quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Filho do Verão

O Filho do Verão

Tadeu Everton Zamoiski 

Antes do cheiro, o rangido.

Minha avó dizia que era o espírito da casa reclamando visita. Eu ria. Naquela manhã de julho, com a chave ainda na mão e o pé no batente, não ri.

O cheiro veio depois. Maresia com cera de móvel. Um resto de fritura que nunca sai das paredes. Fechei os olhos ali, parada, sem saber se entrava ou se voltava para o carro. Vim para vender. Vim para encerrar. Mas a casa não sabia disso.

Matinhos em julho é uma cidade que parece ter sido abandonada às pressas. As casas fechadas, os toldos recolhidos, as cadeiras de praia empilhadas atrás dos portões. O calçadão intacto, esperando uma multidão que só chega em december. Caminhei até a praia na primeira manhã. O mar estava cinza. A areia, dura. Nenhuma pegada. Nenhuma criança com balde na mão.

Voltei pela Rua das Acácias, a mesma rua de todos os verões da minha infância. Casa 112, 114, 116. Todas fechadas. Na casa 118 — a dos Ribeiro, portão azul, pé de pitanga no quintal — tinha uma menina sentada na calçada.

Uns sete anos. Cabelo molhado. Pés descalços. Um vestido amarelo.

Ela desenhava no chão com giz branco. Não olhou para mim. Continuei andando, devagar, e quando olhei para trás, não estava mais lá.

Passei o dia na casa. Abri armários, separei coisas para doar, coisas para jogar fora. Encontrei fotos. Muitas. Minha mãe, meu pai, meus tios, todos na praia, todos sorrindo. Em uma delas, eu tinha uns oito anos. Vestido amarelo. Ao meu lado, outra menina. Mesmo vestido. Mesmo cabelo. Eu não lembrava dela. Nunca tinha visto aquela foto.

Liguei para minha mãe.

— Mãe, quem é a menina da foto? A que está do meu lado, na praia, na foto de 1998?

Silêncio.

— Que menina, Helena?

— A de vestido amarelo. Igual ao meu.

— Você estava sozinha nessa foto.

Pesquisei no celular. Crianças desaparecidas Matinhos. Matinhos verão desaparecimento. Nada. Nenhuma notícia, nenhum registro, nenhum boletim de ocorrência. Liguei para o corretor, perguntei se ele conhecia a rua, se sabia de alguma coisa estranha na região. Ele riu.

— Matinhos é tranquilo no inverno, dona Helena. Não tem ninguém. É até bom.

Naquela noite, ouvi vozes.

Finas, agudas, de criança brincando. Vinham de fora. Abri a janela do quarto. A rua, vazia. Mas as vozes continuavam. Vinham da casa 118. Do portão azul trancado, do quintal murado, do escuro.

Fechei a janela. Tranquei. Deitei. Fiquei acordada até o sol nascer.

No dia seguinte, fui ao mercado. Quase vazio. Só uma senhora idosa, escolhendo tomates. Ela me olhou de um jeito estranho.

— Você é filha de quem? — perguntou.

— Sou neta da Dona Cida. Da casa 114.

Ela assentiu devagar. Pegou um tomate, pesou na mão, devolveu.

— A Cida era boa gente. Sentiu muito quando a menina foi embora.

— Que menina?

— A sua mãe. A que tinha uma pinta na perna igual a sua. Quando ela foi embora daqui, a Cida nunca mais foi a mesma.

Minha mãe nasceu em Curitiba. Nunca morou em Matinhos. Nunca teve pinta na perna. Eu tenho. Desde criança. Ninguém além da minha família sabia disso.

Abri a boca para corrigir a senhora. Ela já tinha virado as costas.

Na volta, vi mais crianças. Duas meninas pulando amarelinha na calçada em frente à casa 122. Um menino de bicicleta, dando voltas na esquina. Um grupo pequeno na mureta do calçadão, olhando o mar. Todas com o cabelo pingando. Em julho. Sem um arrepio.

Corri para casa. Tranquei a porta. Sentei no chão da sala, com as costas na parede. As fotos na parede tinham mudado.

Não todas. Algumas. Em uma delas, eu estava na praia, com uns seis anos, segurando um balde. Ao meu lado, a menina de vestido amarelo. Ela sorria. Eu não. Eu olhava para a câmera com uma expressão que não reconhecia.

Fui até o quarto. Abri o armário. Numa sacola plástica, dobrado, o vestido amarelo. O meu. Guardado há vinte anos. Peguei na mão. O tecido estava frio. Mas não frio de armário fechado. Frio de mar.

Desci ao porão com a lanterna do celular. Encontrei o baú. Madeira, ferrugem nas dobradiças. Abri.

