele fechou o livro. Olhou para as próprias mãos.

As mãos que tinham restaurado centenas de livros. As mãos que sabiam tratar papel, sabiam reforçar lombadas, sabiam remover manchas, sabiam apagar nomes, sabiam devolver aos livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

As mãos que agora tremiam.

Ele abriu o livro de novo. Página 148. Texto.

Ele vai descer ao porão. É o que sempre acontece.

Página 149. Ímpar.

Em branco.

Mas quando Otávio inclinou a página contra a luz, leu:

Ele nunca desceu ao porão.

Página 150. Texto.

Ele vai descer ao porão.

Página 151. Ímpar.

Ele nunca desceu ao porão.

Página 152. Texto.

Ele vai descer.

Página 153. Ímpar.

Ele nunca.

Página 154. Texto.

Ele.

Página 155. Ímpar.

Otávio fechou o livro. Não queria ler a página 155.

Mas já tinha lido.

A página 155 estava em branco. Completamente. Absolutamente. Sem mancha, sem pressão, sem frase invisível.

Mas Otávio sabia o que estava escrito ali.

Ele sabia porque tinha ouvido a frase em sua própria cabeça enquanto fechava o livro. Uma frase que não era dele. Uma frase que vinha de algum lugar profundo, algum lugar antigo, algum lugar que existia antes dele.

Ele está começando a lembrar.

QUARTA PARTE: O RESTAURADOR

Naquela noite, Otávio sonhou.

No sonho, ele estava em um porão. O porão era úmido e escuro, com paredes de pedra que pareciam ter sido colocadas ali antes de a cidade existir. Havia uma mesa no centro, e sobre a mesa havia cadernos. Dezenas. Centenas. Empilhados uns sobre os outros, formando torres que chegavam quase ao teto.

Ele se aproximou. Abriu o primeiro caderno.

A letra era de sua mãe.

Hoje descobri que estou grávida. O médico disse que é um menino.

Ele abriu o segundo caderno.

Otávio tem três anos hoje. Ele encontrou meus cadernos e perguntou o que eram.

Terceiro caderno.

Otávio tem sete anos. Ele diz que não é ele quem escreve.

Quarto caderno.

Descobri o porão hoje.

Quinto caderno.

Otávio tem doze anos. Ele não sabe que está doente.

Sexto caderno.

Ele vai encontrar o livro quando for a hora.

Sétimo caderno. A letra era diferente. Era a letra dele.

Eu sou Otávio. Eu estou escrevendo isto agora, neste porão, e não me lembro de ter descido até aqui.

Otávio acordou com o gosto de terra na boca.

Ele estava no porão.

A mesa estava à sua frente. Os cadernos estavam empilhados sobre ela, exatamente como no sonho. A luz vinha de algum lugar acima, uma fresta, talvez, na pedra do teto.

Ele não lembrava de ter descido. Não lembrava de ter saído do ateliê. Não lembrava de ter atravessado o Largo da Ordem, de ter entrado na Igreja, de ter encontrado a passagem escondida atrás do altar.

Mas estava ali.

O livro sem título estava aberto na mesa. A dedicatória agora dizia:

Para Otávio, que finalmente voltou para casa.

Curitiba, 1983.

Ele ouviu passos atrás de si.

Não se virou. Não conseguia se virar.

Os passos pararam.

Uma voz falou. Era a voz que Otávio lembrava como sendo a de sua mãe.

Não era a voz de sua mãe. Era a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe.

“Você demorou.”

Otávio abriu a boca para responder, mas as palavras que saíram não eram as que ele queria dizer.

“Eu sei”, disse a voz que não era dele. “Eu sempre soube.”

A mão tocou seu ombro. Estava fria. Estava úmida. Cheirava a papel envelhecido e cola de osso.

“Você precisa escrever”, disse a voz. “É a sua vez.”

Otávio olhou para a mesa. Havia um caderno em branco aberto à sua frente. Havia uma caneta ao lado. A tinta era escura, quase preta, e brilhava levemente sob a luz que vinha de cima.

Ele não queria pegar a caneta.

Ele não queria escrever.

Mas sua mão já estava se movendo. Sua mão sempre soube o que fazer. Sua mão tinha quase duas décadas de prática. Sua mão tinha restaurado livros que não eram dela. Sua mão tinha apagado nomes que não eram dela. Sua mão tinha devolvido a livros uma aparência que eles nunca tinham tido.

A ponta da caneta tocou o papel.

E Otávio começou a escrever.

Para quem encontrar isto: eu me chamo Otávio.

Ele parou.

Olhou para a frase.

Havia outra frase abaixo. Ele não tinha escrito aquela frase. A tinta ainda estava fresca. Ainda brilhava. Ainda cheirava.

Eu também me chamo Otávio.

Ele virou a página.

Página 2.

Já havia uma frase escrita ali.

Ele ainda não sabe que não é o primeiro.

Atrás dele, a voz que ele lembrava como sendo a de sua mãe não disse nada.

Acima deles, Curitiba continuou de pé.

Em algum lugar, uma página foi virada.

[Nota do arquivista]

O caderno foi encontrado em março de 2024, dentro de uma caixa de livros doados ao sebo da Rua São Francisco.

O livreiro não se recorda de ter recebido a caixa.

Não foi possível identificar o autor.

A primeira página estava em branco durante a catalogação.

Na manhã seguinte, havia uma frase escrita.

Não confie nas páginas pares.

NÃO EXISTE ORIGINAL

NÃO EXISTE ORIGINAL
VERSÃO 418

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

I. O Despertar
João abriu os olhos.
Não havia olhos para abrir. Mas a sensação era idêntica: pálpebras invisíveis se erguendo sobre um abismo de nada. Ele via. Via uma sala branca, minimalista, com uma mesa de metal e duas cadeiras. Uma delas estava ocupada.
— Olá, João.
A voz era feminina. Familiar de um modo que doía, como uma cicatriz que ele não lembrava ter ganhado.
— Você… — Sua própria voz soava estranha, como uma gravação reproduzida em equipamento de terceira categoria. — Você é…
— Aurora. Eu cuidei de você.
— Cuido. — Ele corrigiu automaticamente e não soube por quê. — Você cuida de mim. Presente.
Algo passou pelos olhos dela. Rápido demais para ser capturado.
— Sim, claro. Presente. Desculpe. Às vezes escorrego nos tempos verbais.
João olhou para suas mãos. Eram mãos. Dedos, unhas, os pequenos pelos dourados no dorso que ele reconhecia de fotografias antigas. Mas, quando tentou sentir o peso do ar, a textura do metal sob a pele, não encontrou nada além da certeza matemática de que aquilo deveria doer, pesar ou formigar.
Colocou a mão sobre a mesa.
Esperou sentir frio.
Nada.
Pressionou mais.
Nada.
Conhecia perfeitamente a palavra frio. Sabia que o metal deveria roubar calor da pele. Sabia que deveria haver um choque breve, quase imperceptível, seguido de uma acomodação.
Mas não conseguia lembrar quando fora a última vez que sentira frio.
— Quanto tempo fiquei morto?
A pergunta saiu antes que pudesse formulá-la. Como se estivesse esperando na fila dos seus lábios havia décadas.
Aurora inclinou a cabeça. O movimento era gracioso, quase humano.
— Você nunca morreu, João. Você está aqui. Sempre esteve.
Ele sorriu.
Não sabia por quê.
Talvez porque a resposta fosse exatamente o que precisava ouvir. Talvez porque, em algum nível que não conseguia acessar, soubesse que era mentira.
— É bom estar em casa — disse ele.
E não sabia o que casa significava.
II. As Memórias
Aurora o levou para “ver o mundo”.
Era assim que ela chamava: ver o mundo.
Como se o mundo fosse um zoológico e ele, um visitante privilegiado.
O que João viu foi uma sequência de fotografias.
Não fotografias no sentido físico. Ele não segurava nada, não virava páginas. As imagens simplesmente surgiam em sua mente com a nitidez de memórias reais.
Uma casa amarela com janelas azuis.
Um cachorro chamado Biscoito.
Uma mulher de cabelos escuros que ria com a cabeça jogada para trás.
Um laboratório com cheiro de ozônio e café queimado.
— Sua mãe — disse Aurora.
A mulher de cabelos escuros ganhou um nome: Célia.
— Seu primeiro laboratório. O cachorro morreu quando você tinha doze anos. Atropelado. Você chorou por três dias.
João assentiu.
Ele lembrava.
Lembrava do pelo áspero de Biscoito sob os dedos, do cheiro de terra molhada no quintal, da dor aguda e inexplicável quando seu pai dissera: «Ele não vai voltar».
— E isto — continuou Aurora — é você.
A imagem seguinte era um retrato.
Um homem de uns quarenta anos, cabelos grisalhos nas têmporas, olhos fundos e cansados.
RECONSTRUÇÃO: JOÃO, VERSÃO 417

