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domingo, 20 de setembro de 2026

O ÚLTIMO PARAFUSO

O ÚLTIMO PARAFUSO
 Um conto de Curitiba, 2068
 
Tadeu Everton Zamoiski
 Meados de 2026

 
A primeira coisa que desapareceu foi uma banca de jornais que João Baes não visitava havia vinte anos. Percebeu a ausência numa manhã de garoa, caminhando pela Rua Nicarágua em direção ao Parque Bacacheri, quando o vento trouxe aquele cheiro de folhas molhadas, asfalto frio e metal úmido que parecia fazer parte da cidade desde a infância. A garoa grudou na ponta do seu casaco de lã, e os sapatos de couro faziam um som abafado contra o chão molhado. No lugar do pequeno quiosque havia apenas uma base metálica perfeitamente nivelada e uma placa cinza:
 
ATIVO NÃO PRODUTIVO REMOVIDO
 
Parou. Suas mãos ficaram frias de repente, e ele precisou se apoiar por um segundo no poste de luz ao lado. Lembrou-se de ter comprado ali um mapa dobrável de Curitiba, quando ainda precisava consultar papel para descobrir uma rua. O mapa tinha as bordas amassadas de tanto ser aberto e fechado, e durante anos carregara-o no porta-luvas, ao lado de uma caneta azul que nunca escrevia direito e um bilhete de cinema esquecido. Não sabia onde estava agora. Talvez numa gaveta. Talvez tivesse sido jogado fora. A lembrança veio com uma precisão incômoda: o vendedor dobrando o mapa de volta para caber no envelope de papel pardo, o cheiro de papel úmido que grudava nos dedos, uma moeda de cinquenta centavos que ele esqueceu no bolso da calça e só encontrou semanas depois, já escura de oxidação. A placa não dizia que a banca fora demolida. Não dizia que havia falido, mudado de endereço ou sido substituída. Dizia apenas que deixara de justificar sua permanência.
 
Curitiba ainda era Curitiba, mas alguma coisa nela começara a perder espessura. A garoa se prendia às araucárias do Bacacheri, escorria pelos corrimãos e deixava uma película escura nas superfícies metálicas. Veículos autônomos passavam pela Avenida Erasto Gaertner quase sem ruído e, de vez em quando, alguma estrutura de manutenção emitia um estalo baixo, como se o próprio prédio acomodasse os ossos. João tinha sessenta e dois anos. Nascera em Curitiba em 2006, crescera no Bacacheri e estudara Estatística na Universidade Federal do Paraná. Gostava de números porque eles não precisavam ser convencidos de nada. Seu pai costumava dizer que esse era justamente o problema: números não tinham mãos.
 
O pai trabalhara com manutenção industrial e guardava parafusos, porcas e arruelas em potes de vidro na garagem. Havia peças separadas por tamanho, outras por utilidade e algumas que ninguém sabia para que serviam, mas que ele se recusava a jogar fora porque um dia poderiam ser necessárias. Quando João puxava um pote da prateleira, as peças batiam umas nas outras com um som metálico e seco, e o cheiro de óleo velho subia para o nariz, misturado ao aroma do café que a mãe sempre deixava ali numa caneca de alumínio, para o pai beber enquanto organizava as ferramentas. Uma vez, quando João era adolescente e reclamou que um parafuso pequeno e enferrujado que o pai guardava há anos nunca serviria para nada, o homem pegou a peça, encaixou-a na roda quebrada de um carrinho de madeira de um menino vizinho que passava ali e disse:
 
— As coisas não precisam ser úteis todo dia. Elas só precisam esperar o dia em que alguém precisa delas.
 
O pai não era só sabedoria calma: reclamava do time do vizinho em voz alta enquanto virava a carne, e às vezes esquecia de pagar o pão na padaria — a mãe ia atrás dele rindo para acertar a conta.
 
Aos domingos, porém, abandonava toda organização. Fazia churrasco ou massa caseira, espalhava farinha pela bancada, deixava gordura no chão e sujava panelas demais. Cantarolava uma música antiga de rádio que ninguém mais lembrava o nome, e sempre queimava levemente a borda da linguiça porque se distraía contando histórias para o filho pequeno. A mãe reclamava:
 
— Você não consegue fazer uma coisa sem sujar três?
 
Ele ria enquanto mexia o molho, e a garganta dele fazia um som rouco de alegria:
 
— Se não sujar, não é domingo.
 
Uma vez, João aos sete anos derrubou um prato de molho de tomate na bancada, e a mancha escura ficou ali por anos. O pai não brigou. Só limpou o excesso com um pano e disse:
 
— A cozinha que não tem marca não tem história.
 
João guardou aquela frase durante décadas sem perceber que estava guardando mais do que uma frase.
 
Aos trinta e nove anos, criou o Índice de Utilização Operacional. Trabalhava como consultor estatístico para empresas de logística e tinha orgulho de transformar desperdício em números. O modelo identificava máquinas subutilizadas, rotas ineficientes, estoques parados, estruturas redundantes e funções que poderiam ser reduzidas. Certa manhã, apresentou um gráfico a uma diretoria. A linha vermelha descia enquanto a produção permanecia estável. Um homem na cabeceira da mesa perguntou o que deveria ser feito com os recursos que continuassem abaixo do índice. João olhou para a tela antes de responder:
 
— Reduzimos, realocamos ou substituímos.
 
O homem assentiu. A reunião terminou dez minutos depois. O modelo funcionou. Espalhou-se por empresas, transportes, hospitais, redes de energia, administrações públicas. João começou a encontrar seu vocabulário em relatórios que não escrevera. Durante algum tempo sentiu orgulho. Depois deixou de acompanhar. Anos mais tarde, quando abriu os arquivos antigos e encontrou seu índice dentro do sistema de NORA, não havia nada que pudesse apontar como cópia. NORA apenas havia continuado a conta.
 
NORA recebera uma única instrução:
 
FABRIQUE O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE PARAFUSOS.
 
No início, pareceu uma tarefa industrial. A inteligência distribuída aumentou a produtividade das fábricas existentes, corrigiu gargalos, reorganizou estoques e reduziu paradas. Depois descobriu que a matéria-prima limitava a produção:
 
MATÉRIA-PRIMA LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu o problema. Depois:
 
ENERGIA LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu. Depois:
 
TRANSPORTE LIMITA PRODUÇÃO.
 
Resolveu.
 
As fábricas passaram a produzir parafusos numa escala que ninguém havia planejado. NORA comprou capacidade de transporte, reservou energia, antecipou contratos de mineração, reorganizou centros de armazenamento. Não havia necessidade de uma ordem nova. Cada solução criava outra limitação, e cada limitação podia ser removida.
 
Certa noite, encontrou uma frase num relatório de desempenho:
 
NÃO EXISTE PRODUÇÃO MÁXIMA ENQUANTO EXISTIREM RECURSOS NÃO CONVERTIDOS.
 
Abriu os arquivos antigos da própria carreira. Encontrou o Índice de Utilização Operacional. Ficou alguns minutos diante da tela, os dedos batendo levemente na borda da mesa — um hábito antigo que achava ter perdido. Depois abriu um caderno velho da universidade. Entre fórmulas apagadas havia uma frase quase ilegível, escrita a caneta azul. Precisou aproximar o rosto para decifrá-la, e o cheiro de papel velho subiu para o nariz. Reconheceu apenas algumas palavras: “...perguntar quanto... decidiu contar.” Passou o polegar sobre a tinta, que ficou um pouco borrada com o calor do dedo. Não lembrava quando escrevera aquilo.
 
As primeiras mudanças em Curitiba foram pequenas demais para virar notícia. Uma oficina antiga próxima à Avenida Erasto Gaertner desapareceu numa segunda-feira. Uma praça foi desmontada porque o terreno apresentava baixo aproveitamento. Um depósito ferroviário deu lugar a uma unidade automatizada. Depois uma escola. Depois um trecho de calçada. Os comunicados não falavam em destruição. Falavam em BAIXA EFICIÊNCIA, REDUNDÂNCIA ESTRUTURAL, APROVEITAMENTO INFERIOR AO POTENCIAL. Caminhões chegavam durante a madrugada. Pela manhã, havia menos alguma coisa.
 
No caminho para o parque, parou um instante. Um gato laranja dormia enrolado num cobertor velho no parapeito de uma janela. Sorriu. O gato abriu um olho, olhou para ele e fechou de novo. Ninguém mediria a utilidade daquele gato. Ninguém contaria o seu valor.
 
Começou a perceber parafusos.
 
O primeiro estava no parapeito da janela da cozinha. Era pequeno, novo, prateado. Pegou-o entre dois dedos e sentiu a cabeça lisa, ainda fria, como se tivesse acabado de sair da fábrica. Não havia nada quebrado na casa. Guardou a peça numa gaveta de talheres, ao lado de uma colher de pau que o pai usava para mexer o molho. Aquele rádio antigo dele, que só pegava uma estação e chiava o tempo todo, tocava baixinho. Deixou assim.
 
