Algumas estradas não levam de volta
Tadeu Everton Zamoiski
Meados de 2026
Dizem que, na serra, a distância não é a mesma na ida e na volta.
Eu não acreditava nisso até perder oito quilômetros que nunca existiram.
Chovia quando saí de Curitiba. Aquele chuvisco fino que penetra a roupa e deixa o mundo inteiro com cheiro de pedra molhada. Levei uma mochila, o rádio do carro e a culpa. Esta última era a mais pesada.
Havia três meses que Elisa desaparecera.
Saíra de casa cedo, dizendo que iria até Matinhos ver o mar. Precisava respirar, disse. Voltaria no fim de semana.
O carro foi encontrado estacionado à beira da praia, janelas fechadas, chave na ignição. No painel, um bilhete:
“A estrada mudou. Não consigo voltar.”
Nada mais.
A polícia falou em fuga, afogamento, desespero. Procuraram durante semanas. Vasculharam praias, trilhas, rios, hospitais.
Eu sabia que estavam procurando no lugar errado.
Peguei a BR-277.
Conhecia aquela estrada desde menino. Cada curva, cada túnel, cada placa. Já descera a serra centenas de vezes. As araucárias iam ficando para trás, o ar mudava, a umidade aumentava, e o cheiro de resina começava a desaparecer sob a maresia que subia do litoral.
Meu destino era simples.
Refazer o caminho dela.
Encontrar o ponto onde alguma coisa tinha acontecido.
Ou, talvez, o ponto onde eu deveria ter parado.
Depois de Morretes, o rádio começou a falhar. Primeiro a música ficou baixa demais. Depois veio uma estática fina, quase confortável, misturada ao ruído da chuva.
Parei no posto do km 62.
Abasteci, entrei para tomar café e pedi o mesmo de sempre: forte, queimado, açúcar demais.
Paguei.
O homem do caixa me entregou o recibo.
Dobrei-o ao meio e coloquei no bolso da jaqueta.
Quando voltei para o carro, olhei o painel.
62,0.
Segui.
Sessenta e três.
Sessenta e quatro.
Sessenta e cinco.
A chuva engrossou.
Sessenta e seis.
Sessenta e sete.
Então o marcador saltou para setenta.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
Pensei em defeito elétrico. Fio solto. Vibração. Carro velho.
Continuei.
A névoa começou a descer pela serra.
Liguei os faróis.
O rádio soltou um chiado comprido e morreu.
Silêncio.
Só o motor, os pneus sobre o asfalto molhado e a chuva batendo no teto.
Quando cheguei ao que deveria ser o km 75, vi uma placa.
68.
Pisei no freio.
O carro parou atravessado no acostamento.
Desci.
A placa estava ali, branca, limpa, sem ferrugem. Parecia nova.
Olhei para trás.
A estrada subia suavemente, desaparecendo numa curva larga.
Olhei para frente.
Descia em direção à floresta.
Não havia bifurcação. Não havia obra. Não havia qualquer razão para aquela placa existir.
Voltei ao carro.
O painel marcava 75.
A placa dizia 68.
Fiz o caminho de volta.
Setenta.
Sessenta e nove.
Sessenta e oito.
Sessenta e sete.
Entre o 68 e o 67, alguma coisa aconteceu com a distância.
Não sei explicar de outra maneira.
O trecho parecia curto quando eu o percorria para frente. Na volta, demorava.
A linha branca no centro da pista parecia se esticar diante dos faróis.
Então vi alguém.
Uma figura atravessou a estrada.
Devagar.
Passos iguais.
Não parecia um animal. Também não parecia alguém com pressa de chegar a algum lugar.
Passei por ela.
Olhei pelo retrovisor.
Não havia ninguém.
Mas, por um instante, tive a impressão de reconhecer o jeito de andar.
Quando alcancei o 67, parei.
Fiquei alguns minutos com as mãos sobre o volante.
Depois voltei.
A placa do 69 tinha desaparecido.
Foi quando lembrei do recibo.
Tirei-o do bolso.
O número do quilômetro, escrito no rodapé, não era mais 62.
Era 68.
Fiquei olhando para o papel.
A chuva batia no para-brisa.
O recibo continuava seco.
O papel não podia mudar.
Papel não tem memória.
Pelo menos era o que eu pensava.
Abri a carteira e tirei uma fotografia.
Eu e Elisa em Matinhos, dois anos antes.
Ela estava de jaqueta azul, os pés descalços na areia, o cabelo solto sobre os ombros.
Olhei novamente.
A jaqueta parecia mais escura.
O cabelo, mais curto.
Aproximei a fotografia do rosto.
Ao fundo, onde eu tinha certeza de que existiam apenas mar e céu, havia uma pessoa.
Pequena.
De costas.
Parada perto da água.
Guardei a fotografia.
Não dormi naquela noite.
Também não comi.
Fiquei indo e voltando entre os quilômetros 67 e 70.
Sempre voltava ao mesmo trecho.
O recibo mudava pouco a cada vez que eu o olhava. O nome do posto ficava mais apagado. A data parecia menos nítida. O número às vezes era 62, às vezes 68.
Na fotografia, a figura continuava lá.
Eu não conseguia decidir se estava mais perto.
Era isso que me assustava.
Não saber se ela se aproximava ou se era eu que estava me afastando.
Na segunda noite, lembrei de uma conversa.
Elisa estava na cozinha.
Chovia naquele dia também.
Ela disse que a estrada mudava.
Eu ri.
Ela falou das árvores.
