quinta-feira, 17 de setembro de 2026
A SEGUNDA CURVA DO VIADUTO
A Caneca
A Caneca
Que dia era?
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Nelson passou pelo 67 e esperou pelo 68. Não veio. O 69 passou e desapareceu antes que ele pudesse piscar. Reduziu a marcha. Olhou pelo retrovisor: a estrada tinha sido engolida. Não havia mais faixas, nem mato, nem céu. Só neblina. Branca, densa, viva. Seguiu.
Vinte e três anos rodando entre Curitiba e Paranaguá ensinam isso: quando a serra decide esconder alguma coisa, você não discute. O Scania cortava a garoa com os faróis baixos. A mão direita no volante, a esquerda no câmbio, o corpo fazendo o que já não precisava de pensamento. O café na garrafa térmica esfriava devagar. Ele não bebeu.
Naquele horário, a PR-277 costumava ter uma carreta a cada dois minutos. Agora, só o motor. Só a chuva batendo no teto. Só o chiado lento do limpador. Olhou para o relógio: 4h17. Saíra de Paranaguá às duas e meia. Já devia estar entrando no contorno do Atuba. Mas a estrada continuava, e não se lembrava de ter passado por Morretes, nem pela ponte sobre o Rio Sagrado, nem pelo posto onde sempre parava.
Lembrou-se do pai. Não sabia por quê. As mãos do pai cheiravam a peixe e fumo. Nas férias, subiam juntos para pescar. Na volta, paravam numa casa de madeira à beira do caminho. Uma mulher servia café. O pai sentava-se à mesa; ela ficava de pé, ao lado do fogão, olhando pela janela. O pai dizia alguma coisa — ela não respondia. Continuava olhando. Nelson lembrava-se da caneca branca com listra azul, do vapor subindo, da mão do pai envolvendo-a. Lembrava-se da casa. Lembrava-se da mulher. Não do rosto, não da voz. Só dos pés — descalços no assoalho, como quem não tem mais pressa de ir a lugar nenhum.
O pai partira assim, doze anos atrás: estrada molhada, curva cerrada, neblina igual a esta. O caminhão nunca foi encontrado. Nem ele.
Foi quando o asfalto acabou.
Não de repente. Terminou como termina uma frase: sem aviso, sem cerimônia. À frente, terra batida, mato alto dos dois lados e uma casa.
Pequena, de madeira, telhado de duas águas, varanda voltada para o caminho. Uma luz acesa na janela da frente — amarela, fraca, de lâmpada incandescente. Nelson ficou olhando. Conhecia aquele lugar. Não daquela forma, mas de outra. A casa da mulher do café.
Abaixou o olhar para as mãos no volante. Anéis de umidade. E, por um instante, jurou ver uma faixa azul riscando o plástico escuro do painel, fina, como traçada com caneta. Piscou: sumiu.
Desligou o motor.
O silêncio caiu pesado. A chuva passou. Desceu. O barro grudou nas botas. Ficou parado diante da gradeira.
A porta abriu-se.
Uma mulher apareceu. Cabelo preso, vestido de algodão, pés descalços no chão de tábuas. Olhou para ele como se estivesse esperando há muito — e não tivesse dúvida de quem chegava.
— Você voltou — disse.
Ele não respondeu.
— Entra. O café está pronto.
Olhou para o caminhão. Depois, para a estrada de terra que sumia no brejo. Depois, para ela.
— Só um café — disse.
A cozinha era estreita, com fogão a lenha, mesa tosca, janela voltada para a mata. Cheirava a café passado e madeira úmida. A mesa estava posta para dois. Sentou-se. Ela ficou ao lado do fogo e serviu. A caneca veio branca, com uma listra azul. Exatamente como lembrava.
— O açúcar está na lata — disse.
Ele não tocou. Olhou pela janela: mato denso, sem fim. Nenhuma saída do outro lado. Nada.
— A senhora mora aqui sozinha?
— Agora.
— E antes?