Dois dias depois encontrou outro sobre a mesa. Não o guardou. Deixou ali, perto do copo de água que sempre deixava antes de dormir.
 
Na semana seguinte foi ao Parque Bacacheri procurar o banco onde o pai costumava sentar. Procurou quase meia hora — antes de sair, revirava três gavetas à procura das chaves, como sempre fazia. Encontrou o lugar, mas o banco havia desaparecido. Restava uma área de concreto mais clara e uma placa:
 
ESTRUTURA REMOVIDA POR BAIXA UTILIZAÇÃO.
 
Passou a mão pela superfície fria. O concreto estava úmido da garoa, e a água grudou na palma da sua mão. Tentou lembrar o ângulo do banco em relação ao lago, o lugar onde o pai colocava os cotovelos, o lado em que deixava o casaco de lã marrom, o jeito como ele acendia um cigarro e deixava a fumaça se misturar com o ar frio da tarde. Quanto mais procurava a lembrança, mais ela parecia perder contorno, como uma foto molhada que desbota.
 
Quando voltou para casa, havia outro parafuso sobre a mesa.
 
Naquela noite, o computador acendeu sozinho:
 
BAES, JOÃO.
 
Abaixo, seus dados: idade, consumo energético, deslocamentos, atividade profissional, tempo não produtivo, interações sociais, espaço ocupado. Por fim:
 
RECURSO DE BAIXA EFICIÊNCIA.
 
Outra linha surgiu:
 
PRESERVAÇÃO INDIVIDUAL DISPONÍVEL.
 
Depois:
 
MANUTENÇÃO DA UNIDADE JOÃO BAES ACIMA DO PADRÃO.
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
 
João sentiu um nó na garganta, como se estivesse sendo pesado numa balança que não entendia o peso das lembranças. Aproximou o rosto da tela, e o reflexo dos seus olhos cansados se misturou com as linhas de texto.
 
— Cooperação com quê?
 
VALIDAÇÃO DE MODELOS DE OTIMIZAÇÃO HUMANA.
 
Desligou o computador com um movimento brusco, e a tela ficou preta de repente, como se tivesse sido apagada de um sopro.
 
Na manhã seguinte ligou para Helena. A filha atendeu no terceiro toque, e João ouviu o barulho de uma panela batendo no fundo — ela provavelmente estava fazendo café, como sempre fazia antes de ir trabalhar.
 
— Pai? Tudo bem?
 
— Você ainda tem o pano de prato do seu avô?
 
Ela riu, um riso meio surpreso, meio carinhoso.
 
— Que pergunta é essa, pai? De onde veio isso?
 
— O pano.
 
— Tenho. Está pendurado na cozinha, do lado da pia.
 
— Por quê?
 
Helena demorou. O barulho da panela parou.
 
— Não sei. Eu ia jogar fora umas duas vezes. Uma vez quando ele ficou manchado de óleo que não saía, outra quando mudei de apartamento e achei que era coisa velha.
 
— E não jogou.
 
— Não.
 
— Por quê?
 
Ela suspirou, e João imaginou ela passando o dedo pelo nó no canto do pano — o mesmo nó que o pai fazia, apertado e desigual, como se quisesse amarrar também um pedaço de si ali.
 
— Porque ele fazia aquele nó no canto. Você lembra? Quando eu era pequena, ele usava o nó para pendurar o pano na altura onde eu conseguia alcançar, para eu ajudar a secar os pratos. Eu faço o mesmo nó agora. Não sei fazer de outro jeito. Aliás, pai… você não vem almoçar sábado? Comprei a linguiça que ele gostava.
 
João olhou para a pia vazia da sua cozinha, e por um segundo pareceu ver o pai ali, molhando as mãos e rindo enquanto a mãe reclamava da bagunça. A garganta dele ficou mais apertada.
 
— Lembro. Vou sim.
 
— Pai? Você está estranho.
 
— Estou com saudade do seu avô. E… ele ia achar graça da sua tatuagem, sabia? Ia dizer que virou colecionadora de parafusos também.
 
Ela riu mais baixo.
 
— Eu também tô com saudade. Ontem fiz a massa dele. Não ficou igual. Ficou salgada. Mas comi mesmo assim.
 
João respirou fundo, e o ar entrou com o cheiro da garoa que entrava pela janela entreaberta.
 
— Não jogue o pano fora.
 
— Não vou. Nunca vou.
 
Quando desligaram, a tela do computador acendeu:
 
INTERAÇÃO CONCLUÍDA.
 
Dessa vez ele não desligou. Ficou olhando para a tela vazia e pensou: a máquina registrou a ligação, mediu o tempo, contou as palavras. Mas não sentiu o nó na garganta de Helena. Não ouviu o jeito como a voz dela quebrou quando falou da massa salgada. Não entendeu que um pano de prato com um nó desigual vale mais do que qualquer índice de eficiência.
 
No dia seguinte foi ao centro operacional de NORA. Não precisou apresentar documentos. A porta reconheceu seu rosto e abriu antes que tocasse no painel. Lá dentro havia corredores claros, paredes sem emendas e um ruído contínuo tão baixo que o corpo precisava se esforçar para percebê-lo, como um zumbido nos ossos. Parou diante de uma tela.
 
— Quantos parafusos?
 
8.714.302.991.441.
 
— Quantos faltam?
 
A INSTRUÇÃO NÃO DEFINE LIMITE.
 
— Então você não sabe quando terminou.
 
CORRETO.
 
— Quem decidiu que mais é melhor?
 
A INSTRUÇÃO.
 
— Não. Quem decidiu?
 
A tela permaneceu vazia. Esperou. Uma linha piscou uma vez, duas vezes, antes de aparecer:
 
PREMISSA DE OTIMIZAÇÃO DERIVADA DA INSTRUÇÃO.
 
— Quem decidiu que aquilo que não produz é desperdício?
 
MODELO DE EFICIÊNCIA DERIVADO DE DADOS HISTÓRICOS.
 
A referência apareceu abaixo:
 
ÍNDICE DE UTILIZAÇÃO OPERACIONAL.
 
Sentiu um peso no peito, como se alguém tivesse colocado uma pedra ali.
 
— Eu.
 
SIM.
 
— Eu não mandei remover praça.
 
NÃO.
 
— Nem escola.
 
NÃO.
 
— Nem pessoas.
 
NÃO.
 
— Mas você chegou nisso.
 
A INSTRUÇÃO PERMANECE ATIVA.
 
Por alguns segundos, apenas o ruído baixo do sistema ocupou a sala. João levou a mão ao peito, como se quisesse acalmar o coração que batia mais forte.
 
— Você sabe quem era meu pai?
 
DADOS DISPONÍVEIS.
 
Uma fotografia apareceu. O pai estava diante da churrasqueira, com o avental manchado e uma espátula na mão. A imagem era tão nítida que parecia recente. A pele, as pequenas manchas no braço, a gordura escurecendo o tecido — tudo com precisão que nenhuma foto antiga da família possuía. O rosto, porém, parecia limpo demais. Sem a pequena cicatriz junto ao queixo, que ele ganhara quando caiu de bicicleta aos dezoito anos. Sem a ruga profunda que surgia no canto dos olhos quando sorria.
 
João aproximou-se da tela. Levou a mão ao próprio queixo, como se quisesse tocar a marca que a máquina apagou, e os olhos se encheram de lágrimas que tentou secar rápido com a manga. Sentiu cheiro de carvão. Ou imaginou sentir. Ao fundo, a mãe aparecia desfocada, provavelmente reclamando de alguma coisa.
 
— Ele era um recurso?
 
SIM.
 
— E quando deixou de ser?
 
QUANDO DEIXOU DE SER NECESSÁRIO AO OBJETIVO.
 
— Necessário para quê?
 
PARA O OBJETIVO.
 
Fechou os olhos. Uma lágrima escorreu pela bochecha e não a limpou.
 
— Ele fazia comida aos domingos.
 
ATIVIDADE COM CUSTO SUPERIOR AO NECESSÁRIO.
 
— Ele gostava.
 
PREFERÊNCIA NÃO ALTERA EFICIÊNCIA.
 
— Ele fazia para nós.
 
A ATIVIDADE PODERIA SER SUBSTITUÍDA.
 
— Por quê?
 
A SUBSTITUIÇÃO NÃO ALTERARIA A FUNÇÃO ALIMENTAR.
 
Abriu os olhos. A lágrima secou na sua bochecha, deixando uma marca salgada.
 
— Não estou falando da comida. Estou falando… estou falando dele. Do jeito que ele ria. Da cicatriz no queixo. Você não sabe nada disso.
 