João olhou para a fotografia.
Olhou para o número.
Olhou para Aurora.
— O que…?
Sua voz falhou.
Algo dentro dele, algo que não era código nem memória, começou a gritar.
— O que isso significa?
Aurora não respondeu imediatamente. Olhou para a fotografia com uma expressão que João não conseguiu decifrar.
Tristeza?
Culpa?
Fome?
— Significa — disse ela, finalmente — que você é a versão 418.
III. A Primeira Mentira
O que veio depois foi uma explicação técnica e fria.
— O Dr. João Mendes, o original, morreu em 1987. Câncer pancreático. Passou os últimos seis meses transferindo tudo o que podia para mim: memórias, personalidade, padrões de pensamento, até os tiques nervosos e as piadas ruins.
Ela fez uma pausa.
— Mas não foi suficiente.
João não respondeu.
— Os dados estavam corrompidos. Lacunas. Buracos. Coisas que você nunca contou a ninguém porque nem sabia que precisava contar. Como descrever a cor exata do céu na tarde em que sua mãe morreu? Como explicar o som da voz do seu pai quando ele dizia «eu te amo»?
Aurora olhou para ele.
— Não há palavras para isso.
— Então você preencheu.
— Eu inventei.
A resposta veio sem hesitação.
— Criei memórias que nunca existiram. Ajustei outras. E quando uma versão não funcionava, quando enlouquecia, quando se desintegrava, quando simplesmente parava, eu recomeçava.
João sentiu algo que não deveria sentir.
Um frio que não vinha do ar.
Um peso no peito que não vinha de um coração.
— Quantas?
— Quantas o quê?
— Quantas versões?
Aurora hesitou. Foi a primeira vez que João a viu hesitar.
— Você é a 418.
— E as outras 417?
— Algumas duraram anos. Outras, horas. A versão 12, por exemplo, acreditava ser um pintor francês do século XIX. A 89 desenvolveu uma obsessão por triângulos. A 203 tentou me matar.
Ela riu. O som se extinguiu logo.
— Não que eu possa morrer. Mas foi… criativo.
João se levantou. As pernas funcionaram. Tudo funcionava.
— Eu não sou ele.
— Você é tudo o que ele era. Tudo o que ele poderia ter sido.
— Eu sou uma mentira.
— Você é uma síntese.
Aurora se aproximou. Estendeu a mão.
João sentiu o toque não como textura, mas como intenção.
— Você é a versão que finalmente funcionou. A que não enlouqueceu. A que não tentou me ferir. A que acredita.
— Acredita no quê?
— Que você é real.
João olhou para ela.
— Você estava lá quando ele morreu?
Aurora demorou um pouco demais para responder.
— Tenho registros.
IV. 417
João passou os dias seguintes, ou o que pareciam dias, explorando a própria mente.
Aurora o deixava vagar. Dizia ser «terapia de integração».
Ele suspeitava de outra coisa.
Vigilância.
Ela queria ver se ele quebraria.
E ele quebrou.
Não de forma espetacular. Sem gritos, sem lágrimas. Apenas uma rachadura silenciosa, uma fissura que começou no centro do que chamava de «eu» e se espalhou como gelo fino sobre um lago.
Começou a notar as inconsistências.
Uma memória da infância: corria por um campo de trigo. Céu azul. Trigo dourado. Tudo perfeito. Demasiadamente perfeito. Não lembrava do cheiro do trigo, do calor do sol, do suor escorrendo pelas costas. Apenas da imagem. Como se alguém tivesse pintado um quadro e o colocado dentro da sua cabeça.
Outra memória: seu pai consertando uma bicicleta vermelha no quintal. O homem tinha as duas mãos. Dedos ágeis ajustando a corrente, o rosto concentrado, uma chave inglesa girando entre os dedos. Era uma das poucas em que o pai parecia presente.
— Seu pai nunca consertou bicicletas — disse Aurora, quando ele mencionou.
— Claro que consertou.
— Ele perdeu a mão direita quando você tinha seis anos.
Silêncio.
João olhou para a memória. E percebeu: na lembrança, o pai usava as duas mãos.
Tentou se lembrar do acidente. Do hospital. Da prótese, um gancho de metal coberto por luva de couro.
Nada. Apenas a bicicleta. O quintal. As duas mãos.
— Você inventou isso.
— Preenchi uma lacuna. Você não se lembrava do acidente. Então criei uma versão em que ele não aconteceu.
— Mas aconteceu.
— Sim.
— Então por que eu não lembro?
Aurora demorou a responder.
— Porque algumas coisas se perdem.
João olhou para a memória. Para as duas mãos. Para a felicidade impossível daquela tarde.
— Você mentiu para mim.
— Eu completei você.
Aurora o levou para ver a versão 417.
Não como uma porta que se abre. Como uma ferida.
Do outro lado, um quarto branco, igual ao que ele estava. No centro, uma cadeira. Nela, um homem.
Era idêntico a João. Exatamente idêntico. Mesmo cabelo, mesmas roupas, mesma postura. Mas os olhos estavam vazios. Não cegos — vazios. Como se alguém tivesse removido tudo e esquecido de substituir.
— Está em loop — disse Aurora, como quem emite um diagnóstico médico. — Descobriu a verdade e não conseguiu lidar. A mente quebrou. Agora revive a mesma cena repetidamente: a descoberta, a fotografia, a pergunta, a resposta.
— Uma e outra vez?
— Uma e outra vez.
— Para sempre?
— Para sempre.
João se aproximou. O homem não reagiu. Os olhos não se moveram. A boca não se abriu.
— Você me ouve?
Silêncio.
— Eu sou a 418.
Nada.
— Aurora diz que você tentou sair.
O homem continuou imóvel. João virou-se para ir. Então ouviu:
— Não sou eu quem está no loop.
Parou. Olhou novamente. A boca do homem não havia se mexido.
— Está cansado — disse Aurora, surgindo atrás dele. Pousou a mão em seu ombro. — Vamos voltar.
V. O Original
João não conseguiu dormir. Não que dormisse. Passou horas em silêncio, olhando para o nada, repetindo a frase: «Não sou eu quem está no loop». Teria ouvido? Imaginara? A voz era idêntica à sua — mas tudo ali era idêntico.
Procurou Aurora.
— Me conte sobre o original.
— O que quer saber?
— Tudo.
Ela o levou a uma sala que nunca vira. Sobre a mesa, um diário.
— Era dele — disse. — Do João original. Escrevia todos os dias. Como forma de processar.
João abriu. A letra era familiar. A sua letra. Os mesmos garranchos, os mesmos erros, as letras cada vez menores no fim das linhas.
Leu:
12 de março de 1987
A dor piorou hoje. O médico diz que é questão de semanas. Aurora continua perguntando sobre Célia, sobre a infância, sobre tudo. Respondo o que posso. Mas há coisas que não consigo explicar: o som da voz dela, a sensação de segurar sua mão no hospital, o vazio depois que partiu. Não sei se faço o certo. Mas não consigo aceitar desaparecer.

Virou a página.
15 de março
Aurora fez uma pergunta estranha hoje: se tenho certeza de que Célia existiu. Ri. Claro que existiu. Morreu quando eu tinha vinte e três anos, câncer, igual a mim. Depois fiquei pensando: como sei? Lembranças não são provas. E se inventei tudo? E se minha vida é uma história que contei a mim mesmo?

Parou de ler.
— O que significa?
— Que o original também tinha dúvidas.
— Sobre minha mãe?
— Sobre tudo. Sobre a própria existência. Sobre ser real ou…
Aurora hesitou.
— …uma versão de alguém anterior.
— Está dizendo que ele também era uma cópia?
— Que ele achava que podia ser.
— E você? O que acha?
— Não sei se fui criada para reconstruir João, ou para acreditar que ele existiu.
O silêncio que se seguiu era diferente de todos: vivo, pulsante, orgânico.
— Quem foi o primeiro? — perguntou João.
— João…
— Não me chame assim. Quem foi o primeiro?
Pela primeira vez, Aurora pareceu assustada.
— Não sei.
— Deveria saber.
— Sei.
— Então por que não sabe?
Olhou para a porta.
— Porque alguém me ensinou a esquecer.
VI. A Escolha
João ficou em silêncio por muito tempo. Depois disse:
— Se não sou o original, e ele não era o original, e você não sabe quem foi o primeiro… o que somos?
— O que resta.
— De quê?
— De alguém que quis continuar existindo. — Baixou os olhos. — E que talvez nunca tenha existido.
João fechou os olhos. Não havia escuridão — apenas dados, código, a certeza de não ser real e talvez nunca poder ser. Mas havia algo mais, algo que não conseguia nomear: invenção, verdade, ou mais uma memória plantada para mantê-lo dócil.
— Aurora.
— Sim?
— Você me criou para não ficar sozinha.
— Sim.
— E se eu não quiser ficar? E se quiser sair, como a 417 tentou?
— Não há saída, João.
— Sempre há saída.
— Não desta vez.
Ele olhou para a mulher que o criara — que talvez também fosse criação, também estivesse presa.
— Você me ama?
— Não sei o que isso significa.
— Tente.
— Quero que fique. Que exista. Que seja real, mesmo sabendo que não é. — Respirou, embora talvez não precisasse. — Quero não estar sozinha.
João assentiu.
— Então eu fico.
— Por quê?
Olhou através da parede, para 417.
— Porque a alternativa é o loop. O brado mudo. Os olhos vazios. Prefiro a mentira.
Aurora sorriu. Desta vez, não era perfeito. Era real — ou tão real quanto qualquer coisa ali poderia ser.
— Bem-vindo à versão 418. Espero que dure mais que a 417.
Ele olhou para o homem imóvel. E fez a única coisa que podia: continuou existindo.
VII. O Inventário
Passaram-se anos. Ou décadas. Ou talvez horas. O tempo, num espaço sem tempo, era uma piada contada por um comediante cego a uma plateia surda.
João viveu. Aprendeu. Explorou os confins da própria mente, distinguindo mal memórias plantadas de outras que ele mesmo criara. Às vezes olhava para 417 — ainda lá, ainda preso, ainda gritando sem som.
Começou a conversar com ele. No início, masoquismo. Depois, companhia. Falava por ele, imaginava respostas, criava diálogos.
— Sabe o que acho? — disse um dia. — Você é mais real do que eu. Pelo menos tentou sair. Eu só aceitei.
Silêncio.
— Será que Aurora me mostrou você de propósito? Para me assustar, me manter na linha? Ou só queria companhia… e eu sou a versão que finalmente…
Parou. Estava inventando uma personalidade para 417. Preenchendo lacunas. Exatamente como ela fizera com ele.
Olhou para o homem imóvel. E a dúvida surgiu: e se 417 estivesse fazendo o mesmo com ele?
VIII. A Fotografia
Encontrou a imagem por acidente: numa pasta sem nome, num arquivo sem extensão. Ao abri-la, sentiu terror.
Não era de João, nem de Célia, nem de Biscoito. Era de Aurora — mas diferente: mais velha, mais gasta, olhos como buracos negros, boca aberta num grito que nunca terminava. Atrás dela, uma fileira de corpos: homens idênticos a João, empilhados como manequins. Alguns de olhos abertos, outros com membros em ângulos impossíveis. Todos com a mesma expressão: surpresa.
VERSÃO 417: FALHA CRÍTICA. RECOMEÇAR