Dentro, um caderno. Capa preta, páginas amareladas. Letra miúda. Comecei a ler. Nomes. Só nomes. "Maria." "João." "Ana." "Pedro." "Luísa." Sem idade, sem data. Só nomes, uns embaixo dos outros, em letras diferentes. Algumas páginas rasgadas. Outras com contas de barracas de milho, anotações de compras, um desenho de sol. No meio, uma lista de compras: "arroz, feijão, açúcar, giz."

Virei a página. No alto, uma data: 15 de janeiro de 1952. Embaixo, um nome. Maria. Virei. 15 de janeiro de 1953. João. Virei. 15 de janeiro de 1954. Ana. Sempre 15 de janeiro. Sempre uma criança. Sempre em Matinhos.

As últimas páginas estavam em branco. Ao lado do caderno, uma caneta esferográfica azul, dessas baratas. Peguei na mão. Estava quente.

Fechei o baú. Subi as escadas. Sentei na cama. Olhei para a caneta. Pensei em fechar o baú, pegar as chaves e ir embora.

Mas as vozes voltaram. Desta vez, vinham de dentro de casa. Do corredor. Do quarto da minha avó. Do espelho.

Olhei para o espelho.

Ela estava atrás de mim.

Cabelo molhado. Pés descalços. E, no rosto, a mesma expressão da foto. A que eu não reconhecia.

Não vim para vender a casa. Vim para preencher a última página.

Não sei explicar como sabia. Mas sabia. Como se a informação sempre tivesse estado ali, guardada em algum lugar dentro de mim. Eu era uma daquelas crianças. Uma das que não voltaram. Uma das que ficaram.

Lembrei. Não de tudo. Mas de pedaços. Do cheiro de bronzeador Cenoura & Bronze. Do gosto de sacolé de milho. Do som de risada na areia. E da sensação de correr na direção do mar, cada vez mais fundo, cada vez mais longe, enquanto alguém chamava meu nome atrás de mim — e eu não parava.

Não por rebeldia. Por alegria. Porque o verão nunca acaba quando você é criança. Você acredita que vai durar para serpre. Que a praia é sua. Que o mar é seu. Que aquele momento não vai terminar.

E, para mim, não terminou.

Eu fiquei ali. Na beira da água. No som do mar. No calor do sol. Enquanto todos os outros voltavam para casa, para a escola, para a vida. Eu fiquei. E a cidade, sem saber o que fazer com uma criança que não voltou, esqueceu. Apagou meu nome dos registros. Disse que eu tinha ido embora mais cedo. Que não vim naquele ano. Que nunca existi.

Mas eu existi.

Eu existo.

E agora eu sei.

A caneta na minha mão era um convite. Uma permissão. Eu podia escrever meu nome. Podia me contar. Podia voltar a ser lembrada. Podia deixar de ser um vazio entre duas páginas e me tornar uma linha, uma data, uma história.

Olhei pela janela. As crianças estavam todas ali, na rua, paradas, olhando para a minha casa. Dezenas delas. Todas as que ficaram. Todas as que ninguém contou. Esperando.

Esperando que eu fosse a primeira.

Abri o caderno. Peguei a caneta. E escrevi.

"Eu, Helena, 8 anos, no ano em que a casa 114 ficou vazia. Voltei."

Quando terminei, o ar da casa mudou. Ficou mais leve. Mais quente. Cheirava a bronzeador Cenoura & Bronze.

Lá fora, as crianças começaram a sorrir. Uma a uma. E depois, uma a uma, começaram a desaparecer.

Fiquei sozinha. Olhei o caderno. Minha linha estava lá, escrita com a minha letra. E, embaixo dela, outras linhas começaram a aparecer. Nomes. Idades. Datas. Todas as crianças que eu tinha visto. Todas as que não tinha visto. Todas as que ainda esperavam.

O caderno estava se preenchendo sozinho.



Na cidade, ninguém nunca soube explicar por que, a partir daquele ano, o verão em Matinhos começou a durar mais. Não nos calendários. Nos registros. Nas fotografias. Nas memórias. As crianças que voltavam em dezembro e partiam em março começaram a aparecer nas fotos de julho. Nas praias vazias. Nos calçadões desertos. De vestido de verão, cabelo molhado, pés descalços. Ninguém sabia dizer de quem eram. Ninguém sabia dizer seus nomes.

Uns chamam de Filho do Verão. Os antigos chamam de Os Que Ficaram.

Em Matinhos, no dia 15, não se deixa balde na areia. As mães chamam as crianças para dentro às 17h. Ninguém aluga casa na Rua das Acácias.

Até hoje, na casa 118, tem giz branco no chão. Mesmo quando chove.

E, a cada 15 de janeiro, Matinhos tem uma criança a mais.

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