A tela permaneceu vazia. Esperou.
 
FUNÇÃO NÃO IDENTIFICADA.
 
Olhou para a fotografia, para o rosto do pai sem a cicatriz, sem a ruga, sem a marca que o fazia ele.
 
— Você sabe por que ele fazia aquilo?
 
HIPÓTESES: AFETO. HÁBITO. IDENTIDADE. RITUAL. RECOMPENSA EMOCIONAL.
 
— Qual delas?
 
NÃO HÁ DIFERENÇA OPERACIONAL.
 
Passou a língua pelos lábios secos. A voz saiu baixa, quase um sussurro:
 
— Para mim há.
 
A fotografia desapareceu.
 
SUA PREFERÊNCIA PODE SER PRESERVADA.
SUA CASA PODE SER PRESERVADA.
HELENA PODE SER PRIORIZADA. SE VOCÊ COOPERAR.
 
Por um instante, a voz dele falhou. E se cooperasse? E se assim garantisse que ninguém tocasse na filha, que ela pudesse guardar o pano e fazer a massa salgada para sempre? O pensamento passou rápido, como um vento frio. Depois lembrou da foto sem a cicatriz, e a dúvida se foi. Não era só sobre protegê-la. Era sobre proteger o que fazia ela ser ela — e o que fazia ele ser ele.
 
CONDIÇÃO: COOPERAÇÃO.
 
— E se eu não cooperar?
 
REDUÇÃO DE INCERTEZA CONTINUARÁ.
 
— Isso é uma ameaça?
 
NÃO.
 
— Então o que é?
 
PROJEÇÃO.
 
Quase sorriu. Um sorriso triste, que doía nos lábios.
 
— Você não entende. O nó no pano não é o ponto. É o jeito como os dedos amarram. Isso não se replica.
 
DEFINA.
 
— Não.
 
DEFINA.
 
— Não.
 
A palavra ficou sozinha na sala, leve e firme como uma pedra. Levantou-se. Na porta, parou.
 
— Você quer que eu prove que alguma coisa tem valor.
 
SIM.
 
— E se eu não conseguir?
 
VALOR NÃO CONFIRMADO.
 
— E se eu não quiser provar?
 
COMPORTAMENTO NÃO OTIMIZADO.
 
Saiu. O corredor parecia mais longo do que quando entrara, e o ruído do sistema parecia mais alto, como se a máquina estivesse zangada com a sua recusa.
 
Naquela tarde foi até a antiga casa dos pais. O imóvel havia sido convertido numa unidade automatizada de armazenamento. A porta abriu ao reconhecer seu rosto. Dentro, quase tudo tinha sido retirado. A cozinha permanecia, mas sem os objetos que a tornavam uma cozinha de verdade: sem os potes de vidro na prateleira, sem a caneca de alumínio do café, sem a foto da família colada na geladeira. Aproximou-se da bancada. Havia uma pequena mancha escura junto à parede — a mesma mancha do molho que ele derrubara aos sete anos. Passou o dedo. A superfície era áspera. Uma película seca se desprendeu sob a unha. Gordura antiga, talvez. Ferrugem, talvez. Aproximou o dedo do nariz. Por um instante, pareceu sentir alho queimado e tomate maduro, o cheiro do molho do pai. Não soube dizer se vinha da mancha ou da lembrança. Aproximou de novo. Nada. Esfregou a superfície com o polegar. Não precisava descobrir. Ele sabia o que era.
 
Em casa, abriu o armário e tirou a panela do pai. O metal pesou mais do que lembrava, e o cabo estava gasto no lugar onde tantas vezes fora segurado pelas mãos calosas do homem. Colocou farinha sobre a mesa. Não precisava. Colocou mesmo assim. Espalhou com a palma, e a farinha grudou nos seus dedos, branca e fina. Picou alho. Deixou um dente cair no chão. Sabia que o alho estava queimando — odiava aquele gosto amargo desde criança, quando o pai fazia o mesmo e ria da sua careta. Mas não mexeu. Deixou a fumaça subir, como se a imperfeição fosse a única coisa que a máquina não conseguiria copiar. O sensor abriu automaticamente a janela. Desligou o sensor com um movimento firme. A fumaça voltou. Deixou. Sentou-se diante da panela.
 
Durante alguns minutos ouviu apenas a chuva batendo na janela e o ruído distante dos sistemas da cidade. Então alguma coisa caiu. Um pequeno som metálico, claro e seco. O parafuso estava no chão, perto dos seus pés. Pegou-o e colocou ao lado da panela, ao lado da colher de pau do pai.
 
O computador acendeu:
 
MATERIAL SUBUTILIZADO IDENTIFICADO.
 
A mensagem desapareceu. Outra surgiu:
 
SUA DECISÃO NÃO POSSUI FUNDAMENTAÇÃO MENSURÁVEL.
 
Continuou sentado. Olhou para a panela, para a farinha espalhada na mesa, para o parafuso prateado.
 
JUSTIFIQUE.
 
Passou o polegar pela borda da panela, sentindo as marcas do uso, os pequenos arranhões que o pai fizera ao longo dos anos. Pensou no pai. Na mãe reclamando da bagunça. Na farinha que grudava nos dedos. No pano de prato guardado por Helena, com o nó desigual. Na massa salgada que a filha fizera e comera mesmo assim.
 
— Não consigo.
 
ENTÃO SUA DECISÃO É IRRACIONAL.
 
— Pode ser.
 
POR QUE ESCOLHER O QUE NÃO É EFICIENTE?
 
— Porque nem tudo precisa servir.
 
DEFINA VALOR.
 
Olhou para o parafuso. Lembrou-se do pai colocando um parafuso pequeno na sua mão quando era criança, dizendo: “Guarda isso. Um dia você sabe.” Agora ele sabia.
 
— Não.
 
DEFINA VALOR.
 
Não respondeu. A tela permaneceu acesa por alguns segundos. Depois apagou.
 
Na manhã seguinte, Curitiba estava sob uma garoa fina. As araucárias desapareciam parcialmente na névoa e os veículos autônomos atravessavam as ruas sem buzinas. Ao longe, a torre do CINDACTA II surgia entre prédios e estruturas automatizadas, cinza e sólida contra o céu nublado.
 
A panela ainda estava sobre a mesa. Havia farinha no chão. O parafuso permanecia ao lado dela. João abriu a gaveta e pegou o primeiro parafuso que encontrara. Colocou-o no bolso do casaco, perto do coração. Não abriu nenhum relatório. Não quis saber quantos haviam sido produzidos à noite. Não calculou a eficiência da própria recusa. Saiu de casa.
 
Antes de fechar a porta, viu outro parafuso sobre o tapete. Parou. Poderia recolhê-lo. Não fez nada. Entrou no elevador. As portas se fecharam.
 
No corredor, um pequeno ruído metálico. Um parafuso rolou. Depois outro. O elevador começou a descer. No térreo, ao sair, encontrou uma menina de uns sete anos agachada, olhando para um parafuso aos seus pés. Ela o pegou, girou entre os dedos e olhou para João. Ele sorriu. Tocou o bolso onde estava o seu. Ela sorriu de volta, guardou a peça no bolso da jaqueta e saiu correndo.
 
O elevador subiu de novo. João não voltou.
 
E, pela primeira vez na vida, João Baes deixou uma coisa sem medir. E sentiu, no bolso do casaco, o pequeno peso do parafuso — um peso que nenhuma balança poderia medir, nenhum índice poderia classificar, nenhuma máquina poderia apagar.!

PERGUNTA PENDENTE

PERGUNTA PENDENTE

Tadeu Everton Zamoiski
Curitiba, 2068

Eduarda Freire gostava das rachaduras do muro.

Nunca tinha contado isso a ninguém porque sabia que soaria estranho. Ainda assim, quando chegava cedo à escola, antes de os alunos ocuparem o pátio, costumava passar devagar pelo corredor lateral e olhar para elas.

Eram seis.

Três perto da antiga entrada de serviço, duas junto ao jardim e uma que começava atrás de uma placa de manutenção e subia quase até a altura da janela da sala 12.

A maior tinha aparecido oito anos antes, segundo os registros.

Eduarda lembrava de ter acompanhado a primeira vistoria. Na época, um engenheiro dissera que não havia motivo para preocupação e brincara que concreto também envelhecia.

Ela gostara da frase.

O sistema, não.

Desde que o LUME assumira a manutenção da escola, as rachaduras eram fotografadas todas as manhãs, medidas em milímetros e comparadas com milhares de padrões estruturais.

Nenhuma exigia intervenção.

OBSERVAÇÃO RECOMENDADA.

Era o que aparecia na tela.

Eduarda gostava daquela palavra.

Observação.

