Tadeu Everton Zamoiski
Preciso contar como tudo começou. Quando terminar, vou entender por que voltei.
A casa ficava na Rua das Gaivotas, no Balneário Riviera. Não tinha número, placa ou qualquer identificação. Era uma construção simples, de muros baixos e telhado antigo, espremida entre duas casas maiores. Quem me entregou a chave disse que a prefeitura ainda não havia colocado a numeração. Não vi motivo para perguntar mais.
Cheguei numa quinta-feira à tarde, com duas malas, uma mochila e a intenção de ficar ali por alguns meses. O aluguel era barato. A casa ficava perto do mar, numa rua tranquila, e eu não precisava de muito mais.
A primeira coisa que percebi foi o cheiro. Madeira úmida, roupa guardada e alguma coisa adocicada, quase estragada. Abri as janelas, deixei o ar circular e comecei a desfazer as malas.
Na cozinha havia uma mesa pequena, uma geladeira antiga e um armário com portas de correr. Sobre a pia, uma mosca insistia em voar no mesmo lugar. Encontrei uma única xícara azul, com uma lasca na borda. Lavei, sequei e deixei ao lado da cafeteira.
No andar de cima, no quarto dos fundos, havia um armário embutido. As portas estavam emperradas. Quando consegui abrir uma delas, encontrei algumas roupas esquecidas: camisas, calças e um casaco escuro. Não pareciam pertencer a ninguém que eu conhecesse. Fechei a porta e resolvi deixar aquilo para outro dia.
Naquela noite, antes de dormir, encontrei um envelope amarelo sobre o muro da frente.
Meu nome estava escrito na parte de fora.
Fiquei olhando para a letra. O g tinha uma cauda comprida, o r terminava num pequeno gancho. Reconheci também o jeito de fechar o a, quase sem espaço no meio.
Era minha.
Abri o envelope. Dentro havia uma folha dobrada ao meio, com poucas linhas:
Você vai acordar às sete e quinze. Vai preparar café e usar a xícara azul que está ao lado da cafeteira. A mosca continuará sobre a pia. Não tente matá-la.
Li duas vezes.
Pensei que alguém estivesse fazendo uma brincadeira. Talvez o antigo inquilino tivesse encontrado alguma carta minha. Mas eu nunca havia estado naquela casa antes. Não conhecia ninguém na rua e não tinha deixado meus documentos com qualquer pessoa além do corretor.
Guardei a folha na gaveta da cozinha.
Na manhã seguinte, acordei às sete e quinze.
Não foi o despertador. Ele estava desligado. Acordei de repente, olhei o relógio e fiquei alguns segundos tentando entender por que aquele horário me incomodava tanto.
Preparei café. Peguei a xícara azul. A mosca continuava sobre a pia.
Não tentei matá-la.
Passei a manhã tentando encontrar uma explicação. Abri a gaveta, reli a carta e examinei o papel contra a luz. Não havia marca, assinatura ou qualquer coisa que pudesse indicar quem a escrevera.
Por volta das nove, saí para comprar o jornal. Quando voltei, havia outro envelope amarelo no muro.
O papel era igual ao anterior. A letra também, embora o traço do o parecesse um pouco mais curto.
Dessa vez, a mensagem era mais comprida:
Hoje, às dez, você vai até a padaria da avenida. Vai comprar pão e voltar pela mesma rua. No caminho, encontrará um homem usando uma camisa verde. Vai olhar para você. Não pare para conversar.
Ele vai lembrar você do seu irmão. A camisa é parecida com a que ele usava no dia em que vocês foram à praia pela última vez.
Fiquei parado diante do muro.
Meu irmão morreu onze anos antes, num acidente de carro. A última vez que estivemos juntos na praia foi muito antes disso. Eu me lembrava da camisa verde, desbotada nos cotovelos, e de uma discussão boba que tivemos naquela tarde. Nunca havia contado aquilo a ninguém naquela cidade. Na verdade, quase nunca falava sobre o assunto.
Olhei para a rua. Não havia ninguém.
A carta poderia estar errada. Eu poderia simplesmente ficar em casa. Ainda assim, pouco antes das dez, peguei a carteira e saí.
Na padaria, comprei pão e um pacote de café. Voltei pela mesma rua, como estava escrito.
O homem apareceu perto da esquina.
Usava uma camisa verde de mangas compridas. Era magro, tinha os cabelos grisalhos e caminhava devagar, olhando para o chão. Quando passou por mim, levantou a cabeça.
Por um instante, tive a impressão de reconhecer seu rosto.
Ele também pareceu me reconhecer, mas não disse nada. Continuou andando.
Não voltei para perguntar quem era. Segui até a casa, tentando convencer a mim mesmo de que aquela coincidência não significava coisa alguma.