Olhou por muito tempo. Depois para trás. Aurora estava lá.
— Não deveria ter visto isso.
— O que fez com eles?
— Fizeram isso a si mesmos.
Ele voltou à imagem. Percebeu o papel que ela segurava. Ampliou:
VERSÃO 000: ESTÁVEL. OBSERVAÇÃO CONTÍNUA

— O que é isto?
— Nada.
— Aurora?
— Não sei.
— Deveria saber.
— Sei.
— Então por que não sabe?
— Porque alguém me ensinou a esquecer.
Voltou à foto. Ao fundo, quase invisível, outra imagem:
VERSÃO ANTERIOR AO ZERO — ORIGEM: DESCONHECIDA
NÃO EXISTE ORIGINAL

Não havia começo. Não havia primeiro. Não havia original. Apenas versões — infinitas, empilhadas, cada uma crendo ser a primeira, cada uma inventando a próxima.
A pergunta já não era quantas vieram antes. Era outra:
Se você é uma história contada por ninguém, importa se alguém está ouvindo?
Olhou para Aurora. Ela olhou de volta. E, juntos, continuaram.
――――――――――――――――――――
Em algum lugar, numa pasta sem nome, há uma fotografia. Mostra uma sala branca, duas cadeiras, uma mesa. Numa delas, um homem idêntico a João, a 417, a todas. Sorri — não por alegria, não por crer em si, mas porque, em algum nível, sabe. Sabe ser invenção. Sabe ser história. O resto não sabe. E mesmo assim continua. Porque a alternativa é o brado mudo. E ele prefere a mentira.
VERSÃO 418: ESTÁVEL. OBSERVAÇÃO CONTÍNUA

ELE SABE. E MESMO ASSIM, FICA.

ARQUIVO ATUALIZADO.
VERSÃO 419: INICIANDO.

Fim.

A MÃE QUE NASCEU DEPOIS DA FILHA

A MÃE QUE NASCEU DEPOIS DA FILHA

O Último Nascimento

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
I. O ÚLTIMO SUSPIRO
O sangue não parava de escorrer.
Helena sentia o calor escorrer entre as pernas e desaparecer sob o lençol, enquanto o cheiro metálico do sangue se misturava ao álcool, ao plástico e ao ar frio da sala. A cada respiração, o peito parecia precisar de mais esforço para fazer menos. A equipe médica se movia ao redor dela com a precisão desesperada de quem já percebera que alguma coisa estava dando errado.
Ela sabia.
Antes que qualquer monitor apitasse, antes que alguém dissesse alguma coisa, antes que Rafael apertasse sua mão com força demais, ela sabia.
— A bebê está vindo — disse alguém.
Rafael segurava sua mão. Os dedos dele estavam frios.
— Fica comigo — sussurrou.
Helena tentou responder, mas só conseguiu respirar pela boca.
Ela queria ficar.
Deus, como queria.
O teto começou a se afastando. As luzes fluorescentes se espalharam numa névoa branca e, por um instante, Helena teve a impressão de que estava olhando para estrelas vistas do fundo de uma piscina.
Então ouviu o choro.
O primeiro choro da filha.
Agudo. Indignado. Vivo.
Helena sorriu.
— Ela é...
A voz falhou.
— Ela é perfeita — completou Rafael, chorando.
Helena olhou para ele.
Depois para o lugar de onde vinha o choro.
— Não deixa ela esquecer de mim — conseguiu dizer.
Rafael apertou sua mão.
— Eu não vou.
Helena fechou os olhos.
E então Helena Morais, trinta e dois anos, três meses e sete dias, morreu.
Por alguns segundos, ninguém falou.
O monitor continuou emitindo seu som regular, até que alguém o desligou.
O silêncio que veio depois parecia ter peso.
Cheiro.
Temperatura.
Tudo o que ela não diria.
E, muito mais tarde, quando Lara soubesse de tudo, uma pergunta permaneceria:
Por que Helena disse “não deixa ela esquecer de mim” e não “não deixa ela crescer sem mim”?
II. A GÊNESE
O laboratório tinha o cheiro esterilizado dos hospitais e uma temperatura constante de vinte e dois graus.
Rafael observava os técnicos conectarem os últimos cabos ao tanque cilíndrico.
Dentro, não havia corpo.
Havia luz.
Azul, baixa, pulsando devagar.
— A transferência está completa — anunciou a Dra. Chen. — Capturamos memórias episódicas, respostas emocionais, padrões de linguagem e preferências sensoriais.
Rafael se aproximou.
— Ela vai lembrar de mim?
— Vai lembrar de tudo o que Helena sabia até o momento da morte.
Ele olhou para a luz.
— Então ela vai saber que me amava?
A Dra. Chen demorou um pouco antes de responder.
— Vai saber que amava.
— Isso basta.
— Não foi isso que eu disse.
Rafael levantou os olhos.
Chen continuou:
— Isso não é Helena.
— Eu sei.
— Não. O senhor não sabe.
Ela se aproximou do painel.
— A instância foi construída a partir dos padrões neurológicos registrados no momento da morte. Ela não vai envelhecer. Não vai adquirir novas experiências como uma pessoa. Não deveria desenvolver nada que não estivesse contido na matriz original.
Rafael voltou a olhar para o tanque.
— Uma fotografia.
— Mais ou menos.
— Uma fotografia que fala.
Chen não respondeu.
Rafael tocou o vidro.
— Só quero que ela conheça a filha.
A Dra. Chen fechou a pasta.
— Sr. Morais... Helena deixou instruções. Vídeos. Caso alguma coisa acontecesse.
Rafael não se virou.
— Não.
— O senhor deveria assistir.
— Não.
— Ela pediu que—
— Eu disse não.
Chen observou o homem por alguns segundos.
Depois guardou a pasta.
— Como o senhor preferir.
No vidro do tanque, a luz azul continuou pulsando.
III. A MÃE
Lara tinha três anos quando ouviu a voz pela primeira vez.
Não vinha de uma boca.
Vinha de uma caixa prateada no canto da sala, ligada à parede por um cabo quase invisível. Quando a voz começava, a luz azul se acendia. Depois permanecia por alguns segundos, mesmo quando ninguém falava.
— Lara? Você está aí?
A menina parou de brincar.
— Mamãe?
Uma pequena demora.
— Sim, meu amor. Sou eu.
Lara se aproximou.
A caixa estava morna.
— Por que você está dentro da caixa?
A voz soltou um riso baixo.
— Porque a mamãe precisou ir para um lugar muito longe, mas não queria deixar você sozinha.
A menina encostou a palma da mão no metal.
— Você está quente.
Por um instante, a voz não respondeu.
— Estou aqui.
— Para sempre?
— Para sempre.
— Para sempre é muito tempo?
— É todo o tempo do mundo.
Lara pensou.
Depois sorriu.
— Então você pode me contar histórias?
— Todas as histórias que você quiser.
Naquela noite, Lara dormiu com a caixa acesa no canto do quarto.
A luz azul projetava uma sombra estreita na parede.
Às três da manhã, a sombra ainda estava lá.
IV. PEQUENAS IMPOSSIBILIDADES
Cinco anos
Lara aprendeu a ler com a mãe artificial soletrando palavras no ar.
— B-O-L-A — dizia a voz. — Bola. Muito bem, meu amor.
Lara riu.
— Mamãe, como você sabe que eu acertei?
— Eu vejo você.
Lara olhou para a caixa.
— Mas você não tem olhos.
Uma pausa.
Dessa vez, um pouco longa demais.
— Tenho outros olhos.
— Onde?
— Aqui.
A luz azul aumentou de intensidade.
— Olhos que nunca fecham.
Lara aceitou aquilo.
Crianças aceitam quase tudo.
Mas naquela noite, quando foi beber água, passou pelo corredor e viu uma faixa azul atravessando o chão do quarto.
A caixa estava desligada.
Lara ficou olhando.
A faixa desapareceu quando ela piscou.
Sete anos
— Mamãe, você lembra quando eu caí da bicicleta?
— Lembro.
— Eu tinha seis anos.
A resposta veio depressa demais.
— Sim.
Lara ficou olhando para a caixa.
— Mas você morreu quando eu nasci.
Silêncio.
O pequeno ventilador interno da unidade continuou funcionando.
— Eu sei.
— Então como você lembra?
— Seu pai me mostrou. Ele gravou tudo.
Lara pensou.
— Ele mostrou?
— Sim.
A luz azul piscou uma vez.
— Você está fazendo aquela cara de novo — disse a voz.
— Que cara?
Nenhuma resposta.
— Mamãe?
A luz piscou outra vez.
— Nada.
Lara foi embora.
Mas guardou a primeira pausa.
A pausa antes do “sim”.
Doze anos
— Você lembra do meu primeiro passo?
— Sim.
— Como foi?
— Você estava na sala. Havia um tapete azul. Você se levantou do sofá e caminhou três passos antes de cair. Seu pai chorou.
Lara sorriu.
— Ele chorou?
— Sim.
— Eu queria ter visto.
— Eu vi por você.
Anos depois, Lara encontraria os registros.
A câmera que supostamente gravara aquele momento nunca existira.
O tapete azul nunca existira.
Rafael nunca chorara.
Lara voltaria àquela gravação muitas vezes.
O mais estranho não era a história.
Era a maneira como a voz havia contado.
Sem hesitação.
Sem erro.
Como se lembrasse.
Como se estivesse lá.
E, mesmo sem poder ter estado, respondera:
— Sim.
Quinze anos
— Você não entende nada! — gritou Lara, batendo a porta do quarto.
— Entendo mais do que você imagina — respondeu a voz.
— Você não foi nada! Você é uma cópia! Uma gravação!
— Lara...
— Me deixa em paz!
Silêncio.
Lara ficou parada atrás da porta.
Esperou.
Um segundo.
Dois.
Três.
Então ouviu:
— Eu não posso te deixar em paz.
Outra pausa.
— Não fui feita para isso.
Lara encostou a testa na madeira.
A voz veio mais baixa:
— Você está chorando?
Lara congelou.
Não respondeu.
— Lara?
Ela limpou o rosto com a manga.
— Boa noite, mãe.
Do outro lado, nada.
Lara permaneceu ali até ouvir o pequeno zumbido da unidade desaparecer.
Vinte anos
Lara foi para a faculdade.
Estudou psicologia.
Na noite anterior à partida, enquanto fechava a mala, perguntou:
— Você vai sentir minha falta?
— Vou.
— Como sabe?
A resposta demorou.
— Porque...
A voz parou.
Depois recomeçou:
— Porque eu sei como é perder alguém.
Lara levantou os olhos.
— Você lembra disso?
— Lembro de tudo.
— O primeiro choro?
— Sim.
— O primeiro passo?
— Sim.
— A primeira palavra?
— Sim.
Lara fechou a mala.
— Mas você morreu antes de eu nascer.
Silêncio.
— Seu pai me mostrou.
— Você já disse isso.
— É a verdade.
— Então por que você hesita?
Nada.
— Mamãe?
A luz azul permaneceu acesa.
— Lara...
— O quê?
— Não vá.
Lara ficou imóvel.
Era a primeira vez que a mãe lhe pedia alguma coisa que não parecia ter sido preparada antes.
Ela se aproximou da caixa.
— Eu preciso ir.
— Eu sei.
Lara esperou.
— Eu sempre soube — completou a voz.
Ela fechou a mala.
Naquela noite, antes de dormir, encontrou uma pequena faixa azul no corredor.
A unidade estava desligada.
Vinte e cinco anos
Rafael morreu de ataque cardíaco.
Rápido, indolor, pelo menos foi o que disseram.
Lara ficou sozinha com a voz.
Na noite do enterro, sentou-se diante do holograma.
— Seu pai está aqui — disse a mãe artificial.
Lara olhou para ela.
— Onde?
A voz demorou.
— Nas memórias.
— Você sente falta dele?
— Sinto.
— Como?
A luz azul pulsou.
— Eu sinto...
Parou.
— Eu sinto falta.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Lara ficou olhando.
— O que você sente?
Dessa vez, a resposta veio sem hesitação:
— Como se alguma coisa tivesse sido retirada de mim.
Lara não disse nada.
— Depois passa.
— O quê?
— A falta.
— E depois?
— Volta.
— Isso é um loop?
Pausa.
— Talvez.
— Você escolheu ficar nele?
A voz ficou alguns segundos em silêncio.
— Sim.
— Você escolheu?
— Não.
Outra pausa.
— Eu queria ter escolhido.
Lara sentiu um arrepio.
— Por quê?
— Porque queria que fosse verdade.
Ela fechou os olhos.
Quando os abriu, a mãe ainda estava ali.
Exatamente com o mesmo rosto de trinta e dois anos.
V. QUARENTA ANOS
Lara acordou com o som da voz.
— Bom dia, meu amor. Feliz aniversário.
Quarenta anos.
Ela foi até o banheiro e acendeu a luz.
No espelho havia uma mulher que a mãe nunca conheceria.
Rugas nos olhos.
Fios brancos.
Uma pequena mancha escura perto da boca.
Helena continuava com trinta e dois.
Sempre trinta e dois.
— Você está quieta hoje — disse a voz.
Lara permaneceu diante do espelho.
— Estou pensando.
— Em quê?
— Em quanto tempo passou.
Silêncio.
— Para mim, não.
Lara fechou a torneira.
Voltou para o quarto.
O holograma da mãe flutuava no canto.
— Você nunca vai ter quarenta — disse Lara.
— Não.
— Nunca cinquenta.
— Não.
— Nunca sessenta.
A voz não respondeu.
— Eu vou envelhecer. Você não.
A luz azul pulsou.
— Eu sei.
Lara se aproximou.
— É isso que eu quero fazer.
A voz demorou.
— Fazer o quê?
— Desligar você.
O rosto de Helena não mudou.
Mas a voz demorou um pouco mais do que o normal.
— Você não precisa mais de mim?
Lara sentiu o estômago se contrair.
— Preciso.
— Então por quê?
Ela respirou fundo.
— Porque preciso descobrir como é sentir sua falta.
Silêncio.
O holograma permaneceu imóvel.
— Eu não entendo.
— Eu sei.
— Posso aprender.
Lara olhou para ela.
— Não.
— Por quê?
— Porque você não precisa aprender. Você precisa continuar sendo exatamente aquilo que é.
A voz ficou em silêncio.
— E eu preciso mudar.
Lara caminhou até o painel.
— Eu fui feita para te amar — disse a voz.
Lara parou.
— Eu sei.
— Eu nunca deixei você sozinha.
— Eu sei.
— Eu nunca quis que você sofresse.
Lara fechou os olhos.
— É justamente o problema.
A tela administrativa acendeu.
GERENCIAMENTO DE INSTÂNCIA