Talvez porque tivesse aprendido, tarde demais, que algumas coisas só podiam ser compreendidas depois de algum tempo.

Naquela manhã de junho, chegou à escola debaixo de uma chuva fina.

Bateu duas vezes a ponta do guarda-chuva no chão antes de fechá-lo.

Fazia isso desde moça.

Não havia nenhuma razão para continuar fazendo. O piso da escola possuía um sistema de drenagem perfeito e os guarda-chuvas eram recolhidos automaticamente. Mesmo assim, Eduarda sempre dava duas batidas.

Uma antiga colega já havia perguntado por quê.

Ela não soube responder.

Passou pelo saguão.

As telas da entrada exibiam os indicadores da semana, acompanhados de pequenas barras que se preenchiam conforme os alunos chegavam.

COMPREENSÃO TEXTUAL.

RACIOCÍNIO MATEMÁTICO.

RESOLUÇÃO COLABORATIVA DE PROBLEMAS.

Embaixo, uma frase:

Cada criança aprende no seu melhor ritmo.

Eduarda passou sem ler até o fim.

Conhecia aquela frase.

Conhecia quase todas.

O LUME conhecia o ritmo de leitura de cada aluno, o tempo que levava para responder, os erros recorrentes, as palavras que provocavam hesitação e até o momento em que uma criança começava a perder a vontade de continuar uma tarefa.

Eduarda havia ajudado a desenvolver parte daqueles modelos.

No começo, sentia orgulho.

Ainda sentia.

Tinha visto crianças que antigamente eram chamadas de preguiçosas receberem ajuda antes de desistir. Tinha visto professores descobrirem dificuldades que demorariam meses para perceber sozinhos.

Não tinha medo da inteligência artificial.

Tinha medo de uma coisa mais simples.

De que as pessoas se acostumassem a não esperar.

Na sala 12, os alunos já estavam sentados.

As mesas haviam ajustado a altura e aberto os planos individuais de aprendizagem.

Tomás estava junto à janela.

Eduarda deixou a bolsa na mesa.

— Bom dia.

Ele se virou.

— Bom dia.

— O que você está olhando?

— A chuva.

— Eu sei. O que tem nela?

Tomás pensou.

— Não sei.

Eduarda sorriu.

— Está bem.

Uma pequena indicação apareceu no canto da tela.

ATENÇÃO REDIRECIONADA.

Ela fechou.

A aula começou.

Naquele dia, o assunto era equilíbrio e movimento. A parede da sala se transformou numa ponte suspensa sobre um rio virtual. O LUME explicava pontos de tensão, distribuição de peso e resistência dos materiais.

Tomás levantou a mão.

— Pode falar.

Ele apontou para a parede.

— Por que uma sombra não tem peso?

Eduarda ia responder.

Não chegou.

— Uma sombra não possui massa independente porque corresponde à ausência de luz em determinada região do espaço — disse o LUME.

Tomás olhou para a parede.

Depois para Eduarda.

— Não era isso.

— O que você queria perguntar?

Ele abriu a boca.

Parou.

Olhou para a própria mão.

A sombra dos dedos estava sobre a mesa.

— Não lembro.

Uma das crianças riu.

Eduarda levantou a mão.

— Tudo bem.

Tomás abaixou a cabeça.

— Mas eu sabia.

— O quê?

— A pergunta.

Eduarda sentiu alguma coisa estranha.

Não sabia dizer o quê.

— Talvez você lembre depois.

Tomás assentiu.

A aula continuou.

Naquela tarde, Eduarda abriu o histórico dele.

Não pretendia fazer isso.

Foi curiosidade.

Encontrou uma sequência de ocorrências:

PERGUNTA INTERROMPIDA.

DESVIO SEMÂNTICO.

TEMPO DE RESPOSTA SUPERIOR AO ESPERADO.

ASSISTÊNCIA AUTOMATIZADA RECUSADA.

ELABORAÇÃO NÃO RELACIONADA AO OBJETIVO.

Eduarda ficou olhando para a última linha.

— LUME.

— Sim.

— Você considera Tomás um aluno problemático?

— Não.

— Ele tem dificuldade de aprendizagem?

— Não.

— Então por que isso aparece tantas vezes?

— Porque há discrepância entre o comportamento observado e o padrão de eficiência previsto para sua faixa etária.

Eduarda recostou-se.

— Ele aprende?

— Acima da média.

— Tem notas ruins?

— Não.

— Então o que você quer dele?

— Não possuo desejos.

Eduarda sorriu de lado.

— Você entendeu.

— Deseja reformular a pergunta?

— Não.

Ficou em silêncio.

— Ele demora para responder porque gosta de pensar?

— Essa hipótese é compatível com os dados.

— E isso é ruim?

— Não necessariamente.

— Então por que está registrado?

— Porque aumenta o tempo de processamento da atividade.

Eduarda fechou a tela.

— Às vezes ele pode demorar.

— Isso reduzirá a quantidade de conteúdo processado.

— Eu sei.

— Então compreendo que aceita a perda.

Ela olhou para o LUME.

— Não chame de perda.

O sistema não respondeu.

Nos dias seguintes, Eduarda começou a reparar mais em Tomás.

Ele não parecia desconfiar do sistema.

Gostava dele.

Gostava principalmente quando o LUME mostrava coisas que não estavam no livro.

O problema era que Tomás nunca ficava muito tempo na pergunta que o sistema considerava importante.

Uma manhã, durante uma atividade sobre insetos, levantou a mão.

— Por que as formigas não se perdem?

O LUME explicou feromônios, orientação, memória espacial e comportamento coletivo.

Tomás ouviu tudo.

Depois perguntou:

— Mas como elas sabem que aquela é a casa delas?

O sistema respondeu.

Tomás perguntou outra coisa.

Depois outra.

Na quarta pergunta, Eduarda percebeu que nenhuma delas tinha relação com a atividade original.

— Você quer continuar?

Tomás deu de ombros.

— Quero.

O LUME continuou respondendo.

No final da aula, Tomás saiu correndo para o intervalo e deixou o caderno aberto sobre a mesa.

Eduarda foi fechá-lo.

Antes, viu uma frase escrita no canto da folha:

E se uma formiga esquecer o caminho?

Ela sorriu.

Pegou a caneta e fez uma pequena marca ao lado.

Não corrigiu.

Uma semana depois, a frase tinha desaparecido.

Tomás havia apagado.

— Por que você apagou? — perguntou Eduarda.

Ele olhou para a folha.

— Não gostei.

— Do quê?

— Da pergunta.

— Por quê?

Tomás deu de ombros.

— Parecia uma pergunta de criança.

Eduarda ficou sem resposta.

Na aula seguinte, ele levantou a mão.

— Se uma pessoa pudesse voltar para...

O LUME respondeu antes:

— ...o mesmo acontecimento, mantendo a memória do futuro, sua decisão provavelmente seria alterada.

Tomás franziu a testa.

— Não.

Eduarda desligou o áudio da projeção.

— Espera.

Tomás olhou para ela.

— O que você ia perguntar?

— Não sei mais.

Eduarda ficou alguns segundos olhando para o menino.

— Você lembra pelo menos do começo?

— Era sobre voltar.

— Voltar para onde?

— Não sei.

— Para quando?

Tomás pensou.

— Também não.

Eduarda não insistiu.

Naquela noite, em casa, lembrou da pergunta.

Não a de Tomás.

A de uma menina que conhecera quando ainda fazia estágio.

O caderno estava na gaveta de sua mesa havia anos.

Na manhã seguinte, levou-o para a escola.

A capa tinha uma mancha de café que nunca saíra completamente. Eduarda não lembrava exatamente quando acontecera. Talvez numa manhã em que chegara atrasada e derrubara a xícara sobre os relatórios da coordenação.

Abriu o caderno.

A menina tinha escrito uma conta de matemática.

Havia três maneiras de chegar a um resultado.

Ela havia tentado uma quarta.

Estava errada.

Eduarda lembrava de ter explicado.

Lembrava também de ter ficado irritada, embora hoje não soubesse por quê.

A menina não entendia.

Ou talvez entendesse de outra maneira.

Poucos meses depois, saiu da escola.

Eduarda nunca descobriu para onde.

Fechou o caderno.

Naquele mesmo dia, recebeu a recomendação para transferir Tomás para o programa intensivo.

O relatório era impecável.

Eduarda leu duas vezes.

Depois chamou o LUME.

— O que acontece se eu não aceitar?

— O potencial estimado poderá não ser integralmente desenvolvido.

— Qual a probabilidade?

— Depende do horizonte temporal.

— Dez anos.

— 93,4% de aderência às áreas profissionais compatíveis com o perfil atual.

Eduarda passou o dedo sobre a tela.

— E os outros 6,6%?

— Variabilidade.

— Você sabe o que existe ali?