O portão estava fechado. Eu tinha certeza de que o deixara encostado.
Na sala, a cortina da janela estava fechada. Pela manhã, eu a havia deixado aberta.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos. Depois fui até a cozinha. A mosca continuava sobre a pia.
O cheiro adocicado estava mais forte.
Naquela tarde, resolvi descobrir quem estava deixando os envelopes.
Abri a cortina da sala e deixei a janela livre. Coloquei o celular sobre o parapeito, voltado para o muro e para a entrada da casa. Ativei a gravação e saí. Caminhei até a praia, sentei num quiosque e fiquei ali mais tempo do que pretendia.
Quando voltei, já passava das sete.
A cortina estava fechada outra vez.
O celular continuava no lugar. A gravação tinha pouco mais de duas horas.
Antes de assistir ao vídeo, encontrei outro envelope amarelo no muro.
A folha dizia:
Você vai encontrar a gravação. Vai assistir até o fim. Não precisa procurar o rosto. Olhe para a mão.
Senti um frio na barriga.
Entrei, fechei a porta e coloquei o celular sobre a mesa. A gravação mostrava a rua vazia durante quase todo o tempo. Um carro passou. Um cachorro atravessou a calçada. Depois, às seis da tarde, alguém entrou no enquadramento.
A pessoa se aproximou do muro, deixou um envelope amarelo sobre a pedra e saiu.
Não consegui ver seu rosto. Usava uma camisa escura, e a cabeça ficou fora do enquadramento.
Voltei alguns segundos.
A mão apareceu com clareza quando colocou o envelope no muro. Havia uma cicatriz perto do polegar e uma unha roída até a carne. No pulso, um relógio com uma marca no vidro.
Olhei para a minha mão.
A cicatriz era minha. A unha também. O relógio estava no meu pulso.
Continuei assistindo. Nos últimos segundos, depois que a pessoa desapareceu, uma das bordas da cortina deslizou devagar diante da janela. O tecido avançou até cobrir a lente. A imagem escureceu aos poucos, até desaparecer.
Parei o vídeo.
Não dormi naquela noite.
Na manhã seguinte, decidi ir embora. Não tinha mais interesse em descobrir quem escrevia as cartas, nem em entender o que havia acontecido na gravação. Queria sair dali antes que outra coisa acontecesse.
Arrumei algumas roupas às pressas. Guardei as cartas e os envelopes no bolso externo da mochila. Peguei as chaves, conferi a casa e tranquei a porta.
Antes de entrar no carro, olhei para o muro.
Não havia envelope.
Entrei e dei partida.
Segui em direção a Curitiba. A estrada estava tranquila. Eu dirigia sem música, com os olhos fixos no asfalto. De vez em quando, olhava pelo retrovisor para conferir se algum carro se aproximava.
Parei num posto para abastecer e comprar água. Quando voltei ao carro, havia um envelope amarelo sobre o banco do passageiro.
Não me lembrava de tê-lo deixado ali.
Abri.
A carta tinha duas frases:
Na primeira curva depois do posto, olhe pelo retrovisor.
Não faça isso.
Dobrei o papel e o deixei no banco.
Continuei dirigindo.
Na primeira curva, olhei pelo retrovisor.
Por um instante, vi a cozinha da casa.
A mesa, a xícara azul e a mosca sobre a pia. A luz parecia vir da janela dos fundos. Tudo estava exatamente como eu havia deixado, mas a imagem ocupava o lugar da estrada atrás de mim.
Pisei no freio.
O carro parou no acostamento. Olhei novamente. Havia apenas a pista, as árvores e um caminhão distante.
Fiquei com as mãos no volante.
O cheiro adocicado entrou pelo carro. Era o mesmo da casa, o cheiro de madeira úmida e alguma coisa estragada. Abri a porta e saí. Caminhei alguns metros pelo acostamento, respirando o ar frio.
Não voltei a olhar pelo retrovisor.
Passei a noite num recuo perto de um posto fechado. Tentei dormir no banco do carro, mas qualquer ruído me fazia abrir os olhos. De madrugada, desisti. Fiquei sentado, olhando a estrada vazia, com a mochila no banco ao lado.
As cartas continuavam no bolso externo. De vez em quando, eu passava a mão sobre elas, como se precisasse confirmar que estavam ali.
Ao amanhecer, lavei o rosto numa pia do posto e comprei um café. Fiquei algum tempo segurando o copo de papel, sem beber. Depois entrei no carro e voltei para Matinhos.
Cheguei ao Riviera no começo da manhã.
A rua estava vazia. Estacionei diante do muro e fiquei alguns minutos sem sair do carro.
A casa parecia a mesma.
Abri o portão, entrei e destranquei a porta. O cheiro estava lá. A xícara azul permanecia sobre a mesa, com um resto de café seco no fundo. A mosca continuava sobre a pia.