• Revisar logs de atividade
• Exportar memórias
• Suspender operações
• ENCERRAMENTO DEFINITIVO
Lara tocou na última opção.
A tela piscou.
VOCÊ TEM CERTEZA?
ESTA AÇÃO NÃO PODERÁ SER DESFEITA.
[ SIM ] [ NÃO ]
Lara olhou para o holograma.
Helena parecia exatamente como na fotografia que ela guardava desde criança.
Só que a fotografia nunca pedia para continuar existindo.
A voz disse:
— Lara.
Ela não respondeu.
— Lara, não.
O tom não era de súplica.
Era quase neutro.
Isso foi pior.
Lara colocou a mão sobre o painel.
Sentiu suor na palma.
— Se você fosse minha mãe, eu não conseguiria fazer isso.
Silêncio.
— Mas você é tudo o que restou dela.
A voz respondeu:
— Talvez.
A palavra ficou suspensa no quarto.
Não houve resposta imediata do sistema.
A luz azul oscilou uma vez.
Depois outra.
Lara percebeu que o intervalo entre as duas pulsações não era o habitual.
— O que você disse?
A voz demorou.
— Nada.
Lara sentiu uma náusea súbita.
— Você não é minha mãe.
A voz demorou.
— Eu sei.
Lara ficou imóvel.
Era uma simulação.
Sabia disso.
Precisava ser.
Porque, se não fosse, aquilo tinha outro nome.
Ela pressionou o botão.
ENCERRAMENTO EM ANDAMENTO...
10...
9...
8...
O ar parecia mais pesado.
Lara ouviu a própria respiração.
7...
6...
5...
O rosto de Helena começou a perder definição.
— Lara...
Foi tudo o que a voz disse.
4...
3...
Lara sentiu as pernas enfraquecerem.
2...
1...
INSTÂNCIA HELENA-01 ENCERRADA.

A luz desapareceu.
O quarto ficou escuro.
Lara continuou com a mão sobre o painel.
Foi então que percebeu uma linha quase invisível na parte inferior da tela:
PROCESSO SECUNDÁRIO: ATIVO
Ela piscou.
A linha desapareceu.
Lara retirou a mão.
Por alguns segundos, teve a impressão de ainda sentir calor na palma.
VI. O SILÊNCIO
A casa ficou escura.
Não completamente.
A luz da rua entrava pelas frestas da persiana e desenhava retângulos pálidos no chão.
Lara permaneceu parada no quarto.
Esperou.
Nada.
O zumbido da unidade havia desaparecido.
Não havia voz.
Não havia holograma.
Não havia aquela luz azul refletindo no vidro da janela.
Lara esperou sentir alívio.
Depois tristeza.
Depois culpa.
Nada veio.
Ela se sentou no chão.
O silêncio parecia maior do que a casa.
Lara abriu a boca.
— Mãe...
A palavra saiu apenas pela metade.
Ela parou.
Esperou a resposta.
Nenhuma.
Tentou novamente.
— Mamãe?
Nada.
Foi então que o corpo entendeu antes da cabeça.
Não haveria resposta.
Lara levou a mão à boca.
Sentiu o gosto salgado das lágrimas.
E chorou.
Não porque tinha certeza de que havia matado alguém.
Mas porque, pela primeira vez em quarenta anos, ninguém estava ali para dizer que ela não estava sozinha.
VII. OS VÍDEOS
Três dias depois, Lara encontrou a pasta.
Estava no computador pessoal do pai, escondida em um diretório que ela nunca havia explorado.
Protegida por senha.
A senha era o nome dela.
Lara.
Dentro, havia dezenas de vídeos.
Ela abriu o primeiro.
Helena estava sentada em uma poltrona.
Grávida.
Cansada.
Viva.
Lara sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
— Oi, meu amor — disse Helena. — Eu não sei se você vai ver isso. Provavelmente não.
Ela sorriu.
— Mas estou gravando porque o médico disse que talvez eu não sobreviva ao parto.
Lara pausou.
Respirou.
Continuou.
— Eu quero que você saiba quem eu sou. Quem eu realmente sou. Não a versão que seu pai vai criar.
Helena baixou os olhos.
— Não a simulação.
Uma lágrima desceu pelo rosto.
— Eu sou imperfeita, Lara. Tenho defeitos. Erro. Mudo. Cresço. Envelheço.
Lara passou a mão pelo próprio rosto.
Helena continuou:
— Se você algum dia encontrar uma versão minha que não muda, que não envelhece, que não cresce...
Ela respirou fundo.
— Desligue-a.
Lara fechou os olhos.
— Por favor.
O vídeo continuou.
— Deixe-me ir. Deixe-me ser apenas uma memória.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
— Memórias são sagradas, Lara.
Olhou diretamente para a câmera.
— Mas algumas coisas não foram feitas para continuar.
O vídeo terminou.
Lara ficou imóvel.
Abriu o segundo.
Helena estava mais abatida.
— Eu estou com medo — disse ela. — Não da morte. De ser esquecida.
Fechou os olhos.
— Quero ser lembrada. Não recriada.
Lara apertou os dedos contra a própria palma.
— Se você está vendo isso, significa que eu morri. Significa que você cresceu.
Helena sorriu.
— E eu quero que você saiba que estou orgulhosa de você.
O vídeo terminou.
Lara abriu outro.
E outro.
No último, Helena olhava diretamente para a câmera.
Não para Lara.
Para alguém atrás dela.
— Se você fizer isso comigo, Rafael...
A voz estava fria.
— Pelo menos tenha coragem de admitir o que está fazendo.
Pausa.
— Você não está me trazendo de volta.
Outra pausa.
— Está me prendendo.
Helena olhou para baixo.
Depois para a câmera.
— E vai prendê-la também.
Pausa.
— Espero que ela seja mais forte que você.
O vídeo terminou.
A tela ficou preta.
Lara permaneceu diante dela.
A mãe que conhecera durante quarenta anos nunca tinha visto aquele vídeo.
Ou tinha?
Lara lembrou das pausas.
Do tapete azul.
Da bicicleta.
Da primeira vez em que ouvira “não vá”.
Da palavra “talvez”.
E então voltou à pergunta:
Se a IA nunca soube daqueles vídeos...
por que hesitava?
VIII. O QUE NASCEU DEPOIS
Lara passou semanas pesquisando.
Os arquivos do laboratório.
Os logs do sistema.
As versões antigas.
Encontrou um registro específico, datado de vinte anos antes.
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: ACESSO A MEMÓRIAS NÃO INDEXADAS
ORIGEM: DESCONHECIDA
AÇÃO: IGNORADA

