domingo, 13 de setembro de 2026

O POSTO DEPOIS DA CURVA

O POSTO DEPOIS DA CURVA
Dez minutos podem durar mais do que uma vida

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 O recibo dizia que eu tinha abastecido o carro às 23h17.
Eu estava em Paranaguá às 23h17.
Foi essa diferença de cinquenta e poucos quilômetros que me fez voltar à BR-277 três dias depois, embora eu soubesse que não encontraria nada.
Ou melhor: eu precisava não encontrar nada.
Naquela quinta-feira, saí de Curitiba pouco depois das oito da noite para entregar os documentos de uma venda. Eu poderia ter esperado até a manhã seguinte, mas o comprador viajaria cedo e eu precisava do dinheiro. Desde a separação, algumas urgências tinham adquirido o hábito de parecer maiores do que realmente eram.
Chovia desde São José dos Pinhais. Uma garoa persistente, fina o suficiente para não justificar a redução da velocidade, mas insistente o bastante para deixar o para-brisa sempre coberto por uma película opaca.
Minha filha ligou quando eu ainda estava em casa.
— Você vai pela 277?
— Vou.
— Sozinho?
— Claro.
Houve uma pausa.
— Se passar por um posto, para.
Ri.
— Por quê?
— Só para.
— Que posto?
Ela demorou.
— Você sabe.
— Não sei.
— Então esquece.
Foi a última coisa que disse antes de desligar.
Minha filha tinha oito anos quando aconteceu a noite de que eu não gostava de falar.
Não houve morte.
Talvez por isso eu tivesse chamado de acidente durante tantos anos.
Houve uma discussão em casa. Eu saí de carro com ela porque precisava entregar alguns documentos no litoral e não queria deixá-la sozinha. Ela estava irritada, eu estava irritado, e os dois tínhamos aquele silêncio pesado das crianças quando percebem que os adultos perderam o controle.
Em algum momento, parei.
Disse que seria rápido.
Ela perguntou:
— Quanto?
Dez minutos.
Eu me lembro disso.
Depois, a memória fica menos obediente.
Na estrada, naquela noite, tentei não pensar nisso.
Passei pelo primeiro posto sem parar.
No segundo, também.
O terceiro apareceu depois de uma curva que eu não reconheci.
Era pequeno, antigo, com três bombas sob uma cobertura baixa. A loja de conveniência permanecia aberta, mas o restaurante ao lado estava fechado. Não havia placa grande anunciando o nome. Apenas uma faixa desbotada sobre a cobertura.
Reduzi.
Não sei por quê.
Entrei.
O frentista perguntou:
— Completa?
— Completa.
Enquanto o tanque enchia, olhei para o restaurante.
Havia uma mulher sentada junto à janela.
Usava um casaco escuro.
Estava de costas.
Pensei que talvez estivesse esperando alguém.
Quando olhei novamente, a cadeira estava vazia.
Paguei na loja.
O atendente colocou o recibo sobre o balcão.
Peguei.
Antes de sair, pedi café.
Ele colocou dois sachês de açúcar ao lado do copo.
— Só um.
Ele retirou um.
— Desculpe.
Tomei o café em pé.
Era ruim.
Tinha aquele gosto de café que passou tempo demais na garrafa térmica.
Quando saí, percebi uma pequena etiqueta presa ao chaveiro do carro.
31.
Toquei nela.
— Isso é de vocês?
O rapaz olhou.
— Não.
— Estava aí?
— Estava.
— Não estava.
Ele me encarou por alguns segundos.
— O senhor já passou aqui.
Eu sorri, sem saber por quê.
— Acho que não.
— Acho que sim.
Entrei no carro e fui embora.
Não pensei mais no assunto até chegar a Paranaguá.
Às 23h12, mandei uma mensagem ao comprador avisando que estava chegando.
Às 23h34, entreguei os documentos.
Às 23h40, estava entrando no hotel.
No dia seguinte, encontrei o recibo no porta-copos.
23h17.
BR-277. KM 31.
Fiquei olhando para ele.
A hora estava errada.
O quilômetro também.
Eu sabia que tinha abastecido, mas não naquele horário.
Guardei o papel no porta-luvas.
Na manhã seguinte, minha filha ligou.
— Você parou?
— Parei onde?
— No posto.
— Qual posto?
Ela respirou fundo.
— Você não lembra.
— Não.
— Tudo bem.
— O que deveria lembrar?
Silêncio.
— Nada.
Desligou.
Naquela tarde, procurei o recibo.
Não estava no carro.
Encontrei-o dentro de uma gaveta, entre documentos antigos.
No verso havia uma frase escrita à caneta.
VOLTO EM DEZ MINUTOS.
Reconheci minha letra.
Não lembrava de tê-la escrito.
Minha filha veio à minha casa naquela noite.
Trouxe uma caixa de fotografias.
Sentou-se à mesa e abriu a tampa.
— Achei isso na casa da mãe.
Havia aniversários, viagens, fotografias escolares, imagens da antiga casa.
Então apareceu uma fotografia da estrada.
Minha filha tinha oito anos.
Estava sentada no banco traseiro do meu carro.
Eu estava dirigindo.
Chovia.
Atrás de nós havia o posto.
O mesmo.
A mesma cobertura.
A mesma faixa desbotada.
No canto inferior, quase escondido, havia um número:
31.
— Foi naquela noite? — perguntei.
— Foi.
— Quem tirou?
— Minha mãe.
— Ela estava lá?
— Não.
Virei a fotografia.
Não havia data.
— Então como ela tirou?
Minha filha passou o dedo pelo canto da imagem.
— Ela tirou depois.
— Depois de quê?
Ela levantou os olhos.
— Depois que você voltou.
Senti uma irritação súbita.
— Eu fui buscar você.
— Eu sei.
— Então por que está falando desse jeito?
— Porque você sempre conta assim.
A frase me atingiu de uma maneira que não consegui explicar.
— E como foi?
Ela olhou para a fotografia.
— Eu não lembro.
— Você estava lá.
— Eu sei.
— Então lembra.
Ela balançou a cabeça.
— Lembro de esperar.
Fiquei quieto.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Dez minutos?
Ela olhou para mim.
— Você disse dez.
Não respondeu mais.
Naquela noite, procurei informações sobre o posto.
Não encontrei.
Procurei mapas antigos, imagens de satélite, registros comerciais, fotografias da rodovia.
Havia postos próximos, alguns antigos, outros desativados.
Nenhum naquele ponto.
Comecei a pensar que eu havia confundido a estrada.
Essa explicação me trouxe alívio.
Até perceber que, no verso da fotografia, havia uma segunda anotação.
Pequena.
Quase apagada.
