Tadeu Everton Zamoiski Morretes
Eu não acredito em assombração. Eu acredito em gente que finge que não viu.
41 anos nessa merda de serra. Maquinista, foguista, manobreiro, o que precisasse. Comecei limpando trilho e terminei com a coluna toda fodida e quase surdo do ouvido esquerdo.
Achei que essa seria só mais uma.
Hoje a Marli nem fez marmita. Largou um pão duro na mesa. A mesma mulher que em 92 me esperava na estação de Alexandra com o nosso guri no colo, hoje só falou: "vê se morre logo nessa última". Eu achei que ela tava falando da viagem.
Eu pedi o extra. Ninguém queria. Uma composição extra, Paranaguá-Morretes, 02:17 da madrugada, fora da grade. Consegui porque sou o único velho idiota que ainda sabe fazer essa curva no escuro. Naquela serra, maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado.
Entrei na serra e a serra me trancou.
Não era neblina. Era úmido. Gelado. Entrou pela fresta da janela e grudou na minha pele. O farol não cortava. O vidro suava por dentro. O rádio chiou e falou com a voz da menina.
... por que você não parou, moço? ...
No painel, o relógio travou. 03:00.
A luz amarela: RIO SAGRADO.
Morta desde 97. Eu vi o mato comer. Mas tava acesa.
A porta lá atrás rangeu. Abriu sozinha.
Dona Cícera entrou. Bala de banana. Atropelada em 78. Eu achei o corpo. No bolso dela tinha três balas. Eu peguei. Ela sentou na primeira poltrona. Me olhando.
O trem andou. Tac-tac.
Dez minutos. A mesma luz amarela na curva. Rio Sagrado de novo. Só que agora o relógio piscava. 03:00.
Meu pai entrou. Uniforme da RFFSA com o rasgo no bolso. Morreu me chamando em 91. Eu tava no bar.
Depois, Alexandra. O relógio já não piscava mais. Estava fixo. Queimado em 03:00.
Jorge entrou. Pingando. Água preta do rio escorrendo do boné, do casaco, formando uma poça no corredor. Cheiro de lodo. Aí ele falou: "vem me buscar". Eu falei "se fode sozinho".
Curva 12.
O relógio apagou. Ficou só o :00 aceso.
Ela entrou. Lúcia. 9 anos. Vestidinho azul.
Eu vi ela na beira do trilho muito antes. Podia ter apitado. Podia ter diminuído. Eu tava atrasado. Com ódio.
Eu não puxei o freio. Essa é a verdade que eu nunca contei.
Eu acelerei pra assustar.
Não assustou.
Parou.
Ela sentou na minha frente. Descalça. Me olhou com a cabeça torta.
"Tio, por que você acelerou?"
O vagão lotou. Ninguém falou mais nada. Todos só ficaram me olhando. Em silêncio.
Não era culpa. Era vergonha de ser visto.
MORRETES - 1KM - FIM DA LINHA.
O trem parou num tranco seco.
A porta da cabine, que só abre por dentro, abriu pra fora.
Ele tava lá na plataforma. Na neblina.
Eu. 22 anos. Boné novo. Lindo. Burro.
Ele me olhou e não me reconheceu. Olhou pra locomotiva, pro meu boné sujo, pro meu rosto. Depois olhou pros meus olhos. Aí reconheceu. Pelo jeito de segurar o manete. Igualzinho.
Ele ficou pálido.
"Seu Alceu?"
He subiu, ainda sem entender, sentou no banco auxiliar. Cheirava a sabonete barato.
Olhou pro vagão lotado em silêncio. Olhou pra Lúcia.
"Agora é a sua vez de descer. Sai da minha cabine."
Olhei pra plataforma de Morretes. Vazia. Molhada.
Era a chegada. Era o descanso.
E eu não soube descer.
Levantei. Não empurrei. Só abri a porta e falei, baixo:
"Você vai ser eu."
Ele entendeu. Começou a chorar como menino. Desceu sozinho. O boné novo caiu no barro e rodou.
Bati a porta. Tranquei.
Acelerei de volta pra serra.
Porque maquinista velho aprende uma coisa: depois que você entra, sempre tem que chegar do outro lado. Eu só não tinha entendido de que lado era.
No espelho, o vagão tava vazio.
No painel, o relógio finalmente andou.
03:01.
Se você subir a serra depois das três e ver um trem velho descendo na contramão, com um velho de boné na cabine te olhando...
Não acena.
Porque ele acelerou uma vez.
E ele gostou.
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