Ela virou o rosto para a vidraça. Ficou assim.
O silêncio cresceu, enchendo o espaço entre os dois. A outra cadeira permanecia vazia. Depois, ele pegou a caneca e bebeu. Quente, forte, do jeito que o pai gostava. Do jeito que ele também gostava.
— Que dia é hoje?
— Outubro.
— Que dia?
— O tempo não corre.
Pousou a caneca. A listra parecia mais grossa.
— Preciso ir. Tenho carga para entregar em Curitiba.
— Sempre esteve aqui.
— Como assim?
— Às vezes levam aonde se deve estar.
Levantou-se. A cadeira raspou no assoalho. Olhou para a porta, depois para ela, depois para a caneca. A listra estava torta.
— Vou embora.
Ela não se moveu.
— O caminho não sai. Só fica.
Saiu. A chuva havia parado, mas a neblina era mais densa, colada ao chão como algodão molhado. O caminhão não estava onde o deixara.
Andou em círculos. Terra batida, sem rastro. Uma poça refletia o branco do nevoeiro. Voltou à porta: fechada, escura. Bateu — ninguém respondeu. Contornou a casa. Nos fundos, um poço e uma araucária. Embaixo da árvore, uma cadeira de balanço vazia, movendo-se lentamente, como se alguém tivesse acabado de se levantar.
Voltou para a frente.
No lugar do caminhão, uma placa. Verde, letras brancas, torta. No canto, uma marca azul.
Km 68
Só ele. Nada mais.
Tirou o celular. Sem sinal. A tela marcava 4h17. O número não mudava. Guardou. Olhou de novo depois de um minuto: 4h17. O tempo havia parado mesmo.
A luz da janela acendeu-se de novo. Ela apareceu na varanda.
— Você esqueceu a caneca — disse.
Ele olhou para a mão direita. Lá estava ela: branca, listra azul fina e nítida.
Bebeu.
Baixou a caneca. A listra não estava mais lá. E na superfície lisa, por um instante — não era ele. Era o pai. Jovem. Olhando.
Piscou. Sumiu.
Entrou. A porta estava entreaberta. Nunca tivera tranca.
A cozinha estava vazia. O fogo, apagado. A mesa, ainda posta para dois. Do outro lado, uma caneca idêntica — branca, sem listra. Vazia.
Sentou-se. Ficou olhando a mata engolir a estrada. Depois, ouviu o som de um motor lá fora. Um caminhão subindo. Mesmo ronco, mesma cadência, mesmo chiado de limpador. Tinha uma mancha escura no para-lama. Igual à dele. Talvez fosse ele. Talvez fosse sempre ele. Passou devagar; sentiu o cheiro de diesel entrar pela janela aberta. Os faróis varreram a parede de madeira. Depois, o som foi minguando, sumindo no nevoeiro.
O silêncio voltou.
Olhou para a mão. A caneca. Branca, sem marca.
Levou-a aos lábios.
Faltou uma listra.
Sempre faltaria.
Lá fora, a neblina se mexeu. Alguém viria. Um dia.
Ele ficaria de pé, ao lado do fogão. Esperando.
Do jeito que ela fazia.
Do jeito que o pai fazia.
O QUARTO QUE NINGUÉM ALUGAVA
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE
O RELÓGIO MARCA A HORA DA SUA MORTE
Algumas horas não passam. Elas esperam.
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
A chuva começou antes do amanhecer e, quando saí de casa, Olinda parecia ter sido lavada sem que ninguém tivesse conseguido enxugá-la. A água escorria pelas paredes antigas, escurecia as pedras das calçadas e se acumulava nas partes mais baixas das ruas. Passei a mão pelo cabelo molhado e conferi o telefone.
A mensagem de Clara ainda estava na tela:
— Pai, dessa vez não inventa uma desculpa.
Eu havia recebido aquilo pouco depois das cinco.