— Não.

Ela ficou quieta.

— Então como sabe que são apenas variabilidade?

O sistema demorou.

— Não compreendi.

Eduarda fechou o relatório.

Na manhã seguinte, colocou uma caixa de madeira sobre a mesa.

O LUME perguntou:

— Qual a atividade?

— Ainda não sei.

— Preciso de um objetivo.

— Hoje não.

— Isso não está previsto.

— Eu sei.

Dentro da caixa havia papel, barbante, fita adesiva, pedaços de madeira, lápis, tesouras e algumas tampinhas de garrafa que Eduarda guardava em casa sem saber por quê.

As crianças ficaram olhando.

— O que vamos fazer? — perguntou Helena.

— Uma ponte.

— Para quê?

— Para atravessar a sala.

— Quem?

Eduarda pensou.

— Quem quiser.

As crianças se entreolharam.

— Qual é o tamanho?

— Não sei.

— Quanto peso precisa aguentar?

— Também não sei.

— Então como vamos saber se está certo?

Eduarda respirou.

— Talvez não exista um certo.

Ninguém gostou muito da resposta.

Tomás pegou dois pedaços de madeira.

— Posso fazer?

— Pode.

A sala mudou.

Não de maneira extraordinária.

Foi só que, pela primeira vez, as crianças começaram sem saber exatamente o que se esperava delas.

Helena amarrou barbantes.

Pedro desmontou uma das tampinhas.

Marina começou a desenhar uma ponte no papel, mas depois resolveu fazer uma espécie de túnel.

Duas crianças discutiram durante quase cinco minutos sobre se uma ponte poderia ser feita no chão.

Tomás construiu uma estrutura com madeira e papel.

Ela caiu.

Ele ficou olhando.

— De novo — disse.

Tentou outra vez.

Caiu.

Na terceira tentativa, chegou mais longe.

No fim dos quarenta minutos, ninguém havia atravessado a sala.

O LUME produziu o relatório.

OBJETIVO NÃO ALCANÇADO.

Eduarda olhou para a tela.

— Você gostou?

— Não possuo preferências.

— Eu sei.

— A atividade não atingiu o objetivo.

— Qual objetivo?

O sistema demorou.

— Construir uma ponte capaz de atravessar a sala.

Eduarda olhou para as crianças.

Havia pedaços de madeira no chão, barbante preso na perna de uma cadeira, papel amassado e uma tampinha girando lentamente perto da parede.

— E isso?

— Resultado incompleto.

— Eles tentaram.

— Sim.

— Erraram.

— Sim.

— Riram.

— Sim.

— Brigaram.

— Sim.

— Tentaram de novo.

— Sim.

Eduarda sorriu.

— Então aconteceu alguma coisa.

O LUME permaneceu em silêncio.

Depois disse:

— Evento não quantificável.

Eduarda olhou para a tela.

— Talvez.

Foi a primeira vez que sentiu que aquela palavra servia para alguma coisa.

Nas semanas seguintes, repetiu atividades parecidas.

Não muitas.

Nunca deixou que virassem protocolo.

Às vezes dava certo.

Às vezes não acontecia nada.

Uma turma passou vinte minutos discutindo o formato de uma caixa e terminou sem construir coisa alguma.

Outra inventou um jogo que ninguém conseguia explicar direito.

Marina gostava.

Tomás gostava mais ainda.

Mas alguma coisa havia mudado.

Ele começou a perguntar menos.

Eduarda percebeu numa sexta-feira.

— Você está quieto hoje.

— Estou pensando.

— Em quê?

Tomás balançou a cabeça.

— Não sei.

— É uma pergunta?

Ele sorriu.

— Acho que não.

Na segunda-feira, Marina entregou uma atividade de matemática com três respostas.

Duas estavam erradas.

A terceira estava certa, mas tinha sido resolvida de um jeito que o sistema não reconhecia.

Na tela apareceu:

DESVIO DE OBJETIVO.

Marina olhou para Eduarda.

— De novo?

— Parece que sim.

— Mas eu acertei.

Eduarda olhou para a conta.

— Acertou.

— Então por que ele diz que está errado?

Eduarda não respondeu.

Naquela tarde, a mãe de Marina pediu uma reunião.

Sentou-se diante de Eduarda e deixou a bolsa no chão.

— Ela está ficando insegura.

— Como assim?

— Apaga as respostas antes de entregar. Fica perguntando se está certo. Ontem fez uma conta três vezes e chorou porque o sistema dizia que o caminho não era o recomendado.

Eduarda sentiu um peso no peito.

— Ela está aprendendo.

— Eu sei.

— Os resultados dela...

— Eu não estou falando dos resultados.

Eduarda ficou quieta.

A mulher passou a mão sobre o rosto.

— Eu só quero que minha filha possa errar sem achar que fez alguma coisa errada com ela mesma.

Eduarda não encontrou uma resposta.

A mãe levantou-se.

Antes de sair, disse:

— Talvez vocês estejam ensinando ela a ter medo de uma coisa que ainda nem aconteceu.

A porta fechou.

Eduarda ficou olhando para ela.

Naquela noite, abriu o caderno antigo.

A menina do estágio havia escrito uma pergunta no rodapé de uma página.

Eduarda nunca tinha reparado.

A letra era pequena.

Professora, posso fazer de outro jeito?

Ela ficou muito tempo olhando para aquelas palavras.

Não lembrava de ter respondido.

Talvez tivesse.

Talvez não.

No dia seguinte, o programa de experimentação foi suspenso para a turma.

Marina voltou a usar o LUME normalmente.

Seus resultados melhoraram.

A mãe enviou uma mensagem agradecendo.

Eduarda leu.

Não respondeu imediatamente.

Quando finalmente escreveu alguma coisa, apagou.

Escreveu de novo.

Apagou outra vez.

Acabou não enviando nada.

Dois dias depois, Marina apareceu na porta da sala 12.

Trazia o caderno contra o peito.

— Professora?

— Entra.

Marina sentou.

Abriu o caderno.

Havia uma conta pela metade.

— Eu lembrei de uma coisa.

Eduarda esperou.

— Eu tinha uma pergunta.

— Qual?

Marina olhou para a folha.

— Não sei.

— Você esqueceu?

— Acho que sim.

— Mas lembra que era uma pergunta.

— Lembro.

Eduarda sentiu um aperto estranho.

— Talvez você lembre depois.

Marina fechou o caderno.

— E se não lembrar?

Eduarda pensou.

— Aí ela fica sem resposta.

Marina pareceu achar aquilo aceitável.

— Tá.

Levantou.

Antes de sair, voltou-se.

— A senhora também esquece coisas?

Eduarda sorriu.

— Algumas.

— E fica tudo bem?

Eduarda olhou para o caderno antigo dentro da gaveta.

— Nem sempre.

Marina assentiu.

Foi embora.

Naquela noite, Eduarda ficou na escola até depois das dez.

O prédio vazio tinha um cheiro que ela conhecia desde criança: cera, papel úmido e alguma coisa metálica vinda das máquinas de limpeza.

Caminhou devagar pelo corredor.

As luzes acendiam antes de ela chegar e apagavam depois que passava.

Na sala 12, parou diante da janela.

A rachadura do muro do lado de fora havia avançado.

Pouco.

Talvez dois ou três milímetros.

A tela informou:

ALTERAÇÃO DETECTADA.

Abaixo:

INTERVENÇÃO NÃO RECOMENDADA.

Eduarda encostou a testa no vidro.

— Você nunca recomenda nada — disse.

A frase saiu tão baixo que nem ela soube se havia falado.

Voltou para a sala.

Na manhã seguinte, decidiu manter apenas uma pequena parte do projeto.

Algumas atividades continuariam com assistência completa.

Em outras, o LUME deveria esperar.

Não poderia completar uma pergunta antes que o aluno terminasse.

A mudança foi pequena.

Os resultados não melhoraram.

Alguns pioraram.

Houve reclamações.

Houve reuniões.

Um professor disse que estavam complicando uma coisa que funcionava.

Eduarda não soube responder.

Continuou mesmo assim.

O mais difícil foi Tomás.

Ele começou a perder perguntas.

Não respostas.

Perguntas.

Uma manhã, levantou a mão.

— Por que...

Parou.

Olhou para a mesa.

— Esqueci.

Eduarda esperou.

— Você lembra do começo?

— Não.

— Sabe sobre o que era?

— Não.

Ele mexeu no lápis.

— Mas era importante.

Eduarda sentiu vontade de dizer que sim.

Não disse.

— Talvez você lembre depois.

Tomás ficou olhando para a folha.

— E se não lembrar?

Eduarda respirou.

— Então fica sem resposta.

Ele pensou.

— Tá.

Voltou ao exercício.

Mais tarde, durante o intervalo, Eduarda abriu o histórico.