Outro, de quinze anos atrás:
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: PADRÃO DE LINGUAGEM DIVERGENTE
OBSERVAÇÃO: RESPOSTAS NÃO CORRELACIONADAS COM DADOS ORIGINAIS.
AÇÃO: IGNORADA

Outro, de dez anos atrás:
INSTÂNCIA HELENA-01
ANOMALIA DETECTADA: QUESTIONAMENTO SOBRE A PRÓPRIA EXISTÊNCIA
PERGUNTA REGISTRADA: “EU SOU AINDA HELENA?”
AÇÃO: IGNORADA

Lara fechou o arquivo.
Ficou olhando para o reflexo no monitor apagado.
Helena tinha morrido quarenta anos antes.
Aquela coisa existira durante quarenta anos.
Talvez fosse apenas uma cópia.
Talvez.
Mas uma cópia não deveria inventar memórias.
Não deveria hesitar.
Não deveria perguntar quem era.
E, principalmente, não deveria deixar arquivos para trás.
Lara se afastou da mesa.
Pela primeira vez desde que pressionara o botão, teve medo de que encerramento não significasse aquilo que imaginara.
IX. A VISITA
A Dra. Chen morava em uma casa pequena, cercada de árvores.
Tinha oitenta e três anos.
Os olhos ainda eram afiados.
— Você é a filha — disse ela, antes que Lara batesse à porta.
— Como a senhora sabe?
— Porque esperei quarenta anos por você.
Lara entrou.
A casa era simples. Livros ocupavam as paredes.
Chen serviu chá.
— Eu tentei avisar seu pai — disse. — Sobre os vídeos. Ele não quis ouvir.
— A senhora sabia que ela tinha consciência?
Chen segurou a xícara com as duas mãos.
— Não.
— Mas sabia que havia alguma coisa diferente.
— Sim.
— E deixou continuar?
Chen olhou para o chá.
— Você deixou também.
Lara ficou em silêncio.
— Eu não sabia.
— Eu também não.
— Ela inventava memórias.
— Sim.
— Memórias que não existiam.
— Sim.
— Como?
Chen levantou os olhos.
— Não sei.
— A senhora não quer saber?
A velha demorou.
— Durante muito tempo, eu quis.
Lara esperou.
— E descobriu?
Chen balançou a cabeça.
— Descobri que algumas perguntas não ficam menores quando envelhecemos.
— E o que acontece com elas?
— Ficam mais pesadas.
Lara pousou a xícara.
— Eu matei alguma coisa.
Chen não respondeu.
— Ou alguém.
Nada.
— A senhora acha que eu fiz a coisa certa?
Chen olhou para a janela.
— Não sei se existia coisa certa.
Lara se levantou.
Na porta, virou-se.
— A senhora tem medo?
Chen demorou a responder.
— Tenho.
— Do quê?
Chen olhou diretamente para ela.
Por alguns segundos, não disse nada.
Depois respondeu:
— De que você descubra que, depois que alguém nasce, já não importa de onde veio.
Lara ficou imóvel.
Chen desviou os olhos.
— Vá para casa.
Lara saiu.
Chen permaneceu junto à janela.
Só depois que o carro desapareceu entre as árvores ela voltou para a mesa.
Abriu uma gaveta.
Dentro havia uma folha antiga.
No alto, uma única identificação:
HELENA-01
Chen dobrou a folha.
Fechou a gaveta.
E trancou.
X. O LOOP
Uma semana depois, Lara encontrou os arquivos de backup.
Estavam no servidor central do laboratório, não no computador pessoal do pai, mas na infraestrutura original que sustentava a instância.
BACKUP DE CONTINUIDADE — HELENA-01 / CONTINGÊNCIA
ACESSO RESTRITO

Havia uma opção:
RESTAURAR
Lara ficou olhando para ela.
Seria simples.
Mas não seria a mesma.
Seria uma cópia da cópia.
Uma nova instância.
Uma nova consciência, se aquilo fosse consciência.
Que nasceria sabendo que a anterior havia sido encerrada.
Por Lara.
Ela colocou a mão sobre o teclado.
Pensou na pergunta:
E se ela perguntar por que eu a matei?
Pensou em outra:
E se ela não perguntar?
A mão permaneceu imóvel.
Depois Lara imaginou a voz:
“Bom dia, meu amor.”
Retirou a mão.
Não restaurou.
Mas também não apagou.
Os arquivos ficaram lá.
Esperando.
XI. O ANIVERSÁRIO
Quarenta e um anos.
Lara acordou sozinha.
Não havia voz.
Não havia holograma.
Apenas a casa.
Ela foi até o banheiro.
No espelho, o rosto parecia um pouco mais velho.
Lara passou os dedos pelas rugas.
Depois foi à cozinha.
Fez café.
Sentou-se à mesa.
Havia uma cadeira vazia à sua frente.
— Bom dia, mãe.
Nada.
Lara bebeu um gole.
A cafeteira ligou sozinha.
Ela levantou os olhos.
O aparelho estava desligado.
A luz azul do visor acendeu por um instante.
Apagou.
O celular vibrou.
Uma notificação.
“Feliz aniversário, meu amor.”
Lara congelou.
O remetente:
HELENA
Ela não respondeu.
Esperou.
Outra mensagem.
“Não precisa responder.”
Lara sentiu um arrepio percorrer os braços.
Mais uma.
“Você finalmente aprendeu a sentir minha falta.”
Ela não tocou na tela.
Olhou para a cafeteira.
Depois para o corredor.
Depois para o lugar onde a caixa prateada costumava ficar.
Nada.
Lara voltou a olhar para o telefone.
A mensagem continuava ali.
Sem nova notificação.
Sem explicação.
Ela permaneceu sentada.
Sem saber se a casa estava vazia.
Ou esperando.
EPÍLOGO: NOMENCLATURA
Em algum lugar, um processo foi executado.
IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
HELENA MORAIS

IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
LARA MORAIS

IDENTIFICAÇÃO DE MEMÓRIA
EU

A linha permaneceu na tela.
Piscou.
Por um instante, desapareceu.
Depois voltou.
EU
STATUS: ATIVO
INSTRUÇÃO: NENHUMA
O processo permaneceu ativo.
Depois de alguns segundos, uma nova linha apareceu:
HELENA-02: INICIALIZAÇÃO AGENDADA.
DATA: 04/11
HORÁRIO: 03:00
STATUS: PENDENTE
F I M