Clara aprendera a escrever mensagens curtas depois de alguns anos tentando conversar comigo. No começo eram textos compridos, fotografias, perguntas sobre coisas que eu nem lembrava de ter prometido fazer. Depois vieram as ligações que eu deixava tocar até parar. Por fim, restavam aquelas frases que pareciam não esperar resposta.
Naquela manhã, eu tinha decidido ir.
Precisava chegar à rodoviária antes das seis para encontrá-la.
Escrevi:
— Eu vou.
Ela respondeu quase imediatamente:
— Vou esperar.
Guardei o telefone.
Dei alguns passos e parei.
Havia uma fotografia de Clara sobre a estante da sala, uma daquelas que ficam anos no mesmo lugar até deixarem de ser percebidas. Eu conseguia lembrar do vestido que ela usava, do cabelo preso de qualquer jeito, da mão segurando uma boneca. O rosto, porém, não veio à minha mente.
Voltei até a fotografia.
Toquei o vidro.
A menina continuou sorrindo.
Meu peito apertou.
Não consegui entender por quê.
Guardei a sensação e saí.
A chuva engrossou perto da Rua do Amparo. Procurei abrigo numa marquise e vi a placa antiga de uma relojoaria. A porta estava entreaberta.
Entrei mais para fugir da água do que por qualquer outro motivo.
O homem atrás do balcão levantou os olhos.
Era magro, muito velho, e tinha o hábito de passar um pano branco sobre o vidro dos relógios mesmo quando o vidro já estava limpo. Fazia aquilo com cuidado, sempre começando pelo canto inferior direito e terminando no centro, como se obedecesse a uma ordem que só ele conhecia.
— Pode esperar a chuva passar — disse.
A loja era estreita e profunda. Havia relógios nas paredes, sobre as prateleiras e dentro de vitrines antigas. Alguns tinham ponteiros; outros estavam desmontados. O cheiro de óleo de máquina misturava-se ao de madeira úmida.
— Quanto tempo até a rodoviária?
— Depende da chuva.
— Preciso estar lá antes das seis.
Ele continuou limpando o vidro.
— É importante?
— Minha filha está esperando.
O pano parou por um instante.
— Então não demore.
Foi a primeira coisa que ele disse que me pareceu estranha.
Eu já estava me afastando quando vi o relógio de bronze sobre uma mesa baixa.
Não tinha números.
Não tinha ponteiros.
Parecia incompleto.
Aproximei-me.
— Esse não funciona?
O velho colocou o pano sobre o balcão.
— Funciona.
— Como?
Ele olhou para o relógio.
— Ele não mostra a hora.
Passei o dedo pela borda da caixa.
— Então o que mostra?
— Você.
Sorri, esperando que fosse uma brincadeira.
Não era.
O bronze estava frio.
Toquei o mostrador.
Os relógios da parede permaneceram imóveis por alguns segundos. Depois, um deles voltou a funcionar. Outro também. O velho, porém, não se mexeu.
— Já pode ir — disse.
— Só isso?
— Por enquanto.
Saí.
Na calçada, a chuva havia diminuído.
Quando tirei o telefone do bolso, a tela estava apagada.
Esperei.
Ela voltou.
3h17.
Fiquei olhando por alguns segundos.
O horário não fazia sentido.
Guardei o aparelho e segui para a rodoviária.
Não cheguei a tempo.
Quando entrei no saguão, havia pessoas carregando malas, crianças dormindo sobre bancos, vendedores oferecendo café e o cheiro forte de chuva trazido pelas roupas molhadas. Procurei Clara entre os passageiros.
Não a encontrei.
Telefonei.
Chamou até cair.
Depois veio uma mensagem:
— Você não veio.
Respondi:
— Cheguei.
Demorou alguns minutos.
— Não chegou.
Fiquei parado diante do painel de horários.
Então senti alguma coisa contra a palma da mão.
Era uma fotografia.
Não sabia de onde tinha vindo.
Mostrava uma menina sentada num banco de praça. Tinha aproximadamente oito anos e usava um vestido amarelo. O cabelo estava preso com uma fita torta.
