quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Último Trem para Morretes

O Último Trem para Morretes
Tadeu Everton Zamoiski Morretes

Eu não acredito em assombração. Eu acredito em gente que finge que não viu.

41 anos nessa merda de serra. Maquinista, foguista, manobreiro, o que precisasse. Comecei limpando trilho e terminei com a coluna toda fodida e quase surdo do ouvido esquerdo.

Achei que essa seria só mais uma.

Hoje a Marli nem fez marmita. Largou um pão duro na mesa. A mesma mulher que em 92 me esperava na estação de Alexandra com o nosso guri no colo, hoje só falou: "vê se morre logo nessa última". Eu achei que ela tava falando da viagem.

Eu pedi o extra. Ninguém queria. Uma composição extra, Paranaguá-Morretes, 02:17 da madrugada, fora da grade. Consegui porque sou o único velho idiota que ainda sabe fazer essa curva no escuro. Naquela serra, maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado.

Entrei na serra e a serra me trancou.

Não era neblina. Era úmido. Gelado. Entrou pela fresta da janela e grudou na minha pele. O farol não cortava. O vidro suava por dentro. O rádio chiou e falou com a voz da menina.

... por que você não parou, moço? ...

No painel, o relógio travou. 03:00.

A luz amarela: RIO SAGRADO.

Morta desde 97. Eu vi o mato comer. Mas tava acesa.

A porta lá atrás rangeu. Abriu sozinha.

Dona Cícera entrou. Bala de banana. Atropelada em 78. Eu achei o corpo. No bolso dela tinha três balas. Eu peguei. Ela sentou na primeira poltrona. Me olhando.

O trem andou. Tac-tac.

Dez minutos. A mesma luz amarela na curva. Rio Sagrado de novo. Só que agora o relógio piscava. 03:00.

Meu pai entrou. Uniforme da RFFSA com o rasgo no bolso. Morreu me chamando em 91. Eu tava no bar.

Depois, Alexandra. O relógio já não piscava mais. Estava fixo. Queimado em 03:00.

Jorge entrou. Pingando. Água preta do rio escorrendo do boné, do casaco, formando uma poça no corredor. Cheiro de lodo. Aí ele falou: "vem me buscar". Eu falei "se fode sozinho".

Curva 12.

O relógio apagou. Ficou só o :00 aceso.

Ela entrou. Lúcia. 9 anos. Vestidinho azul.

Eu vi ela na beira do trilho muito antes. Podia ter apitado. Podia ter diminuído. Eu tava atrasado. Com ódio.

Eu não puxei o freio. Essa é a verdade que eu nunca contei.

Eu acelerei pra assustar.

Não assustou.

Parou.

Ela sentou na minha frente. Descalça. Me olhou com a cabeça torta.

"Tio, por que você acelerou?"

O vagão lotou. Ninguém falou mais nada. Todos só ficaram me olhando. Em silêncio.

Não era culpa. Era vergonha de ser visto.

MORRETES - 1KM - FIM DA LINHA.

O trem parou num tranco seco.

A porta da cabine, que só abre por dentro, abriu pra fora.

Ele tava lá na plataforma. Na neblina.

Eu. 22 anos. Boné novo. Lindo. Burro.

Ele me olhou e não me reconheceu. Olhou pra locomotiva, pro meu boné sujo, pro meu rosto. Depois olhou pros meus olhos. Aí reconheceu. Pelo jeito de segurar o manete. Igualzinho.

Ele ficou pálido.

"Seu Alceu?"

He subiu, ainda sem entender, sentou no banco auxiliar. Cheirava a sabonete barato.

Olhou pro vagão lotado em silêncio. Olhou pra Lúcia.

"Agora é a sua vez de descer. Sai da minha cabine."

Olhei pra plataforma de Morretes. Vazia. Molhada.

Era a chegada. Era o descanso.

E eu não soube descer.

Levantei. Não empurrei. Só abri a porta e falei, baixo:

"Você vai ser eu."

Ele entendeu. Começou a chorar como menino. Desceu sozinho. O boné novo caiu no barro e rodou.

Bati a porta. Tranquei.

Acelerei de volta pra serra.

Porque maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado. Eu só não tinha entendido de que lado era.

No espelho, o vagão tava vazio.

No painel, o relógio finalmente andou.

03:01.

Se você subir a serra depois das três e ver um trem velho descendo na contramão, com um velho de boné na cabine te olhando...

Não acena.

Porque ele acelerou uma vez.

E ele gostou.

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