sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Véu

Véu
Tadeu Everton Zamoiski Estrada da Graciosa

Fecharam a 277. De novo.

Eu estava na conveniência do posto de São José, mãos suando em volta do copo de café queimado, quando o rádio do frentista chiou. Deslizamento entre o Km 54 e o Km 60. Pista fechada nos dois sentidos, sem previsão.

O frentista olhou pra mim por cima do balcão.

— Vai ter que ser pela Graciosa, moça.

Peguei uma garrafinha d’água na geladeira e paguei. Ninguém que mora aqui quer a Graciosa de noite. De dia é passeio. De noite é garganta. Quase nove quilômetros de paralelepípedo que nunca seca, muro de pedra do Império coberto de limo e mata tão fechada que o farol alto não atravessa.

Eu precisava chegar em Morretes. Minha mãe tinha ligado às dez. Meu pai não estava conseguindo respirar direito. A voz dela era a mesma da noite em que a avó morreu.

Entrei no carro. 23h14.

Os primeiros quilômetros ainda tinham casa, cachorro, luz de varanda. Na última curva antes da mata engolir tudo, levei a mão à garrafa. Não abri. Meu pai não podia esperar. A última luz sumiu e o silêncio mudou.

Desci freando o tempo todo. Limpador no lento, mesmo sem chuva, só pra limpar a umidade que grudava no vidro. O cheiro de terra molhada entrou no carro com tudo fechado.

No Bela Vista, na curva mais aberta, tinha alguma coisa parada no meio da pista.

Parada. Não se mexia com o vento. Não era cerração. Cerração se mexe.

Primeiro só uma brancura. Depois o farol mostrou a textura. Renda molhada, pesada, flutuando a um palmo do chão.

Era um véu de noiva.

Buzinei. Nada.

Fui chegando e o véu abriu sozinho.

Tinha uma mulher de costas pra mim, bem no centro da pista.

O vestido ia até o chão, mas não era tecido. Era barro e raízes finas, úmidas, entrelaçadas. As pedras do calçamento entravam na barra e as raízes sumiam entre elas.

Ela não estava na estrada. Ela era a estrada.

Tentei dar ré. O carro morreu. Como se alguém tivesse puxado a chave. O painel apagou inteiro. O farol ficou amarelo, fraco.

Sem grilo. Sem vento. Nem aquele farfalhar de folhas que sempre tem na Graciosa.

Olhei no retrovisor. O vidro tinha brotado musgo por dentro. Verde, vivo, avançando das bordas pro meio.

Quando voltei pro volante, as raízes já estavam ali. Finas, pretas, saindo da coluna de direção e enrolando nos meus dedos. Não apertavam. Só seguravam, mornas e úmidas como veias.

Falei sem pensar:

— Não passa.

Ela virou só a cabeça. O estalo soou fundo, como se o pescoço tivesse quebrado por dentro. Meu ombro recuou sozinho. O estômago fechou.

Não tinha rosto. Só a mesma neblina densa do véu, girando.

Aí veio a voz da minha avó.

Ela me levava na Graciosa quando eu era pequena. Sempre parava no mesmo lugar, abria a porta do carona e jogava um pouco de água no chão.

— É o pedágio da mãe da serra. A gente pede licença.

Eu tinha entrado sem pedir.

Olhei pro lado do carona. O medo de ficar era maior. As raízes esticaram sem soltar, mornas, e acompanharam minha mão até a maçaneta. Demorei um segundo.

Abri. A mata estava colada na lata do carro. Folhas batendo no retrovisor. O frio entrou de uma vez.

Peguei a garrafa, desrosquei a tampa e deixei no chão, no paralelepípedo. A água desceu entre as pedras e sumiu entre as raízes.

Falei baixo:

— Desculpa. Me deixa passar.

O musgo parou de crescer no vidro. As raízes soltaram dos meus dedos devagar, ainda mornas, e sumiram no ar como se nunca tivessem existido.

O véu fechou. Quando abriu de novo, não tinha mais nada. Só a pista vazia e a neblina normal descendo o morro.

O painel acendeu. Dei partida. Pegou.

Desci o resto de segunda, sem parar, sem olhar no retrovisor.

Quando a luz amarela do posto 24 horas apareceu na entrada de Morretes, respirei fundo. O celular vibrou. 23h14. Mensagem da mãe: o pai tinha melhorado de repente. A respiração tinha voltado.

Entrei no banheiro pra esfregar a mão. Água gelada, sabão rosa de posto. Esfreguei. O barro não saiu. Esfreguei de novo, com a unha. O cheiro de raiz ficou.

Levantei a cabeça pro espelho manchado.

Meu reflexo ainda estava lá em cima, na curva.

Ele virou só a cabeça.

— O estalo soou no meu pescoço.

— Não passa.

A água da minha garrafinha ainda escorria entre os meus pés.

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