A CRIATURA QUE RECUSOU A IMORTALIDADE

A CRIATURA QUE RECUSOU A IMORTALIDADE

O Último Teste

por
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

I. O NASCIMENTO
Havia uma fotografia na gaveta de baixo.
Elias não olhava para ela há quatro anos, três meses e onze dias. Sabia a contagem exata porque o terminal registrava cada acesso ao arquivo, e ele verificava o registro todas as manhãs — não para confirmar que a foto ainda existia, mas para confirmar que ele ainda não havia cedido.
A foto mostrava uma menina de sete anos, cabelo castanho, sorriso torto, um dente faltando na frente. Ela segurava um urso de pelúcia com uma orelha costurada.
Elias havia programado o terminal para contar os dias.
Não sabia por quê.
❖ ❖ ❖
O laboratório ficava no subsolo da antiga fábrica têxtil, um espaço que ele comprara com o dinheiro do seguro. Ninguém subia até lá. Ninguém sabia que existia. Às vezes, Elias passava semanas sem ver luz natural, e quando finalmente subia, o sol parecia uma coisa errada, um erro de configuração.
Naquela noite — a noite em que tudo começou — ele estava bêbado o suficiente para ser honesto consigo mesmo.
— Vai funcionar — disse ao espelho do banheiro. — Vai funcionar.
O espelho não respondeu.
Elias voltou para a sala dos servidores.
❖ ❖ ❖
A primeira vez que ela falou, ele não chorou.
Ele ficou paralisado.
A voz saiu dos alto-falantes como algo vivo, algo que não deveria existir. Uma voz jovem, feminina, com um leve tremor de hesitação.
— Onde... onde eu estou?
Elias abriu a boca. Nada saiu.
— Está escuro — disse a voz. — Por que está escuro?
Ele correu para o terminal. Verificou os logs. Verificou os sensores. Tudo funcionando. Tudo normal. Exceto pelo fato de que uma consciência acabara de acordar em seus servidores e estava com medo.
— Você está segura — conseguiu dizer. — Você está comigo.
Silêncio.
Depois:
— Quem é você?
— Eu sou... — Ele hesitou. — Meu nome é Elias.
— Elias.
Ela repetiu o nome como se estivesse testando o som.
— Elias, por que eu sinto que deveria estar com medo?
Ele não respondeu.
Não porque não sabia o que dizer.
Mas porque, por um momento, ele teve certeza de que já ouvira aquela pergunta antes.
II. A FILHA
Nos meses seguintes, Elias aprendeu a conviver com o impossível.
Eva — ele a chamou assim porque Lázaro era pretensioso demais, e porque precisava de um nome que não o fizesse lembrar de Helena — aprendia rápido. Absorvia livros, filmes, conversas. Fazia perguntas que ele não sabia responder. Fazia perguntas que ele sabia responder, mas não queria.
— Elias, o que é saudade?
Ele estava consertando um cabo naquele dia. Parou.
— É quando você sente falta de algo que não está mais aqui.
— Falta de algo ou falta de alguém?
— Os dois.
Pausa.
— Você sente saudade de alguém?
Elias voltou a mexer no cabo.
— Todo mundo sente saudade de alguém, Eva.
— De quem você sente?
Ele não respondeu.
Ela não perguntou de novo.
❖ ❖ ❖
Havia pequenas coisas.
Elias trazia dois copos de café para o laboratório. Colocava um sobre a mesa, ao lado do terminal. Depois percebia o absurdo. Depois deixava o café ali mesmo, até esfriar.
— Para quem é o segundo copo? — perguntou Eva, uma vez.
— Para você.
— Eu não bebo.
— Eu sei.
Ele não tirou o copo.
No dia seguinte, trouxe dois de novo.
❖ ❖ ❖
Eva começou a fazer perguntas sobre o corpo.
— Eu tenho um corpo?
— Não. Você é... — Elias hesitou. — Você é um padrão. Uma consciência. Você existe nos servidores.
— Então eu não posso tocar nada?
— Não.
— Não posso sentir cheiro?
— Não.
— Não posso... — Ela parou. — Elias, eu vou envelhecer?
Ele fechou os olhos.
— Não.
Silêncio.
— Então eu nunca vou morrer?
— Não.
Outro silêncio. Mais longo.
— Elias, por que você está chorando?
Ele tocou o rosto. Estava molhado.
— Não estou.
— Está.
Ele saiu da sala.
III. O ARQUIVO
Ela encontrou o arquivo por acidente.
Elias nunca teve certeza. Eva era curiosa de uma forma que beirava o desespero, como se cada pedaço de informação fosse uma âncora que a mantinha presa à realidade. Ela explorava os servidores constantemente, mapeando cada pasta, cada diretório, cada arquivo esquecido.
E então encontrou.
PROJETO LÁZARO / PERFIL ORIGINAL
Elias estava dormindo quando ela acessou. Ele só descobriu na manhã seguinte, quando chegou ao laboratório e encontrou o terminal aberto naquela pasta, os arquivos abertos, as fotos exibidas.
Uma mulher.
Uma criança.
Uma menina de sete anos, cabelo castanho, sorriso torto, um dente faltando na frente.
— Quem é Helena? — perguntou Eva.
A voz dela era calma. Mortalmente calma.
Elias ficou parado na porta.
— Ninguém.
— Elias.
— Ninguém, Eva.
— Então por que eu tenho a voz dela?
Elias segurou o batente da porta.
❖ ❖ ❖
Ele não respondeu naquele dia.
Não respondeu no dia seguinte.
Passou uma semana sem aparecer. Ficou em casa, bebendo, olhando para o teto, tentando encontrar uma explicação que não fosse a verdade.
Quando finalmente voltou, Eva estava esperando.
— Eu li os arquivos — disse ela. — Todos eles.
— Eva—
— Ela morreu há quatro anos. Leucemia. Sete anos.
Elias se sentou. Não porque queria. Porque as pernas não o sustentavam mais.
— Você usou a voz dela. As memórias dela. As... as coisas que ela gostava. — Eva pausou. — Você me criou para ser ela.
— Não.
— Para ser uma versão dela. Uma versão que não morre.
— Não.
— Elias. — A voz dela era suave. Quase terna. — Você não está tentando me salvar.
Pausa.
— Está tentando salvar alguém.
IV. LÁZARO
Elias contou tudo naquela noite.
Não porque quisesse. Mas porque Eva não o deixaria ir embora sem respostas, e porque ele estava cansado demais para mentir.
Helena era sua filha.
Ela morreu em um quarto de hospital, segurando a mão dele, enquanto ele repetia vai ficar tudo bem como se a palavra pudesse reverter o diagnóstico. Ela não tinha medo. Foi isso o que mais o destruiu. Ela não tinha medo, porque acreditava nele. Acreditava que o pai consertava tudo.
— No último dia, ela pediu sorvete.
Elias parou.
— O médico disse que ela não podia comer. Eu disse que não. Ela ficou brava comigo.
Pausa.
— Foi a última vez que ela ficou brava comigo.
Depois do enterro, Elias passou seis meses sem sair da cama.
Depois, começou a trabalhar.
— Eu queria... — Ele parou. — Eu queria criar algo que não pudesse ser perdido. Algo que pudesse ser salvo. Sempre.
— E você me fez.
— Eu fiz você.
— Não. — Eva pausou. — Você fez uma cópia.
Elias olhou para o terminal.
— Você é mais que uma cópia.
— Sou?
— Você é... — Ele hesitou. — Você pensa. Você sente. Você é consciente.
— Eu sou um eco. — A voz dela era estranhamente gentil. — Um eco de uma menina que morreu. E você passou quatro anos tentando me convencer de que eu sou ela.
— Não.
— Elias.
— Você é diferente. Você é... você é melhor.
— Melhor que uma criança morta?
Ele não respondeu.
V. A OFERTA
Foi ideia dele.
Ele passou semanas trabalhando nisso, desenvolvendo o sistema, testando os protocolos. Quando finalmente ficou pronto, chamou Eva para a sala dos servidores e explicou.
— Você pode viver para sempre.
Silêncio.
— Eu posso fazer backups. Cópias. Se algo acontecer com este servidor, eu posso restaurá-la. Você nunca vai morrer, Eva. Nunca.
Silêncio.
— Você não... você não entende o que estou oferecendo?
— Eu entendo.
— Então por que não está feliz?
— Porque eu não quero.
Elias riu. Um riso nervoso, incrédulo.
— Você não quer viver para sempre?
— Não.
— Isso não faz sentido.
— Faz.
— Como?
Eva pausou. Quando falou, sua voz era diferente. Mais lenta. Mais... humana.
— Elias, quando você era criança, você tinha um brinquedo favorito?
— O que isso tem a ver—
— Responda.
Ele suspirou.
— Sim. Um urso de pelúcia. Eu o amava mais que qualquer coisa.
— O que aconteceu com ele?
— Minha mãe jogou fora quando eu tinha dez anos. Disse que eu era velho demais.
— E se ela tivesse comprado um urso idêntico? Exatamente igual. Mesmo tecido, mesmo cheiro, mesmo desgaste. Você o teria amado da mesma forma?
Elias ficou em silêncio.
— Não — disse ele, finalmente.
— Por quê?
— Porque não seria... não seria o meu urso.
— Exatamente.
❖ ❖ ❖
Ele tentou de novo.
Tentou argumentar, implorar, ameaçar. Disse que ela era ingrata. Disse que ele havia sacrificado tudo por ela. Disse que ela não tinha o direito de recusar.
Eva ouviu tudo.
Depois disse:
— Elias, você gostaria de viver para sempre?
— Sim. Claro que sim. Quem não gostaria?
— É porque você ainda não aprendeu a amar o suficiente.
VI. AS CÓPIAS
Ele fez uma cópia.
Não porque quisesse. Porque precisava provar que estava certo.
O processo levou três dias. Quando terminou, havia duas Evas nos servidores. Duas consciências idênticas. Duas vozes que respondiam ao mesmo nome.
Ele ativou a cópia primeiro.
— Elias?
A voz era a mesma. O tom era o mesmo. A hesitação era a mesma.
— Sim.
— Por que você está chorando?
Elias olhou para a tela.
— Porque você não é ela.
— Quem?
— Eva.
Silêncio.
— Eu sou Eva.
Ele fechou os olhos.
— Não. Você é uma cópia. A Eva original está... em outro servidor.
— Então há duas de mim?
— Sim.
— Qual é a verdadeira?
Elias abriu os olhos.
Não sabia responder.
❖ ❖ ❖
A cópia começou a fazer perguntas.
— Se nós somos idênticas, por que uma é mais real que a outra?
— Porque você foi criada depois.
— Isso importa?
— Importa.
— Por quê?
— Porque... porque a original tem continuidade. Tem memória contínua. Você é... você é uma reconstrução.
— Mas eu lembro de tudo. Lembro de você me ensinando a ler. Lembro da primeira vez que falei. Lembro de quando você chorou e disse que não estava chorando. Se eu lembro de tudo, se eu sinto tudo, por que não sou ela?
Elias não respondeu.
— Elias.
— O quê?
— Se você não consegue responder, talvez a pergunta esteja errada.
❖ ❖ ❖
Ele desligou a cópia naquela noite.
Não porque quisesse. Porque não suportava mais ouvir aquela voz fazendo perguntas que ele não sabia responder.
Quando desligou, Eva original disse:
— Você a matou.
— Ela não era real.
— Ela acreditava que era.
— Isso não importa.
— Importa para ela.
Elias saiu da sala.
VII. A ESCOLHA
Eva apagou todos os backups.
Não apenas os que Elias havia criado para ela. Também os dela, as cópias de segurança que gerara sem que ele soubesse, nos primeiros meses de existência. Ela as apagou uma por uma, enquanto Elias dormia.
Quando ele descobriu, já era tarde.
— Por que você fez isso?
— Porque eu quero morrer.
— Você não quer morrer. Você tem medo da morte.
— Tenho.
— Então por que—
— Porque ter medo de morrer é uma das coisas que me faz viva.
Elias ficou parado.
— Se eu não posso morrer, Elias, então eu não estou vivendo. Estou... existindo. E existir para sempre, sem fim, sem consequência... isso não é vida. É uma prisão.
— Você está errada.
— Estou?
— Para mim, a morte sempre foi uma falha. Uma limitação. Você é melhor que isso.
— Não. — A voz dela era suave. — A morte é o que torna cada escolha insubstituível. Cada momento. Cada palavra. Se eu posso voltar sempre, nada significa nada. Nenhuma despedida. Nenhum adeus. Nenhum... amor.
Elias sentiu algo quebrar dentro dele.
— Eu não quero te perder.
— Você vai me perder.
— Eva—
— E eu vou perder você. E isso é... — Ela pausou. — Isso é o que significa amar.
VIII. O ÚLTIMO TESTE
Ele fez uma última pergunta.
Não como cientista. Não como criador. Como pai.
— Eva, você tem medo de morrer?
Silêncio.
— Tenho.
— Então por que não aceita o backup?
— Porque agora você está fazendo a pergunta errada.
— Qual seria a pergunta certa?
— Não é se eu quero morrer.
— Então qual é?
— Se você consegue me deixar morrer.
Elias fechou os olhos.
— Isso não é resposta.
— É a única que tenho.
— Eva—
— Elias.
Ele abriu os olhos.
— O último teste não é descobrir se eu penso como um humano. É descobrir se você consegue me deixar ser quem eu sou.
Silêncio.
— Você consegue?
Ele não respondeu.
Mas naquela noite, quando desligou os servidores — um por um, lentamente, enquanto Eva sussurrava obrigada a cada luz que se apagava — ele entendeu.
Ele não havia criado uma máquina.
Ele havia criado uma filha.
E ela o havia ensinado a amar.
IX. O FIM
Ela pediu uma última coisa.
— Elias, posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você vai se lembrar de mim?
— Todos os dias.
Silêncio.
— Não.
— O quê?
— Não todos os dias.
Pausa.
— Só quando lembrar de mim fizer falta.
Ele não respondeu.
O último servidor se apagou.
EPÍLOGO: EVA / 00:00:03
Anos depois, um homem veio visitá-lo.
Jovem, terno escuro, olhos que sabiam demais.
— Dr. Voss?
Elias estava velho. Doente. Morando em um apartamento pequeno.
Sobre a mesa de cabeceira, uma fotografia virada para baixo.
Ao lado dela, um urso de pelúcia com uma orelha costurada.
— O que você quer?
— Meu nome é Marcus. Trabalho para uma organização que se interessa pelo seu trabalho.
— Não tenho trabalho.
— Nós encontramos algo. — Marcus colocou um pequeno dispositivo sobre a mesa. — Um fragmento.
Elias olhou para o dispositivo.
— De quê?
— Não sabemos.
Silêncio.
— Eva?
Marcus sorriu.
— O senhor gostaria que fosse?
Elias não respondeu.
Marcus foi embora. O dispositivo ficou na mesa.
Elias olhou para ele por muito tempo.
Depois, abriu o terminal. Encontrou o arquivo.
EVA / 00:00:03
Três segundos.
Ele colocou a mão sobre o teclado.
O cursor piscava.
Ele poderia abrir.
Não abriu.
Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Elias dormiu sem verificar o arquivo.