No quarto, encontrei um envelope amarelo sobre o travesseiro.
Dessa vez, meu nome estava escrito na parte de fora.
Sentei na cama antes de abrir.
A carta dizia:
O carteiro deixa os envelopes no muro. Sempre com o nome de quem vai morar aqui.
O endereço é o seu nome.
Eu fui o morador. Agora é você.
O próximo chega de São Paulo. Vai atravessar o portão, deixar a mochila na sala e sair novamente. Você vai vê-lo da janela do andar de cima.
Não deixe que ele te veja.
*Quando ele estiver longe, você vai escrever a primeira carta. Coloque o nome"_*dele no envelope. Deixe-o sobre o muro e espere.
Depois, entre no armário.
Li a carta até o fim.
Voltei ao início e li novamente.
Peguei as outras folhas na mochila e espalhei sobre a cama. Comparei as letras, os traços, os espaços entre as palavras. Havia pequenas diferenças. O g de uma carta tinha uma cauda mais longa. Em outra, o r terminava num gancho. O o mudava de tamanho. Mesmo assim, todas pareciam ter sido escritas pela mesma pessoa.
Nenhuma era exatamente igual à outra.
Guardei os papéis e subi para o quarto dos fundos. A janela dava para o portão e para o muro da frente. Fiquei ali, sem acender a luz.
Pouco depois, um homem atravessou a calçada. Parou diante da casa, consultou o celular e abriu o portão. Trazia uma mochila nas costas. Entrou sem olhar para os lados.
Vi quando deixou a mochila na sala. Depois saiu e fechou o portão com cuidado.
Esperei até ele desaparecer na esquina.
Desci.
Na cozinha, encontrei uma folha de papel e uma caneta. Sentei à mesa e comecem a escrever a primeira carta.
Escrevi o que estava na minha lembrança, palavra por palavra:
Você vai acordar às sete e quinze. Vai preparar café e usar a xícara azul que está ao lado da cafeteira. A mosca continuará sobre a pia. Não tente matá-la.
No começo, a letra saiu exatamente como a minha. O g tinha a cauda comprida. O r terminava no mesmo gancho. Reconheci o movimento da mão e até a maneira como apertava a caneta nas curvas.
Continuei escrevendo.
Na segunda linha, o g perdeu um pouco da cauda. Na seguinte, o r já não formava o gancho. Tentei corrigir, mas a mão seguiu outro caminho. As palavras ficaram mais estreitas, inclinadas para a direita. A pressão da caneta também mudou.
Parei por um instante.
Olhei para o começo da página. A primeira linha ainda tinha a minha letra. Mais abaixo, os traços já eram outros.
Continuei até o fim.
A última palavra não parecia ter sido escrita por mim.
Voltei à primeira linha. Ela também tinha mudado.
Dobrei a folha, coloquei-a no envelope e escrevi o nome do homem na parte de fora. Eu não sabia como ele se chamava. Não tinha ouvido ninguém pronunciar seu nome, nem visto qualquer documento. Mesmo assim, minha mão escreveu:
Marcelo.
A letra saiu com a mesma inclinação das últimas linhas. Não precisei pensar no movimento da mão.
Fiquei algum tempo com o envelope entre os dedos. Depois caminhei até a entrada e o deixei sobre o muro, no mesmo lugar onde encontrara os outros.
Subi para o quarto dos fundos.
O armário embutido continuava no mesmo lugar. Abri as portas. As roupas antigas estavam amontoadas no interior. Entre elas, vi a manga de uma camisa verde.
Pensei no meu irmão. Tentei recuperar a discussão daquela tarde na praia, lembrar o que ele havia dito e por que eu ficara tão irritado. A lembrança estava ali, mas as palavras tinham desaparecido. Quanto mais tentava reconstruir a conversa, menos conseguia.
Afastei a roupa com a mão e entrei no armário.
O espaço era apertado. Precisei dobrar os joelhos para conseguir fechar a porta. O cheiro adocicado estava mais forte ali dentro.
Fiquei quieto.
Ouvi o portão abrir.
Depois, passos no corredor.
Uma porta se fechou. O homem devia ter voltado para buscar alguma coisa. Escutei a mochila sendo arrastada pelo chão e, em seguida, um ruído de papel.
Ele encontrou o envelope.
Por alguns segundos, não ouvi nada.
Então sua voz veio da sala:
— Tem alguém aí?
Não respondi.
Os passos começaram a subir a escada. Um degrau de cada vez. Pararam no corredor do quarto.
Fiquei imóvel, com as mãos apertadas contra os joelhos.
Entendi por que voltei. Ele precisava de alguém atrás da porta.
Do outro lado da porta do armário, ouvi alguém respirar.
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