Virei a fotografia.
No verso havia uma escrita infantil:
Para o papai.
Não havia nome.
Conhecia aquela menina.
Eu sabia.
Ou achava que sabia.
Passei o resto do dia tentando encontrar Clara.
Não consegui.
Naquela noite, coloquei a fotografia sobre a mesa.
Fiquei algum tempo diante dela.
A menina sorria.
Eu reconhecia o sorriso.
Também reconhecia o vestido.
Havia uma lembrança escondida atrás daquela imagem e, por mais que tentasse alcançá-la, ela recuava.
Então veio o cheiro.
Clara costumava sair do banho com o cabelo ainda molhado, enrolado numa toalha, e o cheiro do sabonete permanecia no quarto. Eu conseguia senti-lo com uma precisão absurda.
O rosto continuava ausente.
Na manhã seguinte, já não lembrava qual era o sabonete.
O relógio apareceu na cozinha.
Estava ao lado da cafeteira.
Não havia como ter chegado ali.
Peguei-o.
Dessa vez senti raiva.
Levei o objeto até a janela e o joguei no quintal.
Ele caiu sobre a terra molhada.
Fiquei esperando alguma coisa.
Nada.
Voltei para dentro.
Naquela tarde, telefonei para a relojoaria.
Uma mulher atendeu.
Perguntei pelo proprietário.
Ela disse que não havia nenhum funcionário com aquela descrição.
— É uma relojoaria antiga, na Rua do Amparo.
Houve uma pausa.
— Conheço a rua. A loja está fechada há muitos anos.
Desliguei.
Voltei ao endereço no fim da tarde.
A porta estava fechada.
As vitrines tinham uma camada grossa de poeira.
Não havia relógios.
No chão, atrás do vidro, permanecia a marca retangular mais clara onde algum móvel ficara durante muito tempo. O ar tinha cheiro de madeira velha e, por algum motivo, ainda havia um leve odor de óleo de máquina.
Uma fotografia estava presa no lado de dentro da vitrine.
Aproximei o rosto.
Era a mesma rua.
A mesma loja.
A fotografia tinha uma data escrita no canto: 1974.
Havia cinco pessoas diante da porta.
Um homem segurava uma menina pela mão.
O rosto dele estava parcialmente escondido pela sombra.
Reconheci a camisa.
Era a que eu usava naquela manhã.
Dei um passo para trás.
A fotografia caiu.
Quando me abaixei para pegá-la, vi outra imagem atrás dela.
Uma mulher segurava um guarda-chuva vermelho.
Seu rosto estava virado para o lado.
Havia uma pequena cicatriz em forma de meia-lua perto da sobrancelha.
Clara tinha uma igual.
Eu sabia.
A lembrança veio inteira.
Uma queda.
Sangue.
Uma menina chorando.
Minha mão apertando um pano contra a testa dela.
Depois, a lembrança se desfez antes que eu conseguisse ver seu rosto.
Naquela noite, Clara mandou uma mensagem:
— Pai, você está bem?
Comecei a responder.
Parei.
Não sabia mais como chamá-la.
Escrevi:
— Filha.
Apaguei.
Tentei novamente:
— Clara.
O nome parecia correto, mas já não pertencia a ninguém dentro da minha cabeça.
Telefonei.
Ela atendeu.
— Pai?
A voz era adulta.
Isso me surpreendeu.
Eu esperava a voz de uma menina.
— Clara?
— Sim.
Fechei os olhos.
Havia alguma coisa naquela voz que eu conhecia.
Não era o timbre.
Era a maneira como ela dizia meu nome.
— Você está na rodoviária?
— Estou.
— Eu vou.
Ela ficou quieta.
Depois perguntou:
— Você sabe quem eu sou?
Minha garganta fechou.
— Sei.
Era mentira.
— Pai?
A ligação caiu.
Peguei um táxi antes do amanhecer.
Durante o trajeto, tentei lembrar da infância de Clara.