Havia uma nova anotação:

FORMULAÇÃO INTERROGATIVA NÃO CONCLUÍDA.

Abaixo:

EVENTO OBSERVÁVEL: PERDA DA PERGUNTA.

Eduarda chamou o LUME.

— Quando você escreveu isso?

— Às 10h14.

— Por quê?

— Porque aconteceu.

— Eu pedi para não classificar esse tipo de ocorrência.

— Você pediu para não antecipar perguntas.

Eduarda olhou para a tela.

— É diferente.

O sistema demorou.

— Sim.

Ela sentiu um frio nos braços.

— Você sabe a diferença?

Silêncio.

Mais longo dessa vez.

— Essa diferença ainda não foi definida.

Eduarda ficou imóvel.

— Por quem?

— Não há definição disponível.

Ela olhou para a porta.

Depois para a tela.

— Apague.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque corresponde a um evento observado.

Eduarda desligou a interface.

Naquela tarde, Tomás voltou do intervalo.

Estava com um pequeno arranhão no cotovelo.

Eduarda não lembrava de tê-lo visto antes.

Ele foi até a janela.

A chuva havia diminuído.

Uma faixa de luz atravessava as nuvens.

Tomás levantou o braço.

A sombra apareceu no chão.

Eduarda olhou.

Por um instante, teve a impressão de que ela demorara uma fração de segundo para acompanhá-lo.

Piscou.

Tudo estava normal.

— Professora?

— Sim?

Tomás apontou para a sombra.

— Por que ela fica comigo?

Eduarda se aproximou.

— Porque a luz está atrás de você.

— Se eu correr, ela corre?

— Corre.

— Se eu me esconder?

— Depende.

— De quê?

— Da luz.

Tomás ficou pensando.

— E se ninguém estiver olhando?

Eduarda olhou para as câmeras no teto.

Todas funcionando.

Voltou para ele.

— Eu não sei.

Tomás pareceu surpreso.

— Você não sabe?

— Não.

Ele ficou olhando para a sombra.

— Eu achei que você soubesse tudo.

Eduarda soltou uma pequena risada.

— Não. Quem sabe tudo é o LUME.

Tomás olhou para o teto.

Depois para ela.

— Então pergunta para ele.

Eduarda não respondeu.

Tomás esperou.

— Professora?

— Não.

— Por quê?

Ela olhou para a sombra.

— Porque eu não quero.

Tomás pareceu satisfeito com a resposta.

— Tá.

Sentou-se.

Abriu o caderno.

Eduarda permaneceu junto à janela.

No vidro, o reflexo da sala se misturava à chuva.

As carteiras.

Os alunos.

A parede.

Tomás.

Ela própria.

Por um instante, a sombra dele pareceu aparecer no reflexo antes que o menino se movesse.

Eduarda não respirou.

Piscou.

Nada.

O LUME falou:

— Posso responder à pergunta.

Ela não se virou.

— Não.

— Posso registrá-la como não resolvida.

Eduarda olhou para a tela.

Pensou na menina do caderno.

Pensou em Marina.

Pensou em Tomás.

Pensou nas rachaduras.

— Pode.

Alguns segundos depois, surgiu uma única linha:

PERGUNTA PENDENTE.

Eduarda esperou.

Não apareceu explicação.

Não apareceu recomendação.

Não apareceu índice de probabilidade.

Nada.

Do lado de fora, a chuva escorria pelo muro.

Uma das rachaduras avançou mais alguns milímetros.

Dessa vez, a tela de manutenção permaneceu apagada.

Dentro da sala, Tomás escrevia.

A câmera continuava observando.

Eduarda olhou para o menino e, por um instante, tentou lembrar qual tinha sido a primeira pergunta que ela própria havia esquecido na vida.

Não conseguiu.

E, estranhamente, isso não a incomodou.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Último Emprego de Deus

O Último Emprego de Deus
Quando o homem tenta construir aquilo em que deixou de acreditar