Disse que algumas pareciam diferentes quando a gente voltava.
Eu disse que árvores eram árvores.
Ela ficou me olhando.
Então perguntou:
“E se a gente é que muda sem perceber?”
Não respondi.
Ou talvez tenha respondido.
Não consegui lembrar.
Só me veio uma coisa estranha: o reflexo dos faróis dela no vidro da janela.
Dois pontos brancos.
Parados.
Atrás de mim.
Na terceira noite, o rádio ligou sozinho.
A tela acendeu.
Nenhuma música.
Apenas estática.
Depois uma voz.
Baixa.
Quase escondida pela chuva.
“Você passou por aqui antes.”
Fiquei imóvel.
A voz continuou:
“Só não parou.”
Desliguei o rádio.
Ele tornou a ligar.
Dessa vez não havia voz.
Apenas o som de uma respiração.
Avancei.
Não olhei mais para o painel.
Não procurei placas.
Dirigi como quem foge de alguma coisa que não sabe nomear.
A estrada se alongava diante de mim.
Retas que não terminavam.
Curvas repetidas no mesmo ângulo.
Árvores que pareciam voltar depois de terem ficado para trás.
A névoa fechou completamente.
O cheiro de maresia ficou mais forte.
Depois veio outro cheiro.
Perfume.
O perfume de Elisa.
E, por baixo dele, madeira velha, casa fechada, alguma coisa que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Acelerei.
A névoa se abriu de repente.
Vi o carro dela.
Estava parado no acostamento.
Exatamente como haviam descrito.
Janelas fechadas.
Chave na ignição.
Mas não era possível.
Eu conhecia aquele trecho.
Não existia ali.
Entre o 68 e o 69 não havia estrada suficiente para existir qualquer coisa.
Desci do carro.
Aproximei-me.
O capô estava frio.
Toquei no vidro.
Embaçado por dentro.
Abri a porta do passageiro.
O bilhete ainda estava no painel.
A mesma letra.
A mesma dobra.
Mas as palavras tinham mudado.
“Eu não fui embora.”
Abaixo, uma segunda linha:
“Eu fiquei.”
E, depois:
“Você é que esqueceu.”
Virei o papel.
No verso havia uma data.
A data do nosso casamento.
Fiquei olhando para ela.
Era uma data que ainda não tinha acontecido.
Sentei no banco do passageiro.
O carro cheirava ao perfume dela.
E àquela outra coisa: madeira velha, casa fechada, algum lugar que permanecera muito tempo esperando que alguém abrisse uma porta.
Olhei para o retrovisor.
Vi Elisa.
Sentada no banco de trás.
Não parecia assustada.
Não parecia zangada.
Apenas me observava.
Virei.
O banco estava vazio.
Voltei ao espelho.
Ela continuava lá.
Foi então que me lembrei da chuva.
Não daquela noite.
De outra.
A cozinha.
A porta.
A voz dela.
Minha voz.
O barulho de alguma coisa caindo no chão.
Depois, o corredor.
Depois a chave.
Depois o motor.
Minha mão segurando o volante.
E os faróis dela aparecendo no retrovisor.
Por alguns segundos.
Eu poderia ter parado.
Não parei.
O resto veio aos poucos.
Não como lembrança.
Como coisas que o corpo reconhece antes da cabeça.
Eu sabia que ela estava atrás de mim.
Sabia que precisava voltar.
Continuei descendo.
O recibo escorregou do meu bolso e caiu no assoalho.
Peguei-o.
O nome do posto tinha desaparecido.
O número do quilômetro também.
No lugar deles havia apenas uma frase:
VOCÊ ESTÁ AQUI.
Levantei os olhos.
Elisa ainda estava no espelho.
Dessa vez, porém, não olhava para mim.
Olhava para a estrada.
Segui seu olhar.
Havia outro carro parado mais adiante.
O meu carro.
Reconheci a placa.
Reconheci a lanterna quebrada do lado esquerdo.
Reconheci até a mochila no banco traseiro.
Meu estômago fechou.
Então entendi que não estava olhando para o passado.
Estava olhando para o lugar onde eu ainda não tinha chegado.
Ou para o lugar de onde nunca saí.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Quando finalmente liguei o carro dela, o motor pegou na primeira tentativa.
A estrada diante de mim estava clara.
Sem névoa.
Sem placas.
Sem quilômetros.
Apenas asfalto molhado seguindo pela serra.
Olhei para o banco de trás.
Vazio.
No retrovisor, porém, Elisa continuava sentada.
Não tentei voltar.
Algumas estradas não levam de volta.
Elas apenas continuam.
O sol começou a nascer.
Mais tarde, alguém encontraria dois carros parados naquele trecho.
Talvez chamasse a polícia.
Talvez perguntasse de quem eram.
Talvez procurasse alguma explicação.
Não encontraria nenhuma.
Porque o lugar não existia no mapa.
E talvez fosse esse o problema.
Durante muito tempo achei que estava procurando Elisa.
Agora não tenho mais certeza.
Talvez ela tenha sido a única pessoa que conseguiu voltar.
Talvez tenha me esperado naquela estrada desde a noite em que eu não parei.
Talvez o quilômetro não tenha desaparecido.
Talvez tenha sido eu.
O mar já deve estar batendo na areia de Matinhos.
A água apaga as pegadas assim que elas aparecem.
Olho pela janela.
Elisa continua no banco de trás.
Ainda não disse mais nada.
Só espera.
E, pela primeira vez, não sei se está esperando que eu volte...
ou que eu finalmente pare.