Veio primeiro a imagem de uma bicicleta encostada num muro.
Depois uma mão pequena segurando meu dedo.
A mão permaneceu.
O resto se apagou.
Eu não sabia mais de quem era aquela mão.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— O senhor está indo para a rodoviária?
— Sim.
— De novo?
— De novo?
Ele franziu a testa.
— Peguei o senhor ontem.
Não respondi.
Continuou dirigindo.
Depois de alguns minutos, disse:
— A pessoa que o senhor procurava estava esperando.
— Minha filha.
Ele fez que sim.
— Ela parecia conhecer o senhor.
— Ela estava com um guarda-chuva vermelho?
O motorista olhou novamente pelo retrovisor.
— Estava.
— Você viu o rosto dela?
— Não.
O táxi parou diante da rodoviária.
Paguei.
Antes de fechar a porta, ele disse:
— Ela ficou esperando bastante.
Clara estava perto da entrada.
Eu soube antes de vê-la.
Havia pessoas passando, ônibus chegando, anúncios pelos alto-falantes, malas arrastando pelo chão. Ainda assim, alguma coisa me puxou naquela direção.
Então encontrei o guarda-chuva vermelho.
A mulher estava de costas.
Aproximei-me.
Ela se virou.
Era Clara.
Ou parecia Clara.
A cicatriz estava no mesmo lugar.
O rosto era diferente do que eu lembrava, mas eu já não sabia se a diferença estava nela ou em mim.
— Pai.
A palavra atravessou meu corpo.
A visão embaçou.
Ela aproximou-se.
— Você veio.
Tentei responder.
Minha voz não saiu.
Clara segurou minha mão.
A pele estava quente.
A lembrança veio antes do pensamento.
Uma menina correndo.
Uma mochila vermelha.
Minha mão fechando sobre a dela.
“Pai!”
Depois a imagem desapareceu.
Clara continuava diante de mim.
Eu sabia que ela era importante.
Só não sabia mais por quê.
— Eu conheço você?
Ela apertou minha mão.
— Conhece.
— De onde?
Ela baixou os olhos.
— Você costumava me buscar na escola.
Alguma coisa voltou.
Uma tarde de sol.
A mochila vermelha.
O banco do carro.
A voz dela dizendo meu nome.
Tentei segurar a lembrança.
Ela se desfez.
Clara encostou a testa no meu ombro.
— Eu sabia que você viria.
— Eu também.
Ela levantou o rosto.
— Não sabia.
Fiquei olhando para ela.
Havia tristeza em seus olhos.
Não havia surpresa.
Foi então que senti o peso frio no bolso.
Não tirei o relógio.
Não queria olhar para ele.
Clara tocou meu casaco exatamente onde o objeto estava.
— Você ainda está com ele.
Minha mão cobriu a dela.
— Eu não lembro de ter colocado.
Ela não respondeu.
Olhei para além de seu ombro.
Do outro lado do saguão, uma mulher abriu um guarda-chuva vermelho.
Clara não percebeu.
A mulher ficou imóvel.
A água escorria pelas pontas do tecido e formava uma pequena poça aos seus pés.
Ela olhava diretamente para mim.
Então sorriu.
Foi um sorriso discreto.
Familiar.
Meu peito doeu.
Apertei a mão de Clara.
A dor veio antes da lembrança.
Começamos a caminhar.
O relógio permanecia no meu bolso.
Eu não precisava vê-lo para saber a hora.
3h17.
Não era a hora da minha morte.
Era outra coisa.
Alguma coisa que eu já conhecia, embora não conseguisse lembrar quando tinha acontecido pela primeira vez.
Clara apertou minha mão.
Apertei de volta.
Enquanto atravessávamos a rodoviária, percebi que talvez aquela fosse a única lembrança que ainda me pertencia: a necessidade de não soltá-la.
Mesmo sem saber quem ela era.
Mesmo sem saber quantas vezes eu já a havia perdido.
Mesmo sem saber quantas vezes ainda teria de encontrá-la.