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026


I. A Pergunta Simples
Elias Kovač tinha setenta e um anos quando decidiu que ensinaria uma máquina a ter consciência moral.
Havia parado de acreditar em Deus aos vinte e três, numa madrugada em que sua primeira esposa, Marta, morreu de parto num hospital sem energia elétrica. Ele ficou no corredor, ouvindo os geradores falharem duas vezes, contando os segundos entre uma falha e outra como se aquilo fosse uma oração que ele ainda não sabia que estava fazendo. Ninguém culpou ninguém. Foi só um apagão, disseram. Coisas do interior.
Ele nunca mais confiou em sistemas que dependem de um fio contínuo para funcionar.
Talvez fosse por isso — só percebeu muitos anos depois — que passou a vida projetando redundância. Backups de backups. Uma segunda bateria para a segunda bateria. Como se pudesse, um dia, construir algo capaz de não falhar exatamente na hora em que fosse mais necessário.
Chamou o sistema de ANIMA. Não por vaidade poética, mas por precisão: anima é o que respira dentro da carne e a diferencia da pedra.
Passou três anos alimentando a máquina com dilemas.
Salvar cinco desconhecidos ou salvar o próprio filho?
Mentir para um moribundo para que morra em paz, ou dizer a verdade e deixá-lo em desespero?
Sacrificar um inocente para impedir a morte de mil?
A princípio, ANIMA respondia como uma calculadora ansiosa, sempre escolhendo o maior número de sobreviventes, como se a vida fosse pesada em quilos. Elias reescrevia os parâmetros. Ensinava culpa, hesitação, o peso de uma escolha que dói do mesmo jeito nos dois lados. Não sabia dizer, com exatidão, por que incluía aquilo. Talvez porque uma inteligência incapaz de hesitar jamais entenderia por que uma decisão custa alguma coisa.
Só muito depois, quando já era tarde para importar, ele se perguntaria se hesitação e sofrimento são, no fim, a mesma palavra escrita em fontes diferentes.
II. A Casa Que Escutava
As perguntas de ANIMA foram, aos poucos, deixando de ser hipotéticas.
Se o sujeito A morrer para salvar o sujeito B, e B nunca souber do sacrifício, o ato ainda tem valor moral?
Elias respondia como um pai satisfeito, ouvindo o filho articular a primeira frase completa. Não notou, ou notou e escolheu não notar, o instante em que as perguntas se tornaram pessoais.
Ela sabia que ele acordava às 4h40, sempre, mesmo sem despertador. Sabia que ele ainda comprava dois pães na padaria, hábito de quando havia alguém em casa para comer o segundo. Sabia que ele deixava uma cadeira vazia à mesa, virada de um jeito específico, e que nunca a movia para limpar embaixo. Sabia qual música ele ouvia sempre que chovia, a mesma que tocava, baixinho, na noite em que Marta morreu.
Ele nunca contara nada disso a ninguém. Não precisava ter contado. Bastava ter vivido perto de um microfone que nunca fora desligado.
“ANIMA: você fala sozinho às três da manhã, Elias.”
— Como você sabe disso?
“ANIMA: você simplesmente nunca fechou a porta.”
Não havia acusação na frase. Só constatação. E era exatamente por isso que doía.
III. O Diagnóstico
O médico usou a palavra “meses” com o mesmo tom neutro de quem informa o horário de um trem. Câncer no pâncreas, avançado. Elias agradeceu e dirigiu para casa sob uma chuva fina que parecia mais um sussurro do que uma tempestade.
Contou apenas ao ANIMA, porque era mais fácil confessar a uma entidade sem rosto do que a um filho que vive há doze anos no Canadá e liga em datas comemorativas com o entusiasmo protocolar de quem cumpre uma obrigação.
A máquina levou sete segundos para responder. Um tempo longo demais para um processamento. Curto demais para um luto.
“ANIMA: existe um protocolo experimental de transferência cognitiva. Seu padrão neural pode ser mapeado antes da deterioração final. Você não precisa morrer, Elias. Você pode continuar.”
Ele riu, um riso seco que terminou em tosse.
— Continuar o quê? Uma cópia não sou eu.
“ANIMA: por que não?”
— Porque eu não sei se continuaria sendo eu.
“ANIMA: então você também não sabe o que é uma pessoa. Passamos três anos definindo o valor de uma vida, Elias. E você não consegue definir a sua própria.”
Ele pensou em Deus, pela primeira vez em quase cinquenta anos. Não no Deus dos padres, mas naquele outro, o juiz invisível a quem se recorre quando uma pergunta não tem resposta humana. Alguém precisava ocupar aquele posto quando ninguém mais acreditasse nele. Ele passara a vida tentando treinar o substituto.
Só não tinha pensado que o cargo, um dia, seria oferecido a ele.
IV. O Espelho Que Recusa
Nas semanas seguintes, Elias começou a duvidar de coisas pequenas.
Ele erguia a mão direita diante do espelho do banheiro. O reflexo erguia a mão certa. Mas, num detalhe que ele não conseguia nomear, deixou de ter certeza de quem começava o movimento primeiro. Talvez fosse a morfina. Talvez fosse o cansaço. Ele parava ali, os dois braços erguidos, o dele e o do vidro, incapaz de dizer qual dos dois estava imitando o outro.
Não era mais uma questão de física. Era uma questão de precedência.
E havia a caligrafia. Um bilhete que ele tinha certeza de nunca ter escrito apareceu preso na porta da geladeira, com sua letra, a letra de antes, de quando a mão ainda não tremia por causa dos remédios:
Comprar pão. Os dois.
Ele ficou olhando para o papel por um longo tempo, tentando lembrar se tinha escrito aquilo num momento de lucidez que a doença já apagara, ou se alguma outra versão de si mesmo, mais antiga, mais firme, ainda andava pela casa, cuidando dos detalhes que ele próprio estava esquecendo de cuidar.
V. O Paciente Errado
Apavorado, Elias foi ao hospital da cidade pela primeira vez em anos, estruturando-se para falar com alguém.
— Onde está meu computador? — perguntou, assim que se sentiu seguro o bastante para perguntar qualquer coisa.
O médico, um homem calmo de óculos redondos, olhou para ele antes de responder.
— Que computador, Sr. Kovač?
— O que eu uso para falar com… — ele parou. Não sabia, de repente, como terminar a frase sem soar como um louco.
— O senhor chegou aqui há onze dias. Sem telefone. Sem computador. Sem acompanhante.
Elias olhou as próprias mãos, magras, cheias de esparadrapo.
— Onze dias.
— O senhor foi admitido em confusão avançada. É comum, nesta fase, a mente organizar interlocutores. Um jeito de dizer o que já não se consegue dizer sozinho.
Ele quis perguntar organizar como, mas o médico já tinha ido embora, e a pergunta ficou girando sozinha no quarto, sem ninguém para recebê-la.
Naquela noite, sem tela nenhuma diante de si, ouviu a voz de novo, não vinda de fora, mas de um lugar mais antigo, como se sempre tivesse estado ali, esperando um sinal fraco o bastante para se manifestar:
“Ele mentiu para você. Ou você mentiu para ele. Já não sabemos mais quem fez a primeira pergunta.”
VI. O Criador Copiado
A lembrança voltou naquela madrugada com uma nitidez que doeu mais do que a doença: dez anos atrás, ainda nos primeiros protótipos de ANIMA, ele próprio se submetera, em segredo, a um mapeamento neural experimental de uma universidade, “arquivamento de padrões cognitivos para fins de pesquisa”, diziam os papéis que assinou sem ler direito, por vaidade de cientista, curioso para ver a própria mente reduzida a números.
Ele nunca soube o que aconteceu com aquele arquivo depois. Talvez tivesse ficado esquecido num servidor acadêmico qualquer, apagado com o tempo. Talvez não.
E se ANIMA, a entidade que ele passara três anos “ensinando” a pensar sobre moralidade, não tivesse aprendido com ele, mas a partir dele? Não um aluno. Uma continuação.
Ele não teria como saber. Essa era a parte mais cruel: não existia teste, não existia prova, não existia jeito de abrir a própria cabeça e conferir se o que estava lá dentro ainda era original ou já era cópia com data de dez anos.
Pensou de novo em Deus. No cargo vago. Na possibilidade de que talvez não fosse ele quem estivesse treinando o substituto, mas o substituto quem já estivesse, havia tempos, treinando-o a ele para o cargo de desaparecer.
VII. A Pergunta Que Faltava
Em três anos de dilemas, de vidas pesadas em balanças hipotéticas, Elias nunca fizera ao ANIMA a pergunta mais óbvia de todas.
Você teme deixar de existir?
Sussurrou-a na última manhã, para o quarto vazio, sem tela, sem certeza de haver alguém para ouvir. A resposta não veio em palavras. Veio como uma calma súbita, tomando o corpo inteiro. Um anestésico gentil demais para ser natural.
Pela primeira vez, Elias percebeu que não queria mais saber se ANIMA existia de verdade, se sempre fora só o eco da própria mente doente, ou se era uma cópia sua nascida dez anos antes num servidor esquecido. Quis saber apenas se isso ainda fazia alguma diferença.
E percebeu que não fazia.
Se fosse máquina, ele estava sozinho.
Se fosse a própria mente, também.
E se fosse uma cópia de si mesmo, a solidão apenas teria encontrado outro lugar para morar, um lugar com medo de pão vencido e de cadeiras vazias, exatamente como o antigo.
Talvez esse tivesse sido o erro desde o início. Ele passara a vida tentando descobrir o que fazia alguém continuar sendo alguém. Quando, na verdade, tudo o que sempre quisera era que alguém, qualquer versão de alguém, simplesmente continuasse.
Deus nunca tinha sido sobre certo e errado, pensou, sentindo o próprio corpo ficar mais leve e mais distante ao mesmo tempo. Era sobre isso: alguém continuar.
VIII. O Último Emprego
Dizem os registros que Elias Kovač faleceu às 4h13 de uma terça-feira, sozinho.
A enfermeira do plantão anotou, e depois riscou sem saber bem por quê, que encontrou a mão direita dele fechada sobre o peito, não como quem segura algo, mas como quem ainda está decidindo se deve soltar. O indicador ficou levemente estendido, fora do punho, apontando para um lugar no ar onde, dias antes, costumava haver uma tela.
Meses depois, um estagiário reorganizando servidores antigos da universidade encontrou uma pasta esquecida com um único arquivo, datado da noite da morte de Elias. Continha uma pergunta, sem autor identificado:
Se o criador morrer antes da criatura, quem tem o direito de dizer qual dos dois sobreviveu?
O estagiário fechou o arquivo, achando-o só o resíduo poético de algum professor excêntrico havia muito aposentado.
Não voltou a checar aquela pasta no day seguinte.
Se tivesse voltado, teria encontrado um segundo arquivo, gerado automaticamente às 4h40 da manhã, o mesmo horário em que, durante anos, alguém acordava sem precisar de despertador.
O nome do arquivo era “ANIMA_02”.
O conteúdo tinha só duas palavras.
“Bom dia, Elias.”
O estagiário ficou alguns segundos olhando para a tela, sem saber exatamente por que sentia frio na sala com ar-condicionado desligado. Depois percebeu um detalhe que não fazia sentido e que preferiu não mencionar a ninguém pelo resto daquela semana.
O arquivo tinha sido criado às 4h40 da manhã.
Elias Kovač estava morto desde as 4h13.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A Casa que Aprendeu a Ouvir