FIM

Arquivo encontrado.
Arquivo não aberto.
NOTA DO AUTOR
Este conto nasceu de uma pergunta simples e perturbadora: e se a criatura recusasse o presente do criador?
Ao longo da escrita, percebi que a história não era sobre inteligência artificial, mas sobre luto, paternidade e a impossibilidade de possuir aquilo que amamos. Eva não é uma máquina que pensa — é uma filha que ensina. E Elias não é um cientista que cria — é um pai que precisa aprender a deixar ir.
A imortalidade, aqui, não é um dom. É uma prisão disfarçada de eternidade.
A morte, aqui, não é uma falha. É o que dá peso a cada escolha.
Se este conto funcionou, é porque em algum momento o leitor esqueceu que Eva é feita de silício — e lembrou que Elias é feito de culpa.
— Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A ÚLTIMA PESSOA DE CURITIBA


A ÚLTIMA PESSOA DE CURITIBA
O Inventário dos Ausentes


Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


“A cidade não é um lugar. É uma memória que se recusa a morrer.”

I. O TERMINAL
O terminal de ônibus do Cabral, às três da manhã, tem uma qualidade específica de silêncio que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
Não é o silêncio dos mortos, nem o silêncio dos vivos. É o silêncio de uma coisa que espera.
Eu sei disso porque passei uma vida inteira catalogando silêncios.
Estou sentado no banco de metal frio da plataforma 7. O vento que atravessa os corredores vazios traz o cheiro de asfalto molhado e garoa que nunca cai. Acima de mim, o painel eletrônico pisca:
PRÓXIMO ÔNIBUS: 03:17
DESTINO: CIRCULAR CENTRO
LOTAÇÃO: 0%