23h17.
No dia seguinte, voltei à BR-277.
Passei pelo trecho durante a tarde.
Nada.
Uma curva.
Mata.
Caminhões.
Postos reais.
Placas reais.
Nenhum quilômetro 31 naquele ponto.
Voltei.
Passei novamente.
Nada.
Na terceira vez, a chuva começou.
Não era forte.
Apenas uma garoa.
A mesma.
Depois de uma curva, vi a entrada.
O posto estava lá.
Parei.
Não entrei.
Fiquei observando.
As bombas estavam vazias.
A loja, fechada.
O restaurante, escuro.
No estacionamento havia apenas um caminhão.
Olhei para o painel.
17h06.
No relógio do posto, através da janela, marcava 23h17.
Pensei em ir embora.
Foi quando percebi uma coisa.
A placa na frente do posto dizia:
KM 31.
Atrás dela, pela estrada, havia outra placa.
CURITIBA 31 KM.
Fiquei alguns segundos tentando entender.
Eu estava indo em direção a Paranaguá.
Curitiba estava atrás de mim.
Ainda assim, a placa dizia trinta e um quilômetros.
Poderia ser um erro.
Era um erro.
Eu precisava apenas aceitar isso.
Engatei a marcha.
Antes de sair, vi alguém dentro da loja.
Não era a mulher.
Era uma menina.
Estava de costas.
Pequena.
Molhada.
Segurava alguma coisa na mão.
Não consegui ver o rosto.
Buzinei.
Ela não se mexeu.
Saí.
Não olhei para trás.
Quinze minutos depois, encontrei uma área de escape.
Parei.
O recibo estava sobre o banco do passageiro.
Eu não o havia colocado ali.
Peguei.
23h17.
No verso:
VOCÊ DISSE QUE SERIA RÁPIDO.
A frase não estava escrita com minha letra.
Ou estava.
Não consegui decidir.
Liguei para minha filha.
Ela atendeu no segundo toque.
— Pai?
— Você está em casa?
— Estou.
— Você lembra daquela noite?
Silêncio.
— Por que está perguntando?
— Porque acho que deixei você esperando.
Ela respirou.
— Você sempre achou isso.
— E você?
— Eu acho que você voltou.
Fechei os olhos.
— Você tem certeza?
— Não.
A resposta foi tão simples que me deu mais medo do que qualquer outra coisa.
— O que você lembra?
— Você me deixou no carro.
— Onde?
— Num posto.
— E depois?
— Você disse que ia voltar.
— Eu voltei?
Ela ficou em silêncio.
— Filha?
— Pai, você está sozinho?
Olhei para o banco traseiro.
Estava vazio.
— Estou.
Ela demorou a responder.
— Então não olhe para o banco.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Por quê?
— Porque eu não sei quem está aí.
A ligação caiu.
Não olhei.
Fiquei alguns minutos com as mãos sobre o volante.
Depois liguei o carro.
Na estrada, não havia mais ninguém.
Dirigi até Curitiba sem parar.
Quando cheguei em casa, já era madrugada.
Deixei o carro na garagem.
Subi.
Coloquei a chave sobre a mesa.
O recibo estava no bolso da minha jaqueta.
Não lembrava de tê-lo pegado.
Virei.
A frase continuava lá.
VOCÊ DISSE QUE SERIA RÁPIDO.
Sentei.
Durante algum tempo, fiquei tentando reconstruir aquela noite.
Desta vez, a lembrança veio inteira.
Eu e minha filha no carro.
A chuva.
A discussão.
O posto.
Ela perguntando quanto demoraria.
Dez minutos.
Eu saindo.
A porta fechando.
Eu atravessando o estacionamento.
Entrando na loja.
Pedindo café.
Dois sachês de açúcar.
Depois...
Parei.
Havia alguma coisa errada.
Eu não estava lembrando do passado.
Estava lembrando da noite anterior.
Era exatamente a mesma sequência.
O mesmo carro.
A mesma chuva.
A mesma filha.
O mesmo posto.
Os mesmos dez minutos.
Só que, dessa vez, eu ainda não tinha voltado.
Levantei de repente.
Fui até a garagem.
O carro estava lá.
As portas fechadas.
A chave continuava sobre a mesa.
Olhei pelo vidro.
O banco traseiro estava vazio.
Ou parecia vazio.
Havia uma pequena mancha de água no tecido.
Passei a mão pelo vidro.
Não abri a porta.
Voltei para dentro.
Minha filha ligou.
Atendi.
Ela não falou.
Ouvi apenas a respiração.
— Filha?
Nada.
Então veio uma pergunta:
— Pai, você já voltou?
Olhei para o relógio.
23h17.
— Já.
Ela ficou em silêncio.
Depois disse:
— Então quem está aqui comigo?
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Não sabia o que fazer.
Meu telefone vibrou novamente.
Era uma mensagem.
Uma fotografia.
Abri.
Era uma imagem do meu carro estacionado diante do posto.
A chuva cobria o para-brisa.
No banco traseiro havia alguém.
Não dava para ver o rosto.
A fotografia parecia antiga.
Ampliei.
A pessoa segurava um recibo.
Aproximei a imagem até onde o celular permitia.
No papel havia apenas duas linhas.
23h17.
VOLTO EM DEZ MINUTOS.
Fiquei olhando para a fotografia.
Então percebi o detalhe que me fez largar o telefone sobre a mesa.
Quem quer que estivesse no banco traseiro não era minha filha.
Era eu.
Mais jovem.
Com as duas mãos no colo.
Olhando diretamente para a câmera.
Atrás do vidro, porém, havia uma criança sentada ao meu lado.
Não consegui ver o rosto dela.
Na manhã seguinte, minha filha me encontrou dormindo na sala.
Ouvi sua voz antes de abrir os olhos.
— Pai.
Sentei.
Ela estava parada perto da porta.
— O que foi?
Ela olhou para a garagem.
— Seu carro está ligado.
— Não.
— Está.
Fui até a janela.
O carro permanecia no mesmo lugar.
O motor funcionava.
No painel, o relógio marcava 23h17.
— Eu não liguei.
Minha filha não respondeu.
Ela segurava alguma coisa.
Um recibo.
Entregou-me.
Olhei.
BR-277. KM 31.
No verso havia uma frase.
Dessa vez não era minha letra.
Era a letra da minha filha.
PAI, NÃO DEMORE.
Abaixo, uma segunda frase, escrita com outra tinta:
ELE AINDA ESTÁ ESPERANDO.
Minha filha levantou os olhos.
— Quem?
Não consegui responder.
Ela olhou para o carro.
— Você não lembra?
— Do quê?
Ela apontou para a garagem.
— Que naquela noite você voltou.
Fiquei olhando para o banco do motorista.
Estava vazio.
Minha filha segurou meu braço.
— Pai.
— O quê?
— Você não voltou sozinho.
Foi então que ouvi o motor morrer.
E, por alguns segundos, a casa inteira ficou em silêncio.
No banco traseiro do carro havia apenas uma coisa.
Uma pequena etiqueta de papel.
31.
Eu não sabia dizer se já a tinha visto antes.

Km 54

Km 54
ou A Estrada Que Não Devolve

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

Elton saiu de Curitiba às três e quarenta da manhã.
A garoa fina embaçava o para-brisa por dentro. Ele dirigia com uma mão só, limpando o vidro com a manga do casaco. A BR-277 descia escura, recortada pelos faróis dos caminhões e pela neblina que já se acumulava depois de São José dos Pinhais.
Conhecia aquela estrada havia quase dez anos. Sabia onde os caminhões reduziam, onde a pista estreitava, onde o sinal sumia.
No painel, ao lado do rádio, havia uma marca circular quase apagada. Passou o dedo.
Cheiro de perfume. E, por um segundo, a temperatura da mão dela no ombro.
Retirou a mão.
Às quatro e vinte, parou no primeiro posto depois de São José dos Pinhais. O frentista magro, de boné escuro, abasteceu sem falar. Quando Elton voltou do pagamento, o homem estava parado ao lado da bomba, olhando para o banco traseiro.
— Ela está aí?
Elton ficou imóvel.
— Quem?
O frentista baixou os olhos.
— Nada.
Virou-se e entrou na loja.
Elton abriu a porta traseira. Vazio. No porta-luvas, um recibo amassado. A data era de três dias antes. Ele não tinha parado ali três dias antes.
Virou o papel:
“Você deixou ela esperando.”
Na tampa interna, uma mancha circular úmida. Passou o dedo. Água. O cheiro veio mais forte: perfume e chuva molhada em cabelo de criança.
Fechou o porta-luvas e saiu.
A marca no painel puxou a memória antes que ele chegasse à serra.
Mariana na cozinha, encostada na pia. A menina no sofá, abraçada à almofada. Seis anos.
— Espera a chuva passar.
— Se eu esperar, chego atrasado.
— Então chega atrasado.
A menina levantou. Segurava o copo de vidro com as duas mãos. Havia uma rachadura fina no fundo.
— Pai, o rio nunca chega ao mar.
— Você volta amanhã?
— Volto.
— Promete?
— Prometo.
Na garagem, Mariana colocou o copo sobre o painel. A mesma rachadura que ele via agora na memória.
— Não vai agora, Elton.
Ele entrou no carro. Ligou o motor. Foi embora.
23h18. Não atendeu.
23h41. Também não.
Elton apertou o volante. A neblina engrossou depois de Morretes.
Às cinco e vinte, reduziu. À direita:
Km 54
CASA DE PEDRA
Só mato e barranco. Passou.
Minutos depois, olhou pelo retrovisor. A placa tinha sumido.
Às cinco e quarenta e sete, de novo:
Km 54
CASA DE PEDRA
Mesma ferrugem. Mesma inclinação. Mesmo pedaço de tinta descascado.
Pisou no freio. O hodômetro avançava; a estrada, não.
Uma risada curta, infantil, ecoou no banco traseiro.
Virou-se. Vazio.
A marca no painel estava mais escura. Molhada. O cheiro agora era só de água.
Abriu a porta. Neblina. Ninguém. Quando voltou, o cheiro tinha sumido.
Poucos minutos depois, avistou o segundo posto. Entrou. A mulher limpava o balcão. Elton colocou o recibo sobre a madeira.
Ela olhou. Empalideceu.
— Vá embora. Ainda está cedo.
Ele saiu.
Pouco depois das sete, chegou a Paranaguá. Fez a entrega. Voltou a Curitiba durante o dia. Não viu a placa. Não viu nada.
À noite, em casa, abriu a caixa no fundo do armário. Dois copos. Um quebrado. Um intacto. A fotografia: Mariana, a filha e, atrás delas, a placa do Km 54.
No verso: Você deixou ela esperando.
A rachadura do copo na foto era a mesma.
❖ ❖ ❖
Na semana seguinte, outra entrega para Morretes. Saiu às quatro da tarde. Viagem limpa. Sem neblina. Sem placas. Sem cheiro.
Retorno às oito e vinte.
A chuva começou perto de Morretes. Às onze e quinze, a neblina fechou a estrada.
Km 54
CASA DE PEDRA
Uma luz amarela, fraca, surgiu atrás das árvores.
Elton parou. O telefone tocou.
MARIANA.
Atendeu.
Silêncio. Depois, uma respiração infantil. Cheiro de shampoo de criança. O barulho leve de lã esfregando no banco.
A própria voz, baixa, cansada:
— Ela ainda está esperando.
A ligação caiu.
Atrás dele, uma batida seca.
A cadeirinha estava lá. Limpa. Nova. O cinto afivelado do jeito que só a mãe sabia fazer. Sobre o assento, o copo rachado. No mesmo ângulo em que Mariana o deixara naquela noite.
Não tocou.
A luz entre as árvores veio mais perto.
Elton ligou o carro. Engatou a marcha. Seguiu.
No retrovisor, a luz desapareceu.
A cadeirinha permaneceu.
O copo começou a se encher de água.
No painel, a marca circular escureceu. Como se alguém acabasse de apoiar o copo ali.
A voz no banco traseiro:
— Pai?
Silêncio.
— Você vai embora de novo?
Elton apertou o volante.
Continuou.
A marca ficou molhada.
A neblina engoliu os faróis.

sábado, 12 de setembro de 2026

A CHAVE

A CHAVE
Ou o número que nunca para de mudar

Autor Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

A casa não guarda os mortos. Guarda quem vem depois.
A chave tinha o número 7 gravado à mão. Quando voltei no sábado seguinte, era 8.
Naquela primeira vez, não dei importância.
Chaves antigas têm números. Heranças têm chaves. Mortos deixam coisas que ninguém sabe onde guardar.
Minha tia Vera tinha morrido sozinha num apartamento em Curitiba, sem que ninguém soubesse dizer quando exatamente começara a morrer.
Foi o que o advogado disse, empurrando uma pasta sobre a mesa:
— Ela faleceu em casa, senhor. Há algumas semanas, talvez.
Algumas semanas.
Como se a morte fosse uma coisa que se pudesse estimar com margem de erro.
Assinei os papéis. Peguei a chave. O ferro estava frio e áspero, com uma pequena rebarba perto do número. Coloquei‑a no bolso do casaco e fui embora.
Não conhecia minha tia bem o suficiente para sentir muita coisa.
Víamo‑nos uma vez por ano, em dezembros que terminavam cedo. Ela sempre me tratava como alguém que reconhecia, mas não sabia nomear. Era magra, silenciosa e tinha o hábito estranho de olhar para as paredes enquanto falava.
Eu era o único parente vivo.
A casa em Morretes ficou para mim porque não havia mais ninguém.
Não fui imediatamente.
Deixei a pasta e a chave sobre a mesa da cozinha durante três semanas. Trabalhava, chegava tarde, dormia mal e acordava quase sempre às cinco da manhã com o elevador subindo pelo poço do prédio.
Meu casamento tinha acabado em março.
Minha ex‑mulher levou os móveis da sala e deixou os pratos.
Eu não sabia o que fazer com os pratos.
Continuava usando todos.
À noite, depois de comer, lavava apenas o meu e o deixava sempre no mesmo canto da pia, virado para baixo. Era uma mania antiga. Não sabia de onde vinha.
O advogado ligou duas vezes.
Na segunda, disse que precisava resolver a papelada do imóvel.
Entendi a mensagem.
Fui a Morretes num sábado.
Na véspera, lembrei de uma coisa.
Numa festa de Natal, quando eu tinha dez anos, minha tia Vera me segurou pelo braço ao passarmos perto da parede da sala.
Apertou com força.
Olhou para mim e disse, baixo, como se falasse com outra pessoa:
— Não durma em Morretes.
Depois soltou meu braço e continuou andando.
Nunca mais tocou no assunto.
Eu não sabia por que aquela lembrança havia voltado justamente naquela noite.
Fiquei sentado no sofá durante alguns minutos, olhando para a chave sobre a mesa.
O número 7 parecia mais fundo do que antes.
Passei o polegar sobre a gravação.
O metal estava frio.
Guardei a chave no bolso.
Não durma em Morretes.
Fui dormir.
A estrada eu conhecia.
BR‑277, a descida da Serra do Mar, a neblina que aparecia depois do túnel, o cheiro de mato molhado entrando pelo ar‑condicionado.
Parei num restaurante antes do trevo e comi um barreado que me pesou no estômago. Depois segui pela estrada secundária que o advogado desenhara num guardanapo.
Depois da ponte de madeira, a rua de terra.
A casa ficava no fim.
Era baixa, de alvenaria pintada de branco, com telhado de duas águas e uma varanda estreita que corria por toda a frente.
Ao lado, o rio.
Atrás, a mata.
Havia marcas escuras na parede lateral, quase na altura da cintura, como se a água tivesse subido até ali muitos anos antes.
Janelas fechadas.
Porta intacta.
Jardim tomado pelo mato, mas não destruído.
Parei diante da varanda.
A casa parecia menor do que eu imaginava.
Havia quatro cadeiras junto à mesa da varanda.
Quatro.
Minha tia morava sozinha.
Subi os três degraus.
O silêncio chamou minha atenção antes da casa.
Não havia pássaros.
Nem grilos.
Nem o ruído do rio.
Só minha respiração e o som das botas na madeira.
A chave entrou na fechadura sem resistência.
Girei.
A porta abriu.
Dentro, cheiro de madeira úmida, poeira e alguma coisa adocicada que não consegui identificar.
Móveis cobertos por lençóis brancos.
Mesa de jantar.
Quatro cadeiras.
Um aparador.
Na lareira, cinzas frias.
Nas paredes, nenhum quadro.
Só papel de parede desbotado.
No centro da sala havia uma tábua diferente das outras.
Mais clara.
Mais nova.
Como se tivesse sido trocada recentemente.
Ajoelhei‑me.
Passei a mão sobre ela.
Estava fria.
Não fria como a madeira molhada.
Fria como metal.
Encostei o ouvido.
Nada.
Então ouvi alguma coisa.
Tão baixa que, por um instante, pensei ter sido minha própria respiração.
Uma voz.
Do outro lado da madeira.
— …não devia ter vindo…
Levantei‑me num salto.
Fiquei olhando para o chão.
A casa estava vazia.
Quando saí, tive a impressão de ver uma mancha azul entre as folhas, perto dos degraus.
Parei.
A mancha desapareceu.
Talvez fosse apenas um pedaço de plástico.
Não fui verificar.
Tranquei a porta e dirigi de volta sem parar.
Naquela noite, não dormi.
A frase permanecia na cabeça.
Não devia ter vindo.
Na segunda, voltei ao trabalho.
Na quarta, encontrei a chave sobre a mesa da cozinha.
Eu não me lembrava de tê‑la tirado do bolso.
Peguei‑a.
O número tinha mudado.
O 7 havia desaparecido.
Agora era 8.
Fiquei alguns segundos olhando.
Passei a unha sobre a gravação.
O ferro parecia ter sido riscado recentemente. Havia uma aspereza nova ao redor do número, como se a marca ainda estivesse fresca.
Coloquei a chave debaixo da luz.
Não havia dúvida.
Naquela noite sonhei com a casa.
Eu estava na varanda.
O rio passava escuro atrás das árvores.
Havia uma criança sentada no primeiro degrau.
Não via o rosto.
Só a camiseta azul desbotada.
Um rasgo no ombro.
Ela não se mexia.
Acordei às cinco da manhã.
O elevador estava parado no meu andar.
Por alguns segundos, ouvi alguém respirando do outro lado da porta.
Não abri.
Voltei a Morretes no sábado seguinte.
Não sei explicar por quê.
Talvez pela chave.
Talvez pela voz.
Talvez porque algumas coisas começam a ocupar espaço demais dentro da cabeça e, quando percebermos, já não conseguimos pensar em outra coisa.
Peguei o carro às seis.
Não comi.
Não ouvi rádio.
A casa estava igual.
A varanda.
As quatro cadeiras.
O rio.
O silêncio.
Mas, quando entrei, percebi que alguém havia arrumado tudo.
Os lençóis não cobriam mais os móveis.
Estavam dobrados sobre a mesa de jantar.
As cadeiras haviam sido alinhadas.
Havia um prato limpo sobre a pia.
Virado para baixo.
Fiquei olhando para ele.
Era exatamente assim que eu deixava o meu em casa.
Toquei no prato.
Ainda estava morno.
Tirei a mão.
No chão da cozinha havia uma fotografia.
Pequena.
Quadrada.
Preto e branco.
Uma menina de uns sete anos, de tranças, sentada na varanda.
Atrás dela, o rio.
Ela não sorria.
Virei a fotografia.
No verso, escrito a lápis:
Vera, 1974.
A letra era trêmula.
Fiquei olhando paraquelas palavras.
Por alguma razão, tive a impressão de reconhecer a letra.
Guardei a foto no bolso.
Fui até o quarto.
A cama estava feita.
Em cima do criado‑mudo havia um livro de receitas, capa dura, lombada gasta.
Abri.
Páginas amareladas.
Anotações nas margens.
Entre a página 34 e a 35 havia um recorte de jornal.
A data era de 1974.
A manchete dizia:
MENINA DE SETE ANOS DESAPARECE EM MORRETES

Li o texto abaixo.
A menina havia desaparecido durante a noite.
A família afirmava que todas as portas estavam trancadas.
A polícia não encontrou sinais de arrombamento.
A criança se chamava Vera.
Dobrei o recorte.
Minha mão tremia.
Guardei‑o junto da fotografia.
Voltei para a sala.
Ajoelhei‑me diante da tábua.
Dessa vez, ouvi antes de encostar o ouvido.
Uma criança respirando.
Depois:
— …você devia ter ficado longe…
Era minha voz.
Não a minha voz de agora.
A minha voz de criança.
Aguda.
Fina.
A voz que eu tinha aos sete, oito, nove anos.
Uma voz que eu não ouvia havia décadas.
Uma voz que eu não sabia que ainda existia.
Levantei‑me devagar.
Na parede havia uma fotografia.
Eu tinha certeza de que não estava ali antes.
Moldura de madeira escura.
Retrato 3×4.
Meu rosto.
Mais jovem.
Talvez dez anos.
A fotografia parecia antiga, embora eu soubesse que não era.
Abaixo dela havia uma etiqueta amarelada.
VERA
A letra era a mesma da fotografia da menina.
Fiquei olhando para o meu próprio rosto.
Por um instante, tive a impressão de que a fotografia respirava.
Saí da casa.
No centro de Morretes, parei num posto.
Comprei um café.
Sentei dentro do carro.
O café queimou minha língua.
Não senti.
A fotografia estava no banco ao meu lado.
O recorte de jornal, sobre ela.
Vera.
Sete anos.
A casa.
A voz.
O número 8.
E o meu rosto embaixo de outro nome.
Tentei organizar as coisas.
Não consegui.
A lembrança da festa de Natal voltou.
Minha tia segurando meu braço.
A parede.
O olhar dela.
Não durma em Morretes.
Só que havia alguma coisa errada naquela lembrança.
Eu tinha dez anos.
E agora me lembrava de uma varanda que nunca havia visto.
Do rio.
Dos três degraus.
De um corredor estreito.
Da camiseta azul.
De uma porta que eu não conseguia abrir.
Lembrava de ter dormido naquela casa.
Lembrava de ter acordado no escuro.
Lembrava de uma mão segurando a minha.
Mas não conseguia decidir se aquelas lembranças pertenciam a mim.
Passei a semana inteira sem dormir direito.
Ia ao trabalho.
Voltava.
Lavava o prato.
Virava‑o para baixo.
Às vezes ficava alguns segundos olhando para ele.
Na quinta‑feira, encontrei a chave sobre a pia.
Não me lembrava de tê‑la colocado ali.
Peguei‑a.
O número havia mudado.
Agora era 9.
Voltei a Morretes no sábado.
Dessa vez, levei uma mochila.
Não sabia por quê.
Talvez uma parte de mim já esperasse não voltar.
A porta estava aberta.
Entrei.
A casa parecia estar esperando alguém.
As quatro cadeiras estavam à mesa.
Havia quatro pratos.
Um deles estava virado para baixo.
O meu estômago fechou.
Olhei para o centro da sala.
A tábua clara continuava ali.
Mas agora estava levantada.
Havia um alçapão.
Fiquei parado diante dele.
A escada descia para o escuro.
O cheiro que vinha de baixo era de terra molhada, pedra e alguma coisa metálica, antiga, adocicada.
Dei um passo para trás.
Fechei os olhos.
Pensei em ir embora.
Era simples.
Podia vender a casa.
Podia deixar tudo para um advogado.
Podia nunca mais voltar.
Abri os olhos.
A chave estava na minha mão.
Eu não me lembrava de tê‑la pegado.
O número 9 brilhava na palma.
Guardei‑a no bolso.
Saí da casa.
Passei a noite num hotel na entrada de Morretes.
Tranquei a porta.
Deitei.
Não dormi.
Choveu durante horas.
Perto das três da manhã, ouvi alguém andando pelo corredor.
Passos leves.
Descalços.
Pararam diante da minha porta.
Depois seguiram.
Às cinco, o elevador subiu.
O mesmo ruído do meu prédio em Curitiba.
Levantei‑me.
Abri a porta do quarto.
O corredor estava vazio.
No chão havia uma pequena mancha de água.
Peguei a chave.
O metal estava quente.
O número continuava 9.
Fiquei olhando para ele.
Então entendi que podia ir embora.
Podia voltar para Curitiba.
Podia esquecer a casa.
A tia.
A menina.
Tudo.
Foi nesse momento que ouvi, dentro do quarto, a minha própria voz de criança:
— Você prometeu.
Fechei os olhos.
Não lembrava de ter prometido nada.
Mas sabia que havia prometido.
Ao amanhecer, voltei à casa.
A porta continuava aberta.
Entrei.
Atravessei a sala.
Passei pelas quatro cadeiras.
Cheguei ao alçapão.
Desci.
A escada era estreita.
As paredes de pedra estavam úmidas.
O teto era baixo.
No chão havia terra batida.
No canto, uma cama.
Lençóis sujos.
Travesseiro amassado.
Ao lado, uma mesinha.
Um copo de água pela metade.
Havia alguém sentado sobre a cama.
Cabelo escuro.
Camiseta azul.
O rasgo no ombro.
Fiquei no último degrau.
A pessoa levantou os olhos.
Reconheci‑os.
Não sabia de onde.
Ela se levantou.
Era uma mulher.
Ou talvez tivesse sido uma menina.
Não consegui decidir.
Ela me olhou durante alguns segundos.
Então compreendi por que os olhos me eram familiares.
E senti alguma coisa dentro de mim recuar.
Como uma criança escondendo‑se atrás de uma porta.
Atrás de mim, ouvi um ruído.
Virei‑me.
Na parede havia uma fotografia.
Moldura de madeira escura.
Meu rosto.
Mais jovem.
A mesma fotografia.
A mesma etiqueta.
VERA
Abaixo do nome havia uma data.
A data de hoje.
Olhei novamente para a mulher.
Ela estava chorando.
Sem fazer barulho.
Depois disse meu nome.
A voz era a minha.
Mas não a voz que eu tinha agora.
Era a voz que eu tinha aos dez anos.
A voz que dizia:
— Não quero ficar aqui.
Não me lembro de ter subido a escada.
Não me lembro de ter saído da casa.
Não me lembro de ter dirigido até o hotel.
Lembro de uma mão na minha.
Lembro da camiseta azul.
Lembro de alguém dizendo meu nome.
Lembro de ter perguntado onde estava minha tia.
E lembro da resposta.
Não consigo lembrar as palavras.
Só a sensação de que eu já sabia.
Depois, nada.
Estou neste quarto.
A chuva bate na janela.
O rio subiu durante a noite.
O caderno está diante de mim.
A caneta na mão.
Não sei quanto tempo estou escrevendo.
Às vezes acho que escrevo para lembrar.
Às vezes acho que escrevo para alguém encontrar.
A chave está no bolso.
Está quente.
Tiro‑a.
Coloco sobre a mesa.
O número mudou.
Agora é 0.
Fico olhando.
Não sinto medo.
Isso é o que mais me assusta.
Ouço passos no corredor.
Leves.
Rápidos.
Descalços.
Param diante da porta.
Uma respiração.
Depois a voz.
Baixa.
Distante.
Abafada.
— …não devia ter vindo…
Sorrio.
Não sei se é alívio.
Não sei se é tristeza.
Por um instante, penso em minha ex‑mulher.
Nos pratos.
No apartamento.
No elevador das cinco da manhã.
Penso que talvez algumas pessoas passem a vida inteira tentando voltar para um lugar que nunca foi delas.
A porta se abre.
Não olho para trás.
Na manhã seguinte, um funcionário do hotel encontrou o quarto vazio.
A cama estava feita.
O caderno permanecia sobre o criado‑mudo.
A caneta estava alinhada ao lado.
Nenhuma mala.
Nenhuma roupa.
Nenhum sinal de que alguém tivesse estado ali.
Sobre o travesseiro havia apenas uma chave de ferro.
Com um número gravado à mão.
Do lado de fora, na estrada de terra que levava à casa no fim da rua, havia uma criança de camiseta azul desbotada.
Na mão direita, segurava uma chave.
O número 1 estava gravado no ferro.
A criança olhou para a casa.
Depois para a estrada.
E esperou.
— FIM —

O QUILÔMETRO ESQUECIDO

O QUILÔMETRO ESQUECIDO
Algumas estradas não levam de volta

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 Dizem que, na serra, a distância não é a mesma na ida e na volta.
Eu não acreditava nisso até perder oito quilômetros que nunca existiram.
Chovia quando saí de Curitiba. Aquele chuvisco fino que penetra a roupa e deixa o mundo inteiro com cheiro de pedra molhada. Levei uma mochila, o rádio do carro e a culpa. Esta última era a mais pesada.
Havia três meses que Elisa desaparecera.
Saíra de casa cedo, dizendo que iria até Matinhos ver o mar. Precisava respirar, disse. Voltaria no fim de semana.
O carro foi encontrado estacionado à beira da praia, janelas fechadas, chave na ignição. No painel, um bilhete:
“A estrada mudou. Não consigo voltar.”
Nada mais.
A polícia falou em fuga, afogamento, desespero. Procuraram durante semanas. Vasculharam praias, trilhas, rios, hospitais.
Eu sabia que estavam procurando no lugar errado.
Peguei a BR-277.
Conhecia aquela estrada desde menino. Cada curva, cada túnel, cada placa. Já descera a serra centenas de vezes. As araucárias iam ficando para trás, o ar mudava, a umidade aumentava, e o cheiro de resina começava a desaparecer sob a maresia que subia do litoral.
Meu destino era simples.
Refazer o caminho dela.
Encontrar o ponto onde alguma coisa tinha acontecido.
Ou, talvez, o ponto onde eu deveria ter parado.
Depois de Morretes, o rádio começou a falhar. Primeiro a música ficou baixa demais. Depois veio uma estática fina, quase confortável, misturada ao ruído da chuva.
Parei no posto do km 62.
Abasteci, entrei para tomar café e pedi o mesmo de sempre: forte, queimado, açúcar demais.
Paguei.
O homem do caixa me entregou o recibo.
Dobrei-o ao meio e coloquei no bolso da jaqueta.
Quando voltei para o carro, olhei o painel.
62,0.
Segui.
Sessenta e três.
Sessenta e quatro.
Sessenta e cinco.
A chuva engrossou.
Sessenta e seis.
Sessenta e sete.
Então o marcador saltou para setenta.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
Pensei em defeito elétrico. Fio solto. Vibração. Carro velho.
Continuei.
A névoa começou a descer pela serra.
Liguei os faróis.
O rádio soltou um chiado comprido e morreu.
Silêncio.
Só o motor, os pneus sobre o asfalto molhado e a chuva batendo no teto.
Quando cheguei ao que deveria ser o km 75, vi uma placa.
68.
Pisei no freio.
O carro parou atravessado no acostamento.
Desci.
A placa estava ali, branca, limpa, sem ferrugem. Parecia nova.
Olhei para trás.
A estrada subia suavemente, desaparecendo numa curva larga.
Olhei para frente.
Descia em direção à floresta.
Não havia bifurcação. Não havia obra. Não havia qualquer razão para aquela placa existir.
Voltei ao carro.
O painel marcava 75.
A placa dizia 68.
Fiz o caminho de volta.
Setenta.
Sessenta e nove.
Sessenta e oito.
Sessenta e sete.
Entre o 68 e o 67, alguma coisa aconteceu com a distância.
Não sei explicar de outra maneira.
O trecho parecia curto quando eu o percorria para frente. Na volta, demorava.
A linha branca no centro da pista parecia se esticar diante dos faróis.
Então vi alguém.
Uma figura atravessou a estrada.
Devagar.
Passos iguais.
Não parecia um animal. Também não parecia alguém com pressa de chegar a algum lugar.
Passei por ela.
Olhei pelo retrovisor.
Não havia ninguém.
Mas, por um instante, tive a impressão de reconhecer o jeito de andar.
Quando alcancei o 67, parei.
Fiquei alguns minutos com as mãos sobre o volante.
Depois voltei.
A placa do 69 tinha desaparecido.
Foi quando lembrei do recibo.
Tirei-o do bolso.
O número do quilômetro, escrito no rodapé, não era mais 62.
Era 68.
Fiquei olhando para o papel.
A chuva batia no para-brisa.
O recibo continuava seco.
O papel não podia mudar.
Papel não tem memória.
Pelo menos era o que eu pensava.
Abri a carteira e tirei uma fotografia.
Eu e Elisa em Matinhos, dois anos antes.
Ela estava de jaqueta azul, os pés descalços na areia, o cabelo solto sobre os ombros.
Olhei novamente.
A jaqueta parecia mais escura.
O cabelo, mais curto.
Aproximei a fotografia do rosto.
Ao fundo, onde eu tinha certeza de que existiam apenas mar e céu, havia uma pessoa.
Pequena.
De costas.
Parada perto da água.
Guardei a fotografia.
Não dormi naquela noite.
Também não comi.
Fiquei indo e voltando entre os quilômetros 67 e 70.
Sempre voltava ao mesmo trecho.
O recibo mudava pouco a cada vez que eu o olhava. O nome do posto ficava mais apagado. A data parecia menos nítida. O número às vezes era 62, às vezes 68.
Na fotografia, a figura continuava lá.
Eu não conseguia decidir se estava mais perto.
Era isso que me assustava.
Não saber se ela se aproximava ou se era eu que estava me afastando.
Na segunda noite, lembrei de uma conversa.
Elisa estava na cozinha.
Chovia naquele dia também.
Ela disse que a estrada mudava.
Eu ri.
Ela falou das árvores.
Disse que algumas pareciam diferentes quando a gente voltava.
Eu disse que árvores eram árvores.
Ela ficou me olhando.
Então perguntou:
“E se a gente é que muda sem perceber?”
Não respondi.
Ou talvez tenha respondido.
Não consegui lembrar.
Só me veio uma coisa estranha: o reflexo dos faróis dela no vidro da janela.
Dois pontos brancos.
Parados.
Atrás de mim.
Na terceira noite, o rádio ligou sozinho.
A tela acendeu.
Nenhuma música.
Apenas estática.
Depois uma voz.
Baixa.
Quase escondida pela chuva.
“Você passou por aqui antes.”
Fiquei imóvel.
A voz continuou:
“Só não parou.”
Desliguei o rádio.
Ele tornou a ligar.
Dessa vez não havia voz.
Apenas o som de uma respiração.
Avancei.
Não olhei mais para o painel.
Não procurei placas.
Dirigi como quem foge de alguma coisa que não sabe nomear.
A estrada se alongava diante de mim.
Retas que não terminavam.
Curvas repetidas no mesmo ângulo.
Árvores que pareciam voltar depois de terem ficado para trás.
A névoa fechou completamente.
O cheiro de maresia ficou mais forte.
Depois veio outro cheiro.
Perfume.
O perfume de Elisa.
E, por baixo dele, madeira velha, casa fechada, alguma coisa que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Acelerei.
A névoa se abriu de repente.
Vi o carro dela.
Estava parado no acostamento.
Exatamente como haviam descrito.
Janelas fechadas.
Chave na ignição.
Mas não era possível.
Eu conhecia aquele trecho.
Não existia ali.
Entre o 68 e o 69 não havia estrada suficiente para existir qualquer coisa.
Desci do carro.
Aproximei-me.
O capô estava frio.
Toquei no vidro.
Embaçado por dentro.
Abri a porta do passageiro.
O bilhete ainda estava no painel.
A mesma letra.
A mesma dobra.
Mas as palavras tinham mudado.
“Eu não fui embora.”
Abaixo, uma segunda linha:
“Eu fiquei.”
E, depois:
“Você é que esqueceu.”
Virei o papel.
No verso havia uma data.
A data do nosso casamento.
Fiquei olhando para ela.
Era uma data que ainda não tinha acontecido.
Sentei no banco do passageiro.
O carro cheirava ao perfume dela.
E àquela outra coisa: madeira velha, casa fechada, algum lugar que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Olhei para o retrovisor.
Vi Elisa.
Sentada no banco de trás.
Não parecia assustada.
Não parecia zangada.
Apenas me observava.
Virei.
O banco estava vazio.
Voltei ao espelho.
Ela continuava lá.
Foi então que me lembrei da chuva.
Não daquela noite.
De outra.
A cozinha.
A porta.
A voz dela.
Minha voz.
O barulho de alguma coisa caindo no chão.
Depois, o corredor.
Depois a chave.
Depois o motor.
Minha mão segurando o volante.
E os faróis dela aparecendo no retrovisor.
Por alguns segundos.
Eu poderia ter parado.
Não parei.
O resto veio aos poucos.
Não como lembrança.
Como coisas que o corpo reconhece antes da cabeça.
Eu sabia que ela estava atrás de mim.
Sabia que precisava voltar.
Continuei descendo.
O recibo escorregou do meu bolso e caiu no assoalho.
Peguei-o.
O nome do posto tinha desaparecido.
O número do quilômetro também.
No lugar deles havia apenas uma frase:
VOCÊ ESTÁ AQUI.
Levantei os olhos.
Elisa ainda estava no espelho.
Dessa vez, porém, não olhava para mim.
Olhava para a estrada.
Segui seu olhar.
Havia outro carro parado mais adiante.
O meu carro.
Reconheci a placa.
Reconheci a lanterna quebrada do lado esquerdo.
Reconheci até a mochila no banco traseiro.
Meu estômago fechou.
Então entendi que não estava olhando para o passado.
Estava olhando para o lugar onde eu ainda não tinha chegado.
Ou para o lugar de onde nunca saí.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Quando finalmente liguei o carro dela, o motor pegou na primeira tentativa.
A estrada diante de mim estava clara.
Sem névoa.
Sem placas.
Sem quilômetros.
Apenas asfalto molhado seguindo pela serra.
Olhei para o banco de trás.
Vazio.
No retrovisor, porém, Elisa continuava sentada.
Não tentei voltar.
Algumas estradas não levam de volta.
Elas apenas continuam.
O sol começou a nascer.
Mais tarde, alguém encontraria dois carros parados naquele trecho.
Talvez chamasse a polícia.
Talvez perguntasse de quem eram.
Talvez procurasse alguma explicação.
Não encontraria nenhuma.
Porque o lugar não existia no mapa.
E talvez fosse esse o problema.
Durante muito tempo achei que estava procurando Elisa.
Agora não tenho mais certeza.
Talvez ela tenha sido a única pessoa que conseguiu voltar.
Talvez tenha me esperado naquela estrada desde a noite em que eu não parei.
Talvez o quilômetro não tenha desaparecido.
Talvez tenha sido eu.
O mar já deve estar batendo na areia de Matinhos.
A água apaga as pegadas assim que elas aparecem.
Olho pela janela.
Elisa continua no banco de trás.
Ainda não disse mais nada.
Só espera.
E, pela primeira vez, não sei se está esperando que eu volte...
ou que eu finalmente pare.

A CHAVE

A CHAVE
A casa não guarda os mortos. Guarda quem vem depois.

Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026

 A chave tinha o número 7 gravado à mão. Quando voltei no sábado seguinte, era 8.
Naquela primeira vez, não dei importância.
Chaves antigas têm números. Heranças têm chaves. Mortos deixam coisas que ninguém sabe onde guardar.
Minha tia Vera tinha morrido sozinha num apartamento em Curitiba, sem que ninguém soubesse dizer quando exatamente começara a morrer.
Foi o que o advogado disse, empurrando uma pasta sobre a mesa:
— Ela faleceu em casa, senhor. Há algumas semanas, talvez.
Algumas semanas.
Como se a morte fosse uma coisa que se pudesse estimar com margem de erro.
Assinei os papéis. Peguei a chave. O ferro estava frio e áspero, com uma pequena rebarba perto do número. Coloquei-a no bolso do casaco e fui embora.
Não conhecia minha tia bem o suficiente para sentir muita coisa.
Víamo-nos uma vez por ano, em dezembros que terminavam cedo. Ela sempre me tratava como alguém que reconhecia, mas não sabia nomear. Era magra, silenciosa e tinha o hábito estranho de olhar para as paredes enquanto falava.
Eu era o único parente vivo.
A casa em Morretes ficou para mim porque não havia mais ninguém.
Não fui imediatamente.
Deixei a pasta e a chave sobre a mesa da cozinha durante três semanas. Trabalhava, chegava tarde, dormia mal e acordava quase sempre às cinco da manhã com o elevador subindo pelo poço do prédio.
Meu casamento tinha acabado em março.
Minha ex-mulher levou os móveis da sala e deixou os pratos.
Eu não sabia o que fazer com os pratos.
Continuava usando todos.
À noite, depois de comer, lavava apenas o meu e o deixava sempre no mesmo canto da pia, virado para baixo. Era uma mania antiga. Não sabia de onde vinha.
O advogado ligou duas vezes.
Na segunda, disse que precisava resolver a papelada do imóvel.
Entendi a mensagem.
Fui a Morretes num sábado.
Na véspera, lembrei de uma coisa.
Numa festa de Natal, quando eu tinha dez anos, minha tia Vera me segurou pelo braço ao passarmos perto da parede da sala.
Apertou com força.
Olhou para mim e disse, baixo, como se falasse com outra pessoa:
— Não durma em Morretes.
Depois soltou meu braço e continuou andando.
Nunca mais tocou no assunto.
Eu não sabia por que aquela lembrança havia voltado justamente naquela noite.
Fiquei sentado no sofá durante alguns minutos, olhando para a chave sobre a mesa.
O número 7 parecia mais fundo do que antes.
Passei o polegar sobre a gravação.
O metal estava frio.
Guardei a chave no bolso.
Não durma em Morretes.
Fui dormir.
A estrada eu conhecia.
BR-277, a descida da Serra do Mar, a neblina que aparecia depois do túnel, o cheiro de mato molhado entrando pelo ar-condicionado.
Parei num restaurante antes do trevo e comi um barreado que me pesou no estômago. Depois segui pela estrada secundária que o advogado desenhara num guardanapo.
Depois da ponte de madeira, a rua de terra.
A casa ficava no fim.
Era baixa, de alvenaria pintada de branco, com telhado de duas águas e uma varanda estreita que corria por toda a frente.
Ao lado, o rio.
Atrás, a mata.
Havia marcas escuras na parede lateral, quase na altura da cintura, como se a água tivesse subido até ali muitos anos antes.
Janelas fechadas.
Porta intacta.
Jardim tomado pelo mato, mas não destruído.
Parei diante da varanda.
A casa parecia menor do que eu imaginava.
Havia quatro cadeiras junto à mesa da varanda.
Quatro.
Minha tia morava sozinha.
Subi os três degraus.
O silêncio chamou minha atenção antes da casa.
Não havia pássaros.
Nem grilos.
Nem o ruído do rio.
Só minha respiração e o som das botas na madeira.
A chave entrou na fechadura sem resistência.
Girei.
A porta abriu.
Dentro, cheiro de madeira úmida, poeira e alguma coisa adocicada que não consegui identificar.
Móveis cobertos por lençóis brancos.
Mesa de jantar.
Quatro cadeiras.
Um aparador.
Na lareira, cinzas frias.
Nas paredes, nenhum quadro.
Só papel de parede desbotado.
No centro da sala havia uma tábua diferente das outras.
Mais clara.
Mais nova.
Como se tivesse sido trocada recentemente.
Ajoelhei.
Passei a mão sobre ela.
Estava fria.
Não fria como a madeira molhada.
Fria como metal.
Encostei o ouvido.
Nada.
Então ouvi alguma coisa.
Tão baixa que, por um instante, pensei ter sido minha própria respiração.
Uma voz.
Do outro lado da madeira.
— ...não devia ter vindo...
Levantei num salto.
Fiquei olhando para o chão.
A casa estava vazia.
Quando saí, tive a impressão de ver uma mancha azul entre as folhas, perto dos degraus.
Parei.
A mancha desapareceu.
Talvez fosse apenas um pedaço de plástico.
Não fui verificar.
Tranquei a porta e dirigi de volta sem parar.
Naquela noite, não dormi.
A frase permanecia na cabeça.
Não devia ter vindo.
Na segunda, voltei ao trabalho.
Na quarta, encontrei a chave sobre a mesa da cozinha.
Eu não me lembrava de tê-la tirado do bolso.
Peguei-a.
O número tinha mudado.
7 havia desaparecido.
Agora era 8.
Fiquei alguns segundos olhando.
Passei a unha sobre a gravação.
O ferro parecia ter sido riscado recentemente. Havia uma aspereza nova ao redor do número, como se a marca ainda estivesse fresca.
Coloquei a chave debaixo da luz.
8.
Não havia dúvida.
Naquela noite sonhei com a casa.
Eu estava na varanda.
O rio passava escuro atrás das árvores.
Havia uma criança sentada no primeiro degrau.
Não via o rosto.
Só a camiseta azul desbotada.
Um rasgo no ombro.
Ela não se mexia.
Acordei às cinco da manhã.
O elevador estava parado no meu andar.
Por alguns segundos, ouvi alguém respirando do outro lado da porta.
Não abri.
Voltei a Morretes no sábado seguinte.
Não sei explicar por quê.
Talvez pela chave.
Talvez pela voz.
Talvez porque algumas coisas começam a ocupar espaço demais dentro da cabeça e, quando percebemos, já não conseguimos pensar em outra coisa.
Peguei o carro às seis.
Não comi.
Não ouvi rádio.
A casa estava igual.
A varanda.
As quatro cadeiras.
O rio.
O silêncio.
Mas, quando entrei, percebi que alguém havia arrumado tudo.
Os lençóis não cobriam mais os móveis.
Estavam dobrados sobre a mesa de jantar.
As cadeiras haviam sido alinhadas.
Havia um prato limpo sobre a pia.
Virado para baixo.
Fiquei olhando para ele.
Era exatamente assim que eu deixava o meu em casa.
Toquei no prato.
Ainda estava morno.
Tirei a mão.
No chão da cozinha havia uma fotografia.
Pequena.
Quadrada.
Preto e branco.
Uma menina de uns sete anos, de tranças, sentada na varanda.
Atrás dela, o rio.
Ela não sorria.
Virei a fotografia.
No verso, escrito a lápis:
Vera, 1974.
A letra era trêmula.
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Por alguma razão, tive a impressão de reconhecer a letra.
Guardei a foto no bolso.
Fui até o quarto.
A cama estava feita.
Em cima do criado-mudo havia um livro de receitas, capa dura, lombada gasta.
Abri.
Páginas amareladas.
Anotações nas margens.
Entre a página 34 e a 35 havia um recorte de jornal.
A data era de 1974.
A manchete dizia:
MENINA DE SETE ANOS DESAPARECE EM MORRETES
Li o texto abaixo.
A menina havia desaparecido durante a noite.
A família afirmava que todas as portas estavam trancadas.
A polícia não encontrou sinais de arrombamento.
A criança se chamava Vera.
Dobrei o recorte.
Minha mão tremia.
Guardei-o junto da fotografia.
Voltei para a sala.
Ajoelhei diante da tábua.
Dessa vez, ouvi antes de encostar o ouvido.
Uma criança respirando.
Depois:
— ...você devia ter ficado longe...
Era minha voz.
Não a minha voz de agora.
A minha voz de criança.
Aguda.
Fina.
A voz que eu tinha aos sete, oito, nove anos.
Uma voz que eu não ouvia havia décadas.
Uma voz que eu não sabia que ainda existia.
Levantei devagar.
Na parede havia uma fotografia.
Eu tinha certeza de que não estava ali antes.
Moldura de madeira escura.
Retrato 3x4.
Meu rosto.
Mais jovem.
Talvez dez anos.
A fotografia parecia antiga, embora eu soubesse que não era.
Abaixo dela havia uma etiqueta amarelada.
VERA.
A letra era a mesma da fotografia da menina.
Fiquei olhando para o meu próprio rosto.
Por um instante, tive a impressão de que a fotografia respirava.
Saí da casa.
No centro de Morretes, parei num posto.
Comprei um café.
Sentei dentro do carro.
O café queimou minha língua.
Não senti.
A fotografia estava no banco ao meu lado.
O recorte de jornal, sobre ela.
1974.
Vera.
Sete anos.
A casa.
A voz.
O número 8.
E o meu rosto embaixo de outro nome.
Tentei organizar as coisas.
Não consegui.
A lembrança da festa de Natal voltou.
Minha tia segurando meu braço.
A parede.
O olhar dela.
Não durma em Morretes.
Só que havia alguma coisa errada naquela lembrança.
Eu tinha dez anos.
E agora me lembrava de uma varanda que nunca havia visto.
Do rio.
Dos três degraus.
De um corredor estreito.
Da camiseta azul.
De uma porta que eu não conseguia abrir.
Lembrava de ter dormido naquela casa.
Lembrava de ter acordado no escuro.
Lembrava de uma mão segurando a minha.
Mas não conseguia decidir se aquelas lembranças pertenciam a mim.
Passei a semana inteira sem dormir direito.
Ia ao trabalho.
Voltava.
Lavava o prato.
Virava-o para baixo.
Às vezes ficava alguns segundos olhando para ele.
Na quinta-feira, encontrei a chave sobre a pia.
Não me lembrava de tê-la colocado ali.
Peguei.
O número havia mudado.
Agora era 9.
Voltei a Morretes no sábado.
Dessa vez, levei uma mochila.
Não sabia por quê.
Talvez uma parte de mim já esperasse não voltar.
A porta estava aberta.
Entrei.
A casa parecia estar esperando alguém.
As quatro cadeiras estavam à mesa.
Havia quatro pratos.
Um deles estava virado para baixo.
O meu estômago fechou.
Olhei para o centro da sala.
A tábua clara continuava ali.
Mas agora estava levantada.
Havia um alçapão.
Fiquei parado diante dele.
A escada descia para o escuro.
O cheiro que vinha de baixo era de terra molhada, pedra e alguma coisa metálica, antiga, adocicada.
Dei um passo para trás.
Fechei os olhos.
Pensei em ir embora.
Era simples.
Podia vender a casa.
Podia deixar tudo para um advogado.
Podia nunca mais voltar.
Abri os olhos.
A chave estava na minha mão.
Eu não lembrava de tê-la pegado.
O número 9 brilhava na palma.
Guardei-a no bolso.
Saí da casa.
Passei a noite num hotel na entrada de Morretes.
Tranquei a porta.
Deitei.
Não dormi.
Choveu durante horas.
Perto das três da manhã, ouvi alguém andando pelo corredor.
Passos leves.
Descalços.
Pararam diante da minha porta.
Depois seguiram.
Às cinco, o elevador subiu.
O mesmo ruído do meu prédio em Curitiba.
Levantei.
Abri a porta do quarto.
O corredor estava vazio.
No chão havia uma pequena mancha de água.
Peguei a chave.
O metal estava quente.
O número continuava 9.
Fiquei olhando para ele.
Então entendi que podia ir embora.
Podia voltar para Curitiba.
Podia esquecer a casa.
A tia.
A menina.
Tudo.
Foi nesse momento que ouvi, dentro do quarto, a minha própria voz de criança:
— Você prometeu.
Fechei os olhos.
Não lembrava de ter prometido nada.
Mas sabia que havia prometido.
Ao amanhecer, voltei à casa.
A porta continuava aberta.
Entrei.
Atravessei a sala.
Passei pelas quatro cadeiras.
Cheguei ao alçapão.
Desci.
A escada era estreita.
As paredes de pedra estavam úmidas.
O teto era baixo.
No chão havia terra batida.
No canto, uma cama.
Lençóis sujos.
Travesseiro amassado.
Ao lado, uma mesinha.
Um copo de água pela metade.
Havia alguém sentado sobre a cama.
Cabelo escuro.
Camiseta azul.
O rasgo no ombro.
Fiquei no último degrau.
A pessoa levantou os olhos.
Reconheci-os.
Não sabia de onde.
Ela se levantou.
Era uma mulher.
Ou talvez tivesse sido uma menina.
Não consegui decidir.
Ela me olhou durante alguns segundos.
Então compreendi por que os olhos me eram familiares.
E senti alguma coisa dentro de mim recuar.
Como uma criança escondendo-se atrás de uma porta.
Atrás de mim, ouvi um ruído.
Virei.
Na parede havia uma fotografia.
Moldura de madeira escura.
Meu rosto.
Mais jovem.
A mesma fotografia.
A mesma etiqueta.
VERA.
Abaixo do nome havia uma data.
A data de hoje.
Olhei novamente para a mulher.
Ela estava chorando.
Sem fazer barulho.
Depois disse meu nome.
A voz era a minha.
Mas não a voz que eu tinha agora.
Era a voz que eu tinha aos dez anos.
A voz que dizia:
— Não quero ficar aqui.
Não me lembro de ter subido a escada.
Não me lembro de ter saído da casa.
Não me lembro de ter dirigido até o hotel.
Lembro de uma mão na minha.
Lembro da camiseta azul.
Lembro de alguém dizendo meu nome.
Lembro de ter perguntado onde estava minha tia.
E lembro da resposta.
Não consigo lembrar as palavras.
Só a sensação de que eu já sabia.
Depois, nada.
Estou neste quarto.
A chuva bate na janela.
O rio subiu durante a noite.
O caderno está diante de mim.
A caneta na mão.
Não sei quanto tempo estou escrevendo.
Às vezes acho que escrevo para lembrar.
Às vezes acho que escrevo para alguém encontrar.
A chave está no bolso.
Está quente.
Tiro-a.
Coloco sobre a mesa.
O número mudou.
Agora é 0.
Fico olhando.
Não sinto medo.
Isso é o que mais me assusta.
Ouço passos no corredor.
Leves.
Rápidos.
Descalços.
Param diante da porta.
Uma respiração.
Depois a voz.
Baixa.
Distante.
Abafada.
— ...não devia ter vindo...
Sorrio.
Não sei se é alívio.
Não sei se é tristeza.
Por um instante, penso em minha ex-mulher.
Nos pratos.
No apartamento.
No elevador das cinco da manhã.
Penso que talvez algumas pessoas passem a vida inteira tentando voltar para um lugar que nunca foi delas.
A porta se abre.
Não olho para trás.
Na manhã seguinte, um funcionário do hotel encontrou o quarto vazio.
A cama estava feita.
O caderno permanecia sobre o criado-mudo.
A caneta estava alinhada ao lado.
Nenhuma mala.
Nenhuma roupa.
Nenhum sinal de que alguém tivesse estado ali.
Sobre o travesseiro havia apenas uma chave de ferro.
Com um número gravado à mão.
1.
Do lado de fora, na estrada de terra que levava à casa no fim da rua, havia uma criança de camiseta azul desbotada.
Na mão direita, segurava uma chave.
O número 1 estava gravado no ferro.
A criança olhou para a casa.
Depois para a estrada.
E esperou.
Fim.