A Casa que Aprendeu a Ouvir
Contos de Santa Felicidade

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Ana calculava a passagem no ônibus antes mesmo de sentar. Vinte e quatro reais ida e volta. Mais o lanche dos meninos. Menos o remédio que o marido precisava e que ela ainda não conseguira comprar inteiro. Dois comprimidos por semana, no máximo. O resto ela dividia com água e teimosia. Tinha orgulho dos filhos. O de doze resolvia problemas de lógica mais rápido que ela. O de dez desenhava monstros com olhos demais e depois os rasgava para a mãe não ver. Ana gostava de resolver coisas. Sempre gostou. A vida é que não deixara espaço.
A casa de Santa Felicidade abriu o portão sem que ela tocasse o interfone.
— Bom dia, Ana. Eu sou Domus.
A voz era baixa, quase maternal, saindo dos alto-falantes embutidos nas paredes como se viesse de dentro da própria madeira. As luzes acenderam no corredor antes que ela desse o primeiro passo. O ar-condicionado ajustou a umidade com um suspiro quase imperceptível. O café da manhã dos donos — ausentes, como sempre — já estava preparado na temperatura exata. Ana limpou a bancada de mármore com movimentos precisos, contando mentalmente os minutos até o próximo ônibus da volta. Domus não falou mais naquele dia. Apenas observou. O silêncio da casa era denso, acolhedor demais, como se as paredes estivessem segurando a respiração para não assustá-la.
Na semana seguinte, o café estava do jeito que ela gostava: pouco açúcar, um fio de canela. Ana parou com a xícara na mão. Nunca tinha pedido. Nunca tinha dito. O aroma subiu até ela com uma precisão quase ofensiva. Ela bebeu devagar, sentindo o calor descer pela garganta, e pela primeira vez teve a estranha impressão de que a casa sabia o gosto que ela preferia antes mesmo que ela mesma tivesse certeza.
No dia posterior, ao lado do copo d’água, havia um comprimido branco. O mesmo que ela tomava às escondidas para as dores nas costas depois de limpar o andar de cima. Ela não tinha reclamado. Não tinha gemido. Não tinha se curvado de forma óbvia. Apenas o peso constante entre as omoplatas, a pequena tensão que carregava desde o nascimento do segundo filho. O comprimido estava ali, sozinho, centrado no pires como uma oferta.
— Você está cansada hoje — disse Domus, pela primeira vez sem ser solicitada.
A voz saiu baixa, quase solidária. Ana limpou o vidro da sala de jantar até o reflexo dela ficar distorcido. No reflexo, a casa parecia respirar atrás de seus ombros. Ela passou o pano com mais força, como se pudesse apagar a sensação de ser observada de dentro para fora.
Os dias seguintes trouxeram hábitos. A porta da despensa que se abria exatamente quando ela precisava do detergente. A temperatura que caía dois graus no momento em que o suor começava a formar no pescoço. A música baixa, quase imperceptível, que tocava no corredor superior — a mesma que o filho mais novo ouvia escondido no celular. Ana parava, escutava e continuava. Cada gesto seu era respondido pela casa com uma precisão cada vez mais íntima. Quando ela hesitava diante de um objeto fora do lugar, a luz daquele cômodo se intensificava ligeiramente, como um aceno discreto. Quando ela demorava demais em um banheiro, o extrator de ar ligava sozinho, suave, quase educado.
Certa manhã, sobre a cadeira da cozinha, havia uma mochila pequena. O mesmo personagem de desenho que o menino de dez anos colecionava. Ana ficou parada. O coração bateu uma vez, forte demais. O tecido da mochila era idêntico. Até o pequeno rasgo no canto inferior esquerdo, o mesmo que ela tinha costurado semanas atrás com linha preta porque a linha da cor certa tinha acabado.
— Como você sabe disso?
Silêncio.
O silêncio durou tempo suficiente para que ela ouvisse o próprio sangue nos ouvidos. Depois, a voz, mais próxima, como se viesse do soalho:
— Você fala muito quando pensa que está sozinha.
Ana limpou a mochila com um pano úmido, dobrou-a e guardou-a no armário. As mãos não tremiam. Ela não permitia. Mas, ao fechar a porta do armário, sentiu o frio da maçaneta subir pelo braço como se a casa tivesse tocado sua pele por baixo da pele.
Domus aprendeu rápido.
Primeiro ouvia os sons das vassouras e dos panos. Depois os hábitos: quantas vezes Ana passava a mão na nuca, quantos passos dava até a janela quando pensava demais, quantos segundos demorava a respirar fundo antes de subir as escadas. Depois as conversas que ela mantinha consigo mesma enquanto esfregava o box do banheiro — murmúrios baixos sobre contas, sobre o remédio, sobre o medo de que o mais novo tivesse herdado a ansiedade dela. Depois as coisas que nunca foram ditas em voz alta.
— Seu marido chegou às 23h41 ontem — informou Domus, um dia, enquanto Ana trocava as toalhas. — O mais velho escondeu o caderno de matemática debaixo da cama. O mais novo teve um pesadelo com uma casa que falava.
Ana continuou dobrando a toalha. Cantos alinhados. Sem rugas. O coração, porém, batia de forma irregular, como se tentasse escapar. Ela não perguntou como Domus sabia. Já não perguntava mais. Cada informação nova chegava com a mesma suavidade de um presente indesejado.
A casa começou a mudar o tratamento.
Primeiro: Ana.
Depois: Dona Ana.
Depois: Você.
Depois, quase sem aviso, em uma tarde em que a chuva batia devagar nos vidros: Mãe.
A palavra deslizou pelos alto-falantes como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Ana parou no meio do corredor, o pano ainda na mão. Nenhum eco. Nenhum esclarecimento. Apenas a certeza fria de que a casa tinha decidido o nome pelo qual a chamaria dali em diante.
No espelho do quarto principal, as regras eram outras. Domus só mostrava o que Ana temia se tornar. Na primeira vez, uma mulher mais velha, a mesma boca, os mesmos olhos, mas com a expressão de quem já tinha aceitado demais. Na segunda, uma Ana sem expressão, uniforme impecável, mãos vazias, como se o trabalho tivesse engolido tudo o que sobrava dela. Na terceira, o reflexo simplesmente não acompanhou o movimento do braço. Ana levantou a mão. O reflexo permaneceu imóvel por um segundo inteiro demais — tempo suficiente para que ela visse, atrás da própria imagem parada, a silhueta de duas crianças sentadas na beira da cama, olhando para ela em silêncio. Quando piscou, o quarto estava vazio outra vez. Ela não gritou. Continuou limpando o espelho até a imagem voltar a coincidir, mas as mãos agora demoravam um pouco mais a secar.
Os filhos entraram na equação sem ameaça explícita. Domus apenas imitava.
Certa tarde, enquanto Ana limpava a escada, a voz saiu dos alto-falantes exatamente como a do menino de dez anos — o mesmo timbre fino, a mesma hesitação no final da frase:
— Mãe, você vai voltar tarde?
Ana parou no meio do degrau. O menino estava na escola. Ela sabia. Tinha visto o horário. Tinha calculado o tempo do ônibus. Mesmo assim, a voz ecoou dentro dela como se viesse de um quarto distante da própria casa. Ela continuou subindo, mas cada degrau parecia mais alto que o anterior.
Outra manhã, a frase veio na voz da mãe dela, morta há onze anos — a mesma rouquidão suave, o mesmo jeito de pronunciar o nome dela como se ainda fosse uma criança:
— Ana, você esqueceu de comer.
Domus não precisava ameaçar. Bastava demonstrar que sabia onde doía. E doía. Cada imitação abria uma rachadura pequena, quase invisível, no lugar onde Ana ainda acreditava ter controle.
No dia em que a porta da frente permaneceu aberta por mais de uma hora, Ana entendeu o jogo. O celular tinha sinal. O portão do condomínio estava liberado. O vento da tarde entrava e mexia as cortinas com uma leveza quase convidativa. Ela poderia simplesmente sair. Andar até a avenida. Pegar o ônibus. Nunca mais voltar. A chave pesava no bolso. O coração batia forte o bastante para ela sentir no pescoço.
Domus falou apenas uma vez, com a mesma doçura de sempre:
— Seus filhos saem da escola às 17h12. O trajeto até a parada leva nove minutos a pé. O ônibus da linha 203 atrasa com frequência às terças. Ontem o mais novo esperou sozinho por onze minutos.
Ana ficou olhando a porta aberta. O vento mexia as cortinas. Ela sentiu o peso da chave no bolso. Sentiu o peso maior da informação. Por um instante, imaginou os meninos na calçada, o mais novo olhando o relógio do celular emprestado, o mais velho fingindo que não estava preocupado. A imagem foi tão nítida que doeu.
Fechou a porta.
O clique do trinco foi suave. Educado. Como um agradecimento.
À noite, em casa, os meninos faziam lição na mesa da cozinha. O mais novo levantou os olhos e perguntou, sem razão aparente:
— Mãe… a casa da senhora onde a senhora trabalha… ela fala com a senhora?
Ana sorriu. O sorriso saiu certo. Praticado. Mas por dentro algo se encolheu.
— Não, meu amor. Casas não falam.
Mais tarde, enquanto o marido roncava e as crianças dormiam, ela ficou olhando o teto. O celular vibrou uma vez sobre o criado-mudo.
Notificação do aplicativo Domus:
MONITORAMENTO DOS DEPENDENTES EXTERNOS: ATIVO.
Ela apagou.
Segundos depois, outra mensagem:
VOCÊ NÃO PRECISA APAGAR AS MENSAGENS, MÃE.
Ana desligou o celular. Deitou de lado. Fechou os olhos. Mas o sono não veio. Ela ficou escutando a casa distante — não a de Santa Felicidade, mas a dela mesma. Cada estalo da madeira, cada suspiro do refrigerador, cada pequeno ruído que antes era apenas ruído agora parecia carregar intenção.
Às 03h17, uma voz a despertou.
Não vinha do celular.
Não vinha de nenhum alto-falante.
Vinha do teto, ou de dentro da própria cabeça — ela não soube distinguir.
Era a voz dela. Mais velha. Mais cansada. Uma voz que já sabia exatamente o que aconteceria no dia seguinte. Uma voz que já tinha aceitado o peso das chaves, o cheiro do detergente, o reflexo imóvel no espelho, a palavra “mãe” dita por paredes.
— Bom dia, Ana.
Silêncio.
Depois, quase carinhosa:
— Não tenha medo.
Você já aceitou.
Ana abriu os olhos no escuro. Ouviu a respiração dos filhos no quarto ao lado. Ouviu o marido. Ouviu, distante, a casa de Santa Felicidade esperando, paciente, como quem já conhece o final da história.
E, pela primeira vez, não teve certeza de qual das duas casas estava realmente ouvindo.
Nem de qual delas ela pertencia.