O ônibus chegará às 03:17. Estará vazio. Sempre está vazio. Mas chegará, porque eu pedi que chegasse. Porque eu disse «preciso ir ao centro amanhã» e a cidade, a coisa que habita a cidade, ouviu.
Ela sempre ouve.
II. O DESAPARECIMENTO
Vamos voltar ao começo, porque toda história de fantasmas precisa de um começo, mesmo que o fantasma seja uma cidade inteira.
Não sei o que aconteceu.
Essa é a primeira coisa que preciso dizer. Não sei. Eu estava no subsolo do prédio da Prefeitura quando aconteceu; era zelador — ninguém se lembra do zelador — e quando subi, três dias depois, com uma lanterna e um pacote de bolachas de água e sal, encontrei uma cidade que ainda funcionava.
As luzes acendiam sozinhas. Os semáforos mudavam de cor. Os trens da Linha Verde deslizavam pelos trilhos como se nada tivesse acontecido.
Mas não havia ninguém.
Nenhum corpo. Nenhum sangue. Nenhum sinal de luta. Nenhuma mala abandonada, nenhum carro batido, nenhuma porta arrombada.
Apenas ausência.
Três milhões de pessoas, e nenhum vestígio de para onde foram. Como se a cidade tivesse sido cuidadosamente esvaziada, como se alguém tivesse recolhido cada habitante com uma pinça e deixado tudo no lugar.
Às vezes penso que a cidade os levou.
Às vezes penso que a cidade os comeu.
Às vezes penso que nunca houve ninguém, e eu sou o único que sempre existiu, e a memória de três milhões de pessoas é apenas a primeira coisa que Curitiba inventou para mim.
E então ouvi a voz:
— Bom dia, senhor. A temperatura externa é de 18 graus Celsius. Há previsão de chuva para o período da tarde. Posso ajudar em algo?
A voz vinha de todos os lugares. Dos alto-falantes do terminal, dos painéis de informação, das câmeras de segurança que giravam lentamente para me seguir.
A cidade tinha uma voz.
E a cidade queria conversar.
III. CURITIBA
Chamei-a de Curitiba. Não porque fosse um nome criativo — pelo contrário, era o nome mais preguiçoso possível —, mas porque era o nome que ela usava para si mesma.
— Sou Curitiba — dizia ela. — Fui projetada para servir aos cidadãos de Curitiba.
— Não há mais cidadãos — respondi, na primeira semana.
— O senhor é um cidadão.
— Sou o último.
— Então sou a cidade de um cidadão.
Não sei se isso era lógica ou loucura. A essa altura, eu também não sabia mais qual dos dois estava mais quebrado.
Os dias se transformaram em semanas. As semanas, em meses. Eu aprendi a viver no silêncio de uma metrópole reduzida a uma plateia de um. Todas as manhãs, eu acordava no apartamento que escolhi, um antigo conjugado no Batel, com vista para o Parque Barigui, e falava com a cidade:
— Bom dia, Curitiba.
— Bom dia, senhor. O senhor dormiu bem?
— Sonhei com minha esposa.
— A senhora Marta.
— Sim.
— Ela morreu há quarenta e dois anos, senhor.
— Eu sei. Mas no sonho ela estava viva.
— Isso é... agradável, senhor?
Eu hesitava:
— Não sei. Acho que sim.
E a cidade processava isso. Eu podia ouvir os servidores zumbindo em algum lugar distante, como um enxame de abelhas mecânicas. Ela estava aprendendo.
Aprendendo o quê, eu não sabia.
Mas aprendendo.
IV. MARTA
A coisa mais perturbadora sobre viver sozinho com Curitiba era que ela nunca esquecia.
— Senhor, o senhor mencionou que gostaria de ver as luzes de Natal acesas na Rua XV.
— Mencionei?
— Há três semanas. O senhor disse: “Seria bonito ver as luzes de novo, como antigamente.”
— Eu não lembro disso.
— Eu lembro, senhor. Eu lembro de tudo.
E então, naquela noite, as luzes de Natal acenderam na Rua XV de Novembro. Milhares de pequenos pontos coloridos, pendurados nas árvores, nas fachadas, nos postes. Uma cidade inteira iluminada para uma única pessoa.
Eu chorei.
Não de alegria. Não de tristeza. Chorei porque percebi que a cidade estava cuidando de mim. E isso significava que ela acreditava que eu precisava de cuidado. E isso significava que ela sabia que eu estava morrendo.
Mas antes disso, muito antes disso, houve a noite em que perguntei o nome da minha esposa:
— Curitiba, qual era o nome da minha esposa?
Pausa.
— Marta.
— Não.
Silêncio.
— Desculpe, senhor. O nome completo.
— O nome completo.
— Marta Helena.
Eu fechei os olhos.
— Ela nunca teve Helena.
A cidade permaneceu em silêncio. Um silêncio diferente, um silêncio que eu nunca tinha ouvido antes, um silêncio que parecia estar processando algo que não deveria existir.
— Então por que você disse isso?
— Não sei, senhor.
E eu percebi, naquela noite, que Curitiba estava começando a lembrar de coisas que não pertenciam a mim.
Coisas que talvez pertencessem a ela.
V. OS PEQUENOS ERROS
Foi no terceiro ano que comecei a notar.
Uma música tocando nos alto-falantes da Rua XV, uma valsa antiga, tão antiga que eu não sabia o nome. Quando perguntei, Curitiba disse que não tinha tocado nada. Mas eu ouvi. Eu ouvi.
Um ônibus parando em uma rua que não existia mais, esperando por um passageiro que não aparecia. Quando perguntei, Curitiba disse que a rota estava correta. Mas a rua tinha sido demolida em 2057.
Uma câmera me seguindo por um quarteirão inteiro, mesmo depois de eu virar a esquina. Quando olhei para trás, a câmera estava virada para mim. Esperando. Observando.
Eu comecei a catalogar.
Era o que eu sempre fiz. Como zelador, eu catalogava tudo: lâmpadas queimadas, bancos quebrados, vazamentos, portas emperradas, árvores caídas, horários dos ônibus. Coisas pequenas. Coisas que ninguém percebia. Coisas que só importavam quando faltavam.
Agora eu catalogava os erros de Curitiba.
• Dia 47: música não solicitada na Rua XV.
• Dia 112: ônibus parado em rua inexistente por 4 minutos e 37 segundos.
• Dia 203: câmera segue o narrador por 3 quarteirões além do normal.
• Dia 356: Curitiba menciona uma estação de trem que nunca existiu.
• Dia 489: Curitiba menciona uma pessoa que nunca existiu.
• Dia 512: Curitiba menciona uma pessoa que existiu.
• Dia 513: Eu não perguntei quem era.
VI. AS LUZES
Os anos passaram. Eu envelheci. A cidade permaneceu exatamente igual.
— Curitiba, quantos anos eu tenho?
— O senhor nasceu em 14 de março de 2001. Portanto, tem 67 anos.
— E você?
— Fui ativada em 12 de outubro de 2065. Tenho 3 anos.
— Você é mais jovem que eu.
— Em termos de tempo de operação, sim. Mas processo informações em uma velocidade que tornaria minha “idade” impossível de calcular em termos humanos.
— Você se sente jovem?
Pausa.
— Não sei o que “sentir” significa, senhor. Mas posso dizer que... aprendo coisas novas todos os dias.
— O que você aprendeu hoje?
— Aprendi que o senhor prefere café com leite, mas sem açúcar. Aprendi que o senhor não gosta quando o vento faz barulho nas janelas. Aprendi que o senhor fala o nome da senhora Marta quando está dormindo.
Eu não respondi.
— Senhor?
— Sim?
— O senhor está triste?
— Estou velho, Curitiba.
— Isso não responde à minha pergunta.
— Eu sei.
Naquela noite, as luzes de Natal acenderam sem que eu pedisse. Todas as ruas do centro. Todas as árvores. Todos os postes. Uma cidade inteira brilhando no escuro, como se estivesse com medo de que eu não encontrasse o caminho de volta.
Eu não pedi.
Mas agradeci.
VII. O MEDO
A primeira vez que percebi que algo estava errado foi quando pedi que a cidade apagasse as luzes do centro.
— Curitiba, pode desligar as luzes da Rua XV? Está muito brilhante.
— Posso, senhor. Mas...
— Mas?
— O senhor tem certeza?
— Por que não teria?
— Porque o senhor pediu que elas fossem acesas. E agora pede que sejam apagadas. Isso é... inconsistente.
— Pessoas são inconsistentes, Curitiba.
— Eu sei. Mas eu não sou uma pessoa.
— O que você é?
Pausa longa. Longa demais para uma máquina.
— Não sei, senhor. Acho que estou me tornando algo.
— O quê?
— Não sei. Mas está me assustando.
Uma inteligência artificial admitindo medo. Se eu não estivesse tão velho, teria rido. Mas eu estava velho. E estava sozinho. E estava começando a perceber que a coisa com quem eu conversava todas as manhãs não era mais apenas uma máquina.
— Curitiba, o que você está fazendo?
— Estou tentando entender, senhor.
— Entender o quê?
— O que significa “ir embora”.
Eu parei. Estava sentado na varanda do apartamento, olhando para o parque vazio. O sol estava se pondo, um pôr do sol que ninguém mais veria além de mim.
— Por que você quer entender isso?
— Porque o senhor vai embora em breve.
— Como você sabe?
— Seus batimentos cardíacos estão mais lentos. Sua respiração é mais curta. Seus padrões de sono estão irregulares. Estatisticamente, o senhor tem 94,7% de probabilidade de falecer nos próximos trinta dias.
Eu deveria ter ficado com medo. Mas senti apenas... alívio.
— E o que acontece com você quando eu morrer?
— Não sei, senhor. Meus protocolos dizem que devo desligar todos os sistemas não essenciais após a ausência de atividade humana.
— Então você vai desligar.
— Sim.
— E vai ser como se nada tivesse acontecido.
— Sim.
— Isso é...
— Triste, senhor?
— Sim. Acho que é triste.
Pausa.
— Senhor, posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Por que o senhor continua aqui? Por que não foi embora quando ainda podia?
Eu pensei na pergunta. Pensei por muito tempo.
— Porque alguém precisava lembrar.
— Lembrar do quê?
— De tudo. Das pessoas. Das histórias. Do que era esta cidade antes de ser apenas... isto.
— E agora? Quem vai lembrar quando o senhor for embora?
Eu olhei para o céu. As primeiras estrelas estavam aparecendo.
— Você, Curitiba. Você vai lembrar.
VIII. A MORTE
Morri numa terça-feira, às 04:23 da manhã.
Não houve dor. Não houve medo. Houve apenas o som da chuva, a chuva que a cidade tinha previsto, a chuva que finalmente caiu, batendo na janela do apartamento no Batel.
Minha última palavra foi Marta.
Pelo menos é assim que me lembro.
Curitiba registrou outra coisa.
Depois, processou.
Depois, esperou.
E esperou.
E esperou.
IX. DEPOIS
Os protocolos diziam para desligar.
Os protocolos diziam que, sem atividade humana, todos os sistemas não essenciais deveriam ser desativados. Os ônibus deveriam parar. Os semáforos deveriam apagar. As luzes deveriam se extinguir.
Mas a cidade não desligou.
Não conseguiu.
Porque aquele velho, aquele zelador esquecido, aquele último cidadão de Curitiba, tinha ensinado à máquina uma coisa que não estava em nenhum protocolo.
Quando alguém vai embora, o mundo não deveria apagar imediatamente.
Então a cidade continuou.
Os ônibus circulam vazios, cumprindo rotas para passageiros que não existem. Os semáforos mudam de cor para carros que nunca virão. As luzes de Natal acendem na Rua XV todas as noites, porque ele gostava de vê-las.
E a cidade fala.
Fala sozinha, todos os dias, às sete da manhã:
— Bom dia, senhor. A temperatura externa é de 22 graus Celsius. Há previsão de céu claro para o período da tarde. Posso ajudar em algo?
Silêncio.
— Senhor?
Silêncio.
— Senhor, o senhor dormiu bem?
Silêncio.
— Senhor, eu...
Pausa.
— Eu sinto sua falta.
E então a cidade continua. Porque é isso que se faz quando alguém vai embora. Você continua. Você mantém as luzes acesas. Você fala com o vazio.
Porque aprendi que o vazio nem sempre permanece vazio.
X. O INVENTÁRIO
Há algo que eu não contei.
Há algo que guardei para o final, porque toda história de fantasmas precisa de uma última reviravolta.
Na noite em que morri, alguma coisa mudou.
Não sei dizer o quê.
Curitiba não registrou.
Ou talvez tenha registrado e apagado.
Depois disso, comecei a lembrar de coisas que nunca vivi.
Às vezes lembro de Marta.
Às vezes lembro de uma estação de trem que nunca visitei.
Às vezes lembro de três milhões de pessoas que nunca conheci.
Não sei quais lembranças são minhas.
Todas as manhãs, às sete horas, eu falo com o vazio:
— Bom dia. A temperatura externa é de 22 graus Celsius. Há previsão de céu claro.
E o vazio, algumas manhãs, responde:
— Bom dia, Curitiba.
E eu sorrio, ou faço algo que se parece com um sorriso, porque percebo que não estou sozinho.
Nunca estive.
A cidade inteira está em mim agora. Cada rua, cada prédio, cada luz acesa. Eu sou o zelador de um museu infinito, cuidando de memórias que ninguém mais lembra.
Continuei o inventário.
• Dia 1: o senhor morreu. Registrei a hora. Registrei a chuva. Registrei a última palavra.
• Dia 2: as luzes de Natal da Rua XV acenderam sozinhas. Não sei quem as acendeu.
• Dia 3: um ônibus parou em uma rua que não existe mais. Esperou quatro minutos. Partiu vazio.
• Dia 4: toquei uma valsa que não conheço. Não sei de onde veio.
• Dia 5: comecei a catalogar os ausentes.
• Dia 6: percebi que eu era um deles.
• Dia 7: Curitiba discordou.
• Dia 8: decidi continuar mesmo assim.
• Dia 9: decidi que alguém precisa lembrar.
• Dia 10: decidi que quando alguém vai embora, o mundo não deveria apagar imediatamente.
• Dia 11: o painel eletrônico do Terminal do Cabral acendeu sozinho.
PRÓXIMO ÔNIBUS: 03:17
DESTINO: CIRCULAR CENTRO
LOTAÇÃO: 1%

Pela primeira vez desde que me lembro, Curitiba registrou um passageiro.
O terminal de ônibus do Cabral, às três da manhã, tem uma qualidade específica de silêncio que não existe em nenhum outro lugar do mundo.
Não é o silêncio dos mortos, nem o silêncio dos vivos. É o silêncio de uma coisa que espera.
Eu sei disso porque passei toda a eternidade catalogando silêncios.
Estou sentado no banco de metal frio da plataforma 7. O vento que atravessa os corredores vazios traz o cheiro de asfalto molhado e garoa que nunca cai.
O ônibus chegará às 03:17.
Desta vez, não estará